Capítulo 30
-O que quer dizer? -Pergunto, sentindo a irritação característica desencadeada pela presença de Kayke aumentar.
-Não foi a guerra que nos afastou, foi a sua excentricidade! -Ele ataca, aproximando seu rosto do meu, a raiva transbordando por seus olhos.
Encarando o lupino a minha frente, tento compreender suas palavras e indignação sem fundamento. Suas pupilas dilatadas indicam que ele está no limite do seu autocontrole.
-Vou falar bem devagar para que você consiga assimilar. -Começo, sem desviar do seu ríspido olhar. -Não aceitarei violência gratuita. Se é assim que planeja conduzir um diálogo comigo, não responderei por minhas ações. -Declaro, com o dedo em riste para a face de Kayke.
Por estar cansada demais para iniciar uma discussão sem motivo, contorno o corpo de Kayke e me encaminho para a saída. Contudo, o lupino é insistente e segura em meu braço. Sem racionar direto, utilizo seu corpo como trampolim para alcançar suas costas. Envolvo sua cintura com minhas pernas e prendo seu pescoço com meu antebraço, aplicando um "mata leão".
Por conta da surpresa, Kayke se desequilibra e cai sobre mim. Seu peso pressiona meu tórax me deixando sem ar e fazendo com que ele se liberte do meu golpe.
Mais rápido do que consigo acompanhar, Kayke se vira e utiliza seu peso para me prender no chão. Ele segura meus braços nas laterais da minha cabeça e me fita novamente.
-Creio que terei de lhe ensinar os bons modos que o Rurik não conseguiu passar. -Ele graceja.
-Seu idiota! Me solta! -Esperneio, mas é impossível mover a montanha sobre mim.
-Você terá que engatinhar muito ainda para conseguir ganhar de mim em uma briga sem apelar para os seus "dons". -Kayke fala com desgosto. -Agora, responda a minha pergunta. -Ele ordena.
-Não sei do que está falado! Foi você que sumiu e, quando voltou, fez da minha vida um inferno, seu maldito lupino! -Digo resfolegando.
Kayke se aproxima cada vez mais da minha face e nossos narizes quase se encostam. Ele parece analisar se estou dizendo a verdade ou tentando envolvê-lo em uma mentira.
-Se você chegar mais perto, vou arrancar seus olhos. -Ameaço acidamente.
-É mesmo? E como fará isso de mãos atadas, princesa? -Ele provoca, dando-me um sorriso cínico.
-Tem certeza de que quer descobrir? -Inquiro encolerizada por não conseguir me libertar.
-Talvez. -Kayke afirma.
No segundo seguinte, seus olhos atingem um tom mais escuro e se desviam para meus lábios. Um frenesi se instala em minha pele e não consigo distinguir se isso indica que devo ficar ou fugir.
De repente, água gelada se choca contra nós e nos desvencilhamos um do outro. Adela nos encara com uma expressão severa e em sua posse há um balde.
Salva pelo gongo!
-Não estou interessada em saber o que está acontecendo aqui. -Ela informa. -Contudo, se os dois não desaparecem da minha sala ambos serão castigados. -Adela fala.
Sabiamente, saio praticamente correndo dali. Sem olhar para trás, entro em meu quarto e me jogo na cama. Não me permito trocar de roupa para que o frio sirva de punição para minha incontrolável mania de cometer erros.
Dessa vez, não haverá um coração para ser quebrado porque dele só restaram estilhaços afiados.
Tremendo, prometo a mim mesma que não deixarei minhas emoções regerem minhas ações. Nossos pecados têm a única finalidade de servirem de lembrete do que não devemos repetir.
Quando meus olhos tornam a se abrir, os primeiros raios de sol se insinuam pela janela. Por alguns instantes, permito que eles aqueçam minha pele enquanto observo as montanhas pela fenestra.
Como Magnus avisou que hoje meu treinamento iniciará, não aguardo por instruções. Vestindo calça, moletom e um coturno, saio da casa sorrateiramente e encaro a gelada manhã.
Decido correr na mesma direção em que os lupinos novatos partiram para completar sua transformação. As endorfinas liberadas pelo exercício acalmam minha mente e me mantêm focada no caminho a frente.
Pulando troncos e raízes, sigo em um ritmo acelerado sem descanso. Depois de cruzar por um paredão de árvores, chego a uma bela cachoeira. A visão da água se precipitando e formando uma lagoa é desconcertante de tão belo. É quase lírico como a partir da morte de diversas gotas diminutas uma coleção líquida graciosa e sossegada se forme.
Um paraíso particular.
Respirando fundo, sento-me à margem da água e observo o brilho espelhado do sol. A natureza tem a capacidade de despertar paz independente da devastação que habita em meu interior.
Sentindo-me livre em meio à imensidão azul mesclada de verde, retiro meu moletom e a calça, restando apenas a roupa de baixo e uma regata. Mergulho na água gelada que me faz ter ainda mais certeza de que estou viva. Flutuando, deixo a critério das suaves ondas o meu destino e perco a noção da passagem do tempo.
-Não sabia que você conseguia nadar. -Uma voz se infiltra em meu latíbulo.
Assustada, movo-me rápido demais e grande quantidade de líquido se infiltra por minhas narinas, indo de encontro aos meus pulmões. Erguendo os olhos, deparo-me com uma figura desagradável.
-O que faz aqui? Pretende me seguir agora? -Questiono com indignação.
-Só estou cumprindo ordens, princesa. -Kayke responde com certa malícia em seu olhar. -Rurik será o responsável por seu treinamento junto com Calium, mas hoje eles estão ocupados e seu pai me mandou substituí-los. -Ele esclarece.
Enraivecida, mergulho para tentar controlar meu temperamento e, consequentemente, fugir do seu campo de visão. Só então me recordo que a maior parte das minhas vestimentas repousa na grama verde.
-Você pode, por gentileza, se virar para que eu possa sair e me vestir? -Pergunto assim que retorno à superfície.
-Creio que já vi a maior parte do que você está tentando esconder aí. -Kayke responde sarcasticamente.
Seu sorriso de lado inflama minha ira. A provocação em suas palavras torna impossível qualquer autocontrole que exista em mim.
-Acabei de confirmar que você não tem amor a sua vida, soldado. -Declaro.
Com um movimento acelerado e eficaz da minha mão, formo uma grande onda e trago a Kayke para dentro da lagoa. Ele nem ao menos consegue acompanhar de onde surge aquilo que o atinge. Antes que Kayke emerja, alcanço solo firme e visto minhas roupas.
Antes do que eu gostaria, Kayke chega à borda d'água, respirando com dificuldade. Sem conseguir me conter, rio da sua expressão desgostosa que rapidamente é substituída por fúria.
Nesse jogo dois podem pontuar, meu caro.
-Se usar seus dons em mim novamente, juro que irá se arrepender. -Kayke ameaça.
-Então é melhor você aprender a me respeitar. -Contraponho, mantendo uma distância segura entre nós.
-Scarlett, respeito não se exige, conquista-se. Sem dúvidas, você jamais fez por merecer uma única vez desde que nos conhecemos. -Ele diz com outro sorrisinho irônico.
-Se continuar com seus delírios, irei embora. Direi a Magnus que não quero ficar perto de uma pessoa desequilibrada. Qualquer outro lupino será um instrutor melhor do você. -Aviso, fazendo com que qualquer traço de humor desapareça do rosto de Kayke.
-Então vai, com certeza não vai ser a primeira vez. -Ele responde sombriamente.
Impulsivamente, dou-lhe as costas e parto em retirada. Antes de completar dez passos, dou meia-volta e o encaro, apontando meu indicador para seu peito.
-Diga-me de uma vez por todas de que porcaria você está falando. -Exijo mordazmente, cutucando-o entre cada fôlego.
-Lembra-se do período que desapareci do quartel? -Kayke pergunta e aceno afirmativamente em resposta. -Bem, foi por sua causa. Rurik me disse que você não era qualquer pessoa, era a filha do líder lupino. Notando nossa aproximação, ele me avisou que não poderíamos ser amigos por conta da sua posição e, indiretamente, deu a entender que você pediu para que eu me afastasse. -Ele explica. -Entenda, Scarlett, lupinos não podem descomprimir ordens, por isso, aceitei meu lugar e segui em frente. -Ele diz, parecendo esgotado.
Confusa, fito o rosto de Kayke sem conseguir encontrar um sentido em suas palavras. Sua expressão assume uma frieza que nunca havia visto, como se quisesse se proteger do pandemônio que essa história ressuscitará.
-Por que eu me afastaria de você? -Pergunto, pasma. -Você era o mais próximo de um irmão que eu já tive. -Digo, sentindo-me presa em uma armadilha sem saída.
-Não sei. Nunca possuí motivos para duvidar das ações de Rurik. -Kayke argumenta. -Quando retornei, Roama me acompanhou, junto com mais um grupo de lupinos. Rurik nos contou todo o plano sobre você e decidi me manter afastado. Além disso, a supervisão sobre nós era rigorosa demais, não tínhamos autorização de conversarmos com você. -Ele conclui.
-Não, você não "decidiu se afastar"! Na realidade resolveu tornar minha existência em um pesadelo e me deixou completamente sozinha e vazia. -Confesso, sentindo as lágrimas escaparem por minhas bochechas sem permissão.
Surpreso, Kayke me abraça e aconchega minha cabeça em seu peito. Não consigo rechaçá-lo por conta abundância de emoções que me invade, quebrando a casca de teimosia que me reveste. Quando acredito estar mais próxima da verdade possível envolvendo minha vida, ela se revela em mais uma mentira enfeitada.
-Ei, vai ficar tudo bem. -Kayke tenta me acalmar.
-Não, não vai. Eu jamais seria capaz de deixar de ser sua amiga por conta "hierarquia da matilha", Kayke. -Falo, tentando, em vão, retomar meu controle. -Mas sei que você não acreditará em mim. Sendo assim, vou descobrir o motivo que levou a Rurik ter tomado essa decisão. -Decido.
Abruptamente, desvencilho-me de Kayke e saio correndo em direção à aldeia. O lupino tenta me parar, porém, coloco toda a minha determinação na trajetória que se desenha adiante.
Quando me aproximo das últimas árvores que me separam do meu objetivo, um grito angustiado invade a mata criando longos ecos. Estagnando no lugar, identifico que o som provém do centro da vila e, com um mau pressentimento, reconheço a voz que está produzindo-o.
-Cecília.
Olá :)
Para começar a semana bem, mais um capítulo saindo! Gostaram?
Desejo a todos uma semana excelente! Um beijo no coração!
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