Capítulo VII: Dentre Os Pinheiros.

    Quando abri meus olhos o mundo estava correndo ao meu redor.

    Sentia o cheiro molhado de agulhas de pinheiro. Deparei-me com uma visão conturbada de diversos espetos verdes perfurando o céu e fazendo-o sangrar.

    Envolta em uma floresta de pinheiros que se esticavam na direção do céu, era o crepúsculo o que eu via.

    Ouvi as árvores se mexendo com o leve e frio vento que corria ao meu redor. Inspirei e expirei, sentindo meu coração bater em um ritmo calmo pela primeira vez em muito tempo.

    Mas então a realidade me acertou com tudo. Havia aquele odor agridoce de podridão no ar, e me lembrei dolorosamente de todos os acontecidos até então.

    Queria acreditar que tivesse sido um sonho, que eu acordaria para a imensidão cinza que vinha dia após dia me engolindo, mas não.

    O concreto não estava mais lá. Haviam bilhões de cores de estendendo diante de meus olhos. O marrom da terra pisoteada se juntava com o marrom dos troncos que saiam dela e então se mesclava com o verde das agulhas de pinheiro.

    Nunca vi tantas cores em minha vida. Meus olhos giram junto com meu rosto enquanto procuro analisar tudo ao meu redor o mais rápido possível.

    Tenho medo de que tudo vá desvanecer para o cinza novamente.

    Sinto dedos frios sobre meu ombro.

    — Se acalme. — O cheiro agridoce vinha da figura que comigo falava. Era Vincent. — Respire. Está tudo bem.

    — Vincent. — Chamou uma voz feminina. Virei meu rosto em sua direção e era uma mulher que acabara de emergir das árvores.

    Seus cabelos eram da cor do caramelo e estavam bagunçados, simplesmente jogados ao lado de seu corpo sem nenhum cuidado. Ela estivera correndo. Seus olhos preocupados tinham a cor de uma avelã e estavam saltando da terra para mim para Vincent e para mim mais uma vez.

    Ela atravessou boa parte da clareira no espaço de tempo que levei apenas para piscar meus olhos. Inalei o ar e senti o aroma das agulhas de pinheiro presas ao seu vestido simples e esverdeado, que cobria até seus joelhos.

    — Eles pararam de tentar se aproximar, mas estão nos cercando. — Disse, ignorando minha presença.

    — Certo. — Vincent respondeu e se levantou, já se afastando — Silvester, pode ficar com Noelle por enquanto?

    — O que vai fazer? — Ela, aquela que deveria ser Silvester, cruzou os braços.

    — Eu já estou apodrecendo, Silvester. — Vincent parou de andar na direção das árvores, mas não se virou. Deu bastante ênfase a palavra “apodrecendo”.

    Senti um calafrio.

    — Exatamente. — Silvester segurou o ombro de Vincent. — Não vai ter forças para passar pelo cerco deles.

    — Eu serei inútil assim. — Vincent sussurrou.

    — Melhor inútil e vivo do que inútil e morto. — Havia uma terceira voz vinda de trás de mim. Quando me virei ela não estava mais lá.

    Podia ver apenas seus cabelos cacheados e marrom-escuros cascateando de sua cabeça e se depositando sobre sua cintura. Inspirei o ar com dificuldade e senti a pressão que sua presença deixava.

    — Você não irá sair enquanto não resolvermos esse problema, Vincent — Ela ordenou. — Nós precisamos de você.

    — Mas, Nora — Vincent se virou em sua direção, mas ela lhe lançou um olhar frio.

    Pude ver seus olhos. Eles carregavam poder e decisão, e tinham um tom arroxeado tão vivo e brilhante que simplesmente roubou toda a minha energia naquele momento.

    — Onde está Fergus? — Vincent se virou na direção da floresta, desviando o olhar.

    — Já deve estar retornando. — Aquela de cabelos cacheados, Nora, olhou para o crepúsculo no céu.

    Vi seus olhos se fecharem e pude sentir uma espécie de calor emanando de seu corpo antes que Nora abrisse os olhos novamente.

    — Eles irão atacar ao anoitecer. — Nora começou a andar para a esquerda. — Fergus chegará em cinco minutos.

    — Certo. — Silvester balançou a cabeça e passou os dedos pelo cabelo para ajeitá-lo.

    Olhei de uma para a outra e então para Vincent.

    — O que está acontecendo? — Perguntei, e me arrependi por ter aumentado o tom de voz. Todos me olharam ao mesmo tempo.

    Vincent direcionou um olhar para Silvester e Nora para ele. Ficaram em silêncio, os braços cruzados e posturas estoicas durante muitos segundos.

    — Ela não deveria ver tudo isso. — Nora quebrou o silêncio, olhando para um ponto onde nada havia.

    — Tudo bem, e o que vamos fazer? — Vincent deixou os braços caírem ao lado do corpo e senti agressão vindo de sua postura.

    — Vincent, se acalme. — Silvester meneou a cabeça na direção de Vincent.

    — Iremos levá-la para ver Sayaka, de uma forma ou de outra. — Nora soltou um suspiro e descruzou os braços. — Vamos contar aos poucos.

    — Certo. — Vincent suspirou e acariciou a têmpora. — Eu vou ficar dentro da cabana com ela. Já que não precisam de mim aqui. — E lançou um olhar cortante para Nora.

    — Não. — Nora levantou uma mão. — O cheiro dela aqui serve como isca, é o que estão seguindo. Fique com ela, nós iremos nos afastar.

    — O que? — Vincent se sobressaltou e virou-se para Nora.

    — Iremos apenas nos afastar o suficiente para que eles não consigam nos farejar. — Nora olhou para o chão, se concentrando em outra coisa. — Isso irá fazer eles baixarem a guarda.

    Vincent fez uma careta para indicar sua insatisfação, e Silvester pareceu um pouco desapontada ao olhar para o céu com as sobrancelhas arqueadas e os braços cruzados.

    — Certo. — Vincent aceitou e se sentou no chão a minha frente.

    Olhei para ele e tentei olhar de novo para Nora e Silvester, mas elas não estavam mais ali.

    — Você não têm perguntas? — Seus olhos estavam me atravessando com uma pressão imensa.

    Soltei um suspiro.

    — Quem são eles que vocês tanto falam?

    — Um grupo de rebeldes separatistas. — Vincent desviou o olhar para o chão. Havia nojo em seus lábios enquanto se curvavam para pronunciar as palavras. — Se chamam de "Os Rubros".

    Desviei o olhar para o chão, ainda sem entender muito da situação.

    — Por que estão atacando?

    — Eles querem você.

    — Por quê?

    — Acham que você tem potencial para ajudar a causa deles.

    — E por que vocês estão me ajudando? — Olhei para Vincent e ele estava olhando para mim.

    Vincent desviou o olhar.

    — Porque queremos... — Vincent engoliu as palavras e demorou um pouco para recomeçar. — Bom... Eu quero reunir a minha família.

    — Como assim? — Olhei para baixo, onde minha mão brincava de enrolar meus cabelos.

    — Noelle Saotome, — Vincent suspirou. — Filha de Sayaka Saotome e Stephen Black.

    — Como você sabe o nome de meus pais? — Levantei os olhos para fitar Vincent, minhas sobrancelhas formando arcos logo acima.

    — Sayaka contou para mim. — Vincent sorriu ao se lembrar de algo, mas o sorriso logo desapareceu.

    Agora notei o quão melancólico ele estava. Boa parte de sua testa exposta, seus cabelos não mais caindo acima das sobrancelhas. Sua pele acinzentada e rachada tinha aquele odor agridoce que fazia meus olhos se encherem de lágrimas.

    — Eu estou horrível, eu sei. — Vincent soltou um suspiro disfarçado de risada. — O tempo não é gentil conosco quando não nos alimentamos.

    — Já passei dias sem comer e nunca fiquei assim.

    — Mas você é humana. É bem mais fácil para você.

    — Como assim? Você não é humano?

    — Eu achava que você já tinha descoberto até essa parte. — Vincent sorriu e mostrou dentes amarelados.

    — O que você é, então?

    — É algo complicado.

    — Me explique.

    — Já ouviu falar de vampiros? — Vincent olhou para um pinheiro que balançava com os ventos.

    — Claro que já.

    Segui seu olhar antes de voltar para ele, assustada com a possibilidade que demorou a germinar em minha mente.

    — Você é um vampiro? — Consegui pronunciar com o ar que estava se recusando a entrar em meus pulmões.

    — Se sou um vampiro? — Vincent cruzou os braços, soltando uma risada amarga. — Não exatamente. O nome certo é devorador de almas.

    O vento explodiu em uma rajada furiosa que lançou meus cabelos sobre minha face. Quando consegui olhar novamente para Vincent, ele parecia ainda mais perdido.

    Seu olhar saltava do chão para mim para as árvores para o ar para tudo e ele estava procurando por algo onde se segurar, parecia que esperava que uma bomba fosse explodir.

    — Costumamos nos chamar apenas de devoradores. — Ele quebrou o silêncio que se cravava em nossos peitos como uma faca afiada.

    — Então Silvester e Nora também...

    — Sim. — Disse ele. — Nora é mais velha, e é como se fosse nossa mãe. Silvester é como minha irmã mais nova.

    — Então Fergus é o pai?

    Vincent riu, e um pouco de sangue preto explodiu para fora de seus lábios quando seu corpo se contraiu com uma tosse seca que arranhava sua garganta. Ele tapou a boca durante alguns instantes e limpou o sangue.

    — Não, ele é nosso irmão mais novo. — Vincent sussurrou. — Nossa família não é organizada como a humana. Nora é nossa criadora, então a chamamos e tratamos como mãe, mas ela não a é.

    — O quanto... — Tentei começar. Ainda estava tentando absorver tudo aquilo, e sentia como se minha cabeça estivesse pesando dez mil vezes mais. — O quanto das lendas é real?

    — Quase nada. — Vincent passou a mão pelos cabelos. Esse simples ato fez com que vários se soltassem. Ele ficou alguns instantes encarando o tufo de cabelos em sua mão antes de esfregá-la em suas roupas. — A maioria são mitos. Criamos alguns, vocês criaram o resto.

    Ficamos em silêncio durante vários segundos. O ar ao redor parecia colocar facas em nossas gargantas. Era um incômodo grande olhar para Vincent e ver ele se deteriorando, literalmente definhando diante de meus olhos.

    — Por que isso está acontecendo com você? — Perguntei.

    — Para poder entrar naquele porão, passei alguns meses sem me alimentar. — Vincent respondeu. — O objetivo era ficar mais fraco, mais convincente na minha atuação. Mas agora estou chegando no meu limite.

    — Se alimentar?

    — Está perguntando sobre o que faço para sobreviver? — Vincent sorriu de forma amarga mais uma vez e desviou o olhar. — O mesmo que nas lendas. Energia vital.

    Eu hesitei.

    — Sangue? — Perguntei, sentindo cada palavra ser desenhada em meus lábios.

    — Também é necessário. — Ele disse, secamente. Contraiu os lábios com alguma ideia que passou pela mente, mas logo a afastou.

    Eu queria perguntar, mas eu soube que não teria essa oportunidade.

    Pude ouvir os troncos das árvores se mexendo de forma não natural. Haviam fantasmas correndo por entre as árvores. Saltavam e se moviam como se não houvessem obstáculos naturais diante de si, uma velocidade tão grande que não pareciam ter corpos físicos para obstruir seus movimentos. Era surreal.

    Vincent estava de pé antes que eu conseguisse falar qualquer coisa. Nossa conversa havia acabado naquele momento em que eles foram, um a um, emergindo da floresta.

    Kathrin ia a frente, seguida por Marcus e Edwin, ambos posicionados para formar um “V” atrás dela. Logo em seguida quatro figuras encapuzadas que se moviam na mesma velocidade fantasmagórico emergiram da floresta, se posicionando ainda atrás de Edwin e Marcus.

    — Eu lamento que tenha chegado a isso, — Kathrin abriu os braços enquanto dizia, um sorriso de sadismo tomando seus lábios. — Mas nós iremos levar esta humana, queira você ou não.

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