Capítulo XIV: Uma Morte Na Clareira.
— O que acha, minha querida? — Nora perguntava ao terminar de arrumar meu cabelo.
— Eu... — Estava sem palavras a época. Estava acostumada com meu cabelo sendo uma massa de fios embaraçados que, normalmente molhados, eram um incômodo enquanto pendiam bagunçados de minha cabeça.
Nora havia me ajudado a fazer um corte que era tradicional ao povo de minha mãe, os japoneses, ela havia me dito.
Dois coques descansavam sobre a parte lateral de minha cabeça, uma franja pendia sobre minha testa e o restante do cabelo estava jogado em minhas costas.
— Apenas diga-me se gostou ou não. — Nora sorriu, apertando levemente meu ombro.
Sem saber muito bem o que dizer, apenas balancei a cabeça de cima para baixo e olhei para ela.
Nora sorriu de volta para mim, e seu rosto parecia iluminado. Cintilante e puro, com uma beleza que eu só conseguia descrever como natural.
Até que não estava mais.
Suas feições se enrijeceram repentinamente, e ela caminhou até a porta em passos pesados.
Vincent estava lá.
— Ele chegou? — Nora perguntou, no mesmo tom autoritário que havia usado na primeira vez que a vi.
Vincent assentiu com a cabeça, as sobrancelhas tão erguidas que pareciam querer saltar para fora de seu rosto.
Nora olhou para Vincent e depois para mim antes de irromper porta a fora, na direção da clareira.
— Escute bem, Noelle. — Vincent engoliu em seco enquanto se aproximava. Suas sobrancelhas se abaixaram, dando a ele mais seriedade. — Venha atrás de mim, e não diga uma palavra.
Tudo o que consegui fazer foi assentir enquanto Vincent me conduziu para fora da cabana.
Lá fora, o sol estava se abaixando para se cobrir com o horizonte, despejando seus últimos raios preciosos sobre o mundo antes de passar o bastião da luz celeste para a lua.
O peso no ar era evidente até para mim. Respirar era um desafio, como se o oxigênio tivesse, de alguma maneira, se convertido para pedra.
Eu soube no momento em que pus meus olhos sobre aquela figura maldita que acabara de emergir das trevas da floresta: aquele homem era o desastre.
Um buraco negro que iria sugar toda a minha felicidade para dentro de seus olhos verdes.
Para um universo repleto de tristezas e mágoas de onde eu dificilmente conseguiria escapar.
Senti-me sufocada naquele momento, esmagada por sua presença poderosa e avassaladora.
Nora estava a sua frente, bem no meio da clareira, com Silvester e Fergus ao seu lado. A minha frente estava Vincent.
Ele pediu-me para ficar atrás dele, e que não olhasse para o homem a frente de Nora. Mas, mesmo desta maneira, sua presença esmagadora ainda estava me causando problemas para executar a tarefa mais simples do mundo: respirar.
— Muito boa noite, senhor McIntyre. — Disse Nora, se curvando em uma reverência rápida. Os demais repetiram o ato.
— Muito boa noite, senhora Hawthorne. — Ele retirou o chapéu em cortesia. — Mas peço que se refira a mim como Benjamin, que é meu nome.
— Pois bem. — Nora sorriu, como pude ver pela inclinação em suas bochechas. — Mas permita-me perguntar, o que lhe traz a meu humilde lar, caro Benjamin?
— Chegou ao meu conhecimento que vocês estão abrigando uma humana. — Benjamin falou, sua voz se tornando mais seca a cada palavra. — E que esta humana tem conhecimento de nossa verdadeira identidade.
Nora fez um sinal com sua mão e a formação se desfez, permitindo que Benjamin me visse. Eu me senti atravessada por uma flecha quando seus olhos adquiriram aquela faísca vermelha.
— Ora, ora. — Benjamin controlou o sorriso assustador que tentara nascer em sua face. — Posso saber o que pretendem fazer sobre esta violação de nossas leis?
— Esta mulher é filha de minha irmã, Sayaka, enquanto ainda era humana. — Vincent se intromete. Deu um passo a frente e se ajoelhou, colocando uma mão sobre seu peito. — Pretendemos levá-la até sua mãe para que possam se reencontrar.
Benjamin levantou uma sobrancelha e foi como se um imenso furacão varresse Vincent da existência. Ele recuou um passo e engoliu em seco.
— Isto me é incompreensível. — Benjamin olhou para Nora. — Violaram a regra do segredo por conta de uma humana aparentada a um dos membros de sua família?
— Ela não representa risco ao nosso segredo, senhor, eu posso garantir. — Nora repetiu o ato de Vincent, mas sem se abaixar.
— Me dói o coração, senhora Hawthorne, mas eu não posso apenas aceitar suas palavras. Principalmente depois de descobrir sobre esta infração. — Benjamin abaixou a cabeça e posicionou uma mão sobre o peito, e era quase claro como um cristal que ele estava fingindo aquele arrependimento. — Como um nobre nomeado pelos Patronos, eu tenho de fazer valer a lei. E isso significaria matar toda a sua família aqui e agora.
Mordi meu lábio superior e senti o estômago revirar com infinitas borboletas que decidiram iniciar sua migração naquele exato momento. Um nó se formou na minha garganta e ficou brincando de subir e descer por esta última.
Recuei um passo e pude sentir que Benjamin percebeu meu movimento, pois seu olhar se voltou imediatamente para mim. Agora eu estava crucificada, e não mais haviam saídas para mim. Eu era a presa e ele era o caçador.
— Mas eu não pretendo fazer isso. — Benjamin estendeu uma mão, repentinamente diante de Nora. — Entreguem-me a humana e eu perdoarei seus pecados.
Eu não ouvi suas palavras saindo de sua boca, apenas li o movimento de seus lábios e entendi do que se tratava.
Pois o mundo havia repentinamente sido separado de mim. Eu estava presa dentro de um caixão trancado às sete chaves e não tinha nenhuma escapatória. Apesar de ainda viva, tudo o que podia fazer era esperar que o coveiro terminasse de cobrir a cova com a agourenta terra que iria selar para sempre meu destino.
Benjamin, aquele que fazia com que todos os Hawthorne obedecessem e havia acabado de emitir uma sentença de morte para todos, me queria em troca de suas vidas.
Naquele único momento, em minha mente, passou-se a possibilidade de que os Hawthorne fossem me abandonar.
E, afinal, quem não faria?
Eu era apenas uma humana, e na balança onde estão contadas todas as vidas de sua família, eu praticamente não tinha peso.
Foi naquele momento que eu decidi que, se eu era a presa e ele o caçador, eu não iria me entregar numa bandeja de prata. Ele teria de me caçar.
Dei as costas para ele e, em minha inocência, tentei correr para longe. Eu não sabia para onde ir, só sabia que era longe dali.
Minha perna estava indo para frente. Indo para frente. Indo para frente. Indo para frente.
Meu pé tocou o chão. Ajeitou-se. Levantou-se do chão e mais uma vez minha perna foi para a frente.
Tudo isso deveria estar acontecendo a uma velocidade muito maior, mas eu conseguia ver cada um de meus movimentos tomando uma quantidade de tempo excruciantemente enorme.
E então ele estava na minha frente. Bem ali, na minha frente, e eu ainda estava correndo. Correndo. Eu iria colidir com ele. Benjamin só teria de estender as mãos e teria seu prêmio.
Ao final, tudo o que eu conseguiria fazer seria me entregar para ele num sentido mais literal da palavra.
Eu estava indo na direção das mãos estendidas de Benjamin quando uma explosão ensurdecedora tomou o ar.
Quem estava a minha frente não era mais Benjamin, mas Nora, com uma das mãos sobre meu peito.
Eu estava movendo minha cabeça, girando meu pescoço, tentando olhar para Nora.
Mas meu movimento ainda levava uma eternidade que se passava no que realmente eram apenas alguns segundos.
Depois que olhei para Nora, o que havia a minha frente me chamou minha atenção e eu comecei mais uma vez o lento processo de me mover para olhar para um outro lugar.
Tudo havia mudado naquela mísera questão de segundos. A atmosfera estava tão pesada que era difícil respirar. O pouco ar que eu conseguia inspirar era quente e ácido, machucando minha garganta e meus pulmões. Aquela era uma luta entre devoradores e, mesmo para mim, era clara a diferença entre eles.
Benjamin recuou alguns metros e Vincent avançou, um chute alto na direção da cabeça de Benjamin. Benjamin segurou o chute com uma mão e houve uma explosão.
Fechei meus olhos por um instante e Vincent estava a alguns metros atrás de mim, caído no chão.
Silvester avançou e não pude ver seus braços enquanto ela golpeava Benjamin repetidas vezes. O próprio se tornou um borrão enquanto desviava de cada um dos golpes.
Pisquei mais uma vez e senti o ar se tornar frio, congelando minha garganta e pulmões. Silvester estava a direita, tinha atravessado uma árvore e agora estava caída fora de meu campo de visão.
Fergus avançou desta vez. Um soco na face de Benjamin fez este recuar alguns metros, onde Vincent apareceu.
Segurou a cabeça de Benjamin e a forçou na direção do chão, antes deste último se levantar.
Pisquei mais uma vez.
Benjamin segurava o braço decepado de Vincent, que havia recuado. Fergus estava no chão, debaixo do pé de Benjamin.
Pude ver que Vincent avançou mais um passo, antes que um grito tomasse meus ouvidos.
— Chega. — Era Nora, não mais a minha frente, uma mão na frente do peito de Vincent. — Eu lhe imploro, senhor McIntyre. Perdoe nossa insolência.
Ela se aproximou alguns passos e se ajoelhou na frente do nobre.
— Por favor, conceda-nos seu favor. Leve a humana.
— Nora, não! — Vincent gritou. — Você não pode!
— Calado, Vincent. — Nora respondeu, entredentes. — Eu sou a matriarca desta família. Não permitirei que seja destruída pelo favor de uma humana.
Ela me lançou um olhar frio, como que para deixar claro que não estava de brincadeira.
Meu mundo se estilhaçou em bilhões de pedaços com o sorriso que tomou a face de Benjamin. Ele ajudou Fergus a se levantar e deu alguns tapas nas costas dele para limpar a sujeira.
No final, eu achava que as lágrimas que queriam cair por meu rosto eram pouco justificadas. Afinal, eu sabia daquilo o tempo todo. Nora não iria colocar sua família a perder por mim. Ninguém iria.
— Eu aceitarei vossas súplicas, senhorita Hawthorne. — Ele sorriu e estendeu uma mão para Nora se levantar. — Fico contente que tenha sido inteligente o suficiente para decidir.
Benjamin se virou para mim e em menos de um instante estava em minha frente. Seus dedos eram especialmente quentes quando seguraram meu pulso.
Meu coração estava tão rápido que não mais era contido por meu peito. Tão pesado que eu estava quase afundando na terra.
Em minha mente, todos os momentos em que Nora fora gentil comigo passaram em sucessão. Até que, diante de meus olhos, eu pude vê-la dizendo que não iria sacrificar sua família por mim.
E então ela simplesmente se virou e saiu andando com Silvester e Fergus. A escuridão começou a me envolver, mas Vincent ainda olhava para mim, enquanto Benjamin se aproximava.
Vincent, por fim, também saiu. E só restaram as sombras e Benjamin ao meu lado. Ambos querendo me consumir.
Nora apareceu atrás de Benjamin depois que pisquei meus olhos e algumas lágrimas caíram. Sua mão ia na direção do pescoço de Benjamin, mas este segurou-a.
Girou para trás e em um movimento fluído arrancou o braço de Nora. Avançou mais alguns passos e sua mão penetrou a caixa torácica, destruindo-lhe coração.
Eu cai no chão e meus olhos se fecharam devido a velocidade com que tudo acontecia ao meu redor.
Olhei para cima o mais rápido que pude, e vi Benjamin arrancar a cabeça do corpo sem braços de Nora.
E o mundo inteiro acabou ali. Nas chamas que Benjamin ateou sobre o corpo despedaçado o universo foi consumido. As labaredas lamberam a carne até que não mais restasse nada. Nada além de dor e sofrimento.
Benjamin estendeu os dedos manchados de sangue em minha direção e eu nem mais tinha reação. A expressão despedaçada no rosto de cada um daqueles que haviam me recebido fez com que o tempo desacelerasse mais uma vez, enquanto minha cabeça tentava processar o que acabara de acontecer.
Silvester era apenas lágrimas. Vincent estava derrotado e ferido. Fergus era tomado por revolta e descrença.
Olhei para Benjamin tentando se aproximar e usei todo o ar dos meus pulmões para emitir um único som. Toda minha capacidade vocal estava focada ali, naquele momento, para aquela palavra.
Contudo, Benjamin desapareceu da minha frente e eu senti algo atingir minha nuca com força. Senti o abraço da mãe terra em meu corpo, e então o frio, o escuro e o vazio foram meus únicos companheiros.
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