Capítulo XX: Disse Nora Hawthorne.

    A primeira sala que eu havia visto ao chegar até a mansão McIntyre parecia muito menos espaçosa do que antes, tendo um elefante parado no meio dela.

    Eu estava sentada sobre uma caríssima poltrona de couro, uma mesa de bordo disposta a minha frente com diversos tipos de pratarias e itens para um chá da tarde, com os quais eu não poderia me importar menos.

    Sentado na cadeira oposta a minha, com as pernas cruzadas enquanto uma das mãos levava uma xícara de chá até seus lábios, estava Benjamin.

    Seus olhos estavam voltados para baixo e sua testa era imaculada por qualquer expressão, mas eu podia perceber a diferença entre a verdadeira tranquilidade e aquela que ele me apresentava.

    Aquela era fria.

    — Senhorita McIntyre? — Sua voz atravessou a distância abismal que existia entre nós naquele momento.

    Seguida por suas mãos, que começaram a manipular o bule de cerâmica importada para que este preenchesse a xícara mais abaixo, que era destinada a mim.

    Minha mandíbula travou e meus dentes rangeram. Eu tentei engolir, mas minha boca estava seca demais. Sentia como se meus lábios estivessem rachando.

    — Esta quantidade está boa, senhorita McIntyre? — Ele continuou atirando as pedras através do abismo que nos separava.

    Depositou o bule sobre a mesa, produzindo um som quase imperceptível, mas que me parecia ensurdecedor.

    Qualquer coisa que acontecia ao meu redor, naquele momento, era uma completa explosão para qualquer um dos meus sentidos.

    — Gostaria de açúcar? — Sua testa se contraiu levemente, e ele ergueu o pequeno recipiente que continha os cubos de açúcar.

    Meu coração palpitou como que em conjunto com meu estômago, que parecia abrigar uma pequena tropa de soldados marchando incansavelmente dentro de mim naquele momento.

    Minha mão deslizou pela mesa antes que eu conseguisse calcular melhor as minhas ações, arrastando metade das louças que se encontravam por ali na direção do chão.

    Aquela representação de minha fúria escapou por entre meus lábios secos e rachados junto a meus movimentos.

    Ainda conduzida por nada mais do que aquele impulso nervoso, repeti o movimento na direção oposta, derrubando o restante dos itens caros que estavam à minha frente.

    Eu gritei com toda a potência que minhas cordas vocais me permitiam e levantei minha coluna, apenas para conseguir mais força no movimento vertical que meus braços fizeram contra a mesa.

    Ela não havia se quebrado.

    Ela não havia sequer se empenado com a força que coloquei em meu golpe.

    O insulto direto a mim direcionado sem o uso de nenhuma palavra, uma mensagem silenciosa passada através do simples ato de resistir ao meu ataque. Quão fraca era eu, que não conseguia nem ao menos quebrar uma simples mesa?

    Repeti aquele movimento mais uma vez. Por mais outra. E então quantas mais fossem necessárias até que a minha força superasse a resistência da madeira e a fizesse quebrar abaixo de meus punhos.

    Eu me levantei e ajeitei minha postura. Minha coluna sentiu dificuldades em se endireitar quando meu acesso de fúria cessou. A transformação de minhas mãos em punhos se desfez, deixando para trás nada mais do que o sangue derramado a partir dos ferimentos deixados em meus pulsos.

    E a dor. A dor que me lembrava que eu era fraca. Que eu era incapaz de sequer fazer minha presença e minha vontade sentidas.

    A fragilidade de meu corpo — a simples representação de minha fúria havia deixado marcas em meu corpo — serviram como combustível posterior para uma segunda explosão.

    Benjamin levou a xícara até seus lábios mais uma vez, desfrutando de um longo gole. Pude ouvir o som que o chá fez enquanto deixava a proteção da xícara para ser consumido pelos lábios de Benjamin.

    A mesma pessoa que havia levado embora minhas felicidades e esperanças e deixado nada mais do que fúria e amargura estava diante de mim, desfrutando de seu chá.

    E houve uma terceira explosão.

    Muni as mãos com uma das metades partidas de madeira destruída que um dia havia sido uma mesa e girei a coluna para poder arremessá-la contra uma das diversas janelas da sala.

    Naquele momento, o que eu queria era que o lado de fora do meu corpo estivesse tão destruído quanto o de dentro.

    Senti uma mão segurando a minha com firmeza e, repentinamente, eu não mais era capaz de me mover.

    — Já basta. — Benjamin apertou meu pulso, fazendo com que eu derrubasse a mesa destruída sobre o chão, que caiu e se despedaçou ainda mais.

    Levei meus olhos até os dele, um brado de fúria escapando por entre meus lábios secos enquanto Benjamin me segurava ali.

    Seus olhos me olharam de volta. A superfície apresentava calma e controle, talvez até frieza. Eu achava que ele estava apenas me ignorando, o que havia funcionado a favor da explosão que meu coração bombeava para meu corpo naquele momento.

    Entretanto, àquele instante, com tal proximidade, me foi proporcionada uma visão mais profunda. Mais além do que a superfície de seu comportamento é uma análise rápida poderiam compreender, até camadas mais profundas daquele ser em minha frente.

    Por baixo do gelo, havia um rio de mágoas e sofrimento, um fluxo tão potente e grandioso que poderia me engolir em um único instante caso não estivesse contido pelo que Benjamin deixava transparecer em suas atitudes usuais.

    Durante aquela uma fração de tempo, meu coração se acalmou e minha respiração se normalizou, o que deixou que todo o esforço pelo qual meu corpo havia passado me acertasse em cheio.

    A mão de Benjamin, antes usada para me controlar, agora serviu-me como apoio para que eu não caísse.

    — Benjamin...

    — Vamos cuidar desses seus ferimentos brevemente. — Ele disse, usando sua mão para me apoiar enquanto me conduzia na direção do corredor. — E, depois, iremos ver como está seu tio.

    A palavra dita ao final ainda fazia meu sangue explodir para fora de meu coração e fluir por minhas veias mais rapidamente, mas, por mais que eu odiasse aquela situação, não havia nada mais que eu pudesse fazer além de seguir Benjamin.

    Ele guiou-me até seu escritório, onde pediu que eu colocasse meus braços sobre a mesa. Benjamin procurou por algo nos armários e aparadores que tinha ali, e voltou com dois frascos de vidro escuro e um rolo, onde alguma espécie de papel estava enrolada.

    — Este líquido irá arder um pouco, mas irá parar o sangramento. — Benjamin disse, em seu tom calmo, estendendo o papel e despejando algumas gotas do conteúdo de um dos frascos.

    Eu hesitei, a princípio, mas não tive escolha a não ser oferecer minhas mãos para que Benjamin envolvesse meus pulsos com o papel.

    Fiel às palavras dele, eu senti uma ardência imediata se espalhando pelo meu braço, mordendo fundo nos pontos onde eu havia me cortado, e recuei. Benjamin permitiu.

    — Isso irá garantir que não sangre até a morte, ou que infeccione. — Ele disse, pegando o outro frasco e uma pequenina colher. — Agora, para ajudar a cicatrizar mais rápido...

    Benjamin deixou que uma gota do conteúdo daquele outro frasco caísse, o que requeriu diversos segundos. O líquido era muito grosso e vermelho, quase negro em sua composição.

    Era sangue.

    — Por que você quer me dar sangue?

    — Este veio de um devorador. — Benjamin se aproximou e segurou meu queixo com uma das mãos, a outra trazendo a colher que continha o líquido. — Contém um antídoto que cura qualquer veneno ou ferimento conhecido. Mas o esforço para seu corpo seria muito grande, então irei ministrar apenas uma gota.

    Eu tentei resistir, virar a cabeça para o outro lado ou trancar a mandíbula, qualquer coisa que impedisse aquele líquido de entrar através de meus lábios.

    Mas Benjamin tinha controle sobre mim. Simplesmente virou minha cabeça na direção que ele desejava, e usou os dedos para forçar minhas mandíbulas a se abrirem. Por fim, ele colocou a colher em minha boca e depositou o líquido sobre minha língua.

    O sabor me acertou imediatamente. Era algo pungente e metálico, me fazendo querer vomitar aquilo de uma vez por todas a partir do primeiro instante que entrou em contato com meu corpo, mas era impossível.

    A gota havia sido absorvida por minha língua de uma única vez, me condenando a sentir o seu gosto horrível e persistente em minha boca.

    — Creio que não hajam efeitos inesperados, mesmo em você. — Benjamin soltou-me e voltou-se a guardar aqueles itens que havia usado em mim.

    — O que quer dizer? — Eu perguntei, assim que minha língua conseguiu ser usada para falar.

    — Você é um caso muito especial, Noelle. — Ele se voltou para mim e começou a caminhar na direção da saída. — Algo que só aparece uma vez a cada alguns milhares de anos.

    — O que quer dizer? — Eu repeti, me virando em sua direção e seguindo-o.

    — Bem, creio que já seja hora de lhe contar. — Benjamin deslizou uma das mãos pelo queixo, pensativo. — Catherine já mencionou sobre os dígitos?

    — Sim... — Eu sussurrei, testando meus pulsos para procurar por alguma dor. Não havia mais nenhuma, e o fino papel que Benjamin havia usado para cobrir o ferimento não estava ensopado de sangue. — Ela disse que você era o único com dígitos suficientes para enxergar o meu valor.

    — Isso é verdade. Mas não se sinta mal. O que há de especial em você só pode ser visto por devoradores mais velhos. — Benjamin seguiu pelo corredor a direita após sair de seu escritório, me fazendo segui-lo pelas escadas que levariam até o primeiro andar. — Os dígitos fazem referência a quantidade de números na idade de um devorador. De forma básica, quanto mais dígitos um devorador tem, mais velho, e logo, mais poderoso e experiente ele é.

    Minha mente estava dividida. Havia aquele redemoinho de perguntas, questionamentos e dúvidas. Tudo aquilo me puxando para o fundo do oceano que se formava a em minha mente enquanto as questões me consumiam pouco a pouco.

    Por outro lado, o efeito provocado pela voz de Benjamin era aquele que se obtém quando se atiça um ninho de vespas. A diferença era que o ninho era minha mente.

    E as vespas que saiam para me atacar, me consumir, me devorar e me destruir eram as memórias dolorosas que eu tinha.

    As ações que eu não tinha tomado e aquelas das quais eu me arrependia.

    — No que se refere aos humanos, cada indivíduo tem uma chance diferente de sobreviver ao processo de transformação. Chamamos isso de potencial de transformação. — Benjamin, aparentemente alheio ao conflito que se dava dentro de minha mente, continuou sua explicação. — Quanto mais pontos um humano tem, maiores são suas chances de sobreviver a transformação, e também maiores serão seus poderes após ela. Veja bem, apenas devoradores experientes ou muito poderosos conseguem fazer a distinção de quantos pontos um humano possui.

    Permanecemos em um silêncio ensurdecedor enquanto eu ouvia os passos que Benjamin dava na direção da lateral da escadaria. O som que ele fez ao puxar uma porta antiga, da qual eu não fazia nem ideia de que existia, fez-me desejar nunca mais ouvir novamente.

    — Então... Eu tenho muitos pontos? — Eu perguntei.

    — Como eu disse, você é uma ocorrência rara. Cuidado onde pisa. — Benjamin advertiu enquanto pegava uma tocha acesa que estava presa a parede de pedra que havia atrás daquela porta. — A maioria dos humanos tem entre meio ponto a dois. Três pontos já são uma ocorrência rara, e considera-se que um indivíduo com quatro pontos apareçam uma vez a cada cinco séculos. Mas nunca no mesmo lugar do mundo.

    Uma escadaria se estendia atrás daquela porta. O caminho que levava para baixo era escuro e eu podia ver traços de verde crescendo por entre o cinza dos degraus e das paredes de pedra.

    Benjamin conduziu-me para a boca da besta, o interior da mansão McIntyre que eu nunca havia visto. Como se já não fosse fácil o suficiente me perder naquele lugar.

    — E, bem... Você tem mais do que quatro pontos. — Ele disse, quebrando o silêncio que estava entre nós enquanto descíamos.

    A intensidade de sua fala, o poder da informação que ela carregava, apesar do tom calmo com a qual fora ministrada, quase me fez cair para trás.

    Benjamin havia acabado de me dizer que eu era uma pedra preciosa da qual nunca se ouviu falar, e pela qual as pessoas estariam dispostas a matar para possuir.

    E aquilo foi, em minha mente confusa, apenas mais um motivo para que eu me culpasse. Afinal, as pessoas com as quais eu me importava estavam se machucando por minha culpa.

    Mesmo que eu conseguisse falar qualquer coisa ou perguntar alguma das bilhões de dúvidas que estavam fervilhando em minha mente, o passo mais apressado e pesado de Benjamin me dizia que eu não teria resposta.

    Eu apenas abaixei a minha cabeça e continuei, tentando desviar a minha atenção da guerra dentro de mim para aquilo que se passava ao meu redor.

    As chamas emitidas a partir da tocha segura nas mãos de Benjamin emitiam um brilho que fazia com que cumpridas sombras nos seguissem enquanto descíamos as escadarias.

    Elas pareciam infinitas. Se Benjamin me dissesse que havíamos chegado ao inferno quando finalmente passamos por aquela entrada em formato de arco, eu teria acreditado.

    Não que a visão que eu tive lá dentro fosse algo que eu esperasse ver fora do inferno.

    Aquela era uma grande prisão subterrânea, bem debaixo da mansão McIntyre.

    Um corredor gigantesco se estendia a minha frente, composto pelas mesmas pedras de concreto que eu havia visto até então, mas muito mais bem iluminado pela centena de tochas que estavam posicionadas sobre as paredes do local.

    Aquele era o tipo de iluminação que eu estava acostumada. Amareladas e frágeis, as luzes projetadas por aquelas tochas lançavam sombras incertas nos cantos de meus olhos. Havia um certo conforto naquela familiaridade.

    As celas nas laterais do corredor eram demarcadas por grades de metal enferrujado e contendo nada mais do que um balde e um monte de feno em sue interior.

    Eu também podia ver as correntes que ficavam no fundo de cada uma, e virei a cabeça para outra direção todas as vezes que aquelas coisas entravam em meu campo de visão.

    Não queria saber para que elas serviam.

    Felizmente — ou talvez não — as grades estavam sem uso, não havendo nenhum prisioneiro acorrentado ali, nem ninguém morrendo de fome, sede, nem pelas mordidas de algum inseto venenoso.

    Por outro lado, eu não queria pensar no possível motivo para aquela prisão se encontrar sem ocupantes, por isso, apenas segui Benjamin até o final do corredor.

    Havia uma cela com pelo menos três vezes o tamanho das outras, de um formato retangular ao invés de quadrado.

    Benjamin adentrou o espaço após deixar a tocha que carregava sobre um suporte em uma das paredes do local. O interior já era iluminado o suficiente, ao que parecia.

    Eu o segui, e me deparei com o que talvez fosse uma das cenas mais assustadoras em toda a minha vida.

    No final daquele cômodo composto por pedras cinzas manchadas de sangue e infestadas de musgo, estava o corpo de Vincent.

    E eu dizia corpo porque a pessoa pendurada pelas mãos com correntes, os pés presos a pesos metálicos e um buraco onde deveria ficar seu abdômen não poderia ser chamada de uma pessoa viva.

    Meus joelhos tremeram além da minha capacidade, repentinamente não conseguindo mais segurar meu peso, e eu despenquei em direção ao chão.

    Minhas mãos se guiaram até meu rosto e um guincho distorcido quase escapou através de minha garganta enquanto as lágrimas nasciam no canto de meus olhos.

    Vincent havia perdido Nora por minha causa, e havia voltado por mim apenas para acabar daquela maneira.

    — Por que está fazendo isso? — Eu gritei, meus pensamentos sendo conduzidos até minha boca de forma instantânea.

    — Ei, se acalme. — Era a voz de Catherine, ajudando-me a levantar. — Está tudo bem.

    — Como está tudo bem? — A pergunta escapou por meus lábios rachados com bem menos intensidade do que eu havia planejado, e eu senti meu coração palpitar em meu peito.

    — Só... — Ela pareceu lutar para encontrar as palavras certas. — Só tente se acalmar. Você vai ver.

    — Está tudo pronto? — Era Benjamin, conversando com Henry, ambos parados ao lado do corpo sem vida de Vincent.

    — Sim, eu conclui os preparativos que me pediu.

    — Muito bem. — Benjamin respondeu, desfazendo as abotoaduras em seus pulsos e puxando as mangas até uma área acima dos cotovelos.

    Eu observei, atônita, enquanto Benjamin aproximou-se de Vincent. Meus olhos se arregalaram e eu engoli o ar em seco.

    Benjamin levou seu pulso até sua boca e a mordeu, liberando o fluxo do líquido quente e quase negro para fora da ferida.

    Eu podia ouvir o som estridente que cada uma fazia em sua curta trajetória. A dolorosa ilusão de liberdade que possuíam enquanto se apressavam para fugir de Benjamin, ansiando por uma saída daquela situação.

    Tudo isso, todo este esforço, apenas para encontrarem-se com o chão de pedra mais abaixo, que as recebia com dureza e acabava com suas vidas curtas.

    Benjamin, mais uma vez alheio a tudo aquilo, prosseguiu e derramou algumas gotas do líquido escarlate sobre a boca de Vincent.

    — Ego itaque rex confirma hoc paratus sum accipere animam meam sub tutela deinceps. — Benjamin pronunciou, e eu pude sentir os pelos de meu corpo se levantarem prontamente.

    — Ego testem rei testimonium. — Ambos, Henry e Catherine, disseram em uníssono.

    Se meus pelos já estavam erguidos naquele momento, foi a vez de meu sangue se agitar abaixo de minha pele.

    Eu podia sentir como se cada gota de sangue tivesse decidido que iria começar a correr mais rapidamente. Elas se arrastavam contra minhas veias em sua pressa, e meu corpo respondia ao me informar da única sensação que podia traduzir aquela situação.

    Dor.

    Olhei para todos os lados, e os devoradores da sala — com a exceção de Vincent — se encontravam com os olhos fechados, concentrando-se em algo que eu não podia ver, mas podia sentir.

    Minhas mãos decidiram participar daquela brincadeira e competir para descobrir qual delas conseguiria se mover, ilogicamente, de um lado para o outro, sem importar-se com o meu comando.

    A brincadeira seguiu para o restante de meu corpo, subindo por meus braços e pernas e avançando sobre meus ombros e torso.

    O ar parado e úmido daquele inferno subterrâneo começou a se mover, erguendo os cabelos e brincando com as vestes daqueles que se encontravam na saleta.

    — Nisi eum, fons pietatis. — As vozes de Henry e Catherine começaram a repetir a mesma frase várias vezes, me fazendo recuar um passo.

    Mais a frente, o corpo sem vida de Vincent começou a se mexer. Primeiro seus pulsos testaram as amarras que o seguravam, depois suas pernas. De início, eram apenas movimentos fracos.

    Que rapidamente se converteram em uma tentativa de fuga desesperada.

    Vincent tinha os olhos abertos e selvagens, sem nenhum sinal da compaixão que eu costumava ver ali. Ele se movia em borrões para a minha visão, de um lado para o outro, forçando as amarras e querendo se livrar para poder atacar aquele parado a sua frente.

    O som do metal lutando contra a força de Vincent e o medo de que ele fosse se soltar naquele estado selvagem fez-me dar um passo para trás.

    Benjamin abriu os olhos e estendeu a palma da mão na direção do peito de Vincent, que urrou em fúria e dor.

    O corpo de Vincent se debateu em frenesi temporário, como que toda a sua força estivesse sendo colocada ali, naquele momento.

    Eu podia enxergar, com muita dificuldade, o sofrimento em seus olhos e sentir a dor que ele transmitia através de seus gritos animalescos.

    Eu poderia ter ficado parada eternamente tentando decifrar o que estava acontecendo, qual mensagem Vincent queria me passar, mas algo ainda mais sombrio tomou lugar a minha frente.

    Uma fumaça negra explodiu através da boca de Vincent e cascateou até o chão, sua quantidade sendo suficiente para cobrir toda a sala com seu negrume fantasmagórico.

    Catherine e Henry estavam com os olhos fechados, alheios aquilo tudo.

    Ou talvez tentando ignorar e continuar se concentrando.

    Outro passo para trás e, como consequência de meu equilíbrio prejudicado, acabei por cair no chão. Meus joelhos se encontraram com a superfície fria primeiro, e eu não consegui usar meus braços rápido o suficiente para proteger minha cabeça de encontrar o mesmo destino.

    A dor de algo acertando minha cabeça era latejante, mas haviam coisas mais importantes que requeriam minha atenção naquele momento.

    Eu olhei para os lados, aterrorizada com a fumaça que me cercava. Ela parecia possuir vida própria, e estava começando a subir ao meu redor, arrastando-se contra a minha pele e entrando através de meu nariz de minha boca de meus olhos e de minha pele.

    Antes que eu pudesse abrir minha boca para gritar e pedir por socorro, eu notei que a fumaça estava me levantando. Eu estava a pelo menos três metros do chão, quase tocando no teto daquela prisão...

    Mas aquela não era eu.

    Não havia como ser eu, porque eu estava no centro daquela mesma sala.

    Eu estava parada no meio da sala, mas também estava flutuando a alguns metros de distância.

   Enquanto meu corpo se movia sem nenhum de meus comandos, eu encontrava-me presa na posição de observadora.

    Estava entre Vincent e Benjamin, de costas para o meu tio e de frente para o assassino de minha avó.

    Eu senti algo quente abraçar-me por trás, e meus olhos pregaram-me peças. Queriam que eu acreditasse que algo, durante alguns instantes, haveria me abraçado.

    Minha atenção novamente se voltou para o meu corpo — não aquele que se encontrava flutuando, mas aquele mais abaixo — e seus lábios começaram a se mover.

    Uma lágrima de sangue escorreu pelo seu rosto, e uma voz familiar, mas que não era a minha, preencheu o silêncio que outrora era minha única companhia além dos cânticos em línguas que eu não compreendia.

    — Benjamin McIntyre, o que deseja ao me chamar aqui?

    — Nora Hawthorne. Eu encontro-me diante de ti para solicitar a tutela de tua progênie.

    Ao ouvir aquele nome, senti meu coração pular para fora de meu peito, um aperto estranho dentro do meu ser.

    — Promete você cuidar do bem estar de minha progênie e responder pelos atos dela?

    Aquela voz. Ela não era a minha.

    Aquela não era minha voz. Ela era de Nora.

    — Eu, Benjamin McIntyre, nobre escolhido pelos Patronos, prometo em nome da minha honra e de minha posição na Sociedade.

    Meu corpo assentiu, e algo semelhante a um sorriso se formou em meio aos seus lábios.

    — Eu, Nora Hawthorne, Majestade da Noite reconhecida por Benedikt Reinmann, — A voz de Nora falou através de meus lábios mais uma vez. — Passo a você, Benjamin McIntyre, os direitos e os deveres para com minha progênie.

    — Ego itaque rex confirma hoc paratus sum accipere animam meam sub tutela deinceps. — Benjamin pronunciou mais uma vez, e minha altura começou a diminuir enquanto eu me aproximava daquela parada mais abaixo.

    — Ego testem rei testimonium. — Por mais uma vez, Henry e Catherine responderam a Benjamin em uníssono.

    O ar entrou através de minhas narinas, tragado para meus pulmões como se aquela fosse a primeira vez que eu respirava em milênios.

    Por mais uma vez acabei falhando na simples tarefa de segurar meu próprio peso e eu pude ver o chão se aproximando de meu rosto.

    — Está tudo bem. Acabou. — A voz de Benjamin disse, seu braço enlaçando-se ao redor de minha cintura e impedindo minha queda.

    Tão logo consegui me sentir confiante o suficiente para ficar de pé sobre meus próprios pés, afastei Benjamin com as mãos. Ele não resistiu.

    Vincent havia sido solto das amarras nas paredes, seu corpo agora sentado com as costas contra a parede.

    Eu queria me aproximar, queria vê-lo, queria poder me despedir daquele que tanto havia sacrificado e sofrido por mim.

    Mas, por mais uma vez, Benjamin impediu-me.

    — Acredite em mim, não irá querer se aproximar dele agora. — Ele disse, lançando um olhar para Henry, que veio até meu lado e passou a me segurar.

    — Acalme-se, Noelle.

    Por mais que eu quisesse lutar e me desvencilhar de suas mãos, a voz de Henry penetrou profundamente em minha mente e fez-me incapaz de qualquer ato contra aquilo que ele dizia.

    — Alimente-o, Catherine. — Pude ouvir o som se propagando através da dormência que havia caído sobre meu corpo.

    Era Henry? Ou era Benjamin? Eu não conseguia diferenciar através da redoma de letargia que agora me mantinha refém.

    Como se eu fosse apenas uma gosma gelatinosa por dentro, sem músculos para me mover nem ossos para me sustentar ou um cérebro para me comandar.

    Somente algo que estava contido e sendo mantido no lugar por minha pele enquanto os acontecimentos ao meu redor tomavam seu lugar no espaço, como sempre havia sido.

    — Beba. — Era a voz de Catherine, falando com alguém que eu presumo que fosse Vincent, mas não tinha como saber com certeza.

    E havia conforto naquilo, naquela incapacidade de reagir, pois eu sabia que não haveria como me culpar pelo que eu havia deixado de fazer naquele momento.

    — Muito bem. — Acho que aquela havia sido a voz de Benjamin. — A ferida está quase totalmente regenerada.

    — Agora que ele tem um progenitor novamente, deve estar recuperado em pouco tempo. — Pude perceber, de maneira singela, os detalhes do rosto de Catherine em um vulto que passou ao meu lado.

    — Levarei Noelle para seu quarto. — Era Henry, e eu senti seus braços ao redor dos meus. — Ela já passou por muita coisa hoje.

    — Tem razão. Deixe que ela descanse por alguns dias. — Eu ouvi um suspiro antes da voz de Benjamin.

    — E... — Henry hesitou. — Como iremos fazer quanto a solicitação dos Patronos?

    — Não temos escolha, temos?

    — Acho que não.

    — Ainda temos algumas semanas para nos prepararmos de acordo, então deixe que eu resolvo isto. Vá cuidar de Noelle.

    — Sim, senhor.

    Se houve qualquer conversa depois daquilo, a sensação de meu corpo sendo virado de cabeça para baixo e segurado pelos braços de alguém — quem presumi que fosse Henry — deixou-me confusa o suficiente para que não entendesse.

    Eu senti o conforto de algo macio abaixo de minha cabeça, debaixo de minhas costas, e então algo quente cobriu meu corpo.

    Por fim o torpor progrediu para um sono profundo, que sequestrou minha consciência e levou-me para outro lugar.

    Eu não me lembraria dos sonhos que tive aquela noite.

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