2 - Vozes
Nāo tinha nada que eu pudesse fazer, entāo a abracei, pude sentir sua respiraçāo ofegante e seu coraçāo pulsando fortemente.
- Sua mente está pregando peças em você, querida. - sussurrei no meio do abraço apertado
- Mas eu estou bem.
Ela separou nossos corpos e se afastou lentamente, o cabelo cobria parcialmente seu rosto.
- Elas foram embora? - perguntei confuso
- Elas quem? - uma expressão ainda mais confusa surgiu em seu rosto
- As vozes.
Ela bocejou.
- Do que está falando? Está me deixando com sono.
- Esqueça, vá descansar. - suspirei
Ela saiu pela porta de madeira me deixando sozinho novamente no escritório, optei por continuar o trabalho outro dia. Eu queria poder entender o que acontecia dentro da cabeça dela, mas acho que era complexo demais para mim.
Me juntei a Mirna na cama e em uma questāo de segundos eu apaguei. No meio da madrugada fui acordado, ela estava sentada na beirada da cama.
- A escada estalando enquanto você dorme está me mantendo acordada.
Me aproximei e sentei ao seu lado.
- É a casa falando pra você fechar seus olhos.
- Eu preciso de ar, mas eu nāo gosto de andar por essa casa velha.
Me levantei ficando em sua frente e estendi minha māo direita
- Segura minha mão, eu vou com você.
Ah, eu amo ela com todas as minhas forças e iria com ela a qualquer lugar.
Ela levantou e andamos de mãos dadas para fora da casa. A luz da lua cheia iluminava nosso caminho enquanto andávamos pelo gramado, em direção a monumentos antigos feitos de rochas comuns na ilha, ao chegarmos perto de um deles, ela se sentou no gramado.
- Tem uma voz antiga na minha cabeça que me impede de contar o que houve.
Sentei ao seu lado. O monumento nos encarava, mesmo sem ter face, a brisa gelada passava congelando nossos corpos. O fato das vozes acompanharem ela já não me assustava mais. Antes de virmos para a ilha, ela tinha conseguido passar um tempo sem mencionar as vozes, mas já era algo comum, quase rotina. Na maioria das vezes diziam coisas sem sentido.
- Sinto falta das nossas pequenas conversas.
Em um movimento rápido ela agarrou um pedregulho, levantou e o lançou com toda sua força.
- Me deixa em paz! - seu grito rasgante ecoou no horizonte
Ela desabou em lágrimas.
Corri atrás dela e a abracei confortando sua cabeça em meu peito, suas lágrimas molhavam minha camiseta. Permanecemos na mesma posição até ela adormecer, quando a peguei no colo e a carreguei de volta pra dentro da casa. Após deixá-la na nossa cama, me direcionei ao meu escritório, onde abri o livro e procurei por frases que poderiam ser interessantes, explicar mais sobre o que teria acontecido com o dono do livro. Entre rabiscos e desenhos sem nenhuma conexão achei outra frase que prendeu minha atenção; "Eu estou te dando tudo, respire do meu pulmão e tome tudo o que é meu, tome conta do meu corpo porque minha mente está me matando."
Cheguei a conclusão precipitada de que essa pessoa sofria com problemas mentais e que pudesse estar inventando coisas inexistentes. Ah, como fui tolo. Eu tinha aquela sensação, uma sensação única que tentava me alertar que algo estava prestes a acontecer. Eu ignorei.
Fechei meus olhos tentando compreender tudo o que havia acontecido naquele dia, mas diferente do que queria, adormeci ali mesmo, com a cabeça sobre o livro.
Acordei com a mão molhada de Mirna em cima de meu ombro. Esperei um tempo até meus olhos se sentirem confortáveis com a claridade e vi que minha esposa estava encharcada, o seu pijama que era composto por uma camiseta branca e um short curto agora estava transparente.
- O que aconteceu? - perguntei confuso
- Uma tempestade. - respondeu imóvel
Levantei da cadeira de madeira e olhei pela janela do escritório. O céu estava escuro e grossas gotas de água caiam por toda a ilha.
- Você foi lá fora? - a questionei observando seu estado
- Tive um pesadelo com o mar, fui conferir. - respondeu estremecida
- Você vai ficar gripada, vamos tomar um banho, lá você me conta sobre esse pesadelo.
Caminhamos até o banheiro, tirei suas roupas e as minhas e entramos sob a ducha quente juntos.
- Eu corria o mais rápido possível, mas esses lobos me seguiam, eles cortavam minha pele com seus dentes afiados, era tão real, eu chegava na beira da ilha, na beira da montanha eu escutava o mar me chamando... dizia que me salvaria.
- Foi só um pesadelo, não tem lobos na ilha e certamente o mar não sabe falar...
Um sorriso no canto de sua boca.
- Além do mais, eu tô com você. - completei e depositei um beijo em seu ombro.
Aquele foi o dia mais calmo. Ela passou a tarde lendo o mesmo livro do dia anterior, sentada na poltrona da sala de estar, envolvida com uma coberta de lã, perto da lareira que transmitia um calor confortável. Eu fiquei no meu escritório, trabalhando, de hora em hora ia checar ela, ver se precisava de algo e se estava tudo certo, minha preocupação era imensa. Nossas refeições eram limitadas a mingau de aveia e sanduíches, sempre acompanhadas ao chá com leite. Era uma verdadeira calmaria antes da tempestade, mesmo dentro da tempestade.
No dia seguinte a chuva já havia passado e eu acreditei que era uma boa ideia conhecer mais sobre a ilha. Mirna estava deitada, parecia um sono profundo, vesti um casaco, coloquei o livro em seu bolso e sai da casa tentando fazer o mínimo de barulho possível, mas no caminho da saída, encontrei o livro que Mirna estava lendo e o que me surpreendeu era o fato de o livro ser exatamente igual ao meu, exceto por ter mais páginas. Agarrei-o e o coloquei no bolso, junto com o meu.
Eu estava tão perto. Eu poderia ter impedido tudo aquilo se continuasse ali, mas eu sai.
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