◀37▶

Acordei de cabeça para baixo com Suna me chamando em algum lugar, sua voz abafada pelo visor do meu capacete. Estava escuro e meus seios doíam, era difícil respirar.

— Anabel, precisa acordar! Anabel!

A medida que eu recuperava a consciência a voz dela ia ficando mais alta.

— Ela está tonta. Vou tirá-la de lá — disse Deise.

Senti a uma pequena mão enluvada pegando na minha e então uma luz acendeu-se no meu rosto. Deise apontava uma lanterna. A nave estava de ponta cabeça, assim como eu, pendurada pela perna presa ao sinto do assento como um presunto no gancho.

— Está sentido dor em algum lugar? — ela perguntou. Tinha tirado o capacete para falar normalmente e como eu ainda estava com a cabeça coberta apenas apontei para o meu peito. — Tá, eu vou desprender a sua perna. Consegue se segurar no assento?

Tateei em volta em busca de apoio e abracei como pude o cinto do assento ao lado, enquanto isso vi Suna se posicionando embaixo de mim para o caso de eu despencar e cair de cabeça.

Minha perna não estava doendo, na verdade eu nem a sentia direito. O sinto me não deixava meu sangue circular normalmente. Deise desprendeu as travas com calma e foi me abaixando aos poucos, toquei o chão com perna esquerda e logo me sentei ofegante, enquanto arrancava o capacete e o deixava preso nas costas. Eu precisaria dele para falar com meu pai.

— Lilyan, onde ela está. Ela está bem? — consegui perguntar finalmente.

— Ela bateu cabeça e desmaiou — Suna respondeu. — Mas não foi nada grave o capacete salvou a vida dela.

Lily estava deitada atrás de Sunahara. Enquanto Deise descia do teto invertido o feixe da lanterna passou sobre ela e eu pude ver o visor do capacete rachado na altura da testa. Lilyan tinha sido jogada de um lado a outro durante a queda e o impacto com a árvore deve tê-la atirado contra uma parede. Posso dizer que tive sorte já que no momento do choque já estava com o rosto colado em uma janela, mesmo assim a dor no peito podia ser sinal de uma lesão mais grave, mas os ferimentos teriam que ficar para depois, nós tínhamos um problema mais urgente no momento.

Pela janela eu vi folhas e galhos enormes tapando a visão do resto da floresta. Nada bom. Eu me levantei e manquei até o vidro. A nave, além de cabeça para baixo, estava inclinada para a direita e eu era obrigada a andar torta como em um navio naufragando. Espiei o exterior e vi o chão bem mais distante do que eu gostaria.

— Ficamos presas na droga árvore! — constatei.

— A julgar nosso pouso — Suna disse — arrisco dizer que isso foi uma boa coisa. Se tivéssemos atingido o chão naquela velocidade, estaríamos em pedaços. A folhagem larga absorveu boa parte do impacto.

Respirei fundo.

— Foi culpa minha. Eu errei.

— Errou? — Deise sentou-se ao lado de Lily. — Estamos vivas. O plano era garantir que sobrevivêssemos à queda.

— O plano era fazer a nave pousar suavemente — eu a corrigi. — E Lily está ferida por minha causa.

— Lily está ferida porque é teimosa. Mas isso não importa agora. Precisamos achar um jeito de descer.

— Claro — concordei. Me sentei com as costas contra a parede de metal. — Só preciso de um segundo para sentir minha perna de novo. Suna, a porta tem uma trava no topo para ser aberta manualmente. Consegue alcançar? Estamos de cabeça para baixo, então ela deve estar na altura dos joelhos.

Deise entregou a lanterna para Suna que cambaleou até porta.

— Achei. É só girar?

— Isso, mas devagar.

Ao girar a trava a porta, que normalmente deveria descer, subiu devido a posição invertida e deslocou todo o veículo de forma que chegamos a escorregar alguns perigosos centímetros.

— Acho que não estamos tão presas assim — ela pontuou o obvio. — Vai ter que se apressar, Anabel.

Olhei para Lily desacorda e bolei um plano nada agradável mas que eu tinha certeza que era capaz de executar. Segurar uma nave inteira poderia ter sido demais para minha habilidade, mas eu conseguiria descer três pessoas com cautela.

— Muito bem — eu disse enquanto ficava de pé novamente. Minha perna começara a doer, mas pelo menos eu conseguia senti-la par caminhar melhor. — Eu vou sair e ficar em posição em um desses galhos. Vocês duas vão ter que pular com Lily, eu vou levitá-las até o chão.

Elas se entreolharam.

— E você? — Suna perguntou. — Não pode levitar a si mesma, como vai descer?

— Eu dou um jeito depois, não temos tempo.

A nave rangeu, ameaçando mais um escorregão.

— Precisamos levar o equipamento. — Deise engatinhou com cuidado até as caixas no nariz da nave. Elas estavam bem presas com cabos. — Podemos jogá-las lá embaixo, vão aguentar.

Eu observei as malas reforçadas e tive outra ideia maluca.

— Deixe apenas uma dessas comigo — eu disse —, vou usá-la para descer.

Fizemos uma fila e fomos passando as caixas de mão em mão para evitar andar pela nave pendendo. Mesmo com esse cuidado, a ausência de peso desequilibrou a nave e escorregamos ainda mais, agora o nariz estava praticamente apontando para o chão, por um triz. Não havia mais tempo, fomos obrigadas a deixar o restante do equipamento para trás, a última caixa menor levei comigo, seria meu paraquedas (eu esperava).

Escalei o teto até a porta e saltei com cuidado para o galho que prendia a nave como um gigante que segurava um brinquedo entre os dedos. Um brinquedo prestes a ser jogado no chão. Comparar aqueles galhos com dedos gigantescos não era nenhum exagero, a árvore era tão grande que eu parecia ter encolhido.

Prendi a respiração enquanto Suna e Deise faziam força para erguer Lily sobre os ombros e subir até a borda, a nave rangia e reclamava. Eu as ajudei a sair, puxando os braços de Lily para fora. Só depois que todas estavam de pé no galho, me permiti respirar aliviada.

— Vamos pular mesmo? — Deise perguntou.

— Não há outro jeito — falei, olhando para baixo. Era como estar em um prédio de dez andares e aquela nem era uma das maiores árvores. — Os galhos são muito grandes, afastados demais para descer por eles.

— É só dizer quando — Suna pediu.

— Só um minuto. Primeiro preciso tirar isso do caminho.

Fui até a nave e dei dois chutes fortes na fuselagem. Foi o suficiente para fazê-la despencar, chocando-se contra outros galhos e ficando mais amassada do que já estava. Torci para que o motor de mercúrio não vazasse e nos causasse outro problema, mas eu não podia arriscar descer as meninas e depois ver aquela coisa caindo sobre elas assim que tocassem o chão.

A nave parou com o baque enorme entre as raízes grossas da planta. Imaginei se eu tivesse tentado nos descer dentro dela e errado de novo, estaríamos destroçadas entre aquelas ferragens. Não podia assumir um risco assim. Me virei para as três.

— Podem pular agora.

Elas hesitaram. Eu não as culpei por isso, estava pedindo para que se jogassem para um vazio, prometendo salvá-las usando uma habilidade que poucos minutos antes tinha falhado em usar corretamente. Entretanto, elas tomaram coragem e pela segunda vez naquele dia, confiaram suas vidas a mim. Suna colocou Lily apoiada em suas costas, Deise apertou-se logo atrás por pedido da própria Sunahara. A ideia dela era amortecer a queda com o próprio corpo caso algo desse errado. Ela se recuperaria depois de algumas horas, mas eu duvidava que Lily ou Deise fossem resistir à queda, mesmo tendo um colchão humano. Era bom eu não fazer besteira dessa vez.

Quando dei o sinal, elas fecharam os olhos e lançaram-se para a o abismo, mas não despencaram com velocidade como era de se esperar. Aliviei a densidade de seus corpos no caminho para que flutuassem lentamente até o chão, como balões murchando devagar. Suna ia se afastando dos galhos do caminho com os braços, evitando folhas tão grandes quanto um rosto, algumas ainda maiores.

Minha concentração era tanta que eu nem piscava, eu sequer respirava. Por um momento eu as perdi de vista entre folhagens mais densas. Gelei. Descê-las sem ver era cinco vezes mais difícil, podia criar a bolha no lugar errado como aconteceu com a nave que não podia enxergar por completo.

— Anabel? — Suna chamou lá debaixo. — Paramos de descer, o que aconteceu?

— Eu não vejo vocês! Não posso continuar sem ver o que estou fazendo.

— Falta pouco, é só continuar em linha reta, não tem mais nenhum galho no caminho.

— Certo — sussurrei, suando. — Certo.

Eu imaginei uma linha descendo até o chão partindo do ponto de onde tinha perdido a visão das garotas e continuei.

— Isso mesmo, continue assim — veio aviso lá de baixo e um minuto depois: — Muito bem, conseguiu. Estamos em solo firme!

Quase desabei de alívio, respirei fundo várias vezes. Percebi que minha cabeça doía. Passei o dedo pelo nariz, esperando ver uma mancha de sangue, mas estava tudo bem, o esforço fora grande porém não o suficiente para me fazer sangrar. Era um bom sinal. Agora tudo que eu tinha fazer era colocar meu próprio plano maluco em prática.

Minha habilidade me afetava muito pouco, então se eu tentasse pular e me fazer levitar até o chão, provavelmente acabaria despencando como uma boneca velha. A minha ideia era influenciar a densidade em volta da caixa de equipamentos e subir nela como uma prancha, algo parecido com aqueles skates magnéticos. O problema era que não sabia andar de skate e aquele era um péssimo momento para tentar aprender, mas que escolha eu tinha?

Peguei a caixa e me preparei para fazê-la levitar. Não estava tão pesada, mas isso não importava para mim. Só queria poder fazer isso de forma mais segura. Sem muito esforço o retângulo de metal flutuou na minha frente. Tentei subir e acabei descobrindo que seria impossível eu me equilibrar sobre ela, aquela porcaria não tinha mais peso e se desequilibrava com um simples toque. A alternativa foi me agarrar a ela. Abracei a caixa e sem olhar para baixo, saltei para a queda. Eu parecia um gatinho abraçando um novelo de lã... a trinta metros do chão.

Os primeiros metros foram tranquilos, até meus braços começarem a arder. Eu estava descendo devagar demais, naquele ritmo ficaria sem forças antes da metade do caminho. Decidi devolver um pouco do peso da caixa e acabei despencando rápido demais, como um elevador desgovernado. Gritei, mas consegui parar de cair antes de acertar um galho próximo.

— O que foi? — Suna berrou lá de baixo. — Está tudo bem?

— S-Sim. Só esqueci de colocar meu peso no cálculo do meu paraquedas improvisado.

— Onde, exatamente, você conseguiu um paraquedas?

— Eu fiz um muito estranho.

Consegui passar pela folhagem densa e desviar dos galhos para encontrar Deise e Sunahara olhando para o alto, esperando para me ver descer de forma épica: abraçada a uma caixa de metal. Suna riu de alivio e de mim quando me esparramei no chão encarpetado de folhas secas, agradecendo aos céus por estar viva.

— Quem diria — ela debochou — para alguém que cresceu tendo de tudo, você até que é boa com improvisos.

— As pessoas surpreendem quando a vida está por fio. Mas é claro que uma garota imortal como você não sabe o que é isso.

— Isso quase me ofendeu, patricinha. Agora levanta daí precisamos sumir desse lugar o mais rápido possível. O Diretor já deve estar enviando um enxame de drones de busca.

Eu fiquei de pé muito rápido. Só de ouvir aquilo me deu vontade de sair correndo pela mata. Mas não o fiz. Olhei em volta, depois da adrenalina da chegada, pela primeira vez eu observava o meu entorno. Eu estava mesmo no meio de uma floresta mórfica, fervilhando de espécies novas de mórficos, qualquer uma potencialmente capaz de nos matar.

Meus pés afundavam na folhagem morta. As árvores gigantes tapavam a visão do horizonte e também quase me impediam de ver o céu, com as copas frondosas quase se tocando, muito, muito acima da minha cabeça. De novo me sentir encolhida no meio daquela vastidão verde.

Eu costumava ir em muitos jardins suspensos perto da faculdade. As florestas de lá eram comuns, normais como eram antes da chegada do vírus. O cheiro que sentia era parecido com os jardins, a diferença ficava por conta do clima mais úmido. Aquilo tudo era intimidador, mas também lindo.

— Muito bem, vamos começar a andar. Temos que achar as caixas com nossas armas. Vamos precisar delas e da comida também.

— E para onde vamos exatamente? — perguntou Deise, ela tinha colocado Lilyan deitada no colchão de folhas que agora parecia estar mais dormindo que desmaiada.

— Temos que esperar algum contato do meu pai.

Teríamos que juntar nossas coisas e sair andando a esmo pela floresta até meu pai enviar o mapa para o ponto de extração. Não podíamos ficar ali esperando os drones de busca nos encontrarem. Entretanto, pela primeira vez naquele dia não tive que tomar outra decisão difícil. O capacete preso às minhas costas começou a apitar. Era um sinal pirata fazendo o download de coordenadas de GPS. Acompanhado dele, veio uma chamada de rádio.

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