Capítulo XIX: De Vincent Hawthorne.
A capa vermelha daquele livro era áspera contra a pele lisa de meus dedos. Suas páginas amareladas pela ação do todo poderoso tempo continham centenas de palavras que traziam um número ainda maior de mensagens codificadas.
Elas estavam bem ali, diante de meus olhos, quase que dançando a minha frente e provocando-me para que eu as pegasse e armazenasse em meu cérebro.
Mas eu não conseguia.
As palavras dançavam nas páginas de uma forma estranha, fugindo de meu entendimento, impedindo que meu cérebro conseguisse entender o que queriam dizer.
Fechei o livro com mais força do que deveria e inspirei o ar, o que já era um hábito para mim aquela altura, mas logo acabei por me arrepender quando a poeira adentrou minhas vias respiratórias e me fez tossir repetidas vezes.
Quando consegui, por fim, recuperar o controle de minha respiração, coloquei novamente o livro em seu lugar e me virei para olhar ao meu redor.
Foi apenas um reflexo causado por uma parte de mim que queria que alguém aparecesse ali. Se eles tinham toda aquela audição, não teriam ouvido todo aquele barulho?, me perguntei, decepcionada enquanto caminhava na direção do corredor.
A mansão permanecia sempre nas mesmas condições de temperatura e luminosidade, e isso ainda era algo que atraia minha atenção.
Não eram necessárias velas e nem lareiras, apesar dessas ainda serem presentes em alguns pontos da casa, sendo meramente decorativas, pelo que me disse Henry.
Levantei meu olhar para o topo dos corredores de cores leves e decorados em alto relevo, contendo pinturas de diversas figuras que eu imaginava serem bem importantes, enquanto não tinha a mínima ideia com relação a quem elas haviam sido.
Pelo que Benjamin havia me explicado, houvera uma grande Guerra Civil no país onde vivíamos, e Hampton Beach havia sido destruída durante ela.
Um pouco mais tarde, em uma conversa com Henry, este contou-me que fora Benjamin o responsável pela reconstrução da cidade. Por tal fato, ele era o responsável por ela no "mundo" dos devoradores.
Eu continuava caminhando de maneira displicente pelos corredores enquanto todos aqueles pensamentos ecoavam por minha mente.
Me admirava que aquelas pessoas poderiam ter alterado a humanidade e influenciado em sua política de forma tão direta e vivido para contar a história.
Um movimento dançou diante do canto de meus olhos, em algum ponto do corredor que estava obscurecido pela minha visão periférica, chamando-me a atenção.
Pude ver um vestido tremeluzindo antes de desaparecer em uma das infinitas curvas que os corredores das mansões faziam. Ele tinha uma leve coloração branca.
Tal como os que Catherine usava.
Inspirei uma vez para juntar coragem e expirei outra vez para ter certeza de que não iria me arrepender e, por fim, direcionei-me ao ponto onde o vestido havia desaparecido.
— Catherine? — Perguntei, apenas para ter minha voz respondida por ecos intermináveis.
Olhei para os dois lados, querendo ainda tentando me convencer de que aquilo não era uma péssima ideia, e me direcionei pelo corredor que se estendia a minha frente.
Este era um dos poucos que eu havia memorizado até então. Se o seguisse e virasse a esquerda, chegaria até o escritório de Benjamin. Se virasse ao contrário, chegaria até às escadas que levam ao primeiro andar.
Cravadas nas paredes à minha direita, haviam imensos vitrais, adornados com cortinas de colorações neutras e emoldurados com madeiras de tons claros.
Lá fora, sobre o gramado por onde se estendia o caminho para fora da mansão McIntyre, com as grandes e frondosas árvores marcando as laterais, estava Catherine.
Luna estava no topo de seu trono na abóbada celeste, lançando seus raios de luz prateada sobre todo o mundo e banhando aquele gramado com uma beleza imensurável.
As luzes pareciam dançar ao redor do corpo de Catherine, que caminhava para se afastar da mansão.
Sem conseguir tempo para segurar meu fôlego, corri em sua direção, desembestada pelo corredor a minha frente e quase caindo escada abaixo ao virar a direita.
Já faziam quase cinco dias desde o incidente na biblioteca.
Eu me equilibrei sobre meus pés da melhor maneira que pude ao chegar ao hall principal, passei pela entrada do primeiro cômodo que eu havia visto naquela mansão e segurei a maçaneta com força, como que procurando por um apoio durante alguns instantes.
Cinco dias desde a última vez que eu havia visto Catherine.
Balancei a maçaneta de cima para baixo em uma ordem desesperada, tentando acompanhar pelos decorados vitrais que adornavam a porta de carvalho para saber se Catherine já havia se afastado além de meu alcance.
Desde que ela havia dito todas aquelas coisas e desaparecido da biblioteca.
Catherine estava a quase trinta metros de distância da entrada da mansão quando finalmente consegui escancarar as portas e me jogar em sua direção.
Desde que Benjamin havia dito para que Henry deixasse-a ir.
Desci as escadas que levavam ao gramado de dois em dois degraus. Depois de três. Pulei quatro ao final para fazer com que meus solados alcançassem a grama.
— Catherine! — Eu chamei, correndo em sua direção.
Ela parou de caminhar e eu aproveitei para me aproximar ainda mais.
Seus ombros tremiam levemente, e Catherine estava se decidindo entre se virar ou continuar a caminhar.
Aproveitei esta minha chance para diminuir a distância entre nós duas e, após vários segundos que duraram vários minutos que duraram várias horas que duraram vários dias em minha mente confusa, finalmente consegui alcançá-la.
— Ca-th... Catherine... — Embolei-me em minhas palavras enquanto meus pulmões reclamavam que o ar estava muito ácido para entrar, e me diziam, ao mesmo tempo, que precisavam de mais.
Eu estava parada atrás de Catherine, minha coluna arqueada e minhas mãos apoiadas sobre meus joelhos, tentando recuperar o controle sobre minha respiração.
— O que você está fazendo aqui? — Catherine sibilou, cerrando os punhos, ainda sem se virar para mim.
Eu me senti mais pesada naquele momento, como se uma mão invisível estivesse me empurrando levemente para baixo, querendo me impedir de continuar.
Me levantei, querendo estender uma mão em sua direção e segurá-la. Eu não havia conseguido dizer naquela hora, mas eu precisava dizer agora.
Pois eu já havia cansado de despedidas silenciosas.
— Catherine, eu... — Me perdi no emaranhado de palavras que lutavam para sair simultaneamente de minha mente e chegar até minha boca. — Por favor... Eu quero me...
— Ah, por favor, cale sua boca! — Catherine esbravejou, olhando-me por cima de seu ombro. — Já não fez mal o suficiente?! Ainda precisava me ver partir?!
— Por que está indo embora? — A pergunta explodiu para fora de meus lábios com um tom mais alto do que eu gostaria de ter usado naquele momento.
— Porque ninguém mais me quer aqui. — Catherine virou a cabeça para frente e balançou-a em negação por duas vezes. — Não depois de eu ter causado problemas para a protegida de Benjamin.
— Como assim? — Perguntei, o ar já voltando a transitar mais normalmente por meu nariz e boca. — O que quer dizer? Eles te expulsaram?
— Não, sua débil mental. — Catherine pisou no solo com força, e eu senti como se ele fosse rachar abaixo de meus pés. — Mas eu... Eu sei dizer quando ninguém me quer por perto. E é tudo... É tudo culpa sua.
Ao dizer aquilo, Catherine fez menção de continuar caminhando. Continuar eternamente se afastando e repetir o ciclo vicioso que já havia tomado lugar tantas vezes em minha vida.
Aquilo não era culpa de Catherine. Eu não podia deixar que ela se afastasse por algo que eu havia feito.
— Espere! — Meu corpo reagiu quase que em perfeita sintonia com minhas palavras, e eu agarrei a mão de Catherine para evitar que ela se afastasse.
A reação inicial de Catherine foi balançar seu braço, como que para afastar algum tipo de inseto.
Eu senti que, caso ela tivesse continuado o movimento, eu seria arremessada justamente como um.
O medo fez-me engolir em seco, mas não me impediu por completo.
Catherine havia parado de se mover, e, pelo meu contato com seu braço, pude sentir uma imensa frieza se espalhando pelos arredores.
Quase que ao mesmo tempo, notei que meu peso havia aumentado mais uma vez, como se mais mãos estivessem sendo depositadas por cima de minhas costas. Me envolvendo. Me apertando. Me pressionando para que eu parasse.
Algo que não estava lá. Eu tinha certeza de que não deveria haver nada. Olhei por cima de meu ombro para conferir, e, a não ser que meus olhos mentissem para mim, nada havia lá.
Mas ali estava eu, sendo empurrada para o chão com pelo menos cinco vezes o meu peso normal.
Eu cai de joelhos, e Catherine balançou seu braço para se soltar de mim. Pude ver ela se afastando, dando passos para frente enquanto eu estava de joelhos sobre o gramado.
— Ca... Ca-th... Ca-therine... — Falar se torna uma atividade muito difícil quando seu peito está sendo esmagado por seu peso, eu descobri, da maneira mais amarga possível.
— Deixe-a. — Disse uma voz conhecida. Uma cujo dono eu não conseguia enxergar da posição onde eu me encontrava.
De uma vez por todas, consegui me libertar das amarras que me prendiam, e o peso sobre meu corpo se desfez em um segundo.
Apenas para a realidade me acertar um chute direto em minha face quando me levantei.
A voz familiar que havia chamado a atenção de Catherine pertencia a Vincent.
Era Vincent quem estava ali, diante de Catherine, desafiando-a.
— Que negócios você tem a tratar aqui, Hawthorne? — Perguntou Catherine, usando palavras estranhas para o vocabulário que eu havia presenciado até então. — A piedade de senhor McIntyre em perdoar a sua família após o que fizeram não bastou?
— Cale-se e saia de minha frente! — Vincent explodiu. — Não deixarei que permaneçam com a tutela de minha sobrinha!
— Isso não depende de você. — Catherine cuspiu, avançando como um touro na direção de Vincent.
E, como um touro, Catherine acertou Vincent, que foi arrastado para trás pela força do soco que se conectou com seu punho.
O golpe de vento que se seguiu foi potente o suficiente para me tirar de meus pés e me jogar sobre o chão. Quando consegui levantar o olhar e me orientar o suficiente, a situação já havia mudado completamente.
Vincent estava diante de mim, estendendo-me uma mão.
— Venha, Noelle! — Gritou ele, exasperado.
No próximo instante, Vincent se tornou uma mancha em minha visão e algo acertou o chão com potência total, criando uma cratera e jogando terra para todos os lados.
Eu podia ouvir passos apressados empurrando o chão ao meu redor, seguidos de diversas explosões e rugidos e berros e todo tipo de representações da mais pura selvageria.
Não tinha a intenção de me virar e tentar segui-los, pois sabia que era impossível, mas a curiosidade gritou mais alto e me levantei mais uma vez.
Vincent estava dobrado sobre o punho de Catherine, que o havia acertado em cheio no estômago.
Minhas mãos foram até minha face e apertaram com força, desejando que eu pudesse fazer algo quanto aquilo.
Vincent a abraçou com força e eu pude ouvir as diversas explosões que se seguiram.
— Desista de uma vez, Hawthorne! — Era a voz de Catherine, em um misto esquisito de bravado e medo. — Eu sou mais forte que você!
Catherine começou a acertar chutes altos em Vincent, seus solados se ligando ao estômago de Vincent.
Cada vez mais explosões, cada vez mais impactos, até que Vincent foi arremessado para o alto.
Catherine pulou atrás dele, e eu quase pude ver sua surpresa quando Vincent a agarrou, girou ao redor de si mesmo e a arremessou no chão com grande força, criando mais uma cratera.
— De pouco me importa! — Era a voz de Vincent em meio aos rugidos e golpes estrondosos que eram trocados. — Não deixarei que levem minha família embora novamente!
Um instante depois, algo atravessou o terreno como se tivesse sido arremessado, e Vincent estava a minha frente mais uma vez, seus braços apressados me guiando em direção a saída do jardim.
— Vincent! — Foi a única coisa que eu consegui dizer em meio a tudo aquilo.
— Agora não, precisamos ir. — Disse Vincent, continuando a me conduzir.
— Não precisam não. — A voz apareceu a nossa frente, e seu som fez com que todos os sistemas em meu corpo entrassem em curto.
— Maldição... — Vincent xingou, em um tom baixo, resignado. Suas mãos apertaram meus ombros por alguns instantes antes de se soltarem, me empurrando para longe.
Eu olhei para trás, para Vincent, que tinha a cabeça baixa e os ombros murchos. Aquela cena continuaria se desenrolando a minha frente para sempre se não fosse algo queimando minha nuca por trás.
Me virei novamente, para a figura que disparava raios de ódio através de seus olhos, e senti o poder que seu olhar possuía.
Minha pele rastejava só pelo simples fato de estar próxima a ele. Meus pulmões se recusavam a funcionar pelo medo que ele me causava. Meu coração parou de bater durante o um instante que seu ataque durou.
Olhei para trás, incrédula, pedindo para que aquilo tivesse sido apenas fruto da minha imaginação.
Afinal, não havia como ele ter atacado Vincent em um intervalo de tempo tão curto, minha mente me dizia, desesperada com a situação apresentada diante dela.
Mas lá estava Vincent, sangue descendo pelos cantos de seus lábios. Fluindo para fora de suas narinas. Escorregando para fora de seus olhos como se fossem lágrimas.
Lamentando silenciosa e dolorosamente pelo imenso golpe que havia acertado seu corpo e dilacerado seu abdômen, atravessando-o como se fosse nada mais do que papel.
Mais uma vez minhas mãos foram até meu rosto de forma automática, me acertando com força, quase como um tapa.
Vincent havia sido simplesmente atravessado. Mas ali estava ele, de pé, como se seu corpo não tivesse sido afetado. Ele continuava de pé como uma rocha.
O meu rosto foi tomado por lágrimas quando percebi o quanto de esforço simplesmente se manter de pé requeria para Vincent.
Suas pernas estavam tremendo, seu rosto desfigurado em uma careta que misturava seus olhos arregalados com as sobrancelhas arqueadas e suas mandíbulas batendo uma contra a outra com tanta força que poderiam partir o mundo ao meio.
Vincent havia sido atravessado ao meio em seu abdômen por um projétil invisivel lançado pelo dono daquela voz maldita que havia entrado em nossos caminhos, e agora estava ali, parado, enquanto não podia fazer nada mais do que se manter em pé antes que aquela figura finalizasse sua vida.
— Ao que me parece. — A voz estava mais perto desta vez, mas eu ainda não conseguia ver seu rosto. — Não soube reconhecer a gigantesca oportunidade que ofereci a sua família.
Aquele era Benjamin.
Era Benjamin quem estava falando, e agora segurava Vincent pelo pescoço.
— Pelo crime que sua matriarca cometeu, eu poderia ter matado todos naquela floresta aquela noite. — Benjamin continuou, como se eu já não estivesse atolada até o pescoço em traumas e memórias ruins. — Mas eu os perdoei. Permiti que vivessem. E é assim que me retribuem?
Vincent não tinha forças — e acho que nem nenhuma condição física — para responder aquilo naquele momento.
Sabendo disso, Benjamin levantou sua mão e eu quase pude vê-lo arrancando a cabeça de Vincent.
Eu quase pude vê-lo levando Vincent para ser consumido pelo mesmo fogo que tirou Nora de mim.
Eu quase pude vê-lo finalizando Vincent para que eu nunca mais pudesse vê-lo.
Mas eu já havia tido perdas suficientes. Eu já havia deixado pessoas demais se machucarem por minha causa. Eu já havia ficado parada por tempo demais.
Antes que eu mesma pudesse perceber, eu estava segurando a mão de Benjamin.
Ele olhou para mim com os olhos semicerrados, e a intensidade, a potência de seu olhar quase me arremessou longe por si só.
Mas eu já havia tido perdas suficientes para minha vida. Eu me recusaria a deixar que ele levasse Vincent embora também.
— Não o mate! — Eu soltei, com todas as minhas forças, as palavras que ecoavam em minha alma.
Benjamin me encarou durante alguns instantes, os olhos mais abertos e atentos, as sobrancelhas curvadas em arcos.
Por fim, baixou a mão onde Vincent estava sendo mantido prisioneiro e soltou-o, permitindo que seu corpo caísse duramente contra o chão frio.
Após, me colocou sobre o chão com cuidado, e começou a caminhar na direção da mansão.
— Siga-me. — Disse Benjamin.
— Mas... — Eu olhei para Vincent, caído em meio a uma poça de seu próprio sangue, com um buraco aberto em seu abdômen.
Sua cabeça estava virada para a lateral, e eu pude ver seus olhos lentamente se fechando enquanto o resto de sua expressão se suavizava.
— Senhor McIntyre, eu... — Era Catherine falando.
Ela estava parada ao lado de Benjamin, e havia se jogado de joelhos em sua frente.
— Eu imploro... — Ela continuou, a voz embargada pelas lágrimas. — Perdoe-me.
Benjamin levou uma mão até a face e suspirou antes de continuar caminhando na direção da mansão, como que alheio a Catherine.
— Cuide de nosso novo convidado, Catherine. — Ele disse, parando de caminhar. — E, senhorita McIntyre, siga-me.
— Mas... Senhor McIntyre! — Catherine levantou o olhar. — Não quer dizer que o senhor vai...
Meus joelhos não aguentaram mais a pressão, e cederam sob meu peso, jogando-me ao chão ao lado do corpo de Vincent.
— Sim, Catherine. — Benjamin parou durante alguns instantes. — Eu irei acolhê-lo. Agora vá e peça que Henry faça os preparativos.
A temperatura já não era mais presente em sua pele, tendo há muito deixado seu corpo através do sangue que vazava e encharcava a terra ao seu redor.
Havia um confronto se instaurando dentro de minha mente. A diferença entre o que eu havia lido e o que estava disposto diante de mim.
Vincent deveria estar bem. Devoradores só poderiam ser mortos caso seus corpos sejam completamente destruídos.
Então por que Vincent não se levantava?
Por que ele continuou ali, jogado em meio ao seu próprio sangue, com seu abdômen destroçado?
— Iremos cuidar dele. — Uma das mãos de Benjamin se depositou sobre meu ombro. A outra se apoiou em meu braço e me levantou. — Eu o poupei, como me pediu. Agora, senhorita McIntyre, me siga. Não quero que acabe doente.
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