3- Um grande Erro
“Saí ontem tarde da noite para beber
E exagerei
E agora a luz da manhã
Veio chutar minha bunda”
— The Worst Hangover Ever, The Offspring
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Terça-Feira, 05 de agosto de 2014
O ar vibrou com o som de uma suave música tocando, uma a qual fez com que Claire e Heather Blake acordassem imediatamente. Ambas estranharam o fato do som ser diferente do qual elas costumavam ouvir toda manhã, e ainda por cima vir do celular de Heather, visto que era o de Claire que era usado como despertador.
Quando a mais alta pegou o seu pequeno celular, ela avistou a foto de seu melhor amigo Victor por trás daquela tela quebrada, apresentando abaixo as opções de recusar e de atender a chamada. Confusa e ao mesmo tempo irritada por ter sido acordada, ela atendeu.
— Vic? — indagou em uma voz sonolenta enquanto a outra esticava o braço sem muita mira para pegar o próprio celular que sempre, antes de dormir, guardava em cima do criado-mudo branco, ao lado do abajur rosa-claro cujo dava uma luz ao quarto a noite quando necessário. Quando apertou o botão lateral do aparelho, estreitando os olhos por ter sentido-os arder devido a iluminação esbranquiçada da tela, ela se surpreendeu ao ver que ainda eram 05:32 AM. Tinham menos de uma hora e meia para dormir
— Heath, socorro — Victor disse em baixo tom do outro lado da linha. — Acho que acabei bebendo demais ontem a noite e fiz algo que... meu Deus, socorro... — E no mesmo momento, pela preocupação, a garota se sentou rapidamente na cama, fazendo sua irmã encará-la com um olhar de dúvida.
— O que você fez?
— Eu... transei... — isso fez com que Heather revirasse os olhos e relaxasse os ombros antes tensos.
— Normal, Vic. Acontece em quase todas as festas que vai.
Claire queria dormir. Pensou em pedir para que sua irmã fosse para o corredor, mas ao invés disso apenas colocou seu aparelho de volta no lugar, fechou os olhos, se ajeitou na cama e passou a esperar ela terminar.
— Deixa eu terminar, cacete! — ele ainda proferia em baixo tom como se fosse um risco outra pessoa ouvi-lo. — Eu transei com Rachel Husky e acho que nós não usamos nada.
— O quê?! Como assim, céus, você não era gay?! — a exaltação da garota fez a outra se assustar e novamente abrir os olhos para olhá-la, deixando um longo suspiro escapar em seguida.
— Eu... eu já fiquei com garotas antes, okay? Ainda posso ficar se eu me interessar, mas eu prefiro garotos... olha, o que importa é que estávamos bêbados e não usamos nad... — parou por um momento. — Falo com você na escola, tenho de desligar, tchau. — Murmurou de forma rápida e desligou antes mesmo que sua melhor amiga respondesse. Ela suspirou, olhou para o celular e logo o pôs de volta no criado-mudo, voltando-se a deitar.
— O que aconteceu? — perguntou Claire em uma voz sonolenta.
— Victor em problemas... te explico depois — bocejou e ajeitou seu edredom fofo e estrelado no corpo. — Vamos primeiro dormir pelo tempo que nos resta.
***
Após misteriosamente ter acordado nu ao lado de Rachel Husky, Victor Reincke ficou bastante assustado, até porque não fazia a mínima ideia de como isso havia acontecido. Ele se levantou, caçou suas roupas no chão de porcelanato e após tirar o celular do bolso de sua calça, deixou um longo suspiro escapar ao notar que sua película havia rachado.
Ao se vestir, pensou em sair como se nada tivesse acontecido, como havia feito com os caras que tinha dormido. Mas aquilo não era uma residência qualquer ou um simples hotel e sim a maior casa de Heaven Hills, pertencente a família mais rica da cidade, que incluía o diretor de seu colégio. Nem mesmo a casa da prefeita a ultrapassava.
Com medo de ser visto por algum empregado e sem saber o que fazer, o garoto foi em direção ao banheiro daquela suíte — que era quase tão grande quanto o quarto —, fechou a porta de forma bem devagar e ligou para sua melhor amiga. Não fazia ideia de que horas eram, mas não se importava.
...A conversa não durou nem dois minutos. Duas batidas na porta o interromperam. Ele sussurrou da forma mais rápida possível que falaria com a amiga depois e encerrou a chamada antes de pigarrear e dizer:
— Estou indo para o banho! — uma pequena parte temia que não fosse Rachel atrás da porta, mas ele estava certo de que era... quase totalmente...
A maçaneta girou, Victor se virou para olhar naquela direção e logo a garota de longos cabelos azuis adentrou o banheiro. Vestia uma lingerie preta que caía muito bem em seu corpo, muitos garotos ficariam loucos em vê-la daquela forma, mas Victor apenas manteve o semblante nulo por um momento antes de comprimir os lábios e entrelaçar os braços à frente do peito, encarando aquela garota sorridente.
— Posso me juntar? — ela levou a mão à fina cintura e o garoto arqueou as sobrancelhas, prestes a rir de nervoso. — Foi incrível... eu... eu nem acredito que fizemos isso... — Andou até ele que se segurou para não dar alguns passos para trás. — Meus irmãos e minhas amigas diziam que você cortava para o outro lado, mas... sabe, esse seu jeitinho de nerd heterossexual não me engana. — Agora ele não conseguiu conter o riso.
— "Jeitinho de nerd heterossexual"? Okay, Rachel, me desculpe... deixa o banho para lá, sabe, eu... — andou em um meio círculo em volta da garota, de uma forma que não deixasse de olhar para ela que o seguiu com os olhos antes dele parar à sua frente novamente, dessa vez do lado oposto. — Eu realmente preciso ir... — O semblante dela mudou no mesmo instante, deixando explícito seu aborrecimento por aquela resposta.
— Oh... certo... eu entendi... — suspirou, mordeu o próprio lábio inferior e entrelaçou os braços à frente do peito. — Deus, os homens... eles são todos iguais... — E balançou a cabeça negativamente. Victor franziu o cenho e se perguntou: Sério? Estamos em 2014 e ainda usam essa frase?
— Saia pela janela — ela continuou. —Não quero que saibam que eu dormi com você...
— Pela janela? Nós não estamos... sei lá, no segundo andar?
— Eu não me importo, só saia! — exclamou.
O que aconteceu com ela? Ele pensou, também se perguntando como tinha bebido tanto ao ponto de não se lembrar de nada. Isso nunca havia acontecido com ele. Nem ao menos estava de ressaca... O que até que era um ponto positivo...
— Rach...
— Saia. daqui! — ordenou irritada, apontando para a porta com as lágrimas prestes a cair de seus olhos.
— ...Tá bom... — o jovem sussurrou um tanto constrangido ao encolher os ombros. Logo guardou o celular no bolso e saiu daquele cômodo, indo em direção à grande janela daquele quarto coberta por duas cortinas douradas. Ao abri-las, pôde ver o céu meio alaranjado por detrás da grande árvore que ficava a frente daquela janela. E essa mesma árvore coberta de galhos fez o garoto pensar que talvez a descida possa não ser tão difícil.
Está na hora de voltar à infância, pensou com um sorriso, se lembrando das escaladas que fazia em meio às brincadeiras com Harry, Luke, Kate, Victoria e seu irmão. Às vezes Claire participava, mas ela não era tão boa subindo em árvores e nem gostava muito.
***
Victor conseguiu chegar à casa, porém sujo, coberto de pequenos galhos e com dois rasgos em seu casaco vermelho nas regiões dos cotovelos que estavam ralados por não ter tido uma escalada de sucesso.
Ao ficar à frente da porta, ele suspirou e retirou o chaveiro preso ao passador de sua calça. Colocou a chave certa na fechadura e a girou junto da maçaneta, se surpreendendo ao empurrá-la e dar de cara com seu irmão mais velho que, junto de sua avó, o encarava, sentados em cada poltrona vermelha. Estas eram separadas por um tapete branco e felpudo cujo — pela visão de Victor — na horizontal ficava no meio delas e na vertical ficava entre um grande sofá também vermelho e vazio e uma lareira apagada que apresentava uma televisão um pouco acima, pregada à parede pétrea.
— Hmm... bom dia? — o Reincke mais novo disse e a idosa apenas suspirou antes de levar a mão ao cenho. Seu irmão umedeceu os lábios e olhou para baixo se mantendo calado. — Vó, como foi a viagem? — Ele fechou a porta e se aproximou, assim enrugando as sobrancelhas ao reparar no rosto machucado de seu irmão mais velho. — Céus, Andrew. O que aconteceu com você? — Indagou preocupado. Pensou em dar um palpite, mas desistiu ao se lembrar de quem estava ali com eles. Não sabia se ela estava ciente de algo.
— Eu saio por dois dias e quando volto... olhem só para o estado de vocês dois — a voz dela era rouca, além de apresentar um sotaque russo um tanto afiado. — Vocês querem deixar a avó de vocês maluca?
Anya Volkov — a avó materna de Victor e Andrew — não era tão velha assim. Estava por volta de seus sessenta e quatro anos. Ela era meio gorducha, tinha a pele clara, possuía sardas pela face e pelo corpo que apresentavam poucas rugas e sempre tingia seus longos cabelos brancos de ruivo. Antes de envelhecer, esta costumava a ser sua cor natural. Seus olhos eram escuros e grandes, mas conseguiam ficar ainda maiores com o óculos redondo que sempre usava.
Após a morte de sua filha há quatro anos, ela teve de deixar sua casa em Moscou e ficar responsável pelos meninos pois não havia mais ninguém para cuidar deles. Os parentes maternos viviam na Rússia e eles nunca tiveram contato com os do pai cujo fugira com outra mulher semanas depois de descobrir a doença da esposa. Ninguém o perdoou e jamais o perdoaria por isso mesmo que voltasse profundamente arrependido, o que não aconteceu e provavelmente nem acontecerá. A idosa até hoje o repudia e se refere a ele como “O canalha que abandonou a minha filha”.
— Eu só caí de uma árvore, estou bem — falou o caçula.
— E o que você estava fazendo na árvore a essa hora, meu querido?
— Oh... eu... é uma história engraçada — forçou um sorriso e levou a mão à nuca antes de desviar o olhar para o ruivo. — E você, Andrew? O que aconteceu, por que está machucado?
— Porque ele arrumou uma briga na... festa em que vocês foram ontem. E você provavelmente andou se "divertindo", não é? — estreitou os olhos grandes e castanhos.
— ...É uma história engraçada...
— Deveria ter ficado com o seu irmão... — ela apontou para o sofá. — Sente-se, preciso conversar seriamente com vocês dois...
— Só não demore muito, vó — Andrew disse sua primeira frase desde que o irmão chegou. — Temos aula às oito e eu preciso de um tempo para me arrumar.
— Não seja tão fresco, garoto, você nem tem que se arrumar muito e... são quantas horas? — franziu o cenho pouco enrugado. — Seis? Temos tempo de sobra...
***
— Heath, vamos! — James exclamou ao pôr a mão em forma de concha ao lado dos lábios e olhar em direção às escadas amadeiradas — As garotas já estão prontas, só falta você! — E logo se virou, pondo-se a caminhar em direção à porta, fazendo o chaveiro em sua mão tilintar a cada passo. Suas outras duas filhas já haviam saído e o esperavam em frente à sua caminhonete velha.
Heather, sentada à própria cama, ouviu o que o homem havia dito, mas não deu muita atenção e, como na maioria das vezes, iria ser a última a sair de casa. Mas o motivo não era o fato dela demorar para se arrumar ou o fato dela quase sempre se distrair com vídeos do YouTube ou a cisma de que estava se esquecendo de algo, como costumava a ser na maioria das vezes. Ela simplesmente se viu presa em seus pensamentos e acabou se desligando total da vida real.
Ainda tentava de tudo para se lembrar do que havia acontecido na noite da boate, mas as únicas coisas que vinham à sua cabeça eram aqueles mesmos flashes e aquela voz rouca e irreconhecível que ouvira antes de "apagar". Também pensava sobre o garoto que a salvou, sobre o que ele — ou até mesmo ela — poderia ter feito naquele seu estado e o porquê dele ter pedido para ter um encontro com ela para logo depois estar aos beijos com uma garota qualquer.
Bom, é aquele velho ditado: “A fila anda”.
E além disso, ela pensava no que seu melhor amigo foi se meter. Além de não ter usado proteção, um dos irmãos daquela garota não gostava dele e se isso caísse em seus ouvidos, seria capaz de Victor ter problemas até mesmo com o diretor do colégio.
Em sua mente, Heather apenas desejava que tudo ocorresse bem para ele...
Beep! Beep!
Ao ouvir a buzina do carro de James, ela se assustou e se levantou da cama em um rápido movimento. Sabia que iria ouvi-lo falar sobre seu atraso pela "milésima" vez e que Kate iria fazer alguma piadinha para concordar com o pai, afinal, isso costumava a acontecer bastante. Só de pensar nisso, a garota revirou os olhos e tomou uma respiração profunda antes de pegar sua bolsa pela alça e sair do cômodo.
...
— Espero de verdade que o diretor de vocês tome uma providência em relação ao netinho dele — James disse enquanto alternava os olhos detrás dos óculos escuros entre sua filha Kate ao seu lado e sua filha Claire no banco de trás. — O pior é que eu tenho certeza que ele vai vir falar comigo depois de você ter batido nele. — E encarou a garota de pele escura que franziu o cenho por um momento antes de deixar uma risada escapar.
— Só avisando que nem ferrando eu vou dar um abracinho e um pedido de desculpas para esse babaca, falou? Se eu não tirasse ele de cima de Andrew, ele iria matá-lo. E olha só para mim — apontou para si. — Sem um arranhão. — Riu novamente, dessa vez pelo orgulho que sentia de si mesma. Seu pai se virou para frente, pôs a mão sobre o volante e balançou a cabeça negativamente antes de comprimir os lábios. A garota atrás apenas observava calada enquanto contornava o símbolo feito de um metal dourado que ficava centralizado na bolsa rósea em seu colo. Era simples, não passava de uma pequena estrela de cinco pontas bem simétrica, que levava em baixo de seu contorno uma pequena descrição em baixo relevo no metal: Star Inc.
— Foi bom mesmo ele não ter batido em você. Se não eu mesmo iria tomar uma providência... — o homem disse e olhou para a janela ao seu lado, avistando uma certa garota cuja os cabelos loiros estavam presos em uma trança jogada à frente do ombro. Trajava uma calça skinny cor de vinho acompanhada de uma regata branca e calçava um par de tênis pretos. Sua grande bolsa era da cor de sua calça e estava presa à uma grossa alça a qual envolvia seu tronco em uma linha diagonal. — Qual é o motivo dessa vez, Heath? — Ele perguntou ao pôr o braço para fora da janela. A garota não respondeu, apenas abriu a porta de trás e suspirou ao subir no degrau da caminhonete e se ajustar ao lado de Claire. — Hm?
— Nada, só tinha me distraído um pouco lá em cima — retrucou e entrelaçou os braços à frente do corpo.
— Claro, fofocando com o Vic — Kate disse em um sorriso sem ao menos olhar para trás e as loiras se entreolharam na mesma hora por terem se lembrado do que acontecera.
Heather havia contado tudo para Claire no momento em que acordaram. Não sabia se podia fazer isso, mas sabia que ela não iria contar a ninguém. Conhecia bem a garota e embora não tenha contado a verdade sobre si mesma para ela, sabia que era uma pessoa extremamente confiável.
...E realmente era. Claire Blake têm mais segredos dos amigos guardados do que os seus próprios...
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Olá, meus amores! Como estão? Espero que bem. Sei que essa parte foi simples, mas espero que tenham gostado.
Quero novamente agradecer ao ViniDavid por ter me ajudado e aliás, a marca "Star Inc." é uma referência ao livro dele. Se puderem dêem uma olhada lá, vocês não vão se arrepender.
Espero que gostem da próxima parte desse cap. Um beijo e até lá!
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