Capítulo 26
Analisando minha imagem no espelho emprestado por Mirena, não consigo identificar a pessoa que devolve o mesmo olhar confuso que carrego. Minha pele, agora limpa e brilhosa, mostra pequenas marcas das cicatrizes que acumulei durante os anos, meus cabelos caem em cascata até minha cintura e símbolos negros adornam cada centímetro do meu corpo.
Ainda não compreendo o significado desses desenhos antigos. Contudo, sinto que me aproximo cada vez mais de desvendar esse mistério.
-Minha nossa! Eu sabia que esse vestido ficaria perfeito em você! -Mirena diz, surgindo atrás de mim.
Não compactuo com a opinião de Mirena, porém, por conta de seus incontáveis protestos, aceitei colocar o vestido que me aguardava sobre a cama. De um azul escuro, a vestimenta possui mangas que cobrem até meus cotovelos e um comprimento que chega próximo aos meus joelhos. Seu tecido leve ondula com a brisa suave, acariciando minha pele.
-Esse vestido pertenceu a sua mãe. -Escuto uma voz grave dizer. -Você está igualmente linda. Para falar a verdade, é como se Siena estivesse na minha frente, só que com o cabelo tingido. -Magnus fala, em tom de brincadeira e um largo sorriso.
Seu corpo está apoiado despojadamente ao marco da porta, praticamente ocupando toda a entrada. Seus olhos brilham ao olhar para mim com algo que jamais recebi: orgulho.
-Espero não danificá-lo. -Respondo, sem saber manejar as sensações que se avolumam em meu peito por tocar em algo que pertenceu a minha mãe e não conseguir lidar com a intensidade dos sentimentos do meu pai.
Muitas novidades para um coração apenas!
-Tenho certeza de que sua mãe não se importaria com isso. -Ele afirma. -Você está pronta? -Magnus questiona.
Aceno afirmativamente e, irrefletidamente, decido não usar meu colar nesta noite. Antes de sair, percebo que Mirena ficou estranhamente silenciosa repentinamente. Ao encará-la, deparo-me com seu rosto totalmente enrubescido e seus olhos cravados no chão.
-Você não vem conosco, Mirena? -Pergunto.
-E-eu te-tenho algumas tarefas para concluir. Não precisa esperar por mim. Vá aproveitar a sua festa! -Mirena responde, desviando momentaneamente seu olhar para mim.
-Tire essa noite de folga, Mirena! -Magnus exclama descontraidamente. -Você também merece festejar. -Ele fala, parecendo muito contente.
Depois disso, meu pai envolve meus ombros com seu braço e me arrasta pelo corredor até a saída da casa. Consigo dar uma última olhada em Mirena antes que a porta do quarto se feche e ela parece chocada por Magnus ter lhe dirigido a palavra.
A felicidade exalada pelo líder dos lupinos é tão forte que acabo sendo contagiada pela mesma. Ao chegarmos à escadaria da entrada, as pessoas começam a me cumprimentar e saudar. Apresentações são feitas, mas poucos nomes ficam gravados em minha memória.
Aproximamo-nos do círculo de esculturas lupinas e agora em seu centro, potente e vigorosa, há uma enorme fogueira dando o toque alaranjado a tudo a sua volta. Mesas recheadas de comida se espalham por todos os cantos onde os olhos alcançam e, ao som de uma leve sinfonia, as pessoas dançam despretensiosamente. Tochas auxiliam na iluminação do ambiente, já que o sol abandonou seu posto no céu e deu espaço ao regime noturno.
Magnus me leva até uma mesa em que se encontra o grupo de anciãos que me recebeu quando cheguei à aldeia. Eles me fitam como se eu fosse um desarranjo ambulante em meio ao seu estável mundo.
Prestes a explodir em catástrofe!
-Sente-se e se sirva do que quiser, Scarlett. -Magnus indica com alegria.
Os pratos a minha disposição realmente parecem deliciosos, entretanto, aqueles olhares fixos embrulham meu estômago. Percebendo meu desconforto, Magnus inicia em uma longa conversa sobre questões burocráticas da matilha com os demais, surrupiando a atenção de todos.
Depois de saciar minha fome, começo a prestar atenção a minha volta. Vejo Davi ao redor da maior bancada de comida com uma comitiva de crianças em seu entorno. Gail está reunida com um grupo de mulheres rindo alto e bebendo um líquido amarelo que lembra muito a cerveja.
Rurik conversa com algumas fadas, incluindo a Daisy e Lírida, que parecem estar mais à vontade no espaço lupino do que imaginei que estariam. Não encontro nem a Cecília nem a Luke e, para minha surpresa, encontro Kayke dançando com Juliette entre a multidão de corpos rodeando a fogueira.
-Posso dar uma volta? -Questiono subitamente, interrompendo um longo monólogo do ancião Alicator.
-É claro, mas retorne quando o Donum Lunam iniciar, está bem? -Magnus responde.
-Donum Lunam? -Inquiro com curiosidade.
-Isso mesmo. Tenho certeza que saberá quando começamos. -Ele diz e pisca um dos olhos para mim.
Segundos depois, sua atenção já retornou a discussão que interrompi, sem brechas para outros questionamentos. Resignada, começo a caminhar por entre as pessoas que parecem nem mesmo notar minha presença, entretidas demais com as suas próprias vidas.
Essa sem dúvida é uma experiência nova!
Chegando às margens da mata verde que nos rodeia, compreendo porque esse lugar recebeu o nome de Bosque dos Álamos: todas as árvores presentes ali são belos e imponentes exemplares de álamos. Enfileirados, parecem formar uma enorme muralha a resguardar a aldeia.
A lua cheia ilumina e embeleza a abóboda celeste, juntamente com estrelas brilhantes que parecem alternar de tonalidade. Quanto mais me afasto do centro da festa, mais os sons da natureza inundam meus ouvidos. Um sentimento de paz me preenche enquanto os animais noturnos permanecem com sua rotina, indiferentes a minha existência.
Em meio aos arbustos, escuto um grunhido, semelhando a um choramingo. Aproximando, encontro Velikaya. A cena que se desenrola é quase cômica: um enorme animal acorrentado a um frágil galho.
-Velikaya? -Chamo.
Instantaneamente, o dragão se levanta, derrubando algumas árvores no processo. Ele bate as patas no chão em animação e estende sua cabeça em minha direção em busca de afago.
-Quem prendeu você aqui, grandão? -Pergunto, mesmo sabendo que não receberei uma resposta.
Com um movimento rápido, arranco a corrente atada ao pescoço de Velikaya e o liberto. Feliz, ele abre suas asas e sai voando sem rumo.
Pelo menos um de nós pode fugir dessa loucura, amigo!
-Scar, você conseguiu "solta" o Velikaya! -Davi surge atrás de mim, envolvendo minhas pernas em um abraço.
-Você sabe quem o prendeu, baixinho? -Inquiro.
-A Lírida. Mais cedo, ele comeu umas ovelhas e sua tia "fico" braba. Daí prendeu ele aqui de castigo. A gente "monto" um plano pra "regata" o Velikaya! -Ele conta, dando-me um sorriso desdentado.
-A gente quem? -Questiono.
Pouco a pouco, um grupo de crianças surge por entre os arbustos. Elas parecem com medo de mim e se aproximam cautelosamente.
-Você é mesmo filha do tio Magnus? -Uma menina pergunta.
-Eu já disse que sim, Alina. -Davi responde em aborrecimento.
-Sou, sim. -Digo, rindo da expressão de Davi. -Vocês podem me chamar de Scarlett ou Scar, como o Davi. -Continuo.
Em seguida, cada um deles se apresenta e diz os nomes dos seus pais, como se realmente acreditassem que aquilo é importante para mim. Eles me contam sobre suas vidas, sua escola e seus professores. Resumidamente, relatos descoordenados e sobrepostos me fazem sorrir.
A infância sem dúvida é a melhor etapa da vida para alguns.
Velikaya retorna para nós e as crianças imediatamente me abandonam para lhe dar atenção. O dragão age como se fosse um cão adestrado, rolando, sentando e buscando gravetos. Uma cena bela e bizarra ao mesmo tempo.
Passado um tempo, escuto som de passos e um gemido estranho vindos de dentro da floresta. Com a curiosidade aguçada, caminho sorrateiramente pelas raízes e troncos marrons para descobrir a origem dos ruídos.
Largas teias de aranha atrapalham minha passagem e tenho que parar em alguns pontos. Quando a luz fica cada vez mais escassa e estou prestes a desistir, encontro o alvo da minha busca.
Surpresa, preciso colocar a mão sobre a boca para que minha intromissão não seja percebida. Infelizmente, aquela cena irá demorar para sair da minha mente.
Talvez essa surpresa não seja tão inesperada assim afinal!
Olá, pessoal! Mais um capítulo saindo. Espero que gostem!
Sei que as postagens estão demorando, mas como já expliquei em outros momentos, não tenho muito tempo disponível para escrever. Sendo assim, posto quando consigo. Gostaria de pedir a paciência de vocês, já que tenho recebido alguns comentários de cobrança.
Escrevo quando tenho tempo e inspiração, do contrário, a história não ficará boa nem para vocês nem para mim. Caso não consigam acompanhar as postagens dessa forma, esperem eu terminar de escrever. Dessa forma, o livro estará completinho à disposição de vocês.
Assim que possível, postarei mais. Desejo um excelente domingo a todos!
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