Capítulo 11

John

-Nós estamos perdidos. -Katrina exclama pelo que suponho ser a milionésima vez.

Sua voz estridente ressoa pelo espaço gerando um extenso eco, o que a faz receber um olhar reprovador de Félix. Contudo, o cansaço não assola apenas a minha ex-noiva, todos estamos exaustos de sermos andarilhos pela Floresta Enevoada por tanto tempo.

Semanas se passaram desde que adentramos o vigoroso verde das árvores após nossa fuga do palácio. A ideia inicial, de acordo com minha mãe, era a de que um guia nos encontraria e levaria até o local onde as fadas estão para resgatarmos Cecília, já que foram elas que se apoderaram de minha irmã.

-Tenho a impressão de que Katrina está certa. -Confidencio a Félix.

-Eu sei, mas você tem coragem de contar a ela? -Ele responde apontando para a rainha a nossa frente.

Minha mãe lidera nosso grupo, investigando cada rota e determinando cada lugar em que montaremos acampamento. De forma misteriosa, a mulher contida e educada que me criara, fora substituída por uma criatura destemida e teimosa. Resignado, marcho até ela e me coloco ao seu lado.

-Não quero lhe chatear, minha mãe, mas a senhora tem certeza de que alguém virá até nós? -Questiono com receio.

-É claro que sim, esse é o caminho. Precisamos dar tempo para que ela consiga chegar aqui. -Ela responde.

-Ela? -Inquiro com curiosidade pela nova informação.

-Você saberá quem é no momento certo. Confie em mim, querido. -A rainha pede.

Quando suas palavras se esgotam e percebo que não receberei nenhuma outra explicação, conformo-me com seu silêncio. E é a partir da ausência de sons, que noto um ruído distante: água corrente. Os olhos da rainha brilham quando o mesmo barulho chega aos seus ouvidos e ela parte em direção a ele.

Desordenados, nós a seguimos e ao abandonarmos a proteção das árvores, nos deparamos com um extenso e cristalino rio. Suas águas são tão claras que é possível enxergar seu fundo arenoso.

Sedentos, utilizamos o rio para saciar nossa sede e nos sentamos em sua margem. Entretanto, minha mãe continua sua caminhada em busca de algo ou alguém. Ao retornar, carrega consigo uma expressão de decepção.

-Montaremos acampamento aqui hoje. Já está escuro demais para prosseguirmos. -Ela ordena.

-Nós deveríamos retornar para Aurora Negra. Estamos perdidos nessa maldita floresta! Admita de uma vez por todas que ninguém virá nos encontrar e pare com seu teatro de "mãe preocupada". -Katrina declara com insolência para a rainha.

Todo o cansaço presente no rosto de Eleonor é varrido por um semblante de puro ódio. Como uma tempestade raivosa, minha mãe suspende Katrina pelo pescoço e a prensa contra o tronco de uma árvore.

-Preste atenção no que vou dizer porque não irei repetir. Por muitos anos me curvei à vontade de pessoas mesquinhas como você, mas isso nunca mais tornará a acontecer. -A rainha ameaça. -Não tenha dúvidas de que ainda me lembro que você é um dos motivos pelos quais a vida do meu filho quase foi desgraçada. Além disso, está aqui sem ter sido convidada, sendo assim, obedecerá as minhas ordens uma reclamação sequer. -Ela termina.

Katrina cai de joelhos no chão assim que a última palavra é pronunciada por minha mãe. Um ataque de tosse toma conta de seu corpo e peço a um soldado que lhe água.

-Eu mandei que montassem acampamento. MEXAM-SE! -Eleonor grita com o resto de nós e se afasta.

Antes que eu consiga me mexer, Félix a segue floresta a dentro. Obedientemente, arrumamos as tendas e procuramos madeira para a fogueira. Katrina permanece sentada próxima ao fogo com os olhos no chão.

-Você me odeia? -Ela sussurra quando me acomodo ao seu lado.

Por alguns segundos, pondero minha resposta. De certo modo, Katrina havia contribuído para a bagunça que minha vida virara, mas não podia responsabilizada por ser uma peça no jogo do meu pai.

-Não, como poderia, não é mesmo? Somo amigos desde que me entendo por gente. -Respondo e, instantaneamente, seus ombros relaxam. -Porém, acredito que seja mais sensato não irritar minha mãe novamente. -Digo e lhe dou um sorriso.

-Nisso nós concordamos. -Katrina fala em uma risada.

Enquanto observamos o fogo, Félix retorna junto com Eleonor para nosso acampamento. Ela se senta no espaço vago ao meu lado e eu a envolvo em um abraço.

Por alguns minutos, todos permanecemos calados, apreciando a beleza natural ao nosso redor. E é nesse momento que meus fantasmas resolvem me assombrar: olhos dourados, cabelos acobreados e o sorriso mais espetacular que eu já vira.

Desde que Scarlett partira, tenho sido somente metade do homem que um dia fui. Ela havia levado consigo uma parte da minha alma, justamente a porção que garantia minha sobrevivência.

Em nossa jornada até agora, mantive-me ocupado a todo instante. Ocupei minha cabeça com quaisquer tarefas disponíveis: limpezas das armas, verificação dos alimentos, preparação de curativos para possíveis ferimentos, catalogação de plantas com Suzi. Contudo, em todos os períodos de ócio, Scarlett voltava para mim.

As estrelas começam a brilhar no céu, enquanto todas as lembranças que guardo como relíquias se projetam em minha mente. Amá-la foi a melhor e, ao mesmo tempo, a pior escolha que já tomei.

Um ruído semelhante a um rosnado chama minha atenção e viro em sua direção. Quando meus olhos miram na criatura parada entre as árvores, um calafrio percorre minha espinha. Uma imensa onça branca, muito maior do que ela deveria ser naturalmente, com três olhos azuis nos encara com os monstruosos dentes expostos.

Instintivamente, coloco-me no caminho entre a fera e minha mãe, Katrina e Suzi. Os demais soldados, assim como Félix, acompanham-me e formamos uma barreira.

Vagarosamente, a onça se aproxima de nós, em busca de pontos fracos. Quando ambos estamos prontos para atacar, uma figura em um vestido esvoaçante desponta por entre os troncos marrons.

-Você irá realmente machucar meu pequeno kertus, John?    

Olááá :)

Gostaram do capítulo? Espero que sim!

Desejo que todas (os) tenham um excelente final de semana!

Um beijão.

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