Capítulo 22

Preciso respirar fundo mais de uma vez até estabilizar minha respiração. Minhas pernas tremem e isso me impede de levantar, sendo assim, rastejo para o mais longe possível do lobo negro.

O animal parece querer se aproximar, mas Rurik se coloca entre nós. Uma atmosfera tensa penetra no ambiente enquanto os dois se encaram.

-Creio que essa não seja sua melhor forma para uma conversa. -O capitão afirma.

O lobo solta um leve rosnado e parte em disparada em direção à floresta. O impacto de suas patas forma pegadas profundas no solo lamacento. No instante em que a mata traga a ele e ao seu grupo, os demais lupinos abandonam a posição de reverência.

Rurik estende uma mão em minha direção e me ajuda a levantar. Porém, minha cabeça ainda não atingiu a estabilidade necessária para fazer movimentos, o que me deixa tonta. Antes que meu corpo se choque contra o chão, braços fortes me rodeiam e me amparam.

-Ele irá voltar. Você precisa se recompor. -Kayke sussurra delicadamente em meu ouvido.

Seu calor e cheiro são como pólvora incendiando minha pele. Sua respiração contra minha orelha dispara adrenalina em minhas veias, semelhante a uma descarga elétrica. Por alguns segundos, os olhos de Kayke brilham, trazendo-me de volta à realidade. A distância estabelecida entre nós ainda é palpável.

-Siena? -Uma voz grave e profunda pergunta.

Quando direciono meu olhar a ela, encontro um homem alto, forte e imponente caminhando cautelosamente até mim. Ele veste um conjunto de moletom e tem os pés descalços. Cada passo seu é cuidadosamente acompanhado por sua matilha que ainda permanece em sua forma lupina.

Medrosos!

Seu cabelo ruivo já apresenta fios brancos que cintilam com a luz da lua, indícios da passagem do tempo. Ao mirar olhos amarelos desse homem, sinto uma conexão tão intensa que as palavras morrem em meus lábios.

Um misto de sentimentos ilustra seu semblante: dor, saudade, tristeza e alegria. Por alguma razão desconhecida, uma sensação de paz e segurança me domina e o medo despertado pelo lobo negro se dissipa em meu peito. É como se nos conhecêssemos há muito tempo.

-Ela não é a Siena, Magnus. -Rurik diz, quebrando o silêncio.

Magnus produz um suave e perigoso rosnado e olha para o capitão. Consigo imaginar farpas afiadas sendo desferidas entre eles. Estranhamente, a cada centímetro progredido pelo líder lupino até mim, Kayke se coloca um pouco mais a minha frente, como se temesse por minha segurança.

-Quem é ela? -Ele questiona.

-Sua filha. -Falo com a voz tremendo e abandono meu local de segurança nas costas de Kayke, revestida de uma certeza desconhecida até esse instante.

Instintivamente, ele segura meu pulso e tenta me fazer retornar. Entretanto, envolvo delicadamente sua mão com a minha e a solto. De maneira inexplicável, a confiança de que aquilo é o certo a se fazer se apossa de mim.

A expressão de dúvida no semblante de Magnus é quase cômica. Ele me olha como se minha existência fosse algo impossível e, ao mesmo tempo, uma dádiva divina. Quando estamos apenas a alguns centímetros de distância, vejo seus olhos marejados e, antes que ele consiga conter, uma lágrima fujona despenca por sua bochecha.

-Minha filha? -Magnus murmura baixinho e toca meu rosto.

Consigo somente gesticular positivamente, as palavras haviam morrido em minha garganta. Segundos depois, sou engolida em um abraço terno. A sensação de retornar ao lar se apodera de mim e permito que as minhas próprias lágrimas se derramem em minha face.

Então é isso que significa ter um pai.

-Procurei você por tanto tempo. Pensei que a havia perdido para sempre, Lelet. -Ele lamenta baixinho.

-Lelet? -Questiono.

-Era assim que Sia e eu costumávamos chamar você, antes q-que e-eu perdesse as duas. -Magnus responde, visivelmente abalado.

Aperto-o mais fortemente em nosso abraço e sinto meu coração se inflar de gratidão. Um pigarro perfura nossa bolha irreal e nos arrasta de volta ao acampamento. A contragosto, Magnus me libera e torna a cravar seus olhos em Rurik.

-Há quanto tempo você sabe que ela está viva? -Ele questiona com raiva.

Magnus permanece com uma mão em meu braço, impedindo que eu me afaste. Com isso, sinto seu corpo ondular com a ira dispensada ao capitão. Rurik devolve seu olhar penetrante e não parece temer ao lupino alfa.

-Você está disposto a ouvir a história inteira ou tirará conclusões precipitadas? -O capitão pergunta serenamente.

-Estou avaliando se você merece o benefício da dúvida, Rurik. -Magnus contrapõe.

-Senhor, Rurik teve motivos para manter segred... -Kayke tenta se pronunciar.

-Não me dirigi a você, Kayke. Creio que você já me deve explicações demais para tentar esclarecer as ações dos outros. -Magnus corta.

-Não desconte suas frustações no garoto, Magnus. -Rurik rebate com raiva.

Nesse momento, ouço um grunhido atrás de mim e, instantaneamente, os lobos acompanhantes de Magnus nos rodeiam, como se os modos do capitão os ultrajassem. Em resposta a isso, alguns dos lupinos presentes na clareira se colocam ao redor de Rurik.

-Talvez você esteja em desvantagem dessa vez, Magnus. -O capitão avisa, ciente da quantidade de soldados o salvaguardando.

Antes que o pior aconteça, desvencilho-me da proteção do meu pai e me coloco entre os dois lados da aglomeração. Dividindo meu olhar entre Magnus e Rurik, invoco toda a confiança e autoridade que Triny me ensinou a ter.

-Já chega! -Declaro. -Todos estamos nervosos aqui e ninguém irá tomar decisão alguma nesse estado. -Digo com veemência.

Os dois parecem me ignorar completamente e continuam em sua batalha de egos. Irritada, compreendo que, às vezes, os homens só entendem a mensagem da força bruta. Ajoelhando-me, toco o solo e o faço crepitar com um estrondo audível desencadeado pela emergência de galhos espinhosos brotando dos meus dois lados, rodeando e afastando os dois grupos. Além disso, incendeio a cada espinho, tornando-os tochas chamativas.

Magnus me encara de maneira incrédula, enquanto Rurik tenta esconder sua expressão de choque. Respiro fundo para controlar meu aborrecimento e tento manter minhas emoções controladas.

-Se quiserem se enfrentar, terão de passar por mim e, acreditem ou não, já lutei contra todos os tipos de seres e animais existentes neste reino, posso enfrentar dois lupinos velhos sem problemas. -Argumento com ironia. -Se ferirem um ao outro, precisarão me ferir primeiro. -Digo seriamente e miro a ambos.

Os dois líderes se entreolham e pesam suas escolhas. Dando o primeiro passo, Magnus dispensa seus lupinos com um maneio de cabeça.

-Retornem à aldeia e avisem que teremos alguns visitantes. -O líder lupino ordena.

Imediatamente, os lobos partem em meio a floresta escura. Os demais se afastam, incomodados com a luz das chamas. Percebendo que o perigo maior passou, desfaço as pequenas tochas e reorganizo a grama verdinha, restando somente Rurik, Magnus e Kayke a minha volta.

-Como você fez isso? -Magnus inquere, aproximando-se.

-Ela é filha de uma fada, não é mesmo? -Lírida fala, surgindo da mata fechada.

Uma mistura de surpresa e felicidade se estampam no rosto de Magnus ao ver minha tia. Inesperadamente, ela corre até ele e o abraça. Embaraçada, olho para Rurik em busca de respostas, mas ele apenas gesticula negativamente, como se questionamentos não fossem bem-vindos.

-Você sabe sobre a Lelet desde quando, Lidy? -Magnus indaga com suspeita, afastando-se.

-Há alguns meses. E, a partir daí, entramos em uma maratona para levá-la até você. -Ela explica.

-Você deve estar cansado da viagem, Magnus. Se bem lhe aprouver, podemos nos sentar ao redor da fogueira e esclarecerei todas as suas dúvidas. -Rurik fala.

O líder de todos os lobos o fita por alguns segundos e, logo em seguida, deposita seu olhar penetrante em mim. Seus olhos amarelos brilham com o reflexo da luz da lua.

-Sim, isso me parece me parece ótimo. Tudo o que eu quero está nesse acampamento. -Ele declara e me dá um sorriso terno. 

Olá, pessoinhas :) 

Mais um capitulozinho saindo do forno!

Gostaram? Assim que possível postarei mais!

Um beijão!

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