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Rastejar pelo mato foi bem mais desesperador que imaginei. Meu corpo e mãos estavam protegidos pela roupa, mas minha cabeça, não e toda vez que eu encostava em uma planta estranha, temia ser envenenada e começasse a vomitar sangue. Eu tinha o capacete preso às costas – que servia exatamente para situações como essa –, mas nada nele funcionava além do display no visor e usá-lo só me atrapalharia. Apesar do meu medo de plantas venenosas, não precisava me preocupar, uma especialista em botânica mórfica de 13 anos liderava a fuga. Se esbarrássemos em algo mortal, ela saberia o que fazer.

Felizmente, depois de humilhantes – e longos – minutos rastejando, conseguimos uma boa distância da nave caçadora e nos permitimos caminhar normalmente. Nossa aparência não era o que eu chamaria de limpa, cobertas de folhas mortas e terra. Com um pouco de sorte a cobertura de sujeira nos daria alguma camuflagem, mas do jeito como as coisas estavam indo, a sorte não nos parecia muito amigável.

— Eles devem ter captado os tiros — constatou Deise, suada e com uma mancha de terra na bochecha. — Imagino que tenham ido para o lugar onde Lily foi levada. E se... e se pegaram Suna?

— Suna é esperta. Ela conhece os procedimentos da Pirâmide melhor que ninguém. Aposto que ela ainda deve estar atrás de Lily.

— E quanto a nós? Estamos perto da área de interferência. O que faremos quando chegarmos lá?

— Vamos esperar. Aquela nave caçadora não vai ficar por muito tempo nessa área. Mórficos alados podem atacá-la a qualquer momento. Esperamos até o anoitecer, aquele rapaz entrará em contato e então saberemos se é seguro continuar. Não há muito mais a fazer.

— Sinceramente, não acho que eles vão deixar de verificar esses pontos de interferência. — Deise desviou de uma flor de pétalas violetas e eu fiz o mesmo só para garantir. — São os únicos lugares que eles não podem ver, devem imaginar que vamos tentar nos esconder neles.

Ela tinha razão. O Diretor não era burro, ele já juntara as peças: a sabotagem do sinal dos trajes, a queda suspeita da nave, nenhuma de nós morta no acidente. Ele sabia que aquilo fora obra de um intricado plano de fuga. As coisas deveriam estar um caos na Pirâmide, todos mobilizados para encontrar os responsáveis. Eu temia por Vladimir, mas imaginei que ele e meu pai se prepararam para isso também.

— Bom — disse e dei de ombros. — Não temos outra escolha, andar por aí é pior que se esconder. Se mandarem alguma máquina que funcione dentro das áreas de interferência, daremos um jeito de cuidar dela. Eu sou boa em esmagar drones, lembra?

Deise virou-se para mim e balançou a cabeça em negativa.

— Se me permite te dar um conselho: não exagere. Não tem como saber até onde essa habilidade pode ser segura para seu corpo.

— Tem razão — concordei. — Não posso confiar tanto. Senti muita dor de cabeça quando tentava segurar a nave.

— Lily também sente quando se esforça demais. É perigoso.

Eu não pretendia usar minha habilidade ao ponto de me matar, mas sabia que mais cedo ou mais tarde teria que me defender e o fuzil que Deise carregava não resolveria todos os problemas. Um dos motivos que faziam dos mórficos titãs criaturas tão temidas era que balas comuns não surtiam tanto efeito.

Depois de quase uma hora de caminhada, eu já arrastava os passos. Estava exausta. Meu corpo reclamava a todo momento do esforço incomum. O pouco tempo de treinamento pode não ter me dado o preparo físico necessário para aquela empreitada, mas eu não podia reclamar, já esperava algo assim e, considerando a situação, podia dizer que estava aguentando bem.

Para alegria dos meus pés doloridos, encontramos a área de interferência antes do previsto, o que só provava que nosso mapa não era tão preciso assim. Não importava, eu finalmente podia me sentar.

O lugar, era estranhamente pedregoso, como se alguém tivesse carregado várias rochas e as jogado ali de qualquer jeito. O musgo e as trepadeiras as cobriam e eram de todos os tamanhos, a maior tinha três vezes a minha altura e seriam necessárias dez pessoas para abraçá-la. Era uma baita pedra bem no meio da floresta.

— É aqui mesmo? — Deise perguntou, saltando de uma pedra para outra. Eram tantas que podíamos andar sobre as menores sem tocar o chão.

Coloquei o capacete e o liguei para confirmar no mapa, mas imagem surgiu tremida no visor, a interferência ali era grande.

— Sem dúvidas — confirmei —, é aqui. Os drones são programados para evitar esse tipo de anomalia. Se chegarem perto demais eles simplesmente caem como insetos.

— E se mandarem soldados? — Deise sentou-se em uma pedra maior e tirou o cantil da mochila para dar um gole.

— É possível, mas eles não tem como enviar muitas equipes. Além disso, essa interferência mexe com os sistemas dos trajes e eles precisam deles para sobrevier aqui fora. Não podem respirar esse ar com nós.

— É uma boa vantagem.

Ela comentou aquilo de qualquer jeito e olhou para trás, para o caminho por onde viemos. Estava preocupada.

— Lily está bem — eu disse e sentei em outra pedra. — Aposto que já está com Suna agora.

— Espero que sim...

Eu fingia confiança, mas também estava preocupada. Muito preocupada. O plano era simples: seguir o mapa e chegar ao ponto de extração. Como as coisas puderam sair tanto dos trilhos em tão pouco tempo? Se ao menos eu tivesse pousado aquela nave da maneira certa...

Lamentações não ajudariam em nada, então me recompus e não deixei que aquela avalanche de dificuldades me fizesse tremer na base. Precisava me concentrar no que acontecia à minha volta e não o que poderia ter feito diferente no passado.

Deise e eu nos acomodamos perto da pedra grande, nos encolhemos em uma fenda e ficamos quietas ali, quase invisíveis. Eu quase podia sentir a vibração magnética que ela emanava, ou talvez fosse só coisa da minha cabeça. Não fizemos mais nada além de esperar sentadas como duas viajantes acampando. Conversamos pouco e Deise estava com o dedo no gatilho da arma, atenta a qualquer barulho suspeito. A precaução não era só por causa das naves de caça, nos ensinaram na Pirâmide que algumas espécie de mórficos são atraídas por campos magnéticos. Eu torcia para aquela área não ser lar de nenhum titã.

Em algum momento eu peguei no sono, com a cabeça apoiada na rocha servindo como um travesseiro nada confortável. Mesmo assim eu apaguei. Lembro de ter sonhado com as mãos suadas do Diretor em volta do meu pescoço, me sufocando. Ele gritava que eu fora um erro, que nunca deveria ter me deixado viver. Depois Vladimir surgiu com uma arma em mãos e explodiu a cabeça dele, sorriu e apontou o cano ainda quente para mim. Quis dizer algo, mas minha garganta tinha sido destruída pelo aperto do Diretor, então apenas ergui a mão pedindo para ele parar. Vi o dedo dele pressionando o gatilho de leve e...

— Anabel — uma voz sussurrante me puxou de volta para minha fria realidade. — Anabel, acorde. Está anoitecendo.

Pisquei. Meu ombro estava dolorido depois de horas pressionado contra a rocha. Deise estava agachada ao meu lado na fenda, algumas mechas de cabelo caindo sobre o rosto sardento, ela os colocou atrás da orelha e apontou para o lado de fora do nosso abrigo improvisado.

— Está anoitecendo — ela repetiu. — Temos que nos afastar da interferência ou o cara do rádio não vai conseguir nos contatar.

Esfreguei o rosto e me endireitei.

— Nossa, eu dormi a tarde toda?

— Você estava cansada mesmo. A boa noticia é que não há qualquer sinal de naves de caça, mas elas ainda podem estar nos procurando.

— Pode ter certeza, Deise. De qualquer modo você tem razão, precisamos sair daqui e procurar um lugar seguro para esperar o contato. Talvez ele tenha alguma notícia de Sunahara e Lily.

Deise apanhou sua mochila com o fuzil e engatinhou para fora da fenda eu a segui, tremendo de frio. A pedra úmida durante o dia amenizava o calor, mas a noite as temperaturas caiam muito e não era uma boa ideia dormir ali sem uma fogueira.

Me estiquei ao ficar de pé e movi o ombro dolorido, torcendo para que no dia seguinte ele não terminasse como minha perna. Olhei em volta, a floresta parecia exatamente a mesma, com as espigas brilhantes começando a sair de suas vagens. Dava a impressão de que não tínhamos saído do lugar desde a noite passada.

Decidimos voltar pelo mesmo caminho para o lugar onde nos separamos de Suna, talvez ela estivesse nos esperando lá embora isso fosse pouco provável, ela nunca ficaria parada ali sabendo que as equipes de busca estavam rondando a área. De qualquer forma era melhor que seguir uma direção qualquer e nos afastar ainda mais da rota do mapa.

Andamos apenas o suficiente para sair da área da interferência e a noite nos alcançou. As espigas brilhantes e outras plantas bioluminescentes iluminavam o caminho então não precisamos acender nenhuma lanterna obvia que poderia ser detectada do alto. Mas isso não deixou tudo menos assustador. Viajar durante a noite era muito mais perigoso. E não era só porque mórficos noturnos saíam para caçar. Apesar da luz etérea das plantas, ficava bem mais difícil achar os pontos de referência que o mapa indicava. Era como se uma floresta diferente crescesse durante a noite.

— Vamos parar aqui — declarei, depois de ligar o capacete e ver que a imagem no visor já não tremia mais. — Mais um passo e podemos nos perder.

— Eu lembro do caminho. — Deise vinha me garantindo isso nos últimos vinte minutos. Eu não duvidava dela, só não queria continuar andando sem saber se as naves de caça ainda estavam por perto. Apenas nosso contato podia responder isso.

Deise e eu preferimos não arriscar ficar no chão, procuramos uma árvore mais baixa que pudéssemos escalar. Encontramos uma que não era tão pequena quanto gostaríamos, mas um dos galhos estava torto para o chão como uma mão de madeira nos convidando a subir. Nos sentamos ali, eu com o capacete no colo e Deise com seu fuzil destravado.

— Vocês nunca me falou sobre suas últimas caçadas — falei só para puxar conversa e esquecer os sons estranhos da mata. — Era sempre tão assustador como está sendo agora?

Ela deu de ombros.

— Lily vive tagarelando sobre as caçadas. Ela fala o bastante por nós duas, até demais. De qualquer forma eu prefiro quando me mandam para cá ao invés de me mandarem para a Cúpula para matar pessoas como eu.

— Lily não sabe mesmo? Das coisas horríveis que o Diretor te obrigava a fazer?

Seus olhos atentos à floresta desceram para a ponta dos pés pendurados no alto.

— Ela teve o pai assassinado por gente da Cúpula, era o que eu fazia. Lily teria nojo de mim se soubesse. Foi meu único pedido ao Diretor, que não contasse nada. Suna descobriu um tempo depois, prometeu guardar segredo também.

— Não, Lily é como uma irmã para você, ela sabe o que o Diretor é capaz de fazer e jamais te odiaria por escolher protegê-la. De qualquer forma isso tudo ficou passado.

Deise forçou um sorriso e balançou a cabeça. Realmente as atrocidades da  Pirâmide tinham ficado no passado, mas muita coisa ainda voltaria para nos assombrar.

Nesse momento o visor do capacete piscou sobre a minha perna. Era uma transmissão de rádio. Finalmente! Coloquei o aparelho na cabeça e Deise fez o mesmo com o seu.

Estão me ouvindo bem? — Era a mesma voz do rapaz da noite passada, só que o sinal estava bem pior, inundado por estática. — Po.. Podem ouvir?...

— Mais ou menos — respondi. — Está falhando muito.

Ok. Só um segundo. — A voz sumiu por alguns estantes e voltou um pouco mais audível. — Esse é o máximo que posso melhorar, se eu deixar o sinal mais forte eles me detectam.

— É o suficiente. Já deve saber que nossa equipe está separada, não é? E que uma de nós está desaparecida?

Deise apertou os dedos com tanta força que achei que ela rasgaria as luvas.

O quê?! Que merda! Quem sumiu?

— Lilyan. Eu não conseguia andar. Ela e Deise foram atacadas quando procuravam algo para me ajudar. Lily foi levada por um mórfico. Sunahara se separou de nós para procurá-la.

Ouvi a voz feminina xingando perto do microfone, quem quer que fosse não estava de bom humor.

Que droga, Anabel, eu avisei para não se separarem e se manterem na rota. — O rapaz parecia muito preocupado. — Aqueles putos da Pirâmide enviaram uma equipe de busca para bem perto de vocês.

— É, nós sabemos. Tivemos que nos desviar um pouco para escapar, mas não fomos vistas.

Pelo menos eu achava que não, o Diretor podia ter ordenado que não nos abordassem até estarmos todas juntas.

— Consegue falar com Suna? — Deise indagou, esperançosa. — Lily perdeu o capacete, mas elas já podem estar juntas.

Silêncio e logo veio a resposta:

  — O sinal não chega. Ela deve estar em uma área de muita interferência. Talve...

Alguém chacoalhou o microfone com brusquidão e então a voz feminina soou clara e irritada no meu ouvido.

Esqueça a domadora, ela já era. Se a Recuperadora ainda estiver viva e for esperta vai seguir para o ponto de extração. É o que vocês devem fazer. Ou chegam aqui até amanhã à noite, ou vamos embora e deixamos vocês na floresta, ouviram?

Houve outra briga pelo microfone e mais xingamentos antes do rapaz voltar a falar.

Ahnn... desculpem minha amiga, às vezes ela deixa os nervos falarem por ela.

— Pois diga a essa sua amiga que não vamos deixar ninguém para trás!

Eu gritei, felizmente minha voz estava sendo abafada pelo capacete e não atrairia nenhum predador noturno.

Eu entendo, Anabel, mas ela está certa quanto ao tempo de vocês. Só podemos esperar até amanhã. Depois disso será arriscado ficar aqui. É um risco que não podemos assumir.

Eu não precisei verificar o mapa para saber que o tempo não estava a nosso favor. Teríamos que correr o dia seguinte sem parar e torcer para chegar a tempo.

— Vamos conseguir — Deise disse olhando para mim. — Nós quatro vamos chegar.

Eu sorri e concordei.

— Você ouviu. Estaremos aí amanhã. Só me passe a última localização das naves de caça na área e damos um jeito.

Ótimo. Esse é o espírito! — O rapaz soou tão animado que por um momento pensei em Vladimir com seu tom de deboche. — Vou tentar contatos com as duas perdidas quando for seguro. Seja forte, Anabel. Seu pai conta com você.

— Eu sei.

O capacete ficou em silêncio e apagou com o fim da transmissão. O tirei da cabeça e respirei o ar frio da noite. Olhei para Deise com determinação.

— Vamos achar Lily e Suna. De agora em diante estamos correndo contra o tempo.

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