Capítulo II: Condenação

O medo de ter minha vida apanhada pela criatura tinha me dado coragem suficiente para ter forças para fugir. Costumam dizer que o medo é o oposto de coragem, mas naquele momento, o meu medo tinha sido essencial para a minha coragem surgir.
  

   Meus passos pesados atrapalhavam minha corrida pela vida, minhas pernas que estavam prestes a desabar, pareciam ser coloridas pelo vermelho vibrante que saía das feridas causadas pelos arbustos cortantes da floresta. Eu estava perto de casa, eu tinha uma chance de sobreviver. Eu ainda poderia poderia ouvir sua gargalhada, mas parecia estar longe, ela tinha desistido? Talvez outra coisa teria chamado sua atenção, eu tinha que sair da floresta.
  

    A luz que iluminava a minha casa já era visível, era como uma luz no fim do túnel. O meu velho vestido cinza cobria as minhas feridas, meu pai não poderia ver aqueles arranhões.  Eu cheguei em casa, e lá estava ele, parecia impaciente e irritado como de costume.
- Por que teve que demorar tanto pra pegar um mísero porco? E onde ele está?
- Pai eu só encontrei ele morto, algo
o matou na floresta.
- Você é idiota por acaso? Você só tinha que pega-lo.- e não existe nada na floresta para matar um porco, não invente baboseiras por algo que você não é nem capaz de fazer!
Ele logo se dirigiu ao velho celeiro resmungando.
- Garota imprestável, não serve pra nada.
   Aquele homem sempre era assim, não era o melhor pai que alguém poderia ter, estava sempre irritado com coisas pequenas, quebrava algo sempre que podia.

   Eu estava ferida e assustada, meu coração ainda batia freneticamente, talvez eu não iria dormir muito bem aquela noite. O sangue em minhas pernas tinha secado, o único modo de limpa-lo era acordando mais cedo que meu pai e indo até o rio próximo dali.
  

   O velho pano no chão era a minha cama, aquilo era melhor que nada. A poucos metros do que eu chamava de quarto, ficava o velho celeiro, que estava estranhamente agitado, passos, cochichos, parecia que tinha mais pessoas além do meu pai ali. Aquilo era inusitado, já estava madrugada, o que adultos conversariam tão tarde da noite? Parecia importante e minha grande curiosidade me obrigava ouvir parte da conversa.

- Marco você tá doido? É claro que num vou oferecer meu filho!
Era uma voz diferente, talvez algum vizinho
- Um simples animal não vai ser suficiente, aquela coisa vai se voltar contra nós, e aquilo não deu certo.
- Sequestrar passarinhos de outra vila é a melhor solução.
- Você só pode tá louco, três já foram sequestradas e dadas a bruxa, a desconfiança cairia sobre nós.

O que aquilo significava? Sequestro? O meu pai estava envolvido nisso, aquela bruxa seria a criatura na floresta? Não, eu deveria estar ouvindo errado. Eu sentia o temor novamente, o coração a pular, eu estava com medo novamente,  agora do meu próprio pai.

- Olha Marco, o Phill foi deixar os animais em meio a floresta, aquela coisa num vai se satisfazer, ela vai jogar a praga em nós.
- E quer que eu faça o quê? Mate e sequestre ainda mais?

  Meu pai estava matando e sequestrando pessoas, aquilo era notável, novamente tudo se repetiu, pessoas loucas estavam ao meu redor, e meu próprio pai era uma delas. O medo fazia meu corpo tremer, o suor frio descia pelo meu rosto, eu não aguentaria tudo aquilo.

- Eu tenho a pessoa certa a ser dada e morta.

   Aquela foi a última frase de meu pai durante aquela conversa, mais uma pessoa estava condenada a morte, mas quem?

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top