Capítulo 17
-Você está bem? -Cecília pergunta enquanto me ajuda a voltar a posição sentada.
-Estou. -Digo laconicamente.
-Tem certeza? Seus olhos ficaram completamente brancos e desfocados e você começou a tremer incontrolavelmente. Para aonde foi levada? -Ela questiona.
-Lugar nenhum ou qualquer lugar. O que mais importa é que sinto que minha mente não foi somente fechada, mas blindada com ferro. -Digo, sem coragem suficiente para revelar mais sobre o ocorrido. -Eu estou bem, Céci. -Reafirmo para os olhos preocupados de Cecília.
-Estranhamente, acredito em você. -Ela afirma e sorri. -Creio que irei me aposentar das atividades de professora e, infelizmente, não posso dizer que você foi uma aluna exemplar. -A princesa graceja.
Nós rimos juntas e eu desfruto do que acredito que serão os últimos momentos de paz que vivenciarei num futuro próximo. Em determinado momento da tarde, Davi invade nossa tenda, tornando ocasião ainda mais prazerosa.
-O que você nos traz de novidades, espião? -Pergunto.
-As "sacedotisa" ainda tão falando com o Rurik na cabana. Eles me pegaram ouvindo hoje, daí tive "fugi". O Luke não conseguiu me "captura", me escondi na floresta até ele "desisti"! -Davi conta orgulhoso de si mesmo.
-Muito bem, malsim! -Cecília o felicita e afaga sua cabeça. -E você ouviu algo enquanto bisbilhotava? -Ela questiona.
-Sim! -Ele comemora. -Disseram que "vamo" embora logo. O Kayke não "qué" mais "fica" aqui e falou que não vai "servi" de babá pra você. -Davi fala achando graça daquilo e aponta para mim.
-Então o Kayke está participando das decisões enquanto permaneço de castigo? Interessante. -Divago. -Cecília, arrume-se. Iremos aquela tenda agora. -Ordeno.
Quando chegamos ao exterior, pisco repetidamente até que minha visão se ajuste à luz do sol. Com surpresa, encontro Velikaya a nossa entrada, como um cão de guarda. Davi coça a cabeça do imenso animal e o mesmo parece mais feliz ao nos ver.
-Olá, Velikaya. -Cumprimento e recebo uma bafora em resposta.
Ao nos aproximarmos da cabana de Rurik, deparo-me com o grupo de lupinos de Kayke sentados próximos a sua entrada. Eles me encaram com uma expressão nem um pouco amigável enquanto me aproximo.
-Olá, meninos. -Digo com um sorriso forçado.
Silêncio. É apenas isso que recebo como resposta, exceto por Ítalo que me olha com certo ar de admiração. Ele se levanta e para em minha frente como se quisesse me abraçar ou como se estivesse prestes a me adorar.
-Você deu a surra que todos nós queríamos dar no Kayke! Nenhum de nós jamais conseguiu ganhar dele, mesmo trapaceando. Esperei esses dois dias inteiros para lhe dizer que aquilo foi espetacular, já que não sabia quando sua raiva ia passar e tenho amor a minha vida. De agora em diante, estou a sua disposição, madame. Serei seu servo eternamente! -Ítalo fala com veneração forçada e faz uma reverência, o que me mostra que ele está de troça.
Ao som da primeira gargalha, todos nós caímos no riso em decorrência de sua parca encenação. Ele continua a me saudar repetidas vezes. Davi se junta a bagunça e começa a imitá-lo.
Sem que Ítalo esteja esperando, envolvo seu pescoço com um braço e lhe aplico muitos cascudos em sua cabeleira loira. Ele tenta se soltar em meio as risadas que acometem seu corpo.
-Vai aprender a respeitar seus superiores! -Falo em falso tom de repreensão. -Você se rende? -Inquiro.
-Sem dúvidas, milady. -Ele graceja, enquanto respira com dificuldade.
-Acredito que você não deveria se dirigir a ela como "milady", Ítalo. O termo certo é "alteza". Estou enganado, princesa? -Kayke fala com desdém e olhos semicerrados.
Imediatamente o riso se esvai e Ítalo retorna para os seus amigos. Kayke permanece na entrada da tenda de Rurik em toda a sua prepotência e eu devolvo seu olhar de desgosto. Apesar de me sentir culpada por machucá-lo, não consigo deixar de detestá-lo.
Até porque esse lupino presunçoso não ajuda muito com sua limitada simpatia.
-Escolha o termo que desejar, não tem importância para mim, Sebastian. -Retribuo, imaginando que ele não deve gostar de seu nome fictício.
-Rurik quer falar com você, agora. -Kayke fala desprezo e retorna para o dentro.
Um ponto para a alteza aqui, babaca!
Meu primeiro impulso é lhe dar as costas e desobedecer a qualquer ordem que ele pensa que pode me dar. Entretanto, é do capitão que estamos falando e ele odeia esperar.
Quando entro na cabana, sou recebida com uma pequena reunião ao redor de uma mesa redonda. Aparentemente, as sacerdotisas decidem os próximos nossos passos junto com Rurik. O capitão indica uma cadeira ao seu e eu me sento, enquanto Luke e Kayke continuam em pé próximos à saída.
-Como se sente? -Rurik pergunta preocupado.
-Estou bem. -Respondo simplesmente.
-Fico feliz em saber. -Ele diz com sinceridade. -Espero que não tenha interpretado esse período de reclusão como castigo, mas sim como uma oportunidade de aprendizagem e descanso. -O capitão elucida. -Falando nisso, você utilizou esse tempo para treinar como combinamos? -Ele pergunta.
-Sim, senhor. -Digo, conformada.
-Lírida, por favor. -Ele pede.
Sem compreender, miro minha tia. Ela franze a testa e fita meus olhos. Instantaneamente, sinto uma pequena pressão na base da minha cabeça. Depois de cinco longos minutos de completo silêncio, sua pele se desenruga.
-Inacreditável. -Lírida exclama. -Está completamente bloqueada. Como conseguiu aprender isso em tão pouco tempo? -Ela inquere.
-Espere aí, você está tentando entrar em minha mente? -Interpelo com indignação. -Desde quando isso vem acontecendo? -Pergunto voltando minha atenção para Rurik.
-Isso é para o seu próprio bem, Scarlett. A partir do momento em que você teve contato com os feiticeiros obscuros, imaginamos que eles provavelmente tentaram ler seus pensamentos nos poucos minutos que tiveram e, sem sombra de dúvidas, tentariam novamente na primeira ocasião oportuna. Sendo assim, precisamos verificar se sua mente não havia sido danificada em algum grau pela magia negra ou ainda a profundidade da abertura que eles poderiam ter gerado. -Rurik explica. -Sabemos que, de algum jeito, eles deixaram uma entrada, o que possibilitou que você fosse atraía ao Bosque de Álamos e perdesse o controle dos seus dons ao enfrentar Kayke. -Ele termina com os ombros tensos, visivelmente temendo por minha reação.
Inacreditável!
Enraivecida, levanto-me e chuto para trás a cadeira na qual estou acomodada e dou um soco na mesa. Todos os pares de olhos na sala me fitam com surpresa.
Ótimo!
-Vou dizer algo e espero que compreendam de uma vez por todas: não sou e não vou ser um peão no tabuleiro de vocês. -Asseguro com firmeza. –"Minha vida", conseguem compreender esse mero conceito? -Pergunto com sarcasmo e, gradativamente, perco o autocontrole. -Fui pisada, moldada, diminuída, talhada, humilhada e muito mais do que imaginam a contar do dia em que me entregaram aquele orfanato e não aceitarei que isso continue. -Aviso. -Realmente não me importo com o título que meus pais carregavam ou carregam nem tenho interesso pelo quanto vocês os idolatram. EU NÃO SOU ELES! -Grito. -Não faço parte da sua realeza! -Digo apontando para Daisy. -Não sou um membro da sua alcateia! -Falo para Rurik. -Sou e sempre serei um soldado mestiço do povo de Pélagus. É por eles e para eles que irei enfrentar a guerra iminente contra o Reino Sombrio, não para assegurar que a hegemonia de vocês se mantenha intocada. Se necessário for, morrerei protegendo aos meus e a todos aqueles que estiverem ao meu lado por essa causa. Precisam parar de tentar me manipular com a desculpa de ser para o meu próprio bem. -Despejo. -Pelo empenho que estão tendo em me manter por perto, posso supor que precisam de mim para seus planos se concretizarem. Sendo assim, a partir de agora, não decidirão absolutamente nada sem que todos estejamos de acordo e, caso isso não aconteça, prosseguirão suas jornadas sem mim. Estamos entendidos? -Anuncio, mirando a cada um ao meu redor.
-Scarlett, nós só queremos cuid... -Rurik começa.
-Sem justificavas vazias, Rurik. -Digo com frieza. -Não sou mais uma criança que necessita dos seus cuidados, capitão. Confiei no senhor quando me disse que não haveria mais segredos ou engodos. De todos, você é o único que não poderia mais mentir para mim ou ocultar quaisquer detalhes. -Interrompo-o e o encaro. -Estamos acertados? -Pergunto mais uma vez.
Todos em nosso círculo gesticulam positivamente, sem nenhuma outra palavra. Endireitando minha postura, decido trazer o primeiro assunto a ser discutido.
-Bem, como estamos de acordo, creio que já passou da hora de levantarmos acampamento. Se permanecermos no mesmo local por muito tempo, sofreremos mais ataques. Na minha opinião, devemos partir hoje mesmo. -Declaro, causando certa estranheza nos demais por minha determinação repentina. -Deixarei que prossigam com a votação e, assim que chegarem a um parecer, avisem-me. -Falo, sentindo que a qualquer momento irei desmoronar.
Capto um toque de tristeza nos olhos de Rurik pelos segundos nos quais me permito olhá-lo, mas ignoro a isso e saio dali sem hesitar. De agora em diante, os destroços remanescentes do meu coração permanecerão encarcerados em meu peito e não irão mais interferir em minhas decisões.
Olha mais um capítulo fresquinho despontando por aí :)
Gostaram? Espero que sim!
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