Capítulo 23

Enquanto as chamas crepitam, acompanho o relato de Rurik sobre os acontecimentos da minha vida. Em alguns momentos, suas informações se tornam deficientes, levando-me a interferir. Magnus escuta cada palavra em silêncio, mas consigo captar suas emoções pelos traços de suas expressões. Analisando sua fisionomia, consigo captar ângulos e formas que vejo em meu rosto ao encarar um espelho.

Então é de você que herdei essas covinhas irritantes?

Quando narro meu período no castelo real, faço questão de omitir alguns dados. Meu pai parece ficar enfurecido com a decisão do capitão em me enviar à Aurora Negra.

Realmente gostaria de jamais ter estado lá.

Com a chegada de Magnus, meu coração parece ter se inflado, comprimindo e amortecendo todas as dores que o perturbam. Estar ao seu lado traz a sensação de pertencimento que jamais experimentei.

-Vocês não souberam nada sobre a Siena? -Magnus questiona depois de um tempo.

-Não. Após deixar Scarlett em Marina Azul, Siena desapareceu e não tivemos mais notícias suas. -Rurik conta.

Magnus permanece pensativo, preso em meio as suas lembranças. Seus olhos ficam opacos por alguns segundos até que ele retorna à realidade.

-Nós vamos encontrá-la. -Ele afirma com veemência e segura em uma das minhas mãos.

Sorrio para sua confiança inesperada. De alguma forma, sei que minha mãe virá ao meu encontro.

-Você também consegue se transformar em lobo? -Magnus pergunta abruptamente.

Sua espontaneidade me pega desprevenida e tenho um ataque de riso por conta do nervosismo. De todos os momentos para isso acontecer, esse é o pior deles. Consigo ver espelhado em seus olhos a esperança de que tenhamos mais esse detalhe em comum além de portar o mesmo sangue.

-Desculpe. -Digo, tentando conter o riso enquanto todos me fitam como se eu fosse maluca. -Creio que não nasci com esse dom. -Falo, um pouco envergonhada. -Porém, também não possuo asas! -Digo, tentando diminuir seu descontentamento ao minimizar minhas semelhanças às fadas e ele sorri por conta de minha reação.

-Creio que o mais sensato seja nos recolhermos. Amanhã teremos um longo caminho até o acampamento lupino. -Lírida fala, dando fim ao meu constrangimento.

De forma unânime, concordamos com minha tia. Magnus deposita um beijo em minha testa e parte para a tenda de Rurik, mesmo que eu não concorde que essa seja a melhor opção. Ainda que ele tente disfarçar, consigo captar um certo ar de decepção por eu não ser uma lupina.

Sentindo meu corpo amortecido, caminho em direção à minha cabana. O cansaço preenche cada célula do meu corpo e me leva a acelerar os passos em direção à minha cama.

-Podemos conversar? -Kayke pergunta, vindo atrás de mim e impedindo a concretização dos meus desejos.

Ao encarar seu semblante angustiado, não consigo responder de maneira negativa ao seu pedido. Gesticulando afirmativamente, deixo-o falar.

-Quero me desculpar por nossa briga em sua tenda, não tenho o direito de julgar suas ações. Sei que meu comportamento foi infantil e imaturo. -Ele começa, parecendo sincero.

-Sei que você não consegue se conter. -Repondo inconscientemente, já que provocá-lo é algo inerente a nossa relação.

-Às vezes, lidar com você é impossível. -Ele fala esfregando as mãos no rosto.

-Ah, e você é a pessoa mais agradável do mundo, não é? -Rebato.

-Está vendo? É disso que estou falando! -Kayke exclama. -Estou me desculpando e você continua a fazer piadas! -Ele fala, aproximando-se de mim.

Seus olhos faíscam ao me olhar e, por alguns segundos, eles se voltam para meus lábios. Meu estômago se revira com a possibilidade do que pode acontecer. Nossas respirações se misturam e me inebriam, fazendo com que meus sentidos se embacem.

-Scarlett? Você não vai entrar? -Cecília pergunta, sua voz vindo de trás de mim.

Aquilo é como um balde de água fria em minha espinha, acordando-me para o que é real. Afastando-me rapidamente de Kayke, não consigo mirar sua face, sendo assim, fixo meus olhos no chão.

-Está desculpado. -Falo e praticamente corro para a tenda a minha espera.

Cecília é como um cão de guarda cheirando e farejando por respostas. Ela não precisa pronuncia uma frase sequer para me deixar consciente de que exige esclarecimentos imediatamente.

-Amanhã irei lhe apresentar ao meu pai. -Digo-lhe com o sorriso mais deslavado que consigo estampar no rosto, jogando-me em meu saco de dormir em seguida.

-Irei adorar conhecer seu pai, Scar. Entretanto, você não acha que mereço algumas explicações do que presenciei a pouco? Já que salvei sua pele lá fora? -Ela questiona.

-Acredito que você venha tendo algumas alucinações. Caso contrário, eu teria que especular sobre um determinar soldado lupino que tem rondado nossa cabana. -Respondo de maneira sugestiva.

-Vou me lembrar disso da próxima vez em que precisar de mim! -Ela rebate com desafio na voz.

Cecília assume instantaneamente um tom mais rosado. Bufando, a princesa se deita e esconde sua face de mim e eu rio de sua reação mimada.

Quando minha cabeça toca o travesseio, sou invadida pela lembrança de olhos azuis e, logo depois, eles assumem o tom mais quente de castanho. É como se minha mente não decidisse qual imagem pretende formar, deixando apenas uma tonelada de dúvidas para perturbar meu sono.

Infelizmente, um coração quebrado não consegue decifrar o que habita em si mesmo. 

O caminho até a aldeia lupina é de difícil acesso. Montanhas e vales se colocam em nossa frente, potencializando o cansaço de nossas pernas. Até as fadas passaram a andar por terem extenuado suas asas.

Magnus nos guia com paciência e, seguindo seu exemplo, os lupinos presentes parecem nem ao menos suar. Kayke assumiu o lugar em sua direta, enquanto Rurik permanece a sua esquerda. Aparentemente, as desavenças entre os dois foram sanadas ou, ao menos, relevadas por enquanto.

Cecília reclamara em todo o início do trajeto, mas agora permanece calada. Provavelmente exausta demais até mesmo para falar.

-Posso falar com você? -Arian me intercepta.

-Se não for para me insultar, fique à vontade. -Respondo com um sorriso complacente.

-Quero agradecer por ter me salvado. Agora tenho uma dívida com você. -Ela diz seriamente.

O olhar que a fada dispensa a mim é intenso, impregnado pelo conceito de honra que rege sua vida. Nesse pouco tempo de convivência com o povo do céu, aprendi que lealdade está acima da razão.

-Pode ter certeza de que cobrarei no momento certo. -Respondo e lhe dou uma piscadela.

Arian sorri e, pela primeira vez, consigo notar sua juventude. Sem a sua carranca diária, seu rosto é tão bonito quanto o de qualquer outra fada.

-Como era a vida no Templo Virtus? -Divago passado algum tempo.

-Simples e regrada. -Arian diz. -Não temos muito tempo para conhecermos algo além do templo. A função das fadas sempre foi manter o equilíbrio entre as espécies. -Ela continua.

-Você conheceu seus pais? -Questiono.

-Sim. -Ela fala, ficando ligeiramente tensa. -Nós éramos responsáveis pelos jardins do templo. Eu os perdi no dia em que vocês chegaram. Os feiticeiros sombrios os mataram durante o ataque. -Arian conta.

Minha garganta seca assim que sua sentença se finda. Nunca fui boa para consolar os outros, ainda mais quanto se trata de ausência materna e paterna.

-Você não precisa ter pena de mim, Scarlett. -Arian decreta antes que eu consiga me recompor. -Todos um dia voltaremos à terra. Do pó viemos e ao pó retornaremos. Essa a única certeza ao vivermos, não é? -Ela indaga.

-Sim, porém, isso não torna a perda menos dolorosa. -Respondo.

-Verdade. -Arian afirma. -Por isso, decidi me juntar a você nessa jornada. Sua vida parece ser muito pior do que a minha. -Ela alfineta com um sorriso debochado.

-Isso é tão reconfortante, Arian. Fico feliz em lhe ser útil. -Declaro com ironia e reviro os olhos.

Nós continuamos em um silêncio confortável, somente nos acostumando uma a presença da outra até que, depois de praticamente escalarmos uma parede de pedras, uma visão nos recebe: um extenso vilarejo bem no meio de duas montanhas imponentes com seu ápice enfeitado com a neve mais branca. Cortando seu centro, há um pequeno rio que segue seu curso, indiferente a tudo a sua volta. A água cintila à luz do sol do meio dia dando uma aparência etérea à paisagem.

-Bem-vinda ao lar dos lupinos, Scarlett. -Kayke diz, parando ao meu lado.

Essa frase faz com um arrepio se espalhe por minha espinha. Da última vez em que a ouvi, o resultado não foi proveitoso.

E lá vamos nós de novo!

Olááááá! Olha quem voltou! Tudo bem com vocês? Espero que sim. 

Quero me desculpar pela demora e por não responder aos comentários de vocês. Infelizmente, o tempo está bem curto e a vida corrida. Mas saibam que leio a cada comentário com muito carinho e dou várias risadas por conta deles. 

Gostaram do capítulo? 

Assim que possível, irei postar mais :)

Um beijo e um excelente início de semana a todos!

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