Capítulo I: Algo Para Se Lembrar.
O sol me acordou naquele dia, em meados de 1888, como sempre costumava fazer.
Sua mão caridosa entrou no recinto de meus pesadelos e desbravou o cinza opressor que aprisionava tudo que meus olhos eram capazes de tocar, espalhando sua gama infinita de calor, luz e esperança enquanto rastejava pelo chão de concreto, vindo em minha direção.
Escalava meu rosto alvo e fazia com que meus olhos amendoados e castanhos tivessem motivos para mais uma vez se abrirem pela manhã.
Minhas mãos finas puxavam meu cabelo preto, liso e encharcado de lágrimas para fora de meu rosto e o ajeitavam atrás de minha cabeça, prendendo-o em minhas orelhas.
Me levantei e fui na direção das grades que recobriam e protegiam a pequena e única janela que existia no interior do ventre de todo o meu sofrimento.
Nas pontas de meus pés, depositei minhas mãos na borda da janela e me segurei em suas grades para tentar cumprimentar o sol antes que ele fosse embora.
Sua luz encheu minha face e esse é um dos únicos momentos nos quais eu conseguia me lembrar de minha vida fora daquele emaranhado de sombras onde eu estava há tanto confinada.
Acho que notei muito cedo que eu era muito diferente das pessoas que eu via ao meu redor. Nunca soube ao certo o porquê, mas sempre fui muito mais parecida com minha mãe do que com meu pai.
Minha mãe era bem alta pelo que me lembrava, mas ela sempre ficava na minha altura ou me pegava no colo para falar ou brincar comigo.
Meu pai era mais alto que minha mãe e nós não nos parecíamos em nada. Mais tarde eu descobri que a cor de nossos olhos era igual, mas nossas semelhanças terminavam ali.
Ele não aparecia muitas vezes na casa onde eu vivia com minha mãe. Quando vinha, estava mal humorado, e mamãe me mandava ficar no quarto.
Sempre ouvia muitos gritos nessas horas. Minha mãe entrava em meu quarto depois que ela achava que eu havia dormido e se deitava ao meu lado. Eu podia sempre ouvir seus soluços baixinhos enquanto ela estava lá.
E no dia seguinte, pela manhã, ela estava sorrindo mais uma vez. Havia uma parte de mim que sabia. Aquilo que eu ouvia durante a noite era real. Mas havia outra parte que não queria acreditar, e essa era a que tinha mais controle sobre mim.
Acho que foi por isso que consegui acreditar em minhas próprias mentiras durante tanto tempo. Mamãe me amava. Mamãe estava bem. Mamãe estaria sempre lá sorrindo para mim pela manhã.
Até que chegou um dia que ela não estava mais.
Ela chegou em casa tarde, bolsas inchadas embaixo de seus olhos — que agora me pareciam tão nublados e confusos quanto as nuvens cinzentas que apareciam no céu de vez em quando.
Disse-me que havia uma carruagem nos esperando do lado de fora e que íamos passear. Eu sorri e corri até ela para um abraço, pois estava feliz. Mas também estava com uma pressão em meu peito que não me deixava respirar.
Até hoje eu ainda não entendo porque minha mãe não me levou com ela quando entrou naquele navio.
Porque ela não se virou para mim quando a implorei que não fosse.
Ou porque ela não se despediu quando o navio foi embora e eu estava parada no cais ao lado de meu pai.
Ele me levou de volta para a carruagem e meu coração afundou, se recusando a bater. Minha mãe não estava mais ali, e tudo o que me restava era o pequenino colar que ela me deixara antes de descermos no cais.
— O que é isso? — Meu pai puxou o colar de meu pescoço e sua face se contorceu quando ele o olhou. — Não vai precisar disso.
Ele enfiou o colar em algum dos bolsos de suas belas roupas e agora eu me sentia sozinha e pelada, sem nenhuma defesa contra seja lá o que estivesse acontecendo. E eu sabia que havia algo acontecendo.
Meu pai me empurrou para fora da carruagem e depois me puxou pelos cabelos casa adentro. Abriu uma porta de madeira escura e me arremessou lá dentro.
E é aqui que eu tenho estado há mil e quarenta e cinco dias consecutivos. Três anos seguidos.
Nos primeiros dias e noites eu fiquei acordada. Esperava que minha mãe fosse vir e não queria dormir para perder.
Um pouco depois conclui que minha mãe não sabia onde eu estava, e que eu deveria chamar por ela. Mas a única pessoa que vinha era meu pai, e eu sentia dor a cada momento desde que ele entrava.
Parei de chamar por minha mãe e comecei a esperar mais uma vez.
Ela teria que vir me buscar alguma hora, não é?
Acho que foi por volta de meados do segundo ano que passei ali que desisti dessa ideia, e que a outra parte de mim mesma me deu uma nova explicação.
Mamãe me deixou sozinha com papai. Ela queria ir embora e sequer olhou para trás quando chamei. Mais tarde, já presa ali, ela deve ter me ouvido chamar por ela e até soubesse e pudesse me resgatar — mas ela nunca veio.
A única conclusão que conseguia alcançar, agora, era que aquilo era desejo de minha mãe. Me apeguei a ideia de seu sorriso que via todas as manhãs e minhas memórias se tornaram confusas a partir deste ponto: enxerguei minha mãe sorrindo enquanto se afastava de mim.
Foi então que parei de chamar. Foi aí que minhas lágrimas pararam de descer por meu rosto. Agora mamãe estava feliz. Enquanto eu estivesse ali, ela não estaria mais chorando.
Havia um motivo por trás de tudo aquilo. Como eu queria que mamãe ficasse feliz, eu decidi que ia parar de incomodar ela.
Os dias têm passado sempre da mesma forma desde então. Acho que meu cérebro encontrou conforto na rotina e controle em tentar classificar o que ele não podia controlar.
Hoje tem sido a mesma coisa de ontem, assim como no dia anterior a este e assim por diante. Acordei com o sol acariciando as maçãs de minha face e fui encontrá-lo na janela.
Ficaria ali até que ele fosse embora ou até sentir dores nas pernas, o que viesse primeiro. Então iria me sentar no meu cantinho escuro e ficar esperando por meu pai.
Ele sempre vinha, um pouco depois do céu engolir o sol enquanto este usa suas últimas forças para salpicar o horizonte com suas cores antes da noite e a lua tomarem o palco.
Entrava no porão onde eu estava e vinha trôpego até mim. Não adiantava tentar fugir, porque uma hora ele me pegava, e estaria mais irritado nesse momento.
Ele me pegaria pelo pescoço e me deixaria ficar sem ar até que meus olhos quisessem saltar para fora, e então eu desmaiaria.
Levantei meu braço e olhei para os hematomas em minha pele. Alguns estavam azuis, outros inchados e outros soltavam um líquido amarelo, mas isso não importava: todos doíam.
Todos os dias eu tinha novos hematomas em minha pele, competindo por seu espaço e para gritarem mais alto em minha cabeça, me deixando tonta enquanto eles tentavam decidir quem doía mais.
Eu só queria que parassem.
Ouvi meu pai caminhando no piso que ficava acima e acompanhei seus passos com minha cabeça. Estavam indo na direção da porta. Nem me importei que, desta vez, parecia haver mais alguém com ele.
A porta explodiu para dentro e alguém caiu e rolou escada abaixo, parando no concreto do chão. Olhei para cima, sem saber como reagir, e meu pai bateu a porta mais uma vez, fazendo meus ombros se encolherem e meus braços irem a frente de minha face para me proteger.
Mas nada aconteceu depois. Apenas o silêncio.
Não, não era o silêncio pleno ao qual estava acostumada. Havia um som de uma respiração além da minha. Olhei para ele que havia sido jogado dentro do porão e vi que seu peito subia e descia, assim como o meu.
Bem mais devagar e com muito mais dificuldade, como se um elefante estivesse acima de seu peito: mas ele ainda estava vivo.
Não sei porque fiquei feliz com isso.
Depois de muito tempo para juntar coragem, fui me aproximando com cautela, ainda lutando contra todo o meu cérebro que me ordenava que não fizesse aquilo. Que ficasse onde eu estava, e ele iria embora com o tempo.
Não. Eu precisava vê-lo. Ele podia precisar da minha ajuda.
Tive que tapar minha boca para não jogar um monte de bile e comida semi-digerida em cima daquele estranho. Seu rosto estava péssimo.
Ele parecia ter uns trinta anos. Seu cabelo encaracolado e loiro estava molhado e jogado sobre um corte horizontal em sua testa. Um de seus olhos estava fechado, uma bolsa roxa e inchada por cima de sua pele. Havia mais um corte em sua bochecha direita, manchando a fina barba ruiva com o rubro de seu sangue.
Ele abriu seu outro olho e eu puxei muito ar para dentro para evitar me afogar no mar de mel a minha frente. Estava me encarando. Não com medo, com raiva ou com dor, ele parecia estar no nível mais profundo da palavra paz.
Eu estava sentada no chão. Havia me afastado rápido demais e caído.
Ele se levantou e se sentou, me analisando com aquele olho cor-de-mel. Mas ele não estava me olhando. Era algo além de mim, que quase me fazia querer olhar para trás para ver também. Era algo que eu não compreendia e sequer tenho palavras para descrever. Seu olhar estava me atravessando como uma flecha.
Ele ergueu a mão e a levou até mim.
Eu recuei mais uma vez e sua mão parou no ar, míseros centímetros a separando de meu rosto.
— Você está bem? — Ele me perguntou. Sua voz explodiu para dentro de meus ouvidos e me fez criar raízes que perfuraram o concreto e me prenderam no lugar.
— Que... Quem é você? — Foi a única coisa que consegui forçar meus lábios a pronunciarem.
— Meu nome é Vincent — Ele abaixou a mão, deixando-a apontada em minha direção. — Qual o seu?
Olhei para sua mão. Estava mais longe do que antes, mas continuava além da distância com a qual eu me sentiria confortável. Cocei as costas de minha mão esquerda com força. Com mais força do que eu precisava.
Sua mão ainda estava estendida para mim. Podia ouvi-la gritando, chamando e pedindo que eu o cumprimentasse. Mas eu não consegui.
Me levantei e voltei para meu canto escuro.
Nunca deveria ter saído daqui, minha mente me disse.
Abaixei a cabeça sobre meus joelhos depois de enrolar meus braços ao redor destes e fechei meus olhos. Tentei acalmar minha respiração, mas não consegui.
Se você ficar quieta, ele vai embora. Isso. É só isso. Fique quieta.
Minha mente estava bagunçada e fora de meu próprio controle. Vincent. Era um nome bonito. Vincent. Era tudo em que eu conseguia pensar.
O imaginei ali, parado como uma estátua, me encarando com a mão estendida. Por um único instante, ainda enganada por minha própria mente, levantei a cabeça e esperei que ele estivesse nessa posição.
Mas ele não estava.
Vincent estava deitado do outro lado da sala. Se cansou de me esperar e foi dormir. Meu coração agora parecia pesar mais do que dez toneladas e ser feito de concreto.
Me deitei de costas para ele e fechei os olhos com força, esperando que o sono viesse para me tirar daquele mundo durante alguns instantes.
Mas aquela noite eu passei em claro, porque o sono nunca veio.
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