◀38▶
O sinal demorou a estabilizar, as árvores causavam muita interferência. Meu pai devia estar usando uma antena bem grande. Deise e Sunahara colocaram seus capacetes para ouvir também. Logo os fones zumbiram, depois chiaram e então uma voz rouca e familiar disse:
— Ana! Ana, está aí?
— Pai! Estou ouvindo. — Sentei na base da enorme árvore e me segurei para não chorar. — Eu deixei a nave cair. Eu errei e ela caiu em uma árvore...
— Está ferida? As meninas se machucaram? — O tom preocupado dele era entrecortado por estática.
— Lily bateu a cabeça, mas não é nada sério. O resto de nós está bem.
Ouvi o suspiro de alívio dele no microfone.
— Bom trabalho, querida. Agora vocês têm que me ouvir com muita atenção.
— Estamos todas ouvindo, senhor De Castro — garantiu Suna, chegando mais perto de mim.
— Vocês estão a dois dias de caminhada do ponto de extração, foi o mais perto que conseguir deixá-las. Terão que cobrir essa distância com muito cuidado. Não é só com mórficos que terão com que se preocupar. — Houve uma pausa e mais estática, o sinal estava piorando. — O Diretor acabou de enviar equipes táticas para procurar pela nave caída. Por enquanto ele ainda acha que foi um acidente, mas logo desconfiará de sabotagem. Quando isso acontecer, todas as ordens que ele dará serão para eliminar vocês quatro. Vocês não podem ser encontradas, ouviram?
Troquei olhares com as meninas. Meu pai fora enfático naquelas últimas palavras. Eu só podia imaginar a cara de raiva que o Diretor descobrisse que tudo tinha sido planejado. O fone chiou de novo, ficou mais baixo e voltou com mais estática.
— Certo, pai, agora nos diga o que fazer quando chegarmos no ponto de extração. — Eu falava muito rápido, com medo do sinal cair de repente.
— Haverá uma equipe esperando — veio a resposta falhando. — Confie neles, são os melhores no que fazem. Eles entraram em contato com vocês daqui para frente, dando instruções e informações sobre o caminho. Mas isso só acontecerá durante à noite e muito rápido, não podemos arriscar que o sinal seja rastreado.
— E quanto a você? — Fiquei de pé em um pulo, eu conhecia aquele tom de voz. Era aquele tom de despedida. — Quando vou poder falar com você de novo? Sei que não vai estar no refugio, mas vamos poder nos comunicar, certo?
Estática. Mais estática. Achei que não teria uma resposta até que:
— Desculpa, Ana. Você viverá em um mundo diferente do meu. Um mundo que não pode ser descoberto nunca. Manter contato com você colocaria esse mundo em risco, e eu sacrifiquei muito para deixar isso acontecer. Esse será meu último sacrifício. Por você. Te amo, filha.
O sinal desapareceu antes que eu pudesse sequer entender o que tinha acontecido.
— Pai? Pai! — gritei tão alto que nem o visor abafou minha voz. — Seu cretino, não pode fazer isso comigo! Não pode me deixar assim!
Eu estava chorando, soluçando, pois sabia que aquela fora a última vez que tinha ouvido a voz dele. Carlos Luz De Castro não costumava voltar atrás em suas decisões.
Foi Sunahara quem tirou o capacete da minha cabeça, me fez parar de xingar e gritar e secou meu rosto. Ela ergueu minha cabeça para focar em seus determinados olhos violetas e, serena, disse:
— Faça o sacrifício valer a pena, Anabel.
Reuni forças para ajudar Deise e Suna a catar as caixas com nossos equipamentos. Não poderíamos levar tudo então recuperamos apenas o essencial: comida, água, poucos itens de acampamento e armas, que se resumiam a dois fuzis automáticos, o restante tinha ficado preso nos destroços da nave. Com sorte não precisaríamos disparar nem um tiro sequer.
Lilyan acordou enquanto enchíamos as mochilas. Ela girou para um lado, depois para o outro e sentou-se confusa nas folhas secas. Deise tinha feito um curativo em sua testa que quase escondia o inchaço. Ela foi a primeira a correr até Lily, que perguntou gaguejando:
— M-Mortas?
— Não estamos mortas, sua maluca, mas chegamos bem perto. Consegue ficar de pé?
Suna surgiu com uma garrafa de água e entregou a domadora.
— É melhor levantar rápido — ela disse, colocando a mochila nos ombros —, o Diretor já soltou seus cães para nos caçar.
Aquilo foi suficiente para fazer Lily cambalear e apoiar-se em Deise para ficar de pé. Ela virou-se e viu nossa nave amassada contra a árvore.
— Puta merda. Como ainda estamos vivas?
— Graças à Santa Anabel — brincou Suna, entregando uma mochila e um fuzil, ela ficou com o outro. Tonta ou não, Lilyan ainda era nossa melhor atiradora. — Vamos sair daqui logo. E vê se não faz nada estúpido dessa vez.
— Ei, o que eu fiz de estúpido?
— A pancada na cabeça fez você perder a memória?
— Calma, gente — Deise interveio. Puxou Lily para perto e deu início à caminhada antes que aquelas duas se atracassem. — Anabel, mostre o caminho.
Triste e cansada, puxei o capacete para ver no visor o mapa estático que meu pai tinha enviado. Não era um GPS, mas teria que servir.
— Me sigam.
° ° °
— Lembro de ver a nave girando e depois tudo ficoJu escuro.
— Você poderia ter morrido!
Já caminhávamos há meia hora e Lilyan e Sunahara não paravam de discuti sobre o acidente. Eu desisti de tentar acalmá-las nos primeiros dez minutos, estava focada em nossa missão e também encantada com a beleza daquele lugar. Não era tão assustador quanto nos vídeos que vi na Cúpula, com criaturas monstruosas rastejando pela lama. A floresta que me cercava parecia ter saído de um livro de fantasia.
As árvores gigantescas faziam o caminho parecer interminável. Plantas coloridas contrastavam com o verde e formavam uma pintura natural vistas de longe. De perto, exalavam perfumes diferenciados e estranhos. Deise me avisou mais de uma vez para não tocar em nada muito chamativo pois não eram raras as espécies tóxicas.
Também vi pequenos animais saltando pelos galhos. Não sei o que eram, pareciam anfíbios, mas tinham braços como macacos. Suna garantiu que não eram perigosos. O que mais me deixou encantada foram os pássaros cintilantes que vi empoleirados em uma árvore de frutos compridos. As penas pareciam aquelas figurinhas 3D que brilhavam em diversas cores conforme o movimento. Eram animais incríveis, eu queria que todos fossem pacíficos assim, mas os titãs são mais emburrados e não gostam de visitantes.
Enquanto isso a briga continuava. Sunahara ficou mesmo muito zangada com a imprudência de Lilyan na nave e não parava de dar sermão. E, é obvio, Lily não é de levar sermões. Sabendo que Ambas estavam armadas, Deise decidiu caminhar entre as duas para o caso das coisas esquentarem. Não que eu achasse que elas fossem se matar, era só o atrito comum do lado técnico de Suna em uma missão com a personalidade impulsiva de Lily. Eu não disse nada para evitar mais discussões, mas Suna tinha razão, Lilyan tinha sido muito inconsequente ao tirar o cinto de segurança. O problema era que Suna insistia no que já era passado.
— Tem um rio logo a frente — avisei, na esperança de cessar a briga.
— Muito fundo? — Suna caminhava ao meu lado. O único capacete com o mapa era o meu, então ela não podia ver.
— Aqui não mostra, mas parece grande.
— Vamos ver se é dá pra atravessar.
Não demorou para ouvirmos o barulho da água, indicando que a correnteza era forte. Paramos na margem para planejar.
— Não é muito largo — observou Lily. — Dá pra nadar até o outro lado.
— Não dá, não — Suna contra argumentou. — Vamos nos afogar nessa correnteza.
— E se usarmos a corda da minha mochila para fazer uma tirolesa?
— Parece ainda mais arriscado — disse Deise, subindo em um pedra. — Não tem jeito, gente, vamos ter que continuar andando até encontrar uma parte onde a água é mais calma.
Pensei no aviso do meu sobre o nosso prazo de dois dias para chegar até o ponto de extração. A viagem já era muito longa, não podíamos desperdiçar tempo. Por outro lado, arriscar a vida tentando acelerar as coisas não era nada sábio, por isso concordei com Deise e optamos por subir o rio, seguindo a margem.
Lily bufou quando soube que sua tirolesa não seria construída, jogou o fuzil nas costas e nos seguiu, não sem antes xingar os mosquitos enormes que tentavam picar seu pescoço. Eu ia dizer para ela parar de se bater, mas um barulho enorme me interrompeu. Barulho de asas.
Senti um vento forte correr sobre o rio, dobrar as árvores menores e arrancar algumas folhas, lançando-as sobre nós. Achei que aquilo fosse algum fenômeno estranho da natureza mórfica que nos cercava. Mas logo vi penas enormes e brilhantes erguendo-se sobre a mata, bem na nossa frente. Eram asas mesmo. Enormes! Depois um pescoço esguio esticou-se ainda mais alto, apoiando uma cabeça com um bico branco e um par de olhos afilados.
Se eu pudesse comparar aquela ave com alguma coisa que conhecia, compararia a uma fênix, mas não havia fogo em suas plumas. O brilho era resultado do reflexo do sol nas penas que pareciam ser feitas de vidro. A ave gritou quando nos viu, algo parecido com um piado de uma garça, muito, muito alto.
— Puta merda — Lily sussurrou de olhos arregalados. — Um benu!
Suna já preparava o fuzil, mas foi impedida por nossa domadora.
— Não atira nela — disse. — Eu consigo segurá-la.
— Olha o tamanho dessa coisa, Lily — Suna falava baixo, estava tensa. — Vai nos destroçar!
De certo iria. Aquele bico de quase três metros poderia facilmente arrancar uma cabeça. E como se a ave fosse contaminada por esse desejo, bateu as asas enormes para voar, criando outra ventania. Torci para que ela fosse simplesmente fosse embora, porém não tivemos tanta sorte. O titã desceu novamente, em nossa direção.
— Pulem na água! — Suna berrou.
— Não! Eu consigo domá-la.
Lily ficou na nossa frente como uma gladiadora diante do leão. Sunahara não deixaria que ela colocasse nossas vidas em risco de novo, abraçou nós três em um empurrão que nos lançou nas águas turvas e furiosas do rio.
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