Capítulo II: Um Corvo Ao Anoitecer.
A manhã cheirava a chuva.
O cômodo estava tomado pelos sons das gotas de chuva descendo pelo céu e se espatifando no chão.
O cheiro de terra molhada encheu minhas narinas quando respirei fundo e fui cautelosamente na direção da janela.
Coloquei minhas mãos na superfície fria e senti respingos de água molhando minha pele. Eram tudo o que sobraram das pobres gotas de chuva, que foram despejadas do céu e abandonadas a esmo sem nenhuma proteção.
Às vezes eu queria ser um pingo de chuva. Apesar da vida cruel e curta, eles podem ver todo o mundo enquanto caem para sua morte. Imaginava que deva ser rápida.
Quanto a mim, tudo aquilo que podia ver era o chão escurecido do lado de fora da pequena janela. Haviam várias poças de água se acumulando, bilhões de gotas de chuva mortas se juntando sem terem para onde ir.
Algumas vezes podia ver algumas botas caminhando e ouvir suas conversas. Eram pessoas livres que não tinham de se preocupar muito. Elas não se perguntavam se iriam apanhar no dia seguinte ou se teriam comida pela manhã ou pela noite.
Ouvi um barulho no outro canto da cela. Isso indicava que Vincent deve estar acordado.
Meus pés resolveram brincar de me atrapalhar quando me virei em sua direção.
Vincent estava me olhando com curiosidade no olhar.
Até então havia uma armadura me protegendo. Ela se torna pó e definha diante de seus olhos. Minha pele, exposta ao cruel ambiente exterior pela primeira vez, é tingida de vermelho.
— Qual seu nome? — Suas palavras parecem retardar o tempo.
Respirei fundo e fechei os olhos durante um segundo inteiro.
Não podia deixar que ele mude minha vida.
Senti o vento acariciar minha pele e tocar minhas roupas. Houve um momento no qual o som se perde no espaço e eu me sufoco sem ter ar para respirar. Abri os olhos e Vincent estava na minha frente.
Havia algo estranho em seus olhos. Não mais era aquela curiosidade de antes, que os fazia brilhar. Era um desejo negro e maligno, que os escurecia.
Recuei um passo e ele avançou dois.
A parede estava me bloqueando e Vincent estendeu a mão em direção a meu pescoço.
O encarei com os olhos arregalados.
Seus lábios se contorceram e sua outra mão segurou a primeira. Vincent balançou a cabeça e se virou para longe de mim.
Estou com o coração acelerado depois de correr uma maratona e suor frio está descendo por minhas têmporas. Já expirei e inspirei mais de mil vezes no único segundo que se passou.
— Me desculpe por isso — Vincent se virou para mim novamente, apesar de as veias nas costas de seus punhos cerrados serem visíveis.
O encarei em silêncio e apertei os lábios ao matar e engolir uma tentativa de fala. Acho que Vincent entendeu a mensagem.
Me virei e comecei a caminhar para longe.
São quatro dedos. Seguraram meu ombro como se fossem anzol de pesca.
Minha pele se transformou em pedra sob seu toque. Meus músculos e tendões se contraíram violentamente e meus ossos se quebraram. Ele estava me tocando.
— Está com medo de mim. — Vincent olhava para baixo. — Por favor...
— Eu não tenho medo de você. — Me virei rapidamente e o encarei com o rosto em chamas.
Eu estava mentindo, mas ele não deveria saber disso. Nunca. Jamais.
Não teve o efeito que eu imaginei.
Vincent me encarou com um olhar descrente. Soltou um suspiro afetado e me deu as costas.
Senti meu coração ser apertado por um chicote. Meus pulmões não queriam mais funcionar. Dei as costas sem querer continuar a sentir culpa e me sento no canto.
O som da chuva ainda estava lá fora. Existiam centenas de bilhões de gotas gritando enquanto caem pelo ar e o som de seus corpos se estilhaçando ao finalmente encontrarem o chão era ensurdecedor.
Fiquei olhando para a janela e vi os respingos de água — mais corpos recém chegados se juntando aos cemitérios compartilhados e perdendo totalmente sua individualidade.
Eles nunca tiveram vida, nunca tiveram escolha e agora nem mais eram eles mesmos.
Coloquei as mãos nos ouvidos e fechei os olhos para silenciar os gritos.
— O que você está vendo?
Vincent estava fazendo perguntas de novo. Estava falando por mais uma vez. Mais uma vez rompendo o meu silêncio.
Movo os olhos em sua direção e depois para a janela.
— Está olhando para a janela — Vincent cruzou os braços. — Mas o que está vendo?
O encarei, sobrancelhas erguidas e testa franzida. O que ele queria dizer com aquilo?
Ele sorriu.
A porta se abriu e a escuridão invadiu nosso confinamento — como se já não fosse escuro o suficiente.
Vincent estava olhando para a porta quando meu pai bêbado cambaleou escada abaixo. Ele deu um gole no cantil de metal que trazia na mão e andou até mim.
Me levantei e me afastei o quanto pude, mas logo estava na parede.
Meu pai se aproximou e levantou a mão — ele iria me socar.
Vincent entrou na frente e segurou o soco. Puxou o braço de meu pai e o fez cair.
Sua bebida alcoólica se espalhou pelo chão e fez meu estômago revirar pela força do cheiro desagradável.
Eu sorri quando meu pai caiu. Tapei minha face segundos depois, percebendo o que havia acabado de fazer.
Meu pai se levantou e, furioso, acertou um soco na barriga de Vincent. Ele não se defendeu e dobrou com o impacto.
Um chute e mais socos se seguiram.
Fiquei observando horrorizada enquanto Vincent recebia os golpes. Em silêncio, sem protestar. Sua face se mantinha decidida e solícita.
Meu pai acerta a cabeça de Vincent com o cantil vazio e ele cai. No chão, seu olhar se trava com o meu.
Não existia meu pai, não existia porão e não existia nada mais. Apenas um túnel. Uma ligação que senti tão forte quanto correntes de metal se ligando ao meu coração apertado naquele momento.
O tempo e a gravidade voltaram a funcionar naquele momento, quando a bota de meu pai se conectou com a cabeça de Vincent.
Encarei meu pai e minhas unhas se cravaram na palma de minha mão antes que esta se chocasse contra a parede.
Eu nem mesmo senti a dor. Eu não me importava com aquela dor. Senti o sangue vertendo por minha mão e minha cabeça girou.
O pé de meu pai bateu no chão bem ao lado da cabeça de Vincent e minha visão escureceu.
O chão pareceu tão reconfortante ao me receber quando eu cai.
Havia apenas nada ao meu redor. Um crepúsculo opressor iluminava meus arredores com tons de vermelho. Um corvo pousou a minha frente e seu bico veio até mim depois que ele soltou seu som macabro.
Abri meus olhos em meio a escuridão da noite. Ainda podia ouvir as gotas de chuva gritando em sua curta e melancólica vida.
Parecia que haviam duas pessoas batendo em minha cabeça com martelos de um instante para o outro.
— Que bom que acordou — Vincent estava na minha frente.
Apertei os olhos para enxergar melhor sua silhueta na fraca luz lunar que conseguia passar pela janela e notei os detalhes de seu peitoral. A camisa branca não estava mais lá.
Recuei rapidamente e percebi que a camisa estava depositada sobre mim.
Ele notou minha surpresa.
— Você estava tremendo — Ele se abaixou e puxou a camisa para si. — Achei melhor do que te deixar morrer de frio.
— Por que você está aqui?
Ele colocou a camisa de volta e se virou para a janela. Alguns instantes dolorosos de silêncio — literalmente para minha cabeça — e Vincent se virou para mim mais uma vez.
— Qual seu nome? — Ele sorriu, indicando que não ia responder.
Soltei uma respiração pesada e me sentei. Coloquei uma mão sobre minha cabeça e fechei os olhos. A dor ainda era insuportável, mas agora havia apenas uma pessoa me batendo com o martelo.
— Você está bem? — Sua voz não era mais relaxada, estava mais grave.
Passei meus dedos pelo chão, desenhando linhas imaginárias com as unhas quebradas, roídas e sujas. Vincent acompanhou minha mão com a cabeça e eu sentira uma gota de suor frio descendo por minha testa arqueada.
— Por que está desenhando um corvo? — Vincent tinha um tom perplexo.
— O que? — Olhei para o desenho que fiz enquanto afastava a poeira do chão.
Um corvo perfeitamente delineado estava deitado ali, as asas abertas em ameaça enquanto seus olhos sem cor estavam focados em mim. Em seu bico havia um pedaço de carne parcialmente deixado para fora. Era o mesmo corvo que eu vira em meu sonho, e o pedaço de carne em seu bico — estremeci — era meu olho.
Senti um arrepio subindo pela base da espinha e me fazendo tremer. Passei a base da palma da mão pelo chão e apaguei o desenho.
— Não é nada. — Disse. — Foi só um sonho que tive.
— Você desenha o que sonha com muita frequência?
Eu não respondi. Apenas abaixei a cabeça e fiquei olhando para minhas unhas destruídas. Esperava que o silêncio voltasse, como sempre voltava.
Mas eu me senti angustiada quando Vincent se afastou e se sentou longe de mim novamente.
Não havia mais conforto no silêncio. Apenas uma tortura cruel.
Olhei para a janela bem rápido. O silêncio total me fez perceber naquele momento. Os gritos da chuva haviam parado.
Mas, por algum motivo, com o silêncio total me envolvendo, eu me sentia mais vazia e fria do que antes.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top