Capítulo 1
O vento castiga meu rosto enquanto admiro o nascer do sol no horizonte da mais alta árvore que encontrei para escalar. Poderia facilmente rechaçá-lo, mas a dor é um lembrete de que ainda estou viva.
Passaram-se sete dias desde nossa partida de Aurora Negra. Três dias voando sem parar e mais quatro montando acampamento nas margens de uma floresta.
Não, você não leu errado, eu voei na garupa de lindos e macios pégasos!
Até o momento, ninguém se mostrara interessado em me explicar qual a finalidade de tudo o que ocorrera. Minha suposta tia fada, Lírida, está sempre ocupada demais organizando "questões burocráticas", o capitão Carter precisa garantir que nossas defesas estão fortalecidas e Luke foge de mim sempre que me vê por perto.
Cecília não sai de nossa tenda. Nos primeiros dias, ela alternara entre chorar copiosamente e rir descontroladamente. Depois disso, permanecia em completo silêncio olhando para o nada.
Independente dos meus esforços em trazê-la para o mundo real, seus devaneios continuam. Algo mudara profundamente na princesa desde que optara por abandonar sua família.
Todavia, o que persistia imutável em nossa realidade? Em um mês, todas as minhas certezas foram postas à prova. Não há um pedaço de mim que não tenha sido contestado, avaliado e modificado. A partir do dia em que fui arrancada de minha cidade natal Marina Azul, as convicções que me regiam haviam se transformado.
Fora levada à capital do reino de Pélagus porque, por um erro do destino, o dom do fogo despertara em mim. Somente os Elementais, seres gerados a partir do relacionamento das fadas com os lupinos, possuíam poderes.
Contudo, a vida pode realmente exagerar quando se trata de escolher provações para colocar em nosso caminho. No meu caso, creio que ela tenha caprichado no exagero, dando a uma mestiça habilidades que a mesma jamais desejou.
Descobri que posso domar não apenas o fogo, mas também a água, o ar e a terra. Isso praticamente cravou um alvo em meu peito para todo o tipo de encrenca que eu poderia encontrar no palácio real. Atraí a ira de muitas pessoas, inclusive do rei Arthur Beryllus Pharus, soberano de Pélagus, o reino Elemental.
A simples recordação de seu nome faz os pelos dos meus braços se arrepiarem. O rei me detestara no instante em que seus olhos pousaram sobre mim. Ele inventara a história de que eu era sua sobrinha perdida para explicar ao povo a origem dos meus dons e me dera um mês para aprimorá-los.
Entre treinamentos, aulas de etiquetas e a profunda amizade que partilhei com Cecília, havia me apaixonado perdidamente. Logo eu que era descrente de todos os tipos de amores existentes. Entregara meu coração ao único homem que não poderia me amar: o príncipe de Pélagus, John Arthur Benjamin Galiano Beryllos Pharus. O mesmo homem que deixou apenas cacos residindo em meu peito.
John havia jurado seu amor a mim no dia do nosso casamento secreto e proibido, ou fora nisso que acreditei. No dia seguinte, após minha apresentação à corte real, seu pai me revelou que nada do que ocorrera era real. Os votos que fizemos um ao outro não passaram de um plano para testar minha lealdade à Coroa e eu, estúpida, falhara miseravelmente.
Arthur, movido por um desejo insano, tentara violentar meu corpo e, com o intuito de me salvar, Luke, um dos poucos amigos que obtive, lutou contra ele. O resultado disso foi nossa prisão e condenação por traição. Entretanto, fomos salvos por Lírida e seu pequeno exército.
Em meio a minha viagem entre as lembranças, sinto um objeto pontiagudo bater em um dos meus pés e quase caio do galho no qual estou sentada. Olhando para baixo, vejo Davi prestes a arremessar mais uma pedra. Ao notar que conquistou minha atenção, ele acena e me chama. Em seu encalço, está o dragão negro de Lírida que, desengonçadamente, tenta contornar os troncos das árvores.
Assim que chegamos à floresta, esses dois criaram um inusitado vínculo, além disso, o pequeno menino parece ter amadurecido demais em um curto intervalo de tempo. Presumo que viver em meio ao caos não poupa a inocência de ninguém.
Desço calmamente ao encontro de Davi que me recebe com um largo sorriso. De todos que nos acompanham, só ele consegue encontrar meus esconderijos quando desejo a solidão ao invés do acampamento barulhento.
-Tem novas informações para mim, soldado? –Pergunto.
-Ainda não. Eles "descobiram" meu esconderijo de espionagem. –Davi fala pesarosamente.
-Não tem problema, nós vamos descobrir o que está acontecendo juntos. –Respondo piscando um olho para ele.
-A Ceci "melhoro"? -Ele questiona.
Sinto um aperto no peito ao ver esperança em seus olhos castanhos. Cecília se tornara uma das pessoas favoritas de Davi, porém, desde que ela se perdera em sua própria escuridão, nenhum de nós consegue alcançá-la.
-Por que nós dois não vamos visitá-la? Podemos fazer o café da manhã para ela. –Ofereço, evitando responder sua pergunta.
-COM DOCES! –Ele grita alegremente.
Sorrio de sua felicidade instantânea e seguro em uma de suas mãos. O dragão começa a nos seguir assim que damos os primeiros passos, entretanto, seu tamanho o impede de prosseguir e o mesmo começa a emitir sons de lamentação.
-Esse animal vai conosco? –Inquiro com certo temor.
-Ele se chama Velikaya, Scar. "Tá" sozinho como a gente, só quer ser nosso amigo. –Davi responde em tom de censura.
Chocada com a profundidade de suas palavras, encaro-o por alguns segundos. Sem querer aborrecê-lo, respiro fundo e olho para o dragão.
-Ok, Velikaya, caso não tenha percebido, você é muito grande para andar entre as árvores. Precisa voar até o centro do acampamento e nos encontrar lá. –Digo para ele, sentindo-me patética por conversar com um animal.
Surpreendentemente, Velikaya parece entender exatamente o meu comando. Ele solta um bramido de confirmação e alça voo. Davi sorri para mim como se aquilo fosse óbvio demais. Sacudindo minha cabeça para desanuviar as ideias, começamos a trilha para os alojamentos.
Em meio a uma enorme clareira, várias barracas estão espalhadas. O mais bizarro é que a cada dia o número de tendas aumenta. Avistei a muitos empregados que havia conhecido no castelo e, aparentemente, mais deles têm surgido a cada momento.
Ao chegamos em nossa cabana, uma surpresa nos recebe: Cecília está de pé arrumando o dejejum. O espanto de vê-la fora de seu transe é tão forte que não consigo corresponder ao seu abraço quando ela se joga sobre mim.
-Scarlett, senti sua falta! –Ela diz e se vira para Davi. –Meu pequeno menino, desculpe-me por ficar tão distante e não cuidar de você corretamente. –Pede ao abraçá-lo também.
-"Tá" tudo bem, Ceci. –Ele tenta responder.
-Você está se sentindo bem, Cecília? –Pergunto cuidadosamente.
-Agora estou. Acredito que estava em choque por tudo o que aconteceu, mas percebi que ficar remoendo o passado e ter medo do futuro não nos leva a lugar algum. –Ela fala pensativamente.
-É bom ter você de volta, princesa. –Digo, em tom de brincadeira.
Uma parte da minha dor é sanada ao ver um novo brilho nos olhos de Cecília, uma nova esperança. Perdê-la também seria insuportável.
Com uma incomum felicidade, sentamo-nos sobre a toalha estendida no chão e comemos. Davi fica levemente decepcionado por não termos doces. Todavia, a alegria de ter Cecília de volta o faz superar.
-Bem, acredito que você tenha uma longa história para me contar –Cecília fala.
-Não tão longa assim. Desde que chegamos, ninguém fala comigo. Davi até mesmo está se dedicando a espionagem por minha causa, porém, ainda não descobrimos nada. –Digo, desapontada.
-Como assim não querem falar com você? A primeira atitude que eles deveriam ter tido é lhe explicar o que está acontecendo, Scarlett. Essa é a sua história, afinal. –Ela responde enfaticamente.
-Não discordo, Cecília. Entretanto, nenhum deles se mostra solícito em dar esclarecimentos para uma garota impertinente. Pode ter certeza, persegui a cada um que poderia esclarecer minhas dúvidas e todos fugiram de mim. –Conto.
-Tcs, tsc. A Scarlett que conheço não teria desistido tão facilmente. –Ela diz ironicamente.
-O que quer dizer? –Questiono incisivamente.
-Algo que aprendi sobre você é que não há limites para sua determinação. Se quer respostas, deve exigi-las. –Cecília afirma com certa malícia.
Ao fitar seus olhos azuis tão familiares, entendo que não foi somente a princesa que se perdeu em meio ao pandemônio em que vivemos. Havia abandonado a mim mesma e não possuía pretensões de me reaver.
Por mais que todos virassem as costas as minhas indagações, nunca havia insistência da minha parte. Estava apenas aceitando a passagem dos dias, era mais fácil crer que o que se sucedera até o momento não passara de um pesadelo, uma alucinação criada por minha imaginação fértil.
Decidida, levanto-me e marcho até a saída. Iria desvendar o mistério por trás de cada acontecimento que se desencadeara na minha história, descobriria as respostas para cada pergunta ainda não proferida e esclareceria os segredos que continuam encobertos. Principalmente porque a realidade agora está verdadeiramente nítida; não estou mais sonhando acordada.
Prepare-se, titia. Estou indo atrás de você e dessa vez teremos uma longa conversa.
Olááá, pessoas! Bem-vindas a mais uma aventura gerada na minha cabeça maluca!
Espero que essa história traga um pouco mais de alegria e brilho à vida de vocês.
Para você que não conhece essa história, esse é o livro 2. O primeiro se chama Coroa de Fogo, sendo assim, não inicie este antes de ler aquele.
É um enorme prazer tê-los aqui comigo. Espero que gostem!
Um beijão!
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