Capítulo 18
Às vezes, somente a solidão é capaz de acalmar nossa mente e, enquanto tropeço entre os troncos das árvores, busco um pouco de isolamento benéfico para organizar meus pensamentos. Cecília tentou me abordar em meio a meus passos desgovernados depois que deixei a tenda de Rurik, mas foi em vão. Minha capacidade de manter uma conversa coerente havia se esvaído.
Os olhos amarelos do lobo branco ainda se projetam em minha cabeça e suas palavras dançam entorno dos meus ouvidos. A sensação de que está na hora de prosseguirmos em nossa jornada me preenche e tenho certeza de que ela se apoderou dos meus sentidos após meu retorno à realidade, como um aviso.
Todavia, a possibilidade de encarar mais novidades me apavora, ainda que esse seja o caminho certo a se seguir. Há um burburinho em meu estômago em todas as vezes em que mentalizo a palavra "pai".
Está na hora de encarar seus medos, meu bem.
Acomodando-me em uma enorme raiz coberta por musgo, apoio meus braços nos joelhos e cubro meu rosto com as mãos. Por descuido da minha cabeça perturbada, a imagem de John em frente ao corredor vermelho se insinua nos bastidores da minha mente e consegue se libertar de seu cárcere. Tão real que parece ser palpável.
Ele está impecável e lindo como sempre. Seu sorriso reluz todas as promessas feitas a mim e seus olhos entoam todos os juramentos realizados sob a luz da lua em nosso paraíso na sala de música do palácio.
Essas memórias são agridoces, ao mesmo tempo em que rememoram a felicidade de me sentir amada, envenenam mais um pouco a minha alma. Em todas as ocasiões em que permiti a abertura da caixa de Pandora que virou meu coração, percebi que as feridas não diminuíram em nada, apesar da transcorrência dos dias. Ainda havia rasgos profundos extravasando sangue.
Contudo, continuo repetindo para mim mesma que estou me recuperando aos poucos, juntando os cacos do que um dia foi um belo vitral cintilante, imitando a em um tratamento homeopático no qual você sabe que todas as aparentes melhoras vieram da sua força de vontade psicológica. Na prática, não fez diferença alguma.
Uma ideia impertinente e nefasta infiltra-se em minha psique sem que eu consiga impedir: e se eu tivesse optado pelo corredor vermelho? Qual seria a realidade na qual estaria inserida?
E se, e se, e se?
Carícias roubadas e confidências proibidas retornam para me assombrar. O calor dos lábios de John é tão real que encosto nos meus para me certificar de que não passa de uma ilusão infame da minha mente. Sinto seus dedos correndo por meus cabelos e dedilhando minha cintura. Meu corpo pulsa com a recordação da sensação de estar envolta em seus braços, na ternura do seu abraço.
A pior parte em ter encontrado o amor não foi somente a sensação de perdê-lo, foi a reciprocidade seguida da traição. Foi a mentira travestida de verdade. Foi o nada encenado como tudo.
-Atrapalho? -Escuto alguém perguntar depois de um longo tempo.
Desanimada, ergo meu rosto para me deparar com minha pessoa menos favorita no mundo: Kayke. Ele me observa escorado em uma árvore a alguns metros de distância.
-Se eu disser que sim você vai embora? -Questiono, cansada.
-Provavelmente não, mas nada impede você de tentar. -Ele graceja com arrogância.
-Sabe, Sebastian, acho que sei como você conseguiu ficar desse tamanho, seu corpo teve que aumentar para comportar todo o seu ego. -Ironizo.
Kayke balança a cabeça como se estivesse decepcionado com meu comportamento. Imprudente, ele se aproxima de mim lentamente.
-Esse não é o meu nome. Porém, suponho que você já saiba, não é? -Ele me censura com uma postura tensa. -Suas piadas eram melhores quando éramos crianças. -Fala em tom de crítica.
-Ah, esse foi só o aquecimento. Se continuar aqui, prepare-se para o show principal, Sebastian. -Zombo com desprezo.
-Eu posso imaginar. -Kayke diz e se senta ao meu lado sem precisar de convite.
Depois disso, permanecemos calados. Inesperadamente, aquele conhecido desconforto de estar em silêncio ao lado de alguém indesejado não se abate sobre nós. Houve um tempo em que Kayke era como uma chuva de verão precedida por um dia muito quente para mim, inevitável e devastadora, mas ainda assim, profundamente previsível e familiar.
Quem sabe até, de certa forma, necessária?
Ele chegara um pouco depois de mim ao quartel em Marina Azul, assustado e inquieto. Assim que o conheci, passamos a ser amigos inseparáveis. Era como se eu tivesse ganhado o irmão que jamais tive, o companheiro para as invenções mais loucas. Nossa única regra era a de que nosso passado havia sido enterrado e assumiríamos uma nova vida a partir do dia em que nos encontramos.
A vida que desejássemos, ele havia dito. Uma pena que isso não passou uma utopia infantil.
Até a metade do meu primeiro ano na base, nossa amizade permaneceu intocada. Foram os melhores seis meses dos quais me recordo da minha infância, já que pude desfrutar da companhia de outra criança.
Depois desse curto período, Kayke se tornou um demônio em minha vida e a tormenta de todos os outros soldados mirins. Sem explicações, passei a ser o alvo de seu ódio e, com isso, todas as lembranças positivas foram maculadas com a raiva que passei a alimentar por sua pessoa. Ele passara a ser inalcançável para mim, sendo assim, forcei-me a esquecê-lo e a aterrar todas as recordações que o envolviam.
-Seus olhos ficaram completamente escuros. -Kayke diz de súbito.
-Como? -Pergunto sem compreender.
-Quando você perdeu o controle enquanto treinávamos, seus olhos ficaram completamente escuros. -Ele repete e olha para mim.
Suas palavras ecoam pela floresta e um calafrio percorre minha espinha. Analisando seus braços, reparo que restaram apenas pequenas casquinhas nos machucados que lhe causei.
-Sinto muito por ter machucado você. Não foi minha intenção. -Declaro, sentindo-me estranha ao me desculpar com ele.
Pela expressão de surpresa que se espalha em seu rosto, Kayke se sente tão deslocado quanto eu. Conversar civilizadamente nunca fez parte de nossa relação cotidiana.
-Rurik me explicou que não foi culpa sua. Algo bizarro sobre controle da mente. -Ele fala.
-É, foi mais ou menos isso. -Divago. -Por que você sempre me odiou? -Questiono sem pensar.
Assim que a pergunta escapa por meus lábios, tenho vontade de engoli-la de volta. Os olhos de Kayke brilham com certa quantia de perplexidade.
-Pensei que isso era inevitável para qualquer indivíduo. -Kayke caçoa e eu reviro os olhos para sua ironia congênita. -Nunca disse que odeio você. -Ele contradiz com ar de inocente.
-Ah, você não precisava falar absolutamente nada, seu comportamento esclarecia tudo. -Rebato.
Ele levanta somente uma sobrancelha, indicando que estou sendo parcial em meu julgamento. Sem raciocinar direito, inclino-me em sua direção e cutuco seu peito.
-Você quer que eu liste as atrocidades que fez comigo? Pois bem, pôr insetos no meu travesseiro; gomas de mascar em meus cabelos; sabotar todas as provas no quartel para que eu ficasse em desvantagem; colocar um formigueiro em meu uniforme e escorpiões em meus sapatos; oferecer um bolo de barro alegando ser de chocolate; quer que eu prossiga ou isso é o suficiente? -Inquiro furiosa.
Podemos continuar com isso a noite inteira, meu caro.
Inesperadamente, Kayke começa a rir. A risada é tão poderosa que ele se dobra sobre si mesmo sem conseguir se controlar.
-Desculpe, é que a cena de você com a boca cheia de barro ainda continua muito engraçada e você também não era nenhum anjo. -Ele alega.
-Eu jamais havia tido a oportunidade de comer chocolate. Não saberia como diferenciá-lo de qualquer outro alimento, mas você me prometeu que era um presente pelo meu aniversário e eu fui idiota o suficiente para acreditar. -Acuso. -Esse nem foi o seu pior plano, lembra de quando você improvisou um balanço com pneu para todos brincarem exceto eu? E, quando me deixou experimentar depois de muita insistência e barganha da minha parte, foi apenas para me assistir cair e quebrar a perna, já que você o havia boicotado. -Aponto com indignação.
O fogo nos olhos de Kayke se apaga, sendo substituído por algo similar a vergonha. Pela primeira vez em muito tempo, presumo estar vendo uma expressão verdadeira lampejar em seu rosto.
Engane-me uma vez a culpa é sua, engane-me duas...
-Desculpe-me, Scarlett. Sempre fui uma criança um pouco perturbada, mas... -Ele começa, parecendo querer confessar algo importante.
-Um ser humano totalmente perturbado, talvez? -Interrompo, sem conseguir me conter.
Kayke imediatamente me dirige um olhar aborrecido e sinto a mudança em seu comportamento, como se uma pequena rachadura em sua pose de "menino mau" tivesse sido aberta e rapidamente remendada por conta da minha importunação. Em contrapartida, ergo as mãos em aviso de paz e o deixo prosseguir.
-Não podemos desfazer o que está foi feito. Temos apenas que aceitar o passado e progredir com o futuro. -Ele declara com seriedade. -Hoje, depois de escutar o seu discurso naquela tenda, entendi que você não é mais a menina impertinente e mimada que eu precisava tolerar e proteger por ser filha do líder lupino. Sua paixão ao falar sobre o seu povo e o quanto quer lutar por ele, é admirável. Identifico-me com isso e sinto exatamente o mesmo em relação ao meu, por isso, quero estar ao seu lado quando essa guerra começar. Algo me diz que é o certo a se fazer. -Kayke afirma com veemência.
Jamais havia presenciado Kayke se posicionar com tanta sinceridade. Sua vontade de proteger os lupinos é tão intensa que quase posso tocá-la.
-Desde quando sou uma menina mimada? -Indago com indignação.
-Essa foi a única parte que você escutou? -Ele questiona exasperado.
-Não, não foi. -Respondo e fito seus olhos. -Está zombando de mim? Porque se isso for uma pegadinha, juro que lhe farei sangrar de novo. -Aviso.
-Por mais que essa seja uma ótima oportunidade para isso, a resposta para sua desconfiança é não. -Ele argumenta. -Não sou mais o idiota irresponsável que brincaria com um assunto tão importante quanto esse, Scarlett. -Kayke diz.
-Bem, da última vez em que nos vimos, você era e devo lembrá-lo de que isso não faz tanto tempo assim. -Contraponho de forma impertinente.
-Bom ponto, entretanto, você também não é mais a mesma pessoa desde aquela ocasião. Acredito que mudanças não tem um período mínimo para acontecerem nem podem ser programadas. -Ele arrazoa.
Para mim, essa versão razoável e equilibrada de Kayke é novidade. Ele sempre fora explosivo e inconsequente, sem o pudor de medir o resultado de suas atitudes. Contudo, seus argumentos me levam a lhe conferir o benefício da dúvida.
Exatamente como uma pessoa estúpida faria.
-Ok, estou levantando a bandeira branca entre nós, Kayke. Só espero que isso não se reverta em um erro gigantesco. -Digo e lhe estendo minha mão.
Lentamente, um largo sorriso se desenha em seu rosto. O impacto de vê-lo assim, sem barreiras ou escudos erguidos, é tão grande que é impossível conter o sorriso que desponta no meu. Essa sua faceta serena e cortês é estranhamente familiar e avassaladoramente perigosa para manter minha sanidade.
Sua mão quente praticamente empacota a minha, distribuindo pequenos frissons a partir do meu pulso. Por alguns segundos, a floresta desaparece enquanto fito seus carregados olhos castanhos.
Antes que a situação fique fora de controle, solto a mão de Kayke e me levanto fingindo um ataque de tosse. Ele me imita se levantando e encarando o chão enquanto alterna seu peso de uma perna para outra.
-Amigos, então? -Pergunta.
-Eu não seria tão otimista, soldado. Provavelmente vamos nos matar na primeira oportunidade que tivermos. Mas quem sabe, não é mesmo? -Digo, tentando dissipar a nuvem de embaraço que paira sobre nossas cabeças.
-Com certeza. -Kayke responde, sorrindo de lado. -Para falar a verdade, vim até aqui lhe dar um recado de Rurik. -Ele fala.
-Rurik pediu isso para você? Mesmo depois de tudo o que aconteceu entre a gente? -Questiono com incredulidade.
-Talvez não tenha sido um pedido propriamente dito e sim uma ordem seguida de vários protestos que não foram levados em consideração. -Ele responde com humor. -Sua primeira opção era o Luke, mas ele se recusou alegando que você estava descontrolada demais e isso lhe dava medo. -Kayke termina com uma risada.
-Posso imaginar, ele sempre foi um covarde. -Digo em zombaria e o acompanhando no riso. -E o que Rurik queria que você me dissesse? -Pergunto com curiosidade.
-O Conselho debateu e chegou à conclusão de que você está certa. Sendo assim, partiremos hoje mesmo para o Bosque dos Álamos. -Ele diz e sinto meu coração acelerar.
E aqui encerra o nosso combo da vez! Espero que tenham gostado.
No final da semana tem capítulo novo!
Aproveitem o feriado, leiam muito e tenham um excelente restinho de final de semana.
Um beijão!
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