Capítulo 13 - Indiferença
Carolina Smith
Depois de três horas intensas de aula de confeitaria, saí da escola com as mãos ainda cheirando a baunilha e açúcar. Peguei o metrô em direção ao bistrô onde trabalho, na esperança de que o ritmo acelerado do restaurante me ajudasse a desligar um pouco a mente. As últimas noites tinham sido um turbilhão de emoções e dúvidas, mas eu estava decidida a focar no que realmente importava: meu curso, meu trabalho e meu sonho de me tornar chef.
Cheguei ao bistrô com tempo suficiente para um rápido almoço antes de começar o turno. Enquanto mordiscava um pedaço de quiche, me forcei a não pensar nele. Louis. A lembrança dos beijos na festa ainda queimava minha pele, mas as palavras de Jenifer ecoavam como um alerta. Ele era o tipo de homem que eu sempre prometi evitar, e estava disposta a manter minha promessa.
Coloquei o avental, amarrei o cabelo e comecei meu turno. O restaurante estava movimentado como sempre, cheio de turistas, estudantes e locais. Entre pedidos apressados e bandejas pesadas, eu mal tive tempo de respirar, muito menos de pensar nele. Até que, no meio do caos, notei uma mesa no canto. Um grupo de homens bem vestidos discutia algo com expressões sérias, todos impecáveis em seus ternos escuros.
Minha respiração travou por um instante quando meus olhos o encontraram. Louis. Lá estava ele, sentado na ponta da mesa, casualmente inclinado para trás, mas com um olhar atento e calculista, como se fosse o centro daquele pequeno universo. Era um contraste gritante com o Louis descontraído e sedutor da festa. Hoje, ele parecia... perigoso.
Tomei um instante para me recompor. Ele não parecia me notar, ou talvez estivesse fingindo que não. De qualquer forma, eu decidi agir como se ele fosse apenas mais um cliente. Peguei meu bloco de anotações, coloquei meu melhor sorriso profissional e me aproximei da mesa.
— Boa tarde, senhores. Já decidiram o que vão querer? — Minha voz saiu firme, quase casual, mas meu coração parecia uma britadeira.
Louis ergueu os olhos lentamente, encontrando os meus. Por um breve momento, algo reluziu em seu olhar — surpresa, talvez? Mas logo foi substituído por uma frieza desconcertante. Ele me olhou como se eu fosse... ninguém. Apenas mais uma garçonete em Paris.
Um dos homens da mesa pediu um vinho caro, e os outros começaram a discutir o cardápio. Louis não disse nada. Apenas observava, como se estivesse avaliando algo muito mais importante do que a comida. Eu senti a ponta de um nó se formar no estômago, mas engoli em seco e continuei com meu papel.
— Voltarei com os pedidos em alguns minutos — anunciei, virando-me sem pressa, mas com a espinha ereta.
No caminho de volta ao balcão, as emoções começaram a borbulhar. O que ele estava fazendo aqui? E por que agia como se não me conhecesse? Respirei fundo e me obriguei a manter a compostura. Se ele podia ser indiferente, eu também podia. Aliás, estava na hora de dar a ele um gostinho do próprio veneno.
Voltei com os pedidos minutos depois, mantendo a mesma expressão neutra. Servi o vinho com precisão, tomando cuidado para não derramar uma gota sequer, e coloquei os pratos à mesa. Evitei olhar diretamente para ele, mas senti o peso do olhar de Louis em mim o tempo todo. Quando terminei, recuei com um leve sorriso profissional.
— Se precisarem de algo, é só chamar.
Ele não respondeu. Nem um agradecimento, nem um sorriso. Nada. Apenas continuou conversando com os outros homens, como se eu fosse invisível. Por dentro, minha indignação crescia, mas me forcei a manter o controle. Se ele queria me ignorar, ótimo. Duas podem jogar esse jogo.
Quando a mesa finalmente terminou e eles se preparavam para sair, Louis deixou algumas notas sobre a mesa. Foi quando nossos olhos se encontraram novamente, e por um segundo, apenas um segundo, tive a impressão de ver algo diferente em seu olhar. Arrependimento? Curiosidade? Não tive tempo de decifrar. Ele desviou o olhar antes que eu pudesse ter certeza.
Enquanto eles saíam do restaurante, senti uma mistura de alívio e frustração. Alívio porque ele finalmente tinha ido embora. Frustração porque, apesar de toda a indiferença, meu coração ainda batia mais rápido do que eu gostaria de admitir.
“Não importa”, pensei, apertando os nós dos dedos. “Eu vim para Paris por mim, pelos meus sonhos. Ele é apenas uma distração.”
E naquele momento, decidi que, se Louis queria jogar, eu também sabia como jogar.
Quando meu turno finalmente acabou, o relógio já marcava quase nove da noite. Minhas pernas estavam exaustas e meu corpo pedia cama, mas meu armário no dormitório estava quase vazio, e eu precisava de algumas coisas para sobreviver à semana. Suspirei, jogando o avental na bolsa e saindo do bistrô.
O supermercado ficava a poucos quarteirões de distância, e o ar fresco da noite ajudava a limpar minha cabeça. As ruas de Paris estavam iluminadas pelas luzes amarelas dos postes e pelo brilho dos cafés que ainda recebiam clientes. Eu amava essa cidade, com toda a sua energia, mas naquele momento, só conseguia pensar em comprar o básico e voltar para o meu quarto.
O supermercado estava surpreendentemente movimentado para aquela hora. Peguei uma cestinha de mão e fui direto para os corredores mais vazios. Meu objetivo era simples: macarrão, molho, pão e talvez algo doce para compensar o dia. Estava no corredor de vinhos, escolhendo uma garrafa barata, quando senti um leve empurrão no ombro.
— Desculpe — murmurei automaticamente, virando-me para ver quem era.
E lá estava ele. Louis.
Por um momento, fiquei paralisada. Ele estava vestido casualmente, algo raro de se ver. Uma jaqueta de couro escura, jeans e botas, mas ainda assim emanava aquela mesma presença imponente, como se fosse impossível ignorá-lo. Ele segurava uma garrafa de vinho na mão, e um leve sorriso brincava em seus lábios.
— Parece que temos o hábito de nos esbarrar, não é? — Ele disse com a voz baixa e carregada de ironia.
Era a chance perfeita de responder algo espirituoso ou ácido, mas em vez disso, fiz algo que surpreendeu até a mim mesma. Sorri de maneira educada, como faria com qualquer estranho, e me virei para continuar analisando as garrafas de vinho, sem dar atenção.
Senti o olhar dele queimando minhas costas.
— Então, agora você não fala comigo? — Ele perguntou, com um tom que misturava diversão e curiosidade.
Peguei a garrafa que queria e coloquei na cestinha antes de me virar para encará-lo. Mantive a expressão neutra, como se ele fosse só mais um homem que tive o azar de cruzar no corredor.
— Acho que não temos nada para conversar, não é? — Respondi calmamente, dando de ombros.
Ele arqueou a sobrancelha, surpreso com minha resposta. Louis não parecia ser do tipo que ouvia “não” com frequência.
— Você parecia bem interessada em conversar na festa — retrucou, inclinando a cabeça para o lado.
Ah, então ele queria jogar? Tudo bem.
— Aquilo foi na festa. Agora estamos em outro lugar, outro contexto. — Meu tom era quase clínico, como se estivesse explicando algo óbvio para uma criança. — E, sinceramente, eu estou ocupada.
Me virei antes que ele pudesse responder e segui para o caixa, meu coração disparado. Por fora, eu estava impecável, mas por dentro, a adrenalina corria como louca. Não era fácil enfrentá-lo, mas era necessário.
Quando terminei de passar as compras, senti sua presença novamente. Ele estava a poucos metros de distância, ainda segurando a garrafa de vinho, me observando com aquele olhar calculista. Por um instante, pensei que ele fosse dizer algo, mas ele permaneceu quieto.
Saí do supermercado sem olhar para trás, mantendo minha postura firme. Assim que dobrei a esquina, o ar noturno pareceu mais leve. Louis podia ser quem quisesse, mas eu não seria mais uma peça no jogo dele.
Enquanto caminhava de volta para o dormitório, uma sensação estranha me tomou. Parte de mim estava orgulhosa da forma como o enfrentei, mas outra parte sabia que aquele encontro não tinha sido o fim.
Louis não era do tipo que aceitava um “não” facilmente. E, no fundo, eu sabia que ele não ia desistir tão cedo.
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