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Antes de começar, quero deixar claro que isso não é um diário. É uma caixa preta da história da humanidade. O que vou contar aqui é sobre minha vida, sobre o que passei para chegar onde estou hoje.

A primeira coisa que precisa saber sobre mim é que gosto de festas. Na época do colégio minha casa era famosa pelas festonas de fim de semestre e isso não mudou quando fui para faculdade ainda bem cedo. Não quero que tenham uma impressão errada sobre mim, não sou aquelas patricinhas ricas de nariz empinado que transa que com os top dez garotos mais populares. Bom, meu pai tinha muito dinheiro e digamos que eu era bem conhecida por causa dele, mas definitivamente não sou babaca (gente babaca nunca diz que é babaca, não é?).

Então é natural que minha vida normal tenha começado a desmoronar em uma dessas festas. Era o aniversário de um dos primos de Ester, minha amiga desde que o mundo é mundo. O cara (ou o pai dele) era muito rico e alugou a cobertura de um dos melhores hotéis da cidade. Eu não o conhecia, sabia apenas que era filho de um dos magnatas da tecnologia da Cúpula. Na verdade, os maiores ricaços da era mórfica eram todos da área da tecnologia. Tudo, absolutamente tudo dentro das Cúpulas era obra de mentes engenhosas que garantiam nosso futuro. Não estou brincando, a humanidade dependia disso.

Voltando para a festa, foi Ester quem me arrastou, fazendo um de seus discursos de fim de semana sobre a nossa vida social ir por água abaixo se não aparecêssemos nos encontros mais bombados. Quando não era ela que dizia isso, era eu. Daquela vez foi ela e eu não recusei. Quem recusaria uma noitada na cobertura de um dos hotéis mais luxuosos da cidade? Talvez eu, agora sabendo o que sei, teria recusado. Mas a Anabel que está contando isso agora, não é a mesma de antes. Na verdade, pensando bem, acho que eu era um pouco babaca, sim.

Enfim...

Chegamos cedo e o lugar já estava cheio. Reconheci muita gente do meu curso de nano robótica, praticamente todos os veteranos estavam lá e até alguns calouros sortudos (eles nunca eram convidados para esse tipo de evento). O resto da galera eu não conhecia, mas pelo jeito como bebiam e se agarravam na piscina, eram alunos de outra faculdade, com certeza. É engraçado pensar que na segunda-feira essas mesmas pessoas estariam de uniformes alinhados estudando os algoritmos complicados que seriam responsáveis pelas novas atualizações da Barreira. Não posso falar nada, eu era igualzinha a eles.

Comecei a beber devagar, como sempre fazia. O nível etílico do meu sangue aumentava conforme a festa ia esquentando. Não me orgulho de dizer isso, mas eu sabia beber. Ester não ficava atrás, já estava de bochechas vermelhas quando apareceu com um garoto à tiracolo, sorrindo feito um idiota.

— Anabel, vamos virar a noite! - ela gritou levantando a garrafa que tinha na mão.

— Isso mesmo, garota, manda ver! - eu gritei de volta. Estava sentada sobre uma mesa bem perto do parapeito, com as luzes da cidade inteira se espalhando atrás de mim. Ester se desvencilhou do braço do rapaz e chegou bem perto de mim com seu hálito de vodca e disse só para eu ouvir:

— Tem um gatinho da engenharia de armas de olho em você... - ela riu, apontou sem a menor discrição para um rapaz alto perto do bar e se afastou dançando com seu ficante.

Às vezes eu achava que Ester assumira a missão pessoal de arranjar um namorado decente pra, já que todos os caras que conheci eram playboys idiotas que frequentavam a faculdade. O problema era o fato de eu ser filha do deus da tecnologia, senhor Carlos Luz de Castro, isso intimidava os rapazes, era uma das muitas coisas que eu odiava por carregar esse sobrenome.

Aparentemente meu status de princesinha superprotegida e milionária não amedrontou o carinha do bar, já que ele se sentou do meu lado na mesa com seu melhor sorriso conquistador. Era bonito, sem dúvidas. Se a carreira com engenheiro de armas não desse certo para ele, se daria muito bem como modelo. Esse tipo de coisa já não me impressionava mais, os bonitões eram sempre os mais idiotas.

— Oi - ele disse alto por causa da música e da gritaria do grupinho fazendo bagunça na piscina.

— Oi - respondi sem muito interesse.

— Assisti sua apresentação na conferência do mês passado. Sua teoria sobre progressão em malha é bem interessante.

Apelando para o lado intelectual, essa era uma estratégia comum para os garotos que se interessavam em mim e tinham coragem para conversar. Por algum motivo eles achavam que tinham primeiro que provar que eram inteligentes o suficiente para ficar com a filha do maior engenheiro de Barreira da atualidade.

Suspirei fundo e sorri gentilmente só para não ter que enxotá-lo de uma vez.

— Pois é - disse e dei um gole na minha cerveja. "Pois é" era meu código para eu não quero falar sobre isso. Ele entendeu a mensagem, pois se virou para a paisagem da cidade e mudou de assunto:

— Bonita, não é?

Me virei também. O hotel tinha quarenta e seis andares e nos dava uma visão privilegiada do mar de prédios brilhantes da cidade. As naves de transporte e drones passeavam por cima deles a distância como estrelinhas vivas indo e vindo. Sobre a mesa tínhamos alguns centímetros a mais de altura que fazia tudo parecer menor.

— Na verdade, acho brilhante demais - falei aquilo só para implicar. Eu também não facilitava as coisas, admito.

Ele riu e apontou para cima.

— Na verdade, eu estava falando da Barreira.

— Ah, a Barreira...

Me inclinei para trás para ver as linhas violetas que dançavam calmamente sobre nós, muito mais alto que qualquer prédio. A Barreira era a grande grade de energia que isolava a cidade da atmosfera tóxica do lado de fora. Eu mencionei que o planeta Terra se tornou hostil à vida humana graças a um vírus? Vou chegar nessa parte. O que você precisa saber agora é que as Barreiras são os motivos pelos quais a raça humana não fora extinta, o maior salto tecnológico da história da humanidade. A invenção ousada de Marc Hopfer, um pesquisador alemão que salvou a raça humana de um destino trágico. Infelizmente quando o projeto ficou pronto já não havia sobrado muito para as barreiras protegerem, mais da metade do planeta já estava infectada e mudando. Mas, se não fosse por Marc, não teria sobrado nada. Meu pai era considerado outro grande salvador da humanidade, foi ele quem aprimorou a tecnologia das barreiras, que antes só isolava as cidades da atmosfera infectada do planeta, para deter coisas bem maiores que apenas vírus: os mórficos Titãs, monstros mutantes que passaram a atacar depois de algumas décadas de infecção.

Eu sei que deveria ter a mesma admiração que todo mundo tem com meu pai, mas não consigo. Eu o respeito como cientista e sou grata pelo que fez, porém, é só isso. Acho que o fato de ele ter dado mais atenção ao seu trabalho (por mais importante que fosse) do que sua própria filha seja algo que nunca vou superar. Eu devia receber o título de garota mais egoísta do mundo, pois admito que sempre quis que meu pai deixasse de lado sua missão de manter a humanidade viva para passar um tempo comigo. Podem me julgar.

Apesar de tudo, as luzes da Barreira eram mesmo lindas à noite. Estávamos tão alto ali que eu sentia que se esticasse o braço, conseguiria tocá-la. Obviamente, se eu fizesse isso, seria incinerada instantaneamente por toda aquela energia.

— É bonita mesmo - admiti.

— Você deve ter muito orgulho. Seu pai criou isso.

— Na verdade, às vezes desejo que ele nunca tivesse inventado isso - confessei olhando para o fundo do copo, já estava um pouco bêbada.

— Sério?

— Não. É brincadeira - desconversei. - Vamos beber. Qual é seu nome mesmo?

— É Ian.

— Então, Ian, quer dançar?

Liguei o foda-se e o puxei pelo braço até a pista, no caminho peguei algo mais forte para encher a cara. Na época eu não admitia, mas o motivo de eu gostar tanto da farra era pelo fato de que as festas me faziam esquecer o quanto eu era cobrada socialmente por ser filha de quem era. As pessoas esperavam que eu continuasse o legado de inovações e heroísmo que meu pai começou. Basicamente estavam se preparando para jogar no meu colo boa parte da responsabilidade em manter as Barreiras erguidas, ou seja, de manter a humanidade viva. A maioria das bebedeiras que eu me lembrava começava com conversas como aquela (e provavelmente as que eu não me lembrava também). Naquela noite não foi diferente. Correção, aquela noite foi muito diferente das outras. Foi a noite em que eu fiz a maior merda da minha vida.

Começou com uma discussão entre Ester e seu namorado da vez. Ambos muito bêbados, não muito diferentes do qualquer um ali. O cara queria que ela dançasse para ele encima da mesa como uma puta barata, ela também tinha o dom de atrair idiotas. Fui até ela para acalmar os ânimos do casal, não seria a primeira vez. Ian me acompanhou. Mas a coisa era mais séria do que de costume, cheguei bem na hora que Ester dava um tapa no atrevido que tentava agarrá-la pela cintura para jogá-la sobre a mesa.

Peguei impulso com uma corrida rápida e empurrei o brutamontes para longe da minha amiga. Ele era grande. Ian se pôs entre nós para evitar que eu pulasse no pescoço do desgraçado.

— Não se mete nisso, patricinha! - ele berrou, bufando. - Sua amiga fez uma aposta e perdeu, agora tem que pagar.

— Qual é a sua, cara? Ela não tá afim - Ian tentou argumentar.

— Vai pagar de herói, seu merdinha?

— O que você disse?

A essa altura um círculo de pessoas já tinha se formado à nossa volta, todos querendo ver o circo pegar fogo. Mal sabiam eles...

— Ei! - Ester se meteu no meio de novo, prevendo que a troca de socos começaria em breve. - Já chega. - Ela se virou para o cara. - Alan, eu não vou dançar e ponto final, você tá parecendo um tarado!

As pessoas em volta começaram a rir. Isso foi o suficiente para fazer o tal Alan se sentir humilhado e empurrar minha amiga contra as cadeiras. Nesse momento o álcool e raiva falaram mais alto. Sabe quando um impulso de ira te faz socar a parede mais próxima para depois se arrepender com a mão dolorida? Foi assim comigo. Mas não tão normal. Essa é a segunda coisa que precisa saber sobre mim: eu não sou uma garota normal.

Quando Ester caiu sobres as cadeiras e latinhas de cerveja caíram sobre ela, eu tive uma vontade incontrolável de matar aquele cara. E eu tentei. Eu tenho algo na minha cabeça, nasci com isso. Algo perigoso que sempre evitei de usar, exceto naquela noite. Naquela noite eu usei para tentar matar o imbecil que feriu minha amiga.

Foi como uma onda de choque em forma de círculo. Deu para ver porque as mesas em volta amassaram nessa área, meu alvo no centro. Alan caiu. Não gritou, pelo menos não lembro de ouvi-lo gritar. Seu corpo dobrou-se de forma impossível e mesmo com a música alta, ouvi seus ossos se partindo. O chão rachou sob meus pés. Houve um baque forte de ar. As pessoas que estavam em volta começaram gritar e a correr em desespero, sem saber exatamente o que tinha acabado de acontecer.

Ah, merda. O que eu foi que eu fiz?!, gritei na minha cabeça enquanto minha cabeça gritava de volta em forma de dor. Senti sangue escorrendo do meu nariz para minha boca. Ester me deu um puxão para fugir também, mas eu estava exausta, amortecida. Mesmo bêbada eu entendi o tamanho da besteira que tinha feito. Então eu apaguei. Meu corpo despencando para trás em câmera lenta, enquanto eu olhava para o brilho violeta da Barreira debochando sobre mim. Sua burra, ela dizia, acabou de estragar sua vida.

Ela estava certa.

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