◀26▶

     No dia seguinte, assim que o horário de restrição terminou, nos reunirmos para ver o quarto onde Daniele estava. Sabíamos que não conseguiríamos entrar, só queríamos vê-la pelo vidro, acenar e sorrir para que ela soubesse que não estava sozinha. Infelizmente nem isso pudemos fazer, um par de guardas protegia a porta e não deixou que nos aproximássemos.

     — Sumam daqui! — o mais exaltado berrou. — Não foram avisadas? Não podem entrar.

     — Tá bom, cara, relaxa. — Lily foi dizendo enquanto se aproximava e esticava o pescoço para ver pelo vidro. O outro guarda a empurrou de volta para nós.

     — Nada de gracinha aqui, domadora. Vão todas para o refeitório ou chamarei alguém para arrastá-las até lá.

     — Vamos. — Puxei Lily pelo braço. — Não adianta, temos que esperar que liberem ela.

     Caminhamos para o elevador sob os olhares irritados dos dois guardas, obviamente não estavam contentes de estarem ali. De qualquer forma, não havia motivo para forçar a barra, só nos restava esperar que desse tudo certo para Daniele. Eu não parava de imaginá-la nas mesmas situações que passei, a cirurgia para implantar o bloqueador, o terror de saber que está sendo dopada a todo momento, o medo de morrer. Talvez eles tivessem um procedimento menos agressivo com ela, já que era só uma criança. Eu torcia para isso.

     Depois do café, segui para mais uma das minhas aulas de treinamento nas salas negras. Eu tinha que me concentrar, as coisas estavam acontecendo rápido e eu precisava aprender.

     Depois do “aquecimento mental”, como um dos instrutores chamava as seções de levitação de objetos, Deise foi ordenada a ficar no centro da sala, na minha frente. Eu já estava tensa.

     — Vamos fazer alguns testes — disse o instrutor, carregando uma caixa de metal até ela. — Queremos ver como suas habilidades interagem.

     — E isso é perigoso?

     O instrutor deu de ombros.

     — Vamos descobrir.

     O objetivo dele não era mesmo me deixar mais calma. Sunahara e Lily tiveram que se afastar, ficamos apenas eu, Deise e o instrutor no centro da sala. Pelo menos Vladimir não estava ali para me importunar, talvez estivesse assistindo pelas câmeras.

     — Deise, seu tralho é simples esfrie a sala.

     Olhei para o cara como se ele tivesse dito alguma loucura. Eu ainda não tinha visto Deise usar sua habilidade, os bloqueadores dela estavam sempre ligados. Suna havia me dito que o nível de ameaça dela era quase tão alto quanto o meu. Não era como Lily que dependia de um mórfico por perto para fazer algum estrago ou Suna que basicamente só se regenerava. Deise era ameaçadora de outra forma.

     — Até que ponto? — Deise perguntou, apertando as mãos. Não parecia confortável.

     — Vamos avisar quando for suficiente. — Ele se virou para mim. — Anabel, mude a gravidade em volta dela.

     — Aumentar ou diminuir? — perguntei, torcendo para ele dizer diminuir, mas...

     — Aumente.

     — Posso machucá-la — argumentei.

     — Sei disso. Faz parte do teste. — E dito isso o homem se afastou, deixando a caixa prata entre nós. Encarei Deise. Ela tirou os óculos.

     — Pode ir — disse — vou ficar bem.

      Meu bloqueador já estava desligado e o de Deise logo ficou vermelho também. Esperei ver alguma coisa extraordinária acontecer, algo começar a faiscar, mas a sala só ficou muito fria de repente.

     — Não chegue perto — ela avisou, concentrada.

     Eu me preparei para usar minha habilidade, comecei devagar, aos poucos mudando criando aquela bolha invisível em volta de Deise, com muito cuidado. Minha respiração já se condensava no ar como se estivéssemos dentro de um freezer.

     — Está mesmo fazendo isso? — perguntei. — Você pode mudar a temperatura do ambiente como bem entende? 

     — Não com tanto controle — ela respondeu sem perder o foco. — Se ficar muito frio me avise, certo?

     Ela ainda estava preocupada comigo, eu podia esmagá-la se me descuidasse e ela estava preocupada com o meu bem-estar.

     — Anabel, aumente mais — ordenou o instrutor de uma distância segura. — Você também, Deise.

     Aquele cara parecia querer saber quem de nós duas cairia primeiro, estava mais para algum tipo de aposta pessoal do que um teste científico. Eu obedeci com ainda mais cuidado, entretanto, o pouco de pressão que adicionei sobre Deise a fez cair de joelhos, ofegando. Parei imediatamente e dei um passo na direção da minha amiga para ajudá-la. Um passo foi o suficiente para sentir o calor do meu corpo ser sugado como ar em ambiente pressurizado com uma rachadura. A sensação é como se a vida estivesse sendo arrancada de mim. Caí ao lado dela, meu corpo todo tremendo.

     Deise apenas levantou a cabeça me vendo caída. Ficou parada de joelhos, com os punhos cerrados como se segurasse algo dentro de si com muito esforço e dor.

     — N-Não devia ter chegado perto — gaguejou. — Arraste-se para longe, Anabel.

     Eu queria me levantar, perguntar o que tinha acontecido, mas minhas pernas estavam dormentes e meus dentes batiam um no outro. Ouvi Lily gritando com o instrutor que iria ajudar, sendo repreendida logo em seguida. Então fiz o que o Deise pediu e comecei a me arrastar para o lado oposto. O que já era difícil, ficou impossível quando o gelo começou a se formar sob meus braços.

     O chão ao redor de Deise estava ficando branco, emitindo pequenos barulhos de gelo trincando.

     — Ok, Deise isso já demais, pode parar — ouvi a voz do instrutor de novo, dessa vez mais preocupado. — Use a caixa.

     Com um comando, os cantos superiores da caixa prata se abriram, revelando uma haste branca e porosa, suspensa no interior. Deise se esforçou muito para ficar de pé e enfiar a mão direita na caixa, segurando a haste com a palma avermelhada. Os cantos voltaram a se fechar e abraçaram o pulso da garota, encaixando-se perfeitamente com o bloqueador. Aquela peça tinha sido feita especificamente para ela. A caixa passou a emitir um zumbindo e Deise simplesmente relaxou, como se aquela coisa tivesse tirado dela toda a tensão de outrora.

     Depois disso o frio me venceu e tudo que me lembro é da equipe médica me colocando em uma maca e me cobrindo com tecidos de controle térmico. Lembro também do olhar de Deise cheio de culpa e medo, Lily e Suna ao lado dela enquanto eu era levada para o andar médico.

°        ° °

     Acordei dentro de uma capsula médica aberta. Já ia fazer força para saltar dali antes que a tampa de vidro se fechasse e me prendesse, mas antes vi o rosto tranquilizador da Dra. Arlene.

     — Olá, moça — sorriu ela. — Como se sente?

     — Bem... eu acho. Eu estava como frio. Muito frio.

     Arlene leu os dados no painel da capsula e sorriu de novo.

     — Você ficou perto demais de Deise. Ela absorveu parte do calor do seu corpo. Você teve uma hipotermia instantânea. 

     Ela falou aquilo com tanta naturalidade que fez parecer que não fora nada de mais. Na verdade, eu fiquei bem perto de morrer, bastaria dois passos mais perto de Deise e meu coração simplesmente pararia de bater, fácil assim, em um segundo viva e no outro, morta. A própria Deise me explicaria isso mais tarde.

     — Não me contaram que era tão arriscado — reclamei. Abri e fechei as mãos, testando se meus ossos não estavam congelados.

     — Suspeito que seu instrutor tenha feito de proposito. As ordens são para tirar o máximo de você durante esses dois meses.

     — Vão acabar me matando.

     — Não vão, não. Você é mais forte do que pensa.

     Eu a encarei, eu estava quase confiando nela.

     — Pode se levantar — ordenou.

     Me sentei devagar no colchão de silicone antes de saltar para o chão. Passei a entender o motivo de Deise ter dois bloqueadores. Se ela pudesse usar sua habilidade livremente, poderia matar todos os guardas apenas caminhando entre eles.

     — Quanto tempo fiquei desacorda?

     — Apenas algumas horas — a médica respondeu — Tivemos que colocar você na capsula, seu coração estava quase parando.

     — Foi tão ruim assim? — Eu lembrava apenas do frio.

     — Na verdade isso é até comum quando as meninas treinam com Deise. Já deixo algumas capsulas programadas para tratamento hipotérmico.

     O que pensar sobre aquilo? Pelo visto eu ainda não estava totalmente adaptada àquele lugar. Arlene me liberou para voltar para o quarto e descansar um pouco, mas havia uma coisa que eu queria saber, aproveitei que estávamos sozinhas e perguntei:

     — A garota nova. Daniele, não é? Ela está bem? Por que não nos deixam vê-la?

     A médica olhou para mim, depois olhou para os lados buscando certeza de que ninguém nos ouvia. Suspirou e decidiu falar.

     — Daniele tem uma condição especial. Ela está doente, Anabel.

     — E por que não a colocam em uma dessas capsulas supercaras e curam ela?

     — Não é tão simples, querida. — Seu olhar estava cheio de pesar. — Daniele é uma eletrocondutora.

     — Eletricidade? O que isso tem a ver?

     — Ah, lindinha! Você está viva!

     Vladimir entrou na sala exagerado como sempre, o cabelo brilhante de gel e aquele sorriso arrogante. Caminhou até nós a passos rápidos e me olhou de cima abaixo.

     — Fiquei sabendo o que aconteceu no treinamento — disse em tom de deboche. — Devia tomar mais cuidado com a baixinha.

     — Deise não fez por querer.

     — Deise é uma máquina de matar. Felizmente, ela sabe se controlar. — Sorriu. — Diferentemente de certas pessoas.

     O que aconteceria se eu socasse ele ali mesmo? Talvez valesse as semanas de castigo comendo meleca.

     — Vladimir, ela já está liberada. — Arlene se meteu entre nós. — Anabel responde bem ao tratamento das capsulas.

     — Quando não as destrói, não é? — Outra provocação. Fechei o punho. Mais uma dessas e eu não responderia por mim. — O que está olhando? Vá para seu quarto.

     — Idiota — ralhei e saí irritada pelo corredor, é claro, sendo seguida por dois guardas armados.

     Assim que cheguei na área dos alojamentos Deise correu até mim pedindo mil desculpas, perguntando se eu tinha me machucado e chamando a si mesma de idiota. Ela quase sempre era muito quieta, mas quando se tratava de suas habilidades, se tornava uma amiga superprotetora, até um pouco paranoica.

     — Estou bem, Deise, é sério — tentei acalmá-la enquanto ia até seu quarto. O horário de restrição ainda não tinha começado e as portas estavam abertas.

     Suna e Lily conversavam em um canto. Não pareciam muito preocupadas com minha condição. Como Arlene mesmo tinha dito, era comum alguma de nós ir parar na ala médica depois de uma seção de treino com Deise.

     — Já voltou? — Lily surpreendeu-se. — Foi rápido.

     — Foi muito ruim? — quis saber Suna e por algum motivo, checou as pontas dos meus dedos. Talvez ela pensasse que eles tivessem congelados de alguma forma.

     — Foi um pouco assustador, mas estou bem agora.

     — Desculpa — Deise choramingou ao meu lado. — Deixei você chegar muito perto.

     — Esquece isso. A culpa foi daquele instrutor babaca que queria ver como minha habilidade reagiria a sua. Agora eu preciso saber uma coisa: o que exatamente faz uma eletrocondutora?

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