Prólogo


Reino de Aquarius 5978

Estrelas não podem brilhar sem a escuridão.

A madrugada estava gélida como todas as noites no reino Aquarius.

O vento frígido banhava meu rosto do alto das montanhas. Um castelo feito de gelo repousava. A neve caia em silêncio como se até ela soubesse o que estava por vir. O vento beijava meu cabelo, fotalecendo cada membro do meu corpo. Os arrepios percorriam lascivamente cada célula e fios de energia dançavam em meu estômago, se unindo, crescendo, me fortalecendo como nunca. Brinquei com eles por alguns segundos, como pequenos amantes, flertamos mais uma vez, conhecendo cada pedaço da minha maior arma. Não havia um único milímetro  que eu já não houvesse experimentado, ainda assim todas as vezes que eu me dava ao trabalho de averiguar havia crescido, mutado ou se modificado de alguma maneira, tanto poder!

Haviam me alertado a respeito, sobre o quão perigoso poderia ser, alimentar tanto poder. Poderia ser minha salvação mas também poderia ser a nossa escravidão. Poderia chegar um momento em que os papéis se invertessem e eu não mais a controlasse, contudo, eu me certificaria que quando esse dia chegasse, eu estivesse morta.
Eu a conhecia e ela a mim, eu era dela e ela era minha. Mergulhei entre eles com leveza, deixei que me consumissem um pouco, mas não por completo, eu estava guardando a maior parte para o grande dia, o dia que eu me tornaria um mártir, ou uma traidora, desbravadora da liberdade, uma lenda, ou um pesadelo, o dia que muitos morreriam, e que muitos seriam libertados, o dia estava próximo, e eu estava preparada.
Fios de energia tão conhecidos, estavam agitados, talvez soubessem tanto quanto eu o que se aproximava.
Estavam sedentos, deixei que estivessem.
Estive me preparando toda uma vida para que esse momento, e agora, todos descobririam o que a reservada princesa do império de Aquarius esteve escondendo por baixo de sua camada gélida e indifente que interpretou pelos ultimos 18 anos em todas as comissões em que ousou aparecer.

— Vai sentir falta disso?

Os fios de energia se agitaram, mas eu os tranquilizei ao reconhecer a voz de Aurist.
Não me dei ao trabalho de me virar, não queria ver as promessas em seu olhar, as quais eu nunca cumpriria, e as quais Aurist jamais me pediria para cumprir.
Uma única pergunta tão cheia de significados. Relaxei os ombros e continuei a fitar as montanhas e por trás delas.
Eu sentiria falta do frio, dessa visão, da neve banhando cada canto.
Hoje seria a última vez em que presenciaria a madrugada em casa. Se sentiria falta disso? Do meu povo? Dele? Sim, mas talvez não da maneira que deveria, ou que ele esperasse.
Aurist caminhou até que ficássemos lado a lado, mas nenhum de nós se olhou.

-- Vou.

Consegui proferir após algum tempo fitando a grandiosidade do meu reino. Minha voz estava rouca e meu tom distante.
Eu não choraria. Todos sabiam que as lágrimas da princesa congelavam em seus olhos frios antes mesmo de terem a oportunidade de se derramar.
Eu nunca chorara, nem mesmo em meu nascimento.
Minha vó disse que todos ficaram preocupados, mas minha mãe sorriu e proferiu suas últimas palavras antes se esvair sem vida " É ela, a nascida dos ventos mais congelantes, a herdeira do gelo.'' 

Eu nunca chorara, mas se eu ainda fosse digna das lágrimas seriam por isso que elas cairiam, pelo meu povo.
Os flocos de neve como se quisessem representar as lágrimas nunca derramadas, caiam pela varanda e ao alcançarem o chão se tornavam parte dele, naquela mesma varanda onde eu brinquei com Auterist toda a minha infância.
Naquele castelo de gelo. O amanhecer estava próximo, e tanto eu quanto Auterist sabiamos disso. Quando a aurora chegasse eu partiria.
Para as terras mais ao sul já exploradas.
O polo de fogo, para a jaula dos Lions, eles esperariam por uma linda ovelha, mas eu faria com que se arrependessem pelo resto de suas vidas por tanto terem subestimado a herdeira do gelo.

Uma centelha de luz despontou no horizonte, quase invisível, tão pequena diante de tamanha escuridão de nossos céus sem estrelas.

--Aqua..eu...quero lhe dar isso.

Olhei pela primeira vez naquela noite nos olhos de Auterist, tão azuis.
Quando  fizemos amor a primeira vez eu olhei tão profundamente naqueles olhos, me perguntei se eram o exato tom de azul do céu, e se algum dia eu veria um céu azul como aquele para saber a resposta.
Em aquarius tudo o que sempre tive foram céus nublados e cinzentos, eu era a única que tinha os olhos cinzas naquela exata cor, talvez fosse alguma ironia do destino, a menina que não conseguia chorar nasceu com os olhos nublados, assim como o céu chuvoso.
Os cabelos de Auterist que tinham a mesma cor que o meu, brancos como a neve, sem vida em contraste com nossa pele branca pendiam pelos seus ombros.
Seus cabelos sempre pareciam estar em seu exato lugar, mas não naquela noite, eram uma bagunça emaranhada, uma tempestade de gelo.
E seus olhos de azuis vibrantes estavam pesados, olheiras acompanhavam seu lindo rosto como se não dormisse por dias.
Ele estava mal, mal demais para um Aquarius demonstrar daquela forma.
E estendia para mim um pingente, olhei melhor e senti meu coração bater mais forte.

-- Esse é o pingente de coração da minha mãe.

Afirmei, era impossível ele ter conseguido recuperar. O perdi em uma fuga quando Scorpions atacou nosso reino.

-- Foi complicado encontrar, mas acabei estando no lugar certo na hora certa, eu queria te dar quando...

Ele suspirou e completou.

-- Não importa mais, ele sempre pertenceu a você.

Ainda chocada encarei o pingente, o abri, dentro tinha uma foto dos meus pais, novamente aquela sensação. Engoli em seco e o encarei. Tinha tanto para dizer mas não tínhamos mais tempo.

-- Obrigada.

Os olhos dele marejaram, seu rosto se contorceu de vergonha mas ele não escondeu todo o sentimento de sua face.

-- Foi uma honra servi-la alteza.

E assim como se nunca estivesse estado ali, com uma pequena reverência Auterist desapareceu na escuridão.

Eu teria chorado se houvessem lágrimas, e teria sentido se ainda me restasse um coração.

-- Olhos nublados?

Minha vó se encontrava atrás de mim. Eu não sabia se ela havia presenciado aquele adeus e para ser sincera nem me importava, eu já sabia de tudo que ela pensava a respeito, e eu a respeitava, mas eu era a herdeira do gelo, filha da liberdade, e não permitiria que ninguém me ditasse as regras, nem mesmo ela.

-- É tempo de partir, uma carruagem lhe espera.

-- A senhora sabe bem que irei a cavalo. Já falamos disso.

-- Você não pode culpar uma velha por tentar por um último pingo de juizo na cabeça de sua neta.

Ela suspirou e andou até mim, tocou meus ombros de leve e beijou minha testa.

-- Você sempre foi tão teimosa, mas nunca deixou de ser justa, lembre-se disso Aquamarie, eu sei que o caminho que irá trilhar será perigoso, mas nunca, corrompa a sua moral, sei que está disposta a enfrentar tudo para cumprir o destino que lhe foi proposto, mas seja cuidadosa, até mesmo o melhor dos reinados precisa de um lider para governa-lo.

Não me permiti encara-la de volta, porque esse era um adeus que eu não estava disposta a enfrentar. Desci todas as escadas do palácio e me despedi de todos que estiveram comigo desde sempre pelo nome, não eram funcionários, eram minha família, não era difícil memorizar, nunca tivemos muitos.

Doze cavalheiros se encontravam no hall do salão principal, todos homens nos quais pareciam contentes com a minha saída, após eu ter feito da vida deles um inferno cada segundo em Aquarius  era compreensível, esse era um dos motivos de minha partida, esse controle do reino de Lions, eu não pude escolher meu próprio conselho e isso era inadmissível. Todos fizeram uma pequena reverência que eu cuidadosamente ignorei.

-- Pirralha insolente.

Um deles sussrurrou baixo mas o vento trouxe suas palavras até os meus ouvidos.

--Cuidado com suas palavras Lord Arisy, posso mandar cortar a sua cabeça por isso.

Sorri docemente como se estivesse falando sobre o chá. Ele se calou, assim como todos os outros que ameaçavam sorrir, arrumaram a postura e se calaram, apertei o pingente em minhas mãos e segui para porta da montanha de gelo onde aquele castelo havia sido construido. Na lateral meus cavalos e meus homens, eu havia pedido que não escalassem Auterist, não fazia sentido prolongar isso, mas ainda assim encontrei o seu rosto logo abaixo da montanha, sua irmã Agreatta, com apenas 8 anos ao seu lado, desviei o olhar para encontrar ao seu redor toda a população de aquarius.

-- Povo de aquarius.

Comecei fazendo o vento levar a minha voz até eles.

-- Não temam a minha partida, ela é motivo apenas de comemoração, vou em busca de uma única coisa, um mundo melhor para o meu povo. Estejam preparados.

Encarei o meu exército que protegia as entradas da cidades.

-- Uma tempestade de gelo e fogo está por vir.

E após minhas últimas palavras segui até o cavalo a minha espera ignorando o fato de que eu havia acabado de cometer traição. A primeira, de algumas.

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