Capítulo 14

-Não sou "alteza" de ninguém. Não se atreva a agir como se tivesse o direito de exigir qualquer esclarecimento de mim. -Declaro.

-Bem, então você precisa avisar suas amigas fadas que não é a princesa delas porque, desde que chegamos, fomos acusados de atacar a "herdeira do povo dos céus". -Kayke zomba.

Seu rosto está tão próximo ao meu que quase encostamos nossos narizes e vejo a mesma raiva espelhada em seus olhos. A energia entre nós é tão palpável que sinto a eletricidade no ar.

-Você não sabe nada sobre mim ou sobre o que eu passei naquele castelo, por isso, não pense que pode julgar minhas atitudes. -Digo em tom de ameaça.

-É mesmo? Vai me dizer que foi muito difícil comer a melhor comida de Pélagus, dormir nas melhores camas, vestir as melhores roupas? Ou você está triste por não ter encontrado no palácio real seu príncipe encantado? -Ele pergunta.

Meu punho fechado se choca contra a face de Kayke assim que a sentença "príncipe encantado" sai por seus lábios. Desprevenido, ele cambaleia para trás e cobre com uma das mãos o local injuriado. Seu braço machucado ainda está contido por uma tipoia, mas, estranhamente, a atadura protetora já foi retirada.

-Vou repetir somente mais uma vez, você não me conhece. Se possuir algum amor por sua vida, fique longe de mim. -Aviso.

Rapidamente, dou-lhe as costas e parto para minha tenda. Ignorando as indagações de Cecília, coloco minha cabeça sobre o travesseiro e esqueço do resto do mundo.

Aos poucos, a raiva dá lugar à mágoa em meu peito. Lembranças de carícias e promessas me invadem e consomem minha alma. Cada palavra dita por Kayke estava certa e essa era a pior parte. Em dado momento, eu havia esquecido da realidade e ingressado na fantasia enquanto estava naquele castelo.

Havia me apaixonado e entregado meu coração nas mãos erradas. Quando acordei daquela ilusão, a queda foi alta demais para retornar ao mundo real. Enquanto as horas passam e as lágrimas se alastram por meu rosto, permito que o sofrimento me destroce somente uma única vez mais.

Acordo alarmada pelo impacto de um jato de água em meu rosto. Quando minha visão se ajusta à claridade, encontro Luke com uma vasilha vazia nas mãos.

-Você ficou maluco? -Exclamo.

-Não, estou apenas cumprindo ordens. Nenhuma das minhas outras tentativas de acordá-la funcionaram, por isso, tive que apelar. -Ele fala entre com um sorriso sarcástico. -Rurik mandou seu treinamento retornar hoje. Sendo assim, vamos lá. -Luke instrui.

Ele sai da cabana enquanto permaneço tentando compreender o que está acontecendo. Ao meu lado, escuto uma risada baixinha que não contribui para diminuir meu estresse.

-Se continuar rindo, vou cortar sua língua. -Ameaço a Cecília.

Com isso, a princesa se joga em sua cama e desata a rir. Bufando, saio de nossa tenda para procurar por Luke e, quem sabe, arrancar uma de suas orelhas.

Encontro o soldado em uma das extremidades da clareira mais afastada do acampamento. Quando me aproximo, ele sorri ao reparar em meu cabelo úmido.

Dominada pela raiva, invisto contra Luke, pegando-o de surpresa. Desfiro alguns golpes dos quais ele se defende com destreza, além de acertar vários socos em minhas costelas. Contudo, em um momento de desatenção, consigo derrubá-lo no chão e coloco um braço ao redor de seu pescoço para interromper sua respiração.

Luke se debate e tenta se soltar, mas meu aperto é forte o suficiente para contê-lo. Um pequeno grupo de espectadores começa a se formar ao nosso redor e percebo que preciso encerrar minha vingança antes que alguém chame a Rurik.

-A vida no castelo parece ter deixado você um pouco enferrujado, soldado. -Desdenho. -Da próxima vez que tiver a brilhante ideia de jogar água em mim, lembre-se desse momento e que sempre haverá retaliação. -Aviso.

Ao liberar Luke de meu aperto, ele tosse e se levanta rapidamente. O aborrecimento em seu rosto é um deleite para mim.

Olhando ao redor, reparo que nossa área de treinamento parece ter virado um ringue de luta. Várias fadas e lupinos formam um círculo ao nosso redor e nos encaram com interesse, incluindo Kayke e seu grupo. Mirando seu rosto, vejo que ele está com um suave hematoma abaixo do olho direito e seu braço quebrado está completamente recuperado.

-Ela precisa encarar um lupino de verdade. -Ítalo se pronuncia.

Luke, que está próximo a ele, desferi-lhe uma tapa em sua cabeça. Ítalo tenta revidar, mas por ser menor que seu oponente, não consegue.

-E quem seria esse lupino? -Pergunto.

-Eu! -Ítalo responde de imediato.

-Então vamos ver do que você é capaz, lobinho. -Digo.

Ítalo encara Kayke em busca do que suponho ser sua aprovação que, por sua vez, somente acena afirmativamente. Logo em seguida, começamos a andar em círculos e a medir um ao outro. Ítalo possui a mesma altura que a minha e ostenta sua cabeleira loira. Ao contrário dos demais lupinos, seu corpo não possui muitos músculos e seu rosto ainda continua liso como o de um garoto.

O menino lobo se joga contra mim com os braços abertos sem manter sua guarda levantada, na tentativa de me lançar ao chão. Rapidamente, desvio de seu ataque e contorno seu corpo. Dou-lhe um chute na parte de traz de seu joelho, o que o faz perder o equilíbrio.

Péssima jogada, cachorrinho.

Ele se recupera e inicia uma sequência de murros em minha direção. Apenar de seu tamanho, a força de Ítalo é maior do que a qualquer outra pessoa da sua idade, mesmo que seu treinamento ainda esteja no início.

Para encarrar a luta, dou uma rasteira em Ítalo lhe derrubando com as costas viradas para cima. Abraçando sua cintura com minhas pernas, torço seu braço até o ponto de quase quebrá-lo.

-Você se rende? -Questiono.

-NUNCA. -Ítalo grita.

-Não seja idiota, garoto. Você está imobilizado. -Luke adverte.

Resignado, Ítalo bate três vezes no solo para ser liberado. Quando eu o solto, ele parte em direção ao seu grupo que ri e caçoa de sua derrota.

-Creio que agora seja a minha vez. -Kayke fala.

Ele me encara com determinação, fazendo com que um arrepio percorra minha espinha. Luke divide seu olhar entre nós sem entender o que se passa.

-Seu braço não estava quebrado? -Inquiro.

-Segredos lupinos. -Kayke responde simplesmente e pisca um olho para mim.

Dessa vez, sou eu que ajo como uma principiante e ataco um lupino com praticamente o dobro do meu tamanho sem cuidar da minha defesa. Distribuo golpes em seu abdômen e braços, mas ele parece não sentir.

Com um sorriso debochado, Kayke ataca e me derruba. Com um baque seco, meu corpo se choca contra o chão e o lobo me prende no solo com seu peso. Ele ergue meus braços nas laterais da minha cabeça e me encara com seus olhos castanhos intensos.

-Nunca mais acerto meu rosto com um soco. Não revidei porque acredito que seja uma covardia bater em uma mulher, principalmente naquelas tão indefesas quanto você, e por respeitar ao seu pai e a Rurik. -Ele sussurra em meu ouvido.

-Eu odeio você. -Respondo e me debato.

Kayke responde com uma risada e cada fibra que me compõe se contorce com o desejo de arrancar sua expressão vitoriosa. Descontrolada, invoco meu poder e o arremesso longe com o vento.

Levantando-me, faço espinhos crescerem nas juntas dos meus dedos e, antes que Kayke consiga se erguer, pulo sobre ele e o esmurro. Uma ventania se instala na clareira, trazendo relâmpagos no céu e uma chuva fina. Quando Luke demostra querer interferir, construo uma muralha de fogo ao nosso redor para não ser interrompida.

-Scarlett, JÁ CHEGA. -Luke grita e eu o ignoro.

Os ferimentos que infrinjo nos braços de Kayke, usados para proteger seu rosto, começam a sangrar e, insanamente, isso me agrada. É como se eu estivesse possuída por toda a amargura, dor e sofrimento que já senti, resultando em uma densa escuridão que prende seus tentáculos em minha mente.

No meio da minha ira, olhar do lupino ferido se conecta ao meu e encontro algo inesperado: medo. Isso funciona exatamente como um murro em meu estômago e perco a concentração. O fogo se apaga com a chuva e, praticamente rastejando, afasto-me de Kayke.

-Alguém pode me explicar que porcaria está acontecendo aqui?

Olá, pessoal! Como estão? 

Mais um capítulo para vocês aproveitarem no carnaval!

Gostaram?

Não esqueçam de curtir e deixar seu comentário que é de extrema importância para mim ;)

Um beijão e tenham um maravilhoso feriado!

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top