◀16▶
Aprendi a contar o passar dos dias pela janela virtual no meu quarto. A contagem já estava em trinta e dois pores do sol no deserto. E o mais estranho era que eu sentia que não tinha passado tanto tempo. As aulas, os testes, os treinamentos. Tudo me deixava tão ocupada que nem percebia o dia passando. Não sabia se isso era bom ou ruim, mas era estranho.
Outra coisa estranha era o fato de eu não saber qual era o dia da semana. Todos os dias pareciam iguais, talvez nem mesmo as pessoas que trabalhavam ali sabiam ou se importavam em saber. Então eu passei a contar as semanas pelas idas à Sala de Dados. Esse dia eu fingia ser uma segunda-feira. Meu calendário inventado não mudou em nada minha rotina, mas me deixou mais tranquila com o passar correto do tempo.
— Quinta-feira. Trinta e dois dias.
Passou a ser meu ritual matinal falar em voz alta a contagem dos dias assim que acordava. Suna não gostava muito da minha paranoia e sempre resmungava alguma coisa. Só que dessa vez ela ficou calada, estava ocupada olhando pelo vidro grosso da porta. Me sentei na cama, tirando do rosto meu cabelo emaranhado. Naquela semana eu vinha dormido tão bem que minha cara ficava muito bem enterrada no travesseiro, já estava dando adeus as olheiras.
— Bom dia — disse no meio de um bocejo.
— Bom dia. — Suna nem se virou para mim, praticamente na ponta dos pés, esticada para olhar o corredor pelo vidro.
— O que foi?
— O horário de restrição ainda não acabou.
Eu pisquei e fui ver a janela virtual. O dia já tinha amanhecido no deserto, mas era difícil saber a hora exata. Pensando bem, Suna não tinha me acordado. Ela sempre me cutucava quando eu dormia demais para que não nos atrasássemos para o café. Naquele dia foi diferente e eu mal imaginava o motivo.
— Ainda é cedo. — Fui até ela e espremi o rosto no vidro também. O corredor estava deserto. — O que está vendo?
— Movimentação incomum. Não sei, alguém de fora, talvez.
— Já aconteceu antes? — Me endireitei para vê-la, o olhar violeta tinha um leve tom de preocupação.
— Sim.
— E?
— Eles não costumam atrasar os horários assim, Anabel. E eu não gosto quando acontece.
Engoli em seco. Sunahara estava ali a bem mais tempo que eu. De qualquer uma de nós aliás. Ela sabia do que estava falando. Mudanças nos horários eram mesmo um péssimo sinal. Fui para o banho com medo do que poderia acontecer nas próximas horas e quando terminei a porta ainda estava trancada. Suna estava sentada à mesa, mas não lia nenhum livro, só tamborilava os dedos impacientemente.
— É, já passou um tempão. — Me juntei a ela. — Talvez tenham mudado os horários das atividades de hoje — arrisquei.
— Teríamos sido avisadas — ela rebateu, juntou as mãos e depois baixou a cabeça. — A última vez que isso aconteceu foi no dia seguinte da morte de Clara.
— Quem é Clara?
— A minha última colega de quarto a que se matou com o próprio bloqueador. Ficamos dois dias em restrição até a atualização dos bloqueadores ficar pronta. — Suna tinha ficado pálida de repente, com cara que de quem vomitaria a qualquer momento.
— Ela morreu aqui? — perguntei com um calafrio percorrendo minhas costas. — Foi nesse quarto que aconteceu?
— Não. Foi em outro. — Ela apertou minha mão e eu quase gritei de dor, ela tinha força. — E se aconteceu alguma coisa com uma das meninas? E se...
— Calma, Suna, não aconteceu nada. Vai ver é uma pane no elevador ou algo do tipo. Estão concertando e preferiram nos manter aqui. — Era uma tentativa de acalmá-la, só que não foi das melhores, nem eu acreditei em mim, mas Suna preferiu ser otimista:
— É, pode ser isso.
A preocupação de Sunahara não era com o horário e sim com Deise e Lily. Ela tinha medo de perdê-las, eram a única família que tinha. Eu não sabia se já fazia parte daquela família, mas entendi como ela se sentia. Foi a primeira a chegar aqui e era conhecedora íntima da solidão
Eu tentei nos distrair lendo um dos romances da estante. Peguei o mais meloso que encontrei e comecei a ler em voz alta, fazendo piadas dos trechos mais clichês. Cheguei até a adivinhar o final do livro de tão previsível. Suna riu algumas vezes, porém não desgrudava o olhar da porta blindada.
A espera acabou perto do meio-dia, com a voz feminina nos alto-falantes que soou como um anjo tocando uma trombeta dourado. Fim do horário de restrição.
Suna me puxou pelo braço e voou para o corredor com medo de ficarmos trancadas de novo.
— Vem, vamos ver o que aconteceu! — exclamou ela, caminhando rápido.
— Eu tô morrendo de fome. Vamos logo para o refeitório. — Sim, minha preocupação maior era meu estômago vazio. Tinha certeza que as garotas estavam bem. De qualquer forma deixei ela me guiar até o quarto de Deise e Lilyan. Porém, antes de o alcançarmos, Vladimir surgiu, saindo do elevador em seu impecável terno prata. Minha fome sumiu na hora. Felizmente ele estava sozinho, mas não sorria.
— Vladimir, o que foi esse atraso? — Suna impôs um tom imperativo, exigindo uma resposta.
— Calma, é só uma situação especial. Está tudo bem. — Ele me pareceu tenso, até o cabelo escuro estava um pouco fora do lugar. — Depois explico, agora podem ir para o refeitório.
— Ai, que bom. — Ela relaxou e só então soltou minha mão. — Pensei que...
— Está tudo bem, Suna — ele assegurou apertando seu ombro. Foi a primeira vez que vi um gesto de gentileza de Vladimir. — E você, Anabel, vem comigo.
Senti o ar fugindo de mim.
— Pra onde? — O modo como falou me assustou mais do que as próprias palavras.
— Só me acompanhe. Não temos muito tempo. — Eu e Suna trocamos olhares preocupados.
— Também vou — ela voltou para meu lado.
Vladimir respirou fundo e coçou o pescoço. Ele realmente estava tenso com o que quer que estivesse acontecendo.
— Por favor, meninas, não compliquem minha vida ainda mais, vocês sabem como as coisas funcionam aqui. Sunahara, é uma situação especial e preciso que apenas Anabel venha comigo. Você vai para o refeitório com as outras garotas fazer tudo o que fazem normalmente, entendeu? — Ele repetiu tudo pausadamente, como se nós fossemos duas retardas. Então resolvi obedecer de uma vez.
— Tudo bem, te vejo mais tarde — disse à Suna. — Vou ficar bem.
— Tá. Se cuida.
Vladimir já estava impaciente e prestes a me puxar pela orelha quando comecei a segui-lo por outro corredor. Vi de relance Lily e Deise saindo do quarto. Me enviaram de volta um olhar que dizia claramente: pra onde você está indo? Mas só tive tempo de dar um sorriso amarelo enquanto entrava no elevador. Tudo que eu desejava era que o destino não fosse o andar 10.
— Para onde estamos indo? — perguntei assim que as portas se fecharam. — Fiz algo de errado?
Vladimir estava de costas para mim, seus ombros tensos. Ele me olhou de canto de olho antes de responder.
— Anabel, escute com muita atenção: tem alguém que quer vê-la e é muito importante que saiba que esse encontro deve ser mantido em segredo acima de qualquer coisa, entendeu? O Diretor não sabe de nada. Se isso vazar você e suas colegas correrão risco de vida.
Só fiquei mais nervosa.
— Quem é?
A porta se abriu e ele não respondeu. Olhei para o console, estávamos no andar 1, área de contato externo.
— Fique calada, não faça mais perguntas — ele ordenou e saímos para a área aberta.
Os drones de vigilância continuavam flutuando sobre nossas cabeças, mas não pareciam muito interessados em mim dessa vez. Olhei para o alto, para o teto de aço curvado, era o mais próximo que eu podia chegar da superfície, o mais perto da liberdade.
Vladimir me guiou para uma sala que eu conhecia bem e não gostava nem um pouco: a salinha branca onde acordei sentada na cadeira fria e onde o diretor me deu a notícia de que eu era portadora do vírus mórfico. Vladimir digitou o código para destrancar a porta.
— Vai lá, seu tempo é curto. Vou ficar aqui fora e vigiar.
Vigiar quem?, quis perguntar, mas ele não me deu tempo e me empurrou para dentro. Era tão estranho vê-lo sério daquele jeito. O sorriso de deboche dele me irritava, mas aquela expressão tensa me assustava. Eu preferia ficar com raiva a ficar com medo. Cambaleei para dentro e a porta foi travada imediatamente. Senti aquele cheiro asséptico que irritava meu nariz.
Virei-me para o vidro escurecido, esperando ver o rosto de alguém se materializar a qualquer momento, mas só o meu reflexo me encarava de volta.
— Olá? — chamei, enquanto caminhava até a cadeira, não ia me sentar ali de jeito nenhum. — Tem alguém aqui?
Então as luzes se apagaram e eu fui engolida pela escuridão. Gritei, mas não saí do lugar, meu coração estava a mil. No escuro, só via a luz verde do meu bloqueador brilhando fracamente no vidro e a iluminação do console da porta.
— Queda de energia. Iniciando protocolo de contenção. Setores de risco 1 a 3, selados. — A voz de aviso do sistema me fez dar um pulo.
Depois de alguns segundos as luzes indiretas de emergência foram ligando aos poucos, banhando a sala em um fraco tom azulado. A sala estava selada. Aquilo era contenção de risco biológico e o risco ali era eu.
— Vladimir! — fui até a porta e esmurrei o console. — Vladimir, o que está acontecendo? Não tem ninguém aqui. Isso é algum tipo de brincadeira, seu desgraçado?! — Não houve resposta. Ele tinha me trancado ali e desligado a força da sala? Era algum tipo de teste bizarro ou algo saiu errado?
Então um bipe soou atrás de mim. Girei nos calcanhares a tempo de ver o vidro voltando a ficar transparente, o processo era mais lento já que a sala estava em modo de emergência e, provavelmente, a energia reserva tinha sido desviada para a contenção. Vi a mesa onde o diretor estivera sentado, as paredes brancas do outro lado e a porta da antessala. Ela se abriu e uma silhueta alta caminhou até bem perto do vidro. A luz azul no vidro embaçado não me deixava ver direito quem era, até que ele falou, a voz inconfundível.
— Oi, Ana, que saudade de você.
O vidro finalmente ficou totalmente cristalino e eu pude ver aquele rosto quadrado, a barba escura e os olhos cheios de lágrimas.
— Pai?
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