Um Favor - END

Max Thieriot como Nathan Blake
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  Derek se encontrava sentado em sua cama, encostado na cabeceira e com o notebook apoiado em suas pernas cobertas por um edredom azul enquanto ao seu lado havia a embalagem aberta de um dos Cheetos que tinham sobrado do jogo. No criado-mudo estava uma latinha aberta de Dr.Pepper, um refrigerante popular em seu país.

  Hora ou outra pegava a bebida para dar um gole, ou pegava um ou dois salgadinhos na embalagem ao mesmo tempo em que prestava atenção na chamada de vídeo que fazia no Skype com seus dois amigos: Harry e Thomas, visíveis cada um em um dos três quadradinhos que haviam na tela. Eles estavam nos dois maiores enquanto Derek era visto no menor, abaixo destes.

— Não acredito que quebrou uma das garrafas caras de sua tia — disse o latino em meio a um riso. — Você é louco, cara.

— Aah, eu só queria um gole de vinho. Não tinha ninguém em casa, eu estava entediado e quando passei pela sala, aquela garrafa ficou me olhando como se estivesse implorando pelos meus lábios — Harry retrucou em baixo tom, dramatizando um pouco a última parte e fazendo os outros dois rirem. Ele era o único que estava usando o Skype pelo smartphone, e ainda por cima, iluminava seu rosto com uma lanterna por baixo de seu edredom do Spider-Man que carregava consigo desde seus dez anos de idade e não queria se desfazer deste de jeito nenhum. — Fora que foi mês passado, como ela foi perceber só agora que a garrafa havia sumido? E Victoria bebe tanto quanto eu, então, por que eu fui o primeiro suspeito?

— Ela sabe que está no smartphone? — indagou Daniel antes de pegar mais um salgadinho do pacote e comer.

— Claro que não, eu dei a desculpa de que precisava dele para a escola, ela disse que esconderia e me entregaria na segunda-feira, mas agora que está dormindo, eu descobri onde era o esconderijo. Vou devolver para lá assim que acabarmos aqui.

— Se ela acordar e descobrir, você está ferrado.

— Nah, ela tem um sono pesado, é muito difícil que acorde. Ela não consegue acordar nem com o despertador de manhã, meu tio tem de balançar e chamar ela váárias vezes.

— Quando fiquei de castigo no mês passado, não conseguia recuperar meu celular nem por um minuto — Thomas enquanto girava para um lado e para o outro em sua cadeira giratória. — Minha mãe Tanya o escondeu em seu quarto e, fora isso, ela parece que tem ouvidos em todos os lugares. Falo sério, já houveram vezes em que eu levantei para beber água e quando ela não saía para perguntar se estava tudo bem ou o que eu estava fazendo, ela me mandava alguma mensagem. Acontecia mais quando eu era mais novo, agora é mais raro.

— Wow, que loucura — Becker respondeu em meio a um sorriso que destacou as covinhas em suas bochechas. A lanterna deixava seu rosto mais branco que o normal e seu vídeo estava em ótima qualidade diferente do de Ramírez, que não estava tão boa assim. Quanto a de Derek, falhava um pouco dependendo do movimento que ele fazia.

  Enquanto seus amigos iniciavam uma conversa sobre os motivos pelos quais ficaram de castigo algumas vezes, Daniel pensava calado em como sentia saudade até mesmo dos castigos que tivera embora tenham sido poucos pelo fato de sempre ter sido uma criança calma. Sua irmã mais nova era pior do que ele era, tanto na idade dela naquela época, quanto antes. Ela aprontava bem mais e até mesmo ele já teve de colocá-la de castigo em uma das vezes que ficou tomando conta dela. Havia sido uma experiência estressante, mas até desses momentos sentia falta. Seria capaz de qualquer coisa para ter sua família de volta…

  ...Mas se sua mãe estivesse viva, será que se orgulharia de saber o que seu filho fez e o que faz até hoje? E sua irmã? Ela foi a razão pela qual o jovem havia fugido da casa de seus avós há quatro anos, mas será que ela ficaria feliz em saber do que ele foi capaz  de fazer para tentar encontrá-la?

De qualquer forma, já perdi as esperanças de que ela esteja viva… concluiu consigo mesmo.

— Derek — ao ouvir seu nome ser chamado por Thomas, o garoto voltou a prestar a atenção em seus amigos. — Está tudo bem, cara? Quer que paremos de falar sobre isso?

— Não — franziu o cenho e balançou a cabeça negativamente. —, eu só estava pensando. Não consigo me lembrar de algum motivo interessante que tive para ter ficado de castigo, eu sempre fui muito calmo. Acho que no máximo foi por preguiça de fazer alguma coisa como limpar meu quarto ou lavar a louça, ou alguma resposta malcriada que devo ter dado quando mais novo… bom, houve a vez em que meu tio me ofereceu bebida no natal de… — Olhou para baixo por um momento. — 2008 ou 2009, eu acho. Daí eu e meu primo aceitamos e ficamos um pouco embriagados. — Riu anasalado. — Minha mãe brigou feio com meu tio e comigo, além de me deixar sem televisão e sem computador por um mês.

— Bebidas… uma hora nos trazendo alegria e outra hora nos trazendo problemas. — disse Harry, fazendo com que os outros dois concordassem.

  Derek ouviu o celular vibrar no criado-mudo, atrás da latinha de Dr.Pepper e logo olhou naquela direção, vendo que um número desconhecido estava ligando.

— Um minuto, tem alguém ligando — o jovem disse ao voltar o olhar aos amigos e logo desativou a webcam e o microfone antes de pegar seu aparelho telefônico e atender a ligação. — Alô?

— Hey, Double D! Quanto tempo. Como vão as coisas aí no fim do mundo?

  O jovem se assustou ao ouvir a voz vinda do outro lado da linha. Jamais pensou que escutaria aquela voz novamente, pensou que a última vez seria naquela despedida em Chicago em janeiro... mas pelo visto estava enganado...

Preciso mudar meu número, pensou consigo mesmo. Não gostava de manter contato com as pessoas das antigas cidades em que morou, isso porque na maioria das vezes não eram pessoas “boas”.

— Hey… — franziu o cenho e forçou um sorriso, mesmo que o outro não pudesse ver. — Jeffrey… Vão bem, acho. E com vocês?

— Também. Estamos com uma puta saudade, Kaitlin sempre fala de você — riu — Vai voltar para nos visitar quando?

  Derek não quis responder. Ele jamais voltaria e sabia disso. No máximo atravessaria a cidade para ir à outra quando fosse embora de Heaven Hills, e se fosse, mas as únicas paradas que daria seriam para comer, ir ao banheiro e talvez se hospedar em algum hotel para poder dormir.

— Vou ver algum dia — se forçou a mentir. Mas sendo mentira ou não, Jeffrey não pareceu se importar muito. Na verdade pareceu ter perguntado aquilo apenas por educação.

— Certo, certo — falou no mesmo tom “alegre” de antes. —, vamos direto ao assunto. Houveram alguns problemas com um dos nossos, um que está aí nessa cidade e eu preciso que me faça um favor…

***

— Nathan? — indagou Claire com o cenho franzido ao ver ninguém mais ninguém menos que seu irmão mais velho, com uma mão apoiada no batente inferior de madeira pertencente à janela do quarto das meninas e a outra agarrada à grade florida ao lado, a qual se estendia de um pouco abaixo do telhado até o chão.

  Sem pensar duas vezes, ela abriu a janela e deu a mão para o garoto  que a segurou e, com um pouco da ajuda dela, entrou no quarto.

— O que está fazendo aqui?

  Heather fazia a mesma pergunta, porém no pensamento, encarando o loiro com seu cenho franzido e os braços entrelaçados.

  Nathan, antes de tudo, abraçou sua irmã mais nova e depositou um beijo em sua cabeça. Exalava um cheiro estranho, semelhante a terra molhada, mas a garota não ligou para isso, apenas retribuiu o seu abraço.

  Havia um pouco mais de uma semana desde que se viram, tinha sido na última vez em que James viajara. Mas para ele, parecia que tinha se passado muito mais tempo. Seus últimos dias tinham sido tão difíceis, alguns chegavam a parecer uma eternidade. É o que se ganha quando se trabalha com algo perigoso.

— Apenas uma visita rápida — ao soltá-la, ele foi em direção à outra, também a abraçando, mas depositando o beijo em sua testa. — Estou sem celular — Logo a soltou também e desviou o olhar para sua irmã biológica novamente. —, não tinha como avisar que eu viria. Também foi por isso que eu não entrei pela porta da frente. — Suspirou e voltou o olhar à Heather. — Também para não ter o risco de acordar o pai e ter de ficar ouvindo ele falar… — Desviou o olhar para baixo e umedeceu os lábios — aquelas coisas para mim... vocês sabem.

— Mas tem uma cabine telefônica aqui perto — disse Heather, ainda com o cenho franzido. —, logo na entrada da rua.

— Estou sem nada — suspirou novamente. — Sem um mísero centavo. E minha gasolina está quase acabando. Estou fodido.

— Nate, se está aqui para pedir dinheiro, saiba que nós…

— Não — a interrompeu, mantendo o tom sereno. —, não, isso eu vou conseguir arranjar. Realmente só quis fazer uma visita rápida e dizer que vou passar uns dias em Chicago, então… não sei qual vai ser a próxima vez em que virei aqui, mas se conseguir, entro em contato.

— Chicago? — as duas garotas indagaram juntas e se entreolharam logo em seguida.

— Mas… acabou de dizer que está quase sem gasolina — Claire proferiu sozinha ao voltar o olhar ao irmão. — E como vai arranjar o dinheiro?

  O loiro se manteve calado, encarando sua caçula com a boca entreaberta, mas logo desviou o olhar para o chão e umedeceu os lábios.

— Ah… — deixou escapar entre um suspiro. — de uma coisa eu tenho certeza... — E então disse, sem dar uma resposta certa à pergunta de Claire: — Nunca vou deixar vocês entrarem nessa vida que eu tenho.

  As meninas se mantiveram caladas, sem dizer nada sobre o que o mais velho havia acabado de falar. Ele logo se apoiou na janela, sentando, observando por cima do ombro o farfalhar das folhas das árvores ali próximas e sentindo em seu corpo o ar gélido da noite. Tinha lembranças daquela simples janela, não era a primeira vez que havia a escalado para ver as meninas. Adorava ficar ali conversando com elas de vez em quando, ouvir novas, entrar de fininho depois de seu pai expulsá-lo de casa… Esperava que não demorasse muito para que pudesse vir ver as suas irmãs novamente. E ao pensar nisso, lembrou que faltava uma terceira ali. Já imaginava não encontrá-la assim que veio, afinal, ela já tem seu próprio quarto. O quarto que era apenas dele antes…

— Queria me despedir da Kate também… Ela está?

— Vou mandar uma mensagem para ela — retrucou Claire antes de andar até sua cama e pegar o celular.

— Então… — olhou para Heather. — O papai ainda anda bebendo demais? — Ela apenas assentiu com a cabeça, com seus braços entrelaçados sobre o peito. — Deus… — Ele revirou os olhos e levou a mão à nuca, suspirando. — Espero que não dê alguma merda e ele acabe mal...

  Heather apenas franziu o cenho e o encarou um tanto séria. Sabia que Nathan mexia com coisas bem piores do que bebida, ele deveria estar mais preocupado com si mesmo do que com James. Ela quase deixou escapar uma resposta grosseira de sua boca em relação a isso, mas conseguiu se segurar. Porém, só de notar o olhar dela, o garoto percebeu o que sua irmã adotiva estava pensando.

  Foi preciso menos que um minuto para que uma garota negra de cabelo joãozinho abrisse a porta, exibindo um sorriso nos lábios e trajando uma calça de moletom cinza acompanhada de um top verde musgo. Ela andou até o garoto loiro e o abraçou como se não o visse há anos, dando dois tapinhas em suas costas.

— Veio para ficar, certo? — indagou ao se separar dele, deslizando as mãos de suas costas para seus ombros. — Como vão as coisas?

— Está tudo a mesma merda de sempre… — retrucou o loiro, forçando um risinho ainda sem responder sua primeira pergunta. — E quanto a vocês? Fiquei sabendo que Claire agora é uma cheerleader. — Olhou para ela.

— Pois é — Kate concordou entre um riso. —, agora ela é uma das Barbies saltitantes. — Se virou para as duas irmãs que estavam lado a lado e levou uma mão à cintura nua. Seu irmão franziu o cenho e deixou um riso escapar. — E até que ela manda bem. Mas acredita que antes de entrar para a equipe, eu e Heather nunca nem mesmo vimos ela ensaiar? — Voltou o olhar a ele por cima do ombro.

— Um péssimo apelido, Kate… — ela retrucou em um sorriso, balançando a cabeça negativamente.

— Ah, representa a grande maioria.

— Eu prometo que vou fazer o possível para ir em um dos jogos. — ele sorriu e adentrou os bolsos do jeans com as mãos. — Assim que conseguir um novo telefone, vou entrar em contato com vocês… bom… eu juro que queria ficar mais, mas tenho de ir. Espero que eu consiga ver vocês novamente o mais rápido possível.

  Kate franziu o cenho, encarou as irmãs e logo se virou para o irmão.

— Espera, espera, espera, o quê? Você chegou agora e já vai embora assim? Rápido dessa forma? Não veio para ficar?

— Eu não tenho muito tempo… Vim aqui apenas para me despedir — suspirou e comprimiu os lábios. — Me desculpe, Kate.

— Despedir? Como assim? Para onde você vai?

— Sh, sh, sh — Heather chiou ao olhar de canto para a porta. Tinha a certeza de que ouvira o barulho de passos subindo na escada, e quando tudo ficou em silêncio, os outros também puderam ouvir.

  Nathan não teve nem tempo de abraçar as duas loiras. Apenas abraçou Kate mais uma vez, depositou um beijo em sua cabeça e acenou para as outras duas antes de sair pela janela o mais rápido que pôde e se agarrar à grade de flores ali próxima.

  A garota de pele escura deu dois passos para chegar à janela e no exato momento em que colocou suas mãos no batente, James empurrou a porta do quarto e entrou, fazendo-a se virar de imediato. Ele estava trajando apenas uma boxer, seu cabelo se encontrava extremamente bagunçado e seu semblante visivelmente muito, muito exausto.

— Te acordamos, James? — indagou Heather. — Chamamos Kate para conversarmos um pouco e estávamos nos preparando para procurar algum filme para ver, mas… — Em seu tom, tentava parecer a mais convincente possível.

— Tive um sonho ruim, precisava ver como vocês estavam… — bocejou. — Graças a Deus não tem uma gangue armada aqui… — Coçou a barba rala ao mesmo tempo em que as meninas se entreolharam. Não era a primeira vez que isso acontecia, e também, não era a primeira vez que James tinha esse tipo de sonho. Eles não eram frequentes, mas por muitas vezes vieram assustá-lo.

— Quer dormir aqui, pai? — Claire. — Podemos colocar os colchonetes no chão e você dorme aqui com a Kate.

— Não, tudo bem, isso vai dar trabalho e eu estou… — bocejou novamente. — cansado… foi apenas um sonho ruim… Boa noite, meninas. Amo vocês.

— Também te amamos — as três disseram em uníssono. James saiu do quarto logo em seguida e assim que fechou a porta, Kate andou até as duas garotas.

— Certo, me expliquem qual é a do Nathan — falou quase em um sussurro.

***

  Em meio aos latidos de Debbie, Derek abriu a porta de sua casa, dando de cara com um homem um pouco mais alto que ele. Estava todo vestido de preto, os cabelos eram loiros assim como a barba cerrada a qual ele apresentava e seus olhos eram azuis-esverdeados. Suas feições lembravam muito as de uma de suas amigas. E também do pai desta.

  Derek não se preocupou em vestir uma roupa decente para receber aquele homem, continuava com a mesma camiseta branca e samba-canção preta. Na verdade, nem era preciso visto que hoje ele só iria entregar o dinheiro que seu velho amigo havia pedido para emprestar àquele cara. Nem precisaria sair de casa ou convidá-lo para entrar.

  Sem dizer uma palavra, o jovem entregou um bolo de notas de dólar presas em um elástico para o homem à sua frente que agradeceu logo em seguida. Em resposta, Daniel apenas assentiu com a cabeça e fechou a porta calado.

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