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Ao deixarmos a sala de contato, onde o diretor prometeu nos vigiar, Vladimir nos levou para um elevador apertado que subiu rápido para o que achei ser outra sala. Quando a porta se abriu me vi novamente na área principal do andar 1, diante do tubo transparente que erguia-se até a abertura. A plataforma iluminada já nos esperava com meia dúzia de soldados equipados com trajes externos e um par de técnicos com nossos capacetes em mãos. Eles não iriam com a gente, apenas nos escoltariam até a nave.

— Boa sorte, moças — Vladimir sussurrou antes de dar o primeiro passo para fora do elevador, não havia tempo para uma despedida emocionada (não que eu achasse que Vladimir fosse capaz disso).

Caminhamos em fila para que os técnicos encaixassem nossos capacetes e testassem todos os sensores e travas. Quando meu rosto foi coberto pelo visor de acrílico reforçado, senti o cheiro de plástico novo e comecei a ouvir minha própria respiração, a voz de Suna falando algo no rádio. Os status físicos das garotas surgiram no meu visor, batimentos cardíacos, temperatura do corpo, tudo em letras e números muito pequenos. Olhei meus batimentos, estavam bem altos. Respirei fundo.

— Tudo pronto? — Vladimir perguntou para um dos técnicos e teve como resposta um polegar levantado. — Ótimo. Meninas, olhem para mim, vamos aos detalhes da missão. Vocês serão enviadas para uma área ainda não explorada, o que, como podem imaginar, será extremamente perigoso. Mapeamos alguns quadrantes com drones, mas a interferência magnética lá é forte e não temos dados completos. O objetivo de vocês é caçar, encontrar e capturar um alma-vermelha.

Aquilo não era novidade pra ninguém. Durante o treinamento, eles não tinham contando exatamente qual seria nosso alvo durante a caçada, mas já suspeitávamos que se tratava de um alma-vermelha devido a quantidade de informações que tivemos sobre esses mórficos, mas saber disso não era muito animador. Os alma-vermelha são extremamente perigosos. Perdem em tamanho comparados a outros titãs, mas compensam isso com a habilidade mórfica única: transmutação celular. Eles são capazes de alterar a estrutura do organismo para se adaptar a ameaças e ao ambiente. E também são hematófagos, aliás. Agora imagine uma criatura com metade do tamanho de um humano adulto, praticamente invulnerável e que bebe sangue de forma nada gentil. Nem um pouco tranquilizador.

Um alma-vermelha nunca foi capturado por vários motivos. O primeiro é que eles são muito raros; segundo são espécies muito agressivas e terceiro: vivem em lugares isolados, fervilhando de outros titãs. Os riscos para tentar uma missão de captura comum superavam o valor de pesquisa no DNA dessa criatura. Acreditava-se que essa maleabilidade celular dos alma-vermelha podia conter o segredo para uma vacina que faria o organismo ser capaz de resistir ao vírus M e também a qualquer coisa.

A esperança do Diretor nessa missão era que minha capacidade de alterar densidade estivesse além do poder de adaptação do alma vermelha e que fosse suficiente para mantê-lo parado enquanto Lilyan tentaria entrar na cabeça dele e domá-lo. É claro, nenhuma de nós tinha qualquer intenção de dar de cara com mórfico titã algum. Nossa objetivo lá fora era outro.

Subimos na plataforma na mesma formação da minha primeira vez: os soldados nas bordas e internas no centro. Eu preferi ficar calada o tempo todo, a sala de operações podia ouvir nossa conversa pelo rádio e eu apostava que o Diretor estava de pé ao lado de um projetor naquele momento, nos vigiando como prometera.

A barreira da plataforma foi erguida e começamos a subir dentro daquela bolha de fractais violeta. Vladimir foi ficando menor e menor, me encarando com as mãos nos bolsos e um sorriso frio no rosto. Olhei para Suna ao meu lado, que balançou a cabeça em um gesto de apoio, mas, por um momento, deixou escapar um olhar que dizia: isso vai dar certo? Eu apenas baixei a cabeça.

A plataforma alcançou a câmara de descompressão e chão se fechou sob ela. Ficamos na meia escuridão até as pesadas portas hidráulicas começarem a se abrir. O dia não estava tão ensolarado como da primeira vez, pequenas nuvens escuras pontilhavam um céu meio cinza.

— Será que vai chover? — Deise perguntou assim que saímos da câmara.

Eles planejavam as caçadas minuciosamente, então eu duvidava que nos enviassem para fora em um dia de chuva, mas nada era garantido ali, o Diretor era louco o suficiente para fazer qualquer coisa.

Os soldados nos escoltaram dando a volta na abertura da câmara até a protuberância circular de um dos hangares que se abria como uma boca de metal apontada para o céu. As naves eram projetadas para ter contato direto com atmosfera contaminada, mesmo assim eram protegidas naqueles escudos de metal. O veículo surgiu daquela boca enorme, era bem avançado, as esferas na parte inferior revelavam parte de um sistema de propulsão a mercúrio. Esse tipo de tecnologia não poluía o ar já que não emitia gases, mas eram proibidos dentro das cúpulas a não ser em casos de emergência e apenas por parte de órgãos do governo. Se um desses motores vazar o estrago ecológico seria enorme. De qualquer forma as Cúpulas não eram assim tão grandes para alguém precisar se mover tão rápido com um desses.

Entramos pela porta lateral com um enorme 003 escrito nela em preto. As luzes de aviso já piscavam nas pontas das curtas asas anunciando que a decolagem aconteceria em breve.

— Entrem. Sentem-se e ponham os cintos — ralhou um dos soldados de capacete enquanto o hangar terminava de abrir-se por completo.

A nave não era muito grande, fora projetada para ser rápida e transportar pouca gente. Haviam apenas seis acentos colados às paredes. Sentei-me no mais próximo à porta. Suna ficou na minha frente, Deise à minha esquerda e Lily ao lado dela, esticando as pernas como que se espreguiçando, ela realmente conseguia manter a calma. Tratei de cruzar os cintos e apertá-los bem.

Passageiro do assento 3, por gentileza trave o cinto de segurança.

Era a voz do sistema de pilotagem avisando Lily que estava solta na cadeira. Ela bufou e obedeceu o aviso. Olhei para o nariz da nave, onde deveriam ficar os consoles de controle e o assento do piloto, mas só vi o compartimento de carga com o resto do equipamento para a caçada. Como Vladimir havia dito, a nave era mesmo autônoma, agora restava saber se meu pai conseguiria burlar as incontáveis camadas de defesa para desligar tudo... em pleno voo.

A porta ao meu lado fechou-se com um assobio e travou. As janelas estreitas sobre nossas cabeças não eram suficientes para iluminar o interior e tudo ficou escuro até que a nave acendesse as luzes do teto.

Aguardando ordem de voo.

— É um pouco tarde para ir ao banheiro? — brincou Lily.

— Acho que sim — Suna riu. — Mas se quiser pode fazer no uniforme mesmo.

— Vou esperar até a gente descer — disse aquilo olhando para mim.

A conversa das duas foi interrompida pela leve vibração sob nossos pés e um barulho quase inaudível do lado de fora, como se alguém tivesse ligado um soprador de folhas. Eram os motores de mercúrio.

Ordem de voo confirmada. Decolando em t-10 segundos...

Fechei os olhos com o solavanco que me fez colar a nuca na parede. Aquela coisa  não era nada sutil. Entretanto, o desconforto da aceleração instantânea durou um minuto. A vibração logo parou e passamos a seguir em linha reta. Busquei na janela alguma indicação de movimento, mas tudo que vi foram borrões de nuvens cinza.

— E lá vamos nós — eu disse sorrindo de nervosa.

A noite mal dormida cobrou seu preço no meio da viajem e me fez apagar na cadeira. O que não foi nada prudente já que a nave cairia a qualquer momento e eu era a responsável por garantir que todas sobrevivêssemos, mas o cansaço foi mais insistente que minha preocupação.

Foi Deise quem me acordou aos cutucões depois de algumas horas. Dei um pulo de susto que me teria feito bater a cabeça no teto se eu não estivesse presa no assento.

— O que foi? — perguntei. — Estamos caindo?

— Não. Calma.

— Você dormiu um bocado — Suna explicou do outro lado. — Devemos ficar alertas daqui pra frente.

Eu concordei discretamente. Já estávamos voando há horas, a sabotagem poderia acontecer a qualquer momento. Me inclinei para ver Lilyan e me surpreendi ao encontrá-la de pé ao lado de uma das janelas, olhando para as nuvens passando muito rápido lá fora.

— Isso é perigoso, sabia? Volte para seu lugar! — reclamei.

— Mina bunda estava ficando quadrada nessa cadeira — ela justificou-se cruzando os braços. — Só levantei para esticar as pernas um pouco.

A nave estava estável, sem qualquer trepidação ou balanço, mas o problema era que não saberíamos quando começaríamos a cair e se  Lily estivesse solta quando acontecesse...

Ordem conflitante — o sistema avisou de repente. — Ordem conflitan....

Nesse momento as luzes do teto se apagaram e depois reascenderam em um tom vermelho sangue. Ouvi um alarme em algum lugar que durou apenas alguns segundos pois logo a nave inteira se apagou nos deixando apenas com as luzes nos visores dos capacetes. Senti meu sangue ir para a cabeça quando a inercia nos jogou para o teto. Estávamos caindo.

Lilyan era ágil e pulou para seu lugar, mas a nave começou a girar, trocando o chão pelo teto, só restou a ela agarrar-se à ponta do sinto de segurança enquanto era atirada de um lado a outro. Deise gritou.

— Anabel! — A voz controlada de Suna soou no fone. — Anabel, é com você. Faça isso parar!

Fechei os olhos e me concentrei o que não era nada fácil no meio daquela confusão rodopiante, felizmente esse problema foi resolvido quando meu capacete desligou. O rádio, o sistema de monitoramento, o status da equipe, tudo desativado. E também meu bloqueador. Senti quando aquela mão invisível desapareceu por completo, foi um alívio enorme. Era minha chance de agir.

Concentre-se, Anabel, todas dependem de você agora, cobrei a mim mesma.

Foquei em criar meu círculo imaginário em volta da nave inteira e me deparei com a primeira dificuldade: estávamos caindo rápido demais. E girando rápido demais. Eu não conseguia mirar no lugar certo, sempre que eu imaginava o círculo em um ponto a nave já estava metros abaixo. Eu não tinha ideia a que distância estávamos do chão, o impacto poderia acontecer a qualquer momento. Não tive outra escolha, eu teria que ir até a janela.

Destravei o sinto sem pensar muito e fui logo jogada contra uma parede, depois rolei para o teto. Doeu um bocado, mas logo consegui me orientar e ver uma janela. Deise estava segurando Lily pelo braço para que ela não fosse arremessada também. Ambas gritavam alguma coisa para mim, mas era impossível ouvir com o capacete tapando tudo.

— Tive uma ideia — falei apesar de saber que não me ouviriam.

Agarrada em outro assento, esperei a nave dar mais um giro e me joguei para a janela usando a inércia a meu favor. Encontrei a parede de aço com o peito de forma nada delicada, mas o traje protegeu minhas costelas de uma fratura feia. Deu certo, eu estava vendo o lado de fora.

Dali eu via uma das asas da nave trepidando com o atrito com ar, prestes a se partir. O que importava mesmo era que eu conseguia ver para onde estávamos indo (caindo). O mar verde de árvores enormes se aproximava muito rápido. Dessa vez não fechei os olhos me concentrei não no ponto onde a nave estava, mas sim onde estaria segundos depois. Me esforcei para cobrir a maior área possível e rezei para dar certo, estávamos tão perto das árvores que se eu errasse não teria uma segunda tentativa.

Eu errei.

Em um dos giros a asa esquerda partiu e a direita serviu com um leme para nos fazer mudar de direção. Apenas o nariz da nave foi afetado pela minha habilidade. Paramos de cair por alguns segundos até escaparmos da bolha, então a gravidade voltou a nos atrair para o chão. Só que havia uma árvore no caminho e fomos de encontro a ela.

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