Capítulo VIII: Nas Chamas Da Fogueira.

    — Eu não teria tanta certeza. — Vincent caminhou alguns passos na direção de Kathrin.

    Duas das figuras que eu ainda não havia conseguido identificar avançaram em sua direção, correndo tão rápido quanto raios.

    Cada uma segurou um de seus braços e o jogaram ao chão, criando uma cratera com o impacto. Com Vincent imobilizado, cada uma levantou um dos braços para socá-lo.

    Vincent mexeu um de seus braços e a figura que o segurava foi arremessada contra a outra, demonstrando facilidade imensa, como se não tivesse peso algum.

    Vincent se levantou e pude ouvir uma explosão quando Kathrin apareceu ao seu lado e Vincent lhe acertou em seu estômago.

    — Ora, ora — Kathrin sorriu, curvada sobre o punho de Vincent. — Você já foi mais forte que isso.

    Kathrin o segurou pelo pescoço e o levantou com apenas uma mão.

    Vincent agora era a boneca de pano sendo arremessada pelo ar. Ele aterrissou nada graciosamente ao meu lado, seu corpo sendo arrastado pelo chão durante alguns metros antes de parar completamente.

    Kathrin estava diante de mim quando me virei para olhar mais uma vez. Ergueu a mão e me segurou pela gola de minha blusa, e agora era eu quem estava sem peso algum.

    Senti o coração acelerando infinitamente. Seu toque me causava arrepios que quase eram convulsões nervosas.

     Aquela mulher era uma ameaça e eu precisava fugir fugir fugir fugir dela. Eu não podia ficar ali mas também não podia fazer nada contra sua mão.

    Eu sentia seu calor e sabia que era mais forte do que Vincent, que estava deitado no chão, sem conseguir se mexer. Fechei meus olhos e inalei o ar várias vezes, sentindo ele descendo e congelando em minha garganta.

    A lua agora estava nos observando do céu. Sua luz pálida estava iluminando toda a clareira, tendo substituído o crepúsculo.

    Vincent levantou-se, pelo que pude ver no canto de meus olhos enquanto eu lutava desesperadamente, tanto para respirar quanto para me soltar das garras de Kathrin.

    Seu sorriso só fez aumentar enquanto ela observava o quão impotente eu era. Uma boneca em suas mãos, cujos esforços não eram capazes de mexer nem o mínimo dedo. Diante de Kathrin, nada mais eu era do que um inseto.

    — E pensar que você segura tanto poder dentro de si. — Diria ela, movendo-se para o lado.

    Um vulto passou ao nosso lado conforme ela executou esse movimento, e mais tarde eu pude perceber que era Vincent. Ele se levantou do chão de onde estava e avançou novamente na direção de Kathrin.

    Ela girou mais uma vez e me colocou de costas para a direção a partir da qual Vincent avançava. Ele parou seu movimento imediatamente, apenas para receber um chute em seu estômago e ser arremessado para o alto e para longe.

    Eu tentei me soltar mais uma vez neste momento. Minhas mãos desistiram de tentar afrouxar as de Kathrin, e passaram a se esforçar inutilmente para acertá-la em seu peito.

    Kathrin me deu um sorriso que me fez congelar. Soltou-me logo após, fazendo-me cair nada graciosamente sobre o chão da clareira.

    — Minha querida, por favor, não pense em mim como um monstro. — Diria ela, em um tom mais gentil do que eu imaginava ser possível em um campo de batalha. — Pense em mim como uma aliada, e estaremos bem.

    Tudo o que consegui fazer foi me arrastar para trás, tentar me afastar o mais rápido possível. Eu temia pela minha vida diante daquela figura tão inumanamente poderosa.

    Para qualquer um deles, me matar seria tão fácil quanto matar uma mosca. Ao invés disso, ali estavam eles, arriscando suas vidas em meu prol.

    O que tudo aquilo significava?

    Kathrin passou ao meu lado e continuou caminhando, indo em direção ao centro da clareira.

    Segui-a com meu olhar e vi Nora, de costas para um homem, com cabelos levemente avermelhados e arrepiados sobre sua cabeça.

    Aquele era Fergus, como eu bem sei hoje em dia, mas na época meu cérebro estava correndo muito rápido para processar a informação.

    E também haviam muitas coisas muito importantes acontecendo ao meu redor, como, por exemplo...

    Senti dedos me puxando com força. Tentei me virar e me desvencilhar antes de perceber que era Silvester.

    Ela me levantou em seu colo, uma de suas mãos em minhas costas e a outra na parte inferior de meus joelhos, como se eu fosse um bebê.

    Havia um sorriso em seu rosto quando olhei para ela, estranhando toda aquela força.

    Pisquei os olhos e estávamos do outro outro lado da clareira. Tentei inalar o ar e senti uma pressão em meu peito.

    — Se acalme. — Silvester me colocou no chão e me ajudou a me equilibrar. — Pode fechar os olhos. Vai ficar tudo bem.

    Eu sentia algo estranho, uma coisa que não sabia bem como identificar.

    Não que eu fosse conseguir produzir palavras naquela situação.

    Desisti da tentativa fútil de fala e levantei uma mão para o ar, apontando na direção daquilo que sentia.

    Silvester seguiu com o olhar e logo desapareceu de meu lado, golpeando minha face com os ventos causados por seu movimento.

    Procurei em algo para continuar me apoiando, mas nada encontrei. O chão duro e frio foi meu próximo companheiro.

    Silvester fazia tudo em uma velocidade que eu não conseguia compreender.

    Se lançou na direção de Marcus, aquele que avançava em minha direção.

    Balançou um de seus braços e o acertou no peito do homem, que foi arremessado para longe. Logo pude ouvir a explosão de madeira se partindo com o impacto.

    Ouvi um rugido e olhei na tal direção em um sobressalto. Vincent estava saindo dos confins da clareira, arrastando a carcaça sem vida de um homem que tivera os braços e a cabeça decepados.

    Vincent estava com a boca sobre o pescoço deste homem, sorvendo de seu sangue.

    Levantei minha mão e coloquei-a sobre minha boca, tentando não vomitar com aquela visão.

    Uma das figuras encapuzadas correu em sua direção, mas Vincent foi mais rápido e o segurou pelo braço. Girou e colocou sua perna nas costas do tal homem e o membro foi arrancado com imensa facilidade.

    Este gritou quando houve o estalo e seu osso saiu da cavidade onde deveria estar encaixado.

    Vincent pisou sobre as costas do homem e segurou sua cabeça, decapitando-o com as mãos nuas.

    Eu ainda não conseguia encontrar palavras para descrever o horror de ver e ouvir a pele os músculos os ossos os tendões e todos os tecidos simplesmente se partindo.

    Edwin avançou contra ele e tapei meus ouvidos quando uma imensa explosão se propagou pelo ar no momento em que seus braços se chocaram. Durante repetidas vezes eu quase fiquei surda.

    Acabei me encolhendo e colocando as mãos em minha cabeça sem conseguir suportar o tal som.

    Vincent estava na vantagem. Se movia mais rápido que Edwin e conseguia defender quase todos os seus movimentos. Em determinado momento, segurou um de seus braços e destrinchou o corpo ao meio, jogando as metades ao chão. Foi literalmente um banho de sangue e vísceras, na ausência de descrição melhor.

    Coberto de sangue, um rugido emergiu do fundo de sua boca e me fez tremer de medo.

    Aquele era mesmo o homem que havia rolado escada abaixo para dentro de meu confinamento?

    Aquele que estava ferido e mal conseguia se defender?

    O que houvera acontecido que o transformou naquela besta sedenta que estava diante de meus olhos?

    Minhas indagações foram interrompidas juntamente com minha respiração que foi subitamente forçada a parar. O ar se movimentou tão rápido que não consegui inspirá-lo nem expirá-lo.

    Uma mão envolveu a minha e me puxou para cima sem o mínimo cuidado, como se eu fosse um pedaço de carne caído. Senti minhas pernas baterem várias vezes no chão enquanto eu era arrastada, minha pele se ferindo no processo de atrito com o chão da clareira.

    Paramos repentinamente, na borda da clareira. O homem que me segurava me puxou sem cuidado algum e me colocou de pé.

    — Cuidado, seu pedaço de merda. — Sibilou a voz de Kathrin, em um tom estranhamente protetor. — Um arranhão nela e eu arranco sua cabeça.

    Marcus soltou as mãos que me apoiavam até o momento, caminhando para a minha frente como que para me proteger. As coisas estavam acontecendo rápido demais, e eu não tinha nem tempo para processar o que se passava diante de meus olhos.

    Naquele exato momento, nada mais eu era do que um navio a deriva no mar, sendo arrastada a esmo pelas correntes furiosas.

    Senti a mão de Kathrin segurar a minha, e pude ver que ela ia me puxar. Eu teria ido com ela, até porque, que escolha eu teria?

    Mas Nora apareceu ao seu lado, tão rápida quanto um raio — não, acho que se ambos fossem colocados em uma corrida, ela iria ganhar.

    Um chute alto foi executado por Nora, que acertou a cabeça de Kathrin e a arremessou ao ar, da mesma maneira que ela havia feito com Vincent mais cedo.

    Kathrin caiu no chão, apoiando-se sobre seus quatro membros para diminuir sua velocidade. Ela direcionou um olhar fugaz para algo que existia atrás de mim, e não pude evitar que minha cabeça se virasse para conferir.

    Marcus estava com uma mão erguida em minha direção, e eu tinha quase certeza de que seu objetivo não era me segurar ou me puxar.

    Ele ia arrancar a minha cabeça.

    Eu não fazia ideia de como sabia daquilo, nem como chegara aquela conclusão, mas apenas a tomei como verdade e fiquei parada, esperando pelo pior.

    Entretanto, Marcus não completava o movimento em minha direção. Sua mão estava parada no ar.

    Não, não estava. Ela estava se movendo em minha direção, mas tão lentamente que era quase impossível distinguir.

    Imagino que este seja um daqueles momentos em que, quando se está prestes a morrer, a pessoa tem flashes de toda a sua vida até então.

    Foi o que aconteceu comigo. Lembrei-me de minha mãe, de sua separação, de meu pai arrancando-me o cordão e a última memória que tinha de minha mãe enquanto ela se afastava. Ela não estava sorrindo, como eu me forçara a acreditar nos últimos anos.

    Ela estava chorando.

    Uma angústia engoliu meu coração e jogou-me de um lado para o outro dentro de meu próprio corpo. Havia um calor se juntando em mim, em meu peito, em meus braços, e imaginei que aquilo fosse um prelúdio do inferno que me aguardava.

    A tristeza explodiu de dentro para fora através de meus olhos, nariz e boca. Foi um grito tão forte que deixou-me rouca, e quase pude sentir meus ouvidos reclamando de sua intensidade.

    Eu havia vivido apenas dezessete anos e ali estava eu, Noelle Saotome, esperando que as garras da morte viessem ceifar minha vida.

    Eu não queria aceitar aquilo, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Se as mãos de Marcus se moviam tão lentamente quanto era possível, nada em meu corpo sequer chegava até aquela velocidade.

    Exceto o meu grito. Ele conseguiu me libertar e eu estava livre eu estava voando eu estava poderosa e eu lembrei-me das palavras de Kathrin um pouco mais cedo.

    Eu tinha poder, não tinha? Então por que aquele maldito poder não se manifestava agora, quando eu estava prestes a morrer? Essa era apenas parte da angústia que estava em meu corpo enquanto eu estava gritando.

    Coloquei tudo para fora naquela única representação de dor e agonia da batalha inteira. Inicialmente eu sentia-me ridícula por ter um último ato tão insignificante quanto aquele, mas esse sentimento também saiu em meu grito.

    Quando eu levantei minha cabeça novamente, Marcus não mais estava a minha frente, erguendo a mão para um ataque fatal. Ele estava bem longe, ao menos doze metros de distância, seu corpo desequilibrado como se tivesse acabado de receber um tiro.

    Estranhei o que havia acontecido, mas quando Fergus apareceu por trás de Marcus com um sorriso em sua face, considerei que havia sido obra dos devoradores que lutavam para me proteger.

    A expressão de Marcus se transfigurou no mais puro terror, o medo primordial, algo extremamente profundo enquanto Fergus girou sua cabeça e arrancou-a para fora de seu corpo.

    — Acabamos aqui. — Me virei para trás e vi Nora, jogando os corpos de duas das três figuras encapuzadas que haviam restado em uma pilha. — Tragam os corpos. Não podemos deixar que regenerem.

    Olhei para todo o ritual com um misto de medo, pavor extremo e curiosidade mórbida. Todos os corpos foram dispostos em uma pira, o que é um jeito bonito de dizer que foram jogados um sobre o outro sem nenhum cuidado.

    Talvez eu devesse ter mais sentimentos quanto aquilo naquele momento, mas tudo o que havia dentro de mim era um vazio insano. Nada entrava e nada saía, e a sensação era avassaladora.

    Vincent salpicou alguma espécie de líquido incolor, encharcando os cadáveres antes que Silvester lançasse uma chama sobre eles.

    Observei silenciosamente quando as chamas se levantaram.

    As labaredas foram espreitando pelos corpos, lambendo suas peles e vestimentas com gula brutal.

    Não foi nada lento o processo de transformação — corpos se tornando massas cinzentas e indistinguíveis que ainda sustentavam as chamas sobre si.

    Aquela cena ficaria marcada em minha mente e eu tinha certeza que teria pesadelos com ela aquela noite. Mas, para meu horror, naquele momento eu não conseguia sentir nada.

    — Acabou? — Vincent se virou para Nora.

    — Não. — Nora olhou para a lua, pesar em sua voz. — A líder deles conseguiu fugir.

    — É, eu gostava daqui. — Fergus colocou as duas mãos na cintura e olhou para a floresta. — Quando vamos partir?

    — Seria idiota embarcar em um navio com um bando de separatistas nos perseguindo. — Silvester lambeu as pontas dos dedos manchados de sangue. — Eu acho melhor ficarmos mais algum tempo.

    — Eu concordo. — Nora suspirou. — Mas não muito tempo. Faremos buscas pela cidade em revezamento. Quando tudo estiver seguro, partiremos.

    — Está certo, então. — Vincent concordou. — Eu vou primeiro.

    — Serei o próximo. — Respondeu Fergus, colocando o braço ao redor do pescoço de Vincent.

    — Não me deixem de fora. — Silvester aproximou-se pelo outro lado de Vincent e fez o mesmo que Fergus.

    Vendo-os juntos daquela maneira, mesmo cobertos do sangue proveniente da batalha, não conseguia me impedir de enxergá-los como irmãos. Um sorriso fraco tomou meus lábios, e aquele foi o primeiro sentimento que notei após o que aconteceu.

    — Então está tudo decidido. — Nora olhou para a fogueira, que rapidamente consumia o que havia restado dos corpos. — Vamos esperar o anoitecer passar, eles certamente não aparecerão. Sairemos ao amanhecer para procurá-los.

    — Entendo. — Vincent segurou o queixo. — Eles não devem nos esperar durante o dia. Vai ser um incômodo, mas consigo aguentar.

    E o próximo sentimento que tive se mostrou em todo meu corpo ao mesmo tempo. O cansaço atacou de forma generalizada e rendeu cada um de meus músculos sob seu poder.

    Desde o primeiro fio de cabelo até a ponta das unhas de meus pés, nada tinha energia para mover-se por nem um segundo sequer.

    Não consegui acompanhar o restante da conversa. Quando percebi, minha cabeça estava recostada nas folhas secas que se depositavam sobre o chão. Nem mesmo ouvi elas sendo esmagadas pelo meu peso.

    Naquele momento o mundo resolveu voltar a girar ao meu redor, o chão tremendo como se fosse se partir, o ar criando espinhos para cortar minha garganta e mãos para apertar meu peito quando tentava respirar.

    Sinto falta do concreto, eu pensei. Apesar de ser frio ele era previsível. Havia uma sensação estranha no fundo do meu peito, meu coração batendo mais rápido do que o normal de uma forma constante. Aquilo não era confortável.

    Senti algo molhado e quente em um dos seios de minha face, e minha visão desvaneceu mais uma vez.

    — Está tudo bem. —
    Ouvi a voz de Nora. — Minha querida, você está conosco. Não deixaremos que nada aconteça com você. Iremos levá-la para casa, minha querida.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top