Capítulo XV: Novas Profecias.
E a próxima coisa de que me lembro é estar caindo. Caindo. Caindo. Parecia não haver fim para a queda.
Até que eu atingi algo com força total.
Consegui juntar forças para me levantar e olhar ao redor. Meu coração palpitou mais rápido com a visão da clareira familiar, até que minha respiração se dificultou e eu me lembrei de tudo que havia acontecido.
Levantei minha mão — a mesma que eu havia usado para me erguer do chão — e ela estava coberta de sangue.
Minha mão estava coberta de sangue. Meu braço estava coberto de sangue. Minhas pernas estavam cobertas de sangue. O chão da clareira estava coberto de sangue.
Era sangue que simplesmente não acabava mais.
E, do sangue que recobria o solo da floresta, eles se levantaram. Quatro figuras feitas, total e unicamente, de sangue. Seus corpos vermelhos me lembravam as figuras daqueles que haviam me acolhido.
E que, por mim, haviam perdido tudo.
Naquele momento me passou pela cabeça a possibilidade de Benjamin ter matado a todos, como disse que faria.
E as cabeças das quatro figuras sangrentas caíram ao chão, suas formas se desfigurando até voltarem a ser nada mais do que sangue.
Eu não conseguia respirar. Como se algo tapasse meu nariz e apertasse meus pulmões.
Levei minhas mãos até minha face e senti o sangue escorrendo por ali. Cobrindo todo meu corpo.
Aos poucos, eu também me transformei em sangue e cai ao solo.
E foi bem nesse momento que eu acordei.
Sobressaltada, me sentei no móvel onde eu estava para poder compreender o que estava acontecendo.
Minha respiração ainda era trabalho difícil e doloroso de ser executado.
Eu era banhada pela luz, sendo derramada em raios generosos a partir de algum tipo de dispositivo que estava pendurado no teto.
Com meu coração batendo cada vez mais rápido, uma mão apertando-o e tornando cada batida um sofrimento, voltei minha atenção para as coisas que estavam ao meu redor.
Eu estava sentada sobre um divã vermelho, que estava sobre um tapete de pele, que tinha um chão de tábuas corridas sob si.
A sala era ricamente decorada com diversas poltronas e cadeiras. Havia uma lareira, que lançava o calor que mantinha a sala naquela temperatura agradável, posicionada no meio da parede a minha esquerda.
Acima desta estavam prêmios de caça. Um lobo, com as mandíbulas abertas, era posicionado bem ao meio. A sua direita estava um urso e a sua esquerda um leão da montanha.
Movi minha cabeça para a parede ao lado desta e, para minha surpresa, havia um quadro pendurado bem no centro.
Era Benjamin, de pé a frente de alguma espécie de trono, segurando uma grande espada em sua mão destra.
Minha mente foi invadida pelo peso das memórias que se passaram.
A figura de Benjamin se aproximando.
Nora me entregando para salvar a sua família.
Eu decidindo correr e...
A cabeça de Nora caindo infinitamente na direção do solo.
Pude ver um último lampejo das chamas consumindo seu corpo, levando-o embora, tirando-a de mim para sempre antes que...
— Vejo que está acordada. — Alguém me chamava.
Esse alguém não era Nora.
— Como você está? — Ele perguntou, ajeitando os fios de cabelo marrom que caiam sobre sua face lisa.
— Onde eu estou?
Ele sorriu, e um calafrio subiu através de minha espinha como resposta aos seus dentes brancos. Algo dizia que eles eram oportunistas.
— Esta é a mansão McIntyre. Casa do nobre Benjamin McIntyre, e de sua família. — Senti falta de ar quando uma voz falou ao lado de meu pescoço.
Primeiro meu corpo inteiro tremeu e, apesar de eu querer muito me afastar, simplesmente não havia nada que eu podia fazer.
Era como se eu estivesse mais pesada, assim, de súbito.
— Catherine, por favor, — Ralhou Cabelos Marrons. — Isso é falta de educação.
— Tudo bem. — Respondeu Catherine, em um tom brincalhão, antes de aparecer a frente do móvel onde eu estava.
Ela estava sorrindo, inclinada em minha direção, as mãos atrás das costas e um sorriso em sua face. Seus olhos me lembravam joias brilhantes, da coloração de uma esmeralda.
Mas eu sei que não gostava do brilho daqueles olhos.
— Bem, agora que já sabe o nome de Catherine, — Cabelos Marrons estava atrás dela, uma das mãos educadamente sobre seu ombro. — Creio que seja minha vez de me apresentar. Chamo-me Henry, e compartilho o sobrenome de meu senhor Benjamin. Assim como Catherine.
— O que aconteceu com Nora? — A pergunta escapou por meus lábios assim como o ar que eu respirava. Era a única coisa que eu conseguia pensar com a menção do nome de Benjamin.
— Ah, bem. — Ele hesitou.
— Isso está tão entediante. — Catherine disse, tirando o braço de Henry de cima de seu ombro. Revirou seus olhos e olhou ao redor da sala, soltando um largo suspiro ao final.
Quando terminou de inspecionar a sala, Catherine abaixou os olhos até suas unhas — todas pintadas com uma coloração branca, que combinava com suas vestes.
Por fim, ela olhou para mim, parecendo estar entediada. Estressada. Cansada. Eu não sabia realmente dizer o que estava naqueles olhos, que mudavam tão rapidamente.
— Vou chamar o senhor McIntyre. — E lá estava ela, sorrindo mais uma vez ao me encarar com os olhos que lembravam os de uma cobra. — Ele vai gostar de saber que ela acordou.
Henry assentiu com a cabeça, concordando.
Catherine lançou mais um olhar para mim, e dessa vez eu pude ver, muito mais claramente, a maldade por trás de suas íris. Antes que ela desaparecesse.
Olhei para Henry, e me lembrei da pergunta que havia ficado sem resposta.
— O que aconteceu com Nora? — Eu me levantei, lágrimas já se juntando nos cantos de meus olhos.
— Ela havia cometido um crime. — Benjamin apareceu na sala, sentado sobre uma grande poltrona de couro que havia a frente da lareira.
Sua voz, surgindo do nada, me deixou extremamente alarmada.
— Eu a ofereci redenção, ela recusou, então eu tive de puni-la. Agradeça que encontrei complacência em meu coração e não puni toda a família.
Minha respiração se descompassou, e eu cai ao chão. Uma de minhas mãos se guiou até meu peito, que parecia ter explodido e deixado apenas um grande vazio.
A confirmação que tudo o que tinha em minha mente fora real, e não mero sonho, foi demais para suportar.
Nora estava morta. Por minha culpa. Nora estava morta. Por minha culpa. Nora estava morta. Por minha culpa. Nora estava morta. Por minha culpa.
Em algum momento enquanto minha cabeça corria por estas palavras, senti umidade escorrendo por meus olhos. Minha garganta queria gritar.
Então eu iria gritar.
As lágrimas desciam desciam desciam cortavam minha face enquanto desciam desciam desciam.
Durante um período de tempo que até hoje não sei definir, eu chorei. Chorei até que todas as minhas emoções se esvaziassem.
Conforme o tempo passava, minutos parecendo horas e horas parecendo segundos, meu coração se tornou cada vez mais pesado e cada vez mais vazio.
Até que eu simplesmente não tinha mais vontade de chorar. Como se toda a tristeza e descrença no acontecido tivessem sido retiradas de mim.
— Eu agradeço, Henry. — Disse Benjamin, atraindo minha atenção. Sua face parecia fantasmagoricamente triste com as chamas da fogueira banhando-a. — Não sei se estou nas melhores condições para aguentar este tipo de lamento. Leve-a para seus aposentos e peça que vista algo mais decente.
— Sim, senhor. — Respondeu Henry, prontamente se abaixando ao meu lado e me ajudando a me levantar.
Uma parte de mim dizia que eu deveria me soltar, gritar e sair correndo. Que aquele lugar não era seguro e que eu não deveria confiar naquelas pessoas.
Mas a maior parte de mim simplesmente dizia que eu deveria fazer o que eles mandavam. Fazer o que ele mandava. Fazer o que Henry mandava.
Eu tinha que obedecer a Henry. Era isso que eu tinha que fazer.
E assim eu segui pelos corredores, olhando apenas para frente e sem realmente enxergar nada. Só o que eu precisava ver.
Me lembro de entrar em um grande quarto, sendo, sozinho, do tamanho da cabana inteira onde eu vinha passando meus últimos dias.
As coisas que lá haviam me pareciam caras, mas nada entrava em foco suficiente para que eu pudesse descrever naquele momento.
— Há roupas novas no armário. — Henry disse. — Se vista adequadamente e vá dormir. Amanhã você começará a aprender.
Eu me lembro de assentir enquanto ele saía do quarto, e então obedecer a exatamente tudo o que ele havia dito.
Aquilo não estava certo. Não tinha como estar certo. Não podia estar certo, não podia estar certo, não podia estar certo, não podia estar certo.
Como eu estava fazendo tudo o que ele mandava? Por que eu estava fazendo tudo o que ele mandava? Por que eu não desobedecia?
E foi assim que eu me deparei comigo mesma, de frente para um espelho dentro do quarto de vestir — que era adjacente ao qual eu havia sido designada — vestindo roupas as quais eu não me lembrava me vestir.
— O que eu estou fazendo? — Perguntei a mim mesma.
Eu cai ao chão sobre meus joelhos mais uma vez, e soltei todos os gritos e chorei tudo o que eu tinha para chorar e continuei ali até que alguém entrou no quarto mais uma vez.
— Ah, faça-me um favor, faça silêncio. — Era Catherine. — Nós ouvimos muito melhor do que você. Sua choradeira está nos deixando irritados.
Apenas olhei para ela, sem saber o que fazer. Eu tinha vontade de apenas continuar chorando.
— Mais importante, está me deixando irritada, humana. — Seus lábios se levantaram enquanto ela pronunciava as palavras.
Eu me calei, tranquei-me em mim mesma, com medo demais até para chorar. Eu tinha medo de irritar aquela garotinha parada na minha frente, porque eu sabia que ela era, no mínimo, dez vezes mais forte que eu.
— Espere, por que ainda não está na cama, humana? — Ela perguntou, um sorriso maldoso surgindo em sua face logo após seus lábios terem se crispado mais uma vez. — Pensei que Henry tivesse mandado que fosse dormir. Como você conseguiu desobedecer?
— Como assim? — Perguntei, em meio a soluços.
— Ah, você ainda não sabe sobre as nossas habilidades? — Ela aumentou ainda mais o seu sorriso, colocando as mãos sobre o peito e girando sobre seu próprio eixo, brincando comigo. — Acho que talvez o seu escândalo só não se compare com sua burrice.
Catherine me olhou de cima a baixo, do primeiro fio de cabelo a ponta de meus pés, o que me fez me envolver com meus braços para me proteger. Ela sorriu, satisfeita, antes de continuar.
— A maioria de nós desenvolve alguma coisa quando se transforma. Alguma coisa especial, que tinha muito a ver conosco quando estávamos vivos. — Catherine andou pelo espaço, gesticulando enquanto falava.
Eu olhei para o chão, respirando fundo e tentando colocar minha mente no lugar.
— Será que sua habilidade vai ser chorar infinitamente? — Ela perguntou, ainda com o mesmo sorriso maldoso em sua face. — Isso seria hilário.
— Quando eu me transformar? — Perguntei, em um tom mais alto. Aquilo havia mesmo me pego de surpresa.
— Ah, não te contaram, pequena Noelle?
Era estranho ouvir isso de Catherine, já que ela parecia ao menos três anos mais nova que eu.
— Benjamin viu potencial em você. — Ela continuou, se virando para deixar o cômodo. — Talvez ele seja o único que veja nesta casa, ele é o único com dígitos suficientes para isso. Mas o que importa é que algum dia, de alguma forma, você vai ser uma devoradora como nós.
Suas palavras me acertaram como o disparo de uma besta, bem em meu coração, atravessando meu corpo e destruindo tudo que havia por dentro.
O pior de tudo era que Catherine parecia satisfeita com aquilo.
— Agora faça o favor, a si mesma, de calar a boca e ir dormir. — Ela ditou, se virando para deixar o cômodo. — Se eu voltar aqui eu não vou ser tão boazinha. Estamos entendidas, humana?
Ela virou sua cabeça na outra direção antes que eu pudesse responder, e saiu do quarto antes que eu tivesse a chance de processar tudo aquilo que ela havia dito.
Por medo do que Catherine havia dito, eu fui até minha cama e me deitei. Os cobertores quentes não me ajudaram a dormir, mas me ajudaram a abafar o choro baixo que me guiou até o sono.
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