Capítulo 03

Grissom aproveitou àquela manhã em que seus filhos estavam na escola e foi fazer o resto das compras que não fez ontem por conta do sumiço de Noan. Havia pedido algumas coisas por telefone na tarde anterior, mas ainda faltavam mais outras.

O ex-supervisor comprou tudo o que era preciso e um pouco além, pois em hipótese alguma pretendia pisar no supermercado sozinho com os filhos de novo. Se fosse àquele lugar com eles seria quando Sara estivesse junto pra evitar o susto de ontem.

Por volta das dez, ele já chegava em casa e começava a guardar as compras no devido lugar. Assim que terminou, pôs-se a preparar o almoço, sempre de olho no relógio preso ali na parede da cozinha, pra não perder a hora de buscar os filhos na escola. Os pequenos saem as onze e quinze.

Quando o relógio soou as onze, Grissom desligou o fogo do almoço mesmo a comida ainda não estando pronta completamente e foi se arrumar pra buscar seus filhos. Quando retornasse terminaria o que faltava.

****

Com seus óculos escuros, parado em frente ao portão da escola junto com muitas mães que ele podia perceber de canto de olho que lhe fitavam, e alguns poucos pais como ele, Grissom aguardava a vinda dos filhos. A professora já tinha sido informada pelo porteiro de sua presença ali e viria trazer os meninos para serem entregue ao pai. 

Cerca de dois minutos de espera e Grissom viu seus filhos virem suados e com os uniformes todo lambrecado de tinta e suco.

—Papai!

Os dois largaram a mão da professora e vieram correndo até ele, jogando-se nos braços de Grissom que havia se agachado pra recebê-los.

—Meus pequenos!

Ele beijo a cabeça de cada um dos seus filhos com extremo carinho. A professora sorriu com a cena. Depois interrompendo o momento fofo do trio, a mulher cumprimentou o pai de seus dois alunos:

—Olá, senhor Grissom.

—Olá, Cinthia!

—Preciso lhe avisar que hoje os dois deram trabalho. Não quiseram de forma alguma fazer as tarefas. Iniciaram uma guerra de tinta na sala após eu e minha assistente termos saído um instante. E não quiseram tomar o banho depois disso e nem do lazer por isso estão nesse estado - Listou a professora.

—Ei, por que vocês dois aprontaram essas coisas todas, hein?

Ele olhou com certa surpresa e até espanto para seus pequenos, que sempre se comportavam tão bem na escola e hoje fugiram à regra.

—A gente queria brincar, papai.

—Mas tem o horário certo pra brincar, filha.

—As lancheiras dele, senhor Grissom. - A professora estendeu as duas e mochiletes, uma do Superman e outra das princesas da Disney. _Tchau pequenos. E amanhã espero que estejam menos "rebeldes". - Cinthia sorriu, tocando a cabeça de seus alunos queridos. Adorava aqueles dois e os demais de sua turma.

Já dentro do carro e a caminho de casa, Grissom chamou de leve a atenção dos filhos pelo mau comportamento deles na escola hoje. Essa tinha sido a primeira vez que recebia reclamação dos filhos. Os gêmeos costumavam ter um ótimo comportamento. Até hoje só sobravam elogios a eles.

—A tia tava chata hoje, papai. - Resmungou Noan após a chamada do pai.

Grissom franziu a testa e arqueou uma das sobrancelhas ante as palavras do filho.

—Não é bonito dizer isso da tia, filho. Ela vai ficar triste se ouvir você dizer isso. - advertiu de maneira branda o pai.

—Ele disse isso pra titia, papai. - Dedurou Liah.

—Noan não se diz isso, filho!

Ele ficou mais surpreso ainda por isso e pelo fato de Cinthia não ter relatado esse episódio. Com certeza, ela quis tirar por menos, mas ele pediria desculpas a ela por isso e lhe cobraria por não ter contado aquilo. Ela tinha o dever de lhe comunicar àquela grosseria feita por Noan.

—Mas ela tava chata mesmo, papai.

O pequeno reafirmou dando de ombros e brincando normalmente com seu boneco do Hulk.

Pelo retrovisor Grissom olhou o filho. Aquele temperamento não escondia de quem ele era filho. Noan tinha herdado esse lado 'rebelde' e um tanto respondão de Sara. Ao contrário, de Liah que tinha herdado o jeito sereno do pai, com a leve pitada do lado ciumento da mãe.

—Noan não pode ser assim, filho. - Amenizou Grissom. Ele detestava brigar com os filhos. Deixava essa tarefa nas mãos de Sara. Mas ao menos, chamar a atenção de seus pequenos, ele costuma fazer. _Amanhã você vai pedir desculpas pra tia, tá bom?

—Tá! - Ele respondeu sem muita vontade.

—Se sua mãe estivesse aqui ela não ia gostar disso e ia brigar com você.

O pequeno só deu deu ombros de novo. Depois quis saber:

—Vai contar pra ela?

Isso ele não ia omitir dela.

—Sim!

Noan se calou e sabia, estava ferrado e levaria uma bronca da mãe por isso.

****

Antes do almoço Sara ligou rápido, durante um intervalo do curso pra falar com os filhos e o marido. Ouviu a empolgação de Liah falando sobre Flik e seus latidos engraçados. O cãozinho parecia até um motorzinho engasgando quando latia. Era engraçado! Noan falou com a mãe com bem menos empolgação do que a irmã, por conta de ter aprontado e saber que ouviria pelo mau comportamento. E Sara, que não é boba notou logo no tom de voz do filho que ele parecia "estranho".

—Gil aconteceu alguma coisa com o Noan? Ele me pareceu estranho quando falou comigo.

O ex-supervisor notou seu filho lhe encarando com uma carinha meio chorosa. Ele sabia que certamente sua mãe lhe brigaria pelo que fez. E por um segundo, Grissom sentiu dó de contar a "travessura" do filho. Mas ele tinha que contar a esposa isso. Talvez em outro momento e não na frente do filho, ele lhe deduraria a Sara, mas pediria pra ela não brigar com o menino, pois diria que já chamou sua atenção por isso, como de fato chamou!

—Aconteceu, mas em outro momento eu lhe conto. - Ele respondeu em um tom baixo e virando-se de costas para que os filhos principalmente Noan, não lhe vissem e muito menos, lhe ouvissem falar.

—Não foi nada grave, foi? - A preocupação logo assolou a perita.

—Não, querida. Fique tranquila.

Sara ouviu o chamado de alguém avisando que a próxima aula do curso já iria começar.

—Gil vou precisar desligar. A outra aula já vai começar. A noite ligo pra gente conversar mais, amor. Aí, você me conta o que foi que aconteceu com Noan.

—Ok, querida! Boa aula aí.

—Obrigada. Beijo.

—Outro! - Ele devolveu o telefone a mesa de centro da sala.

—Você não vai mais contar pra mamãe sobre eu ter chamado a tia de chata, papai?

—Papai vai contar, sim, filho. Mamãe tem que saber. Mas contarei só a noite quando ela ligar de novo.

—Ela vai brigar comigo.

Ele viu seu pequeno fazer um bico choroso idêntico ao que Sara fazia quando estava prestes a cair em prantos.

—Ela não vai brigar feio com você. A mamãe vai chamar a sua atenção, ou melhor, a dos dois por terem aprontado na escola, anjinhos travessos. - Ele apertou de leve a ponta do nariz de seus pequenos arrancando um tímido sorriso de cada um. _Porque vocês merecem uma chamada pelo que aprontaram. Sabem disso, não sabem?

Os pequenos assentiram positivamente.

—Agora, quem tá com fome e quer almoçar? - Anunciou Grissom aos filhos.

—Eu! - Os dois pequenos responderam em coro alto sorrindo e fazendo o pai sorrir daquelas coisinhas lindas.

—Então já lavar a mão pra almoçarmos.

****

Grissom foi despertado bruscamente do sonho que estava tendo com a esposa naquela tarde, pelo som alto de algo caindo no chão e posteriormente, quebrando-se logo depois.

Imediatamente, o homem pulou de sua cama e todo trôpego saiu em disparada do quarto em direção à sala, que foi de onde supôs que viera o som. Seu pensamento era de que seus anjinhos já tinham aprontado alguma. E ao chegar ao cômodo, Grissom constatou que estava certo.

O ex-supervisor quase não acreditou no que encontrou. Parecia que um pequeno vendaval tinha passado pela sala. E o pior é que Grissom nem sequer escutou o estrago daquilo tudo quando fora feito.

Ele viu a mesinha onde o telefone ficava, tombada no chão e junto com ela, todo espatifado, se encontrava o vaso Persa que sua mãe havia presenteado Sara no aniversário dela ano passado; os três porta-retratos que ficavam na outra mesinha, também estavam no chão e quebrados como o vaso; e mais também, os bibelôs da mesa de centro.

O sofá "carimbado" com as marcas úmidas de patas e pés de crianças, além de sujo de um pó branco e com pedaços de papel higiênico sobre ele.

O tapete se encontrava levemente encharcado, salpicado com o mesmo pó branco do sofá e com um rolo de papel higiênico desenrolado pela metade ali.

E no meio dessa zona toda, Grissom encontrou dois "pingos de gente" molhados e com o mesmo pó branco pelas mãos e rosto, lhe encarando com suas carinhas "inocentes" e sorrisos levados. E ao lado dos gêmeos, estavam dois cachorros que se encontravam no mesmo estado das crianças.

—O que vocês aprontaram aqui, Noan e Liah?

Grissom olhava para os filhos espantado com a zona que aquela sala estava. Se Sara visse aquilo, ela surtaria.

—A gente deu banho no Hank e no Flik, mas quando tiramos o sabão deles, eles correram pra cá e desarrumaram tudo, papai. - Liah com um sorriso sapeca.

Os cachorros desarrumaram tudo aquilo?? Só eles??

—Mas o papai não disse que íamos dar banho neles juntos, quando acordassêmos?... E fiquem parados aí. Não se mexam.

O ex-supervisor pediu indo com cuidado em direção aos filhos. O piso além de molhado estava com cacos de vidro e qualquer desatenção sua poderia lhe ocasionar um acidente ou pior, aos seus filhos.

—É que você tava demorando muito pra acordar papai! - Noan explicou, passando a mão pelo rosto e sujando-se mais com o pó branco.

—Santo Deus! Que zona vocês fizeram!

—Foi o Hank e o Flik, papai!

—Sei! - Grissom resmungou, pegando primeiro Liah no colo e colocando-a sobre o sofá pra evitar que ela pisasse nos cacos de vidro e cortasse o pezinho. Depois, o homem pegou Noan e o colocou junto da irmã.

O ex-supervisor que tinha caído em sono profundo horas atrás após colocar os filhos pra dormirem depois do almoço deles, nem ouviu quando os gêmeos acordaram e muito menos, quando aquela zona começou a ser armada por seus "anjinhos". Se não fosse o som alto que lhe tirou do sonho bom que estava tendo, Grissom certamente, ainda não teria tomado nota do pequeno "terremoto" que seus filhos tinham causado na sala.

—Vai brigar com a gente, papai?

Bem que ele deveria, pois eles mereciam isso. Mas quem disse que Grissom conseguia fazer isso? Aquelas carinhas de anjo e aquele jeito meio manhoso e quase choroso, que Liah usou ao lhe indagar aquela pergunta, desarmou qualquer zanga e tentativa que o ex-supervisor tinha de brigar com os filhos.

Sua esposa bem que tinha razão em gênero, número e grau, quando dizia que Noan e Liah, tinham o pai nas mãos e lhe faziam de "gato e sapato". Os gêmeos aprontavam com Grissom e ele era incapaz de brigar com os pequenos ou repreendê-los de maneira enérgica ou severa como a esposa fazia. Era um coração mole total!

—O papai não vai brigar. Mas olha só o que vocês fizeram? - Ele apontou a sala aos pequenos. _Sujaram tudo aqui, quebraram os porta-retratos e o vaso que a mamãe gostava, e que foi a vovó quem deu pra ela.

Sua esposa tinha um carinho por aquele vaso Persa que só vendo. Não queria nem imaginar o desapontamento dela, quando soubesse que seu vaso querido tinha se reduzido à um monte de cacos.

—A gente pede pra vovó dá outro pra mamãe!

Grissom olhou com certo espanto para a esperteza do filho em responder aquilo. Noan tinha uma rapidez pra pensar e responder as coisas tão prontamente, que o pai ficava boquiaberto com isso. Às vezes, seu pequeno não parecia ter apenas 3 anos e sim mais, tamanha era sua esperteza e raciocínio rápido.

—A vovó não pode dar outro desses, Noan. Só tinha esse vaso na galeria dela, filho.

—Então isso vai ser mais uma coisa pra mamãe brigar com a gente quando ligar né?

—Certamente!

E se duvidar, Grissom tinha certeza que sua esposa brigaria até mesmo com ele, por mais uma vez não ter prestado atenção suficiente nos filhos e ter percebido que eles já tinham acordado e estavam pondo à sala em desordem.

—Venham! Vamos tomar banho pra tirar essa coisa branca de vocês. - Ele disse pegando os filhos no colo, cada um em um braço. _ Aliás, o que é isso?

—Talco! - Liah informou segurando no pescoço do pai.

—A gente quis passar talco no Hank e no Flik, que nem a mamãe passa na gente depois do banho. - Foi a vez de Noan explicar enquanto o pai dava passos cuidadosos pra desviar dos cacos de vidro.

Grissom apenas balançou a cabeça pela explicação do filho. Pela quantidade de talco que tinha nos filhos, nos cachorros e espalhado pelo chão e no sofá, era de se supor que o vidro de talco estivesse vazio.

—Vocês são um perigo juntos! - Resmungou Grissom seguindo em direção ao banheiro social com os filhos no colo e assoviando para Hank e Flik acompanharem-nos também.

Ao chegar no banheiro social, outra desastrosa surpresa. O banheiro estava uma porcaria!

O piso todo molhado. A banheira transbordava de espuma e água, já que a torneira da mesma estava ainda ligada. Os vidros de shampoo dos filhos, bem como, o de sabonete líquido dos mesmos se encontravam vazios e jogados no chão. Brinquedos de borracha dos gêmeos que eles usavam pra brincarem na banheira durante o banho, também estavam jogados pelo piso. O cesto do lixo tombado. Resumindo, ali estava outro caos, assim como, havia um na sala.

—Meu Deus! - Grissom exclamou deixando os filhos no chão e indo desligar a torneira da banheira.

Como podia duas criaturinhas e mais dois cachorros causarem tamanho caos?

Ao terminar de fechar a torneira, Grissom olhou para os filhos e os dois apenas sorriram com a mais pura inocência.

—A gente deu banho no Hank e no Flik aqui!

Oh!

Não era nem preciso seu filho ter informado aquilo pra Grissom saber disso. Só o estado do banheiro falava por si só, que tinha sido ali que seus filhos tinham começado a aprontar.

— O que eu faço com vocês dois, ou melhor, quatro!

Os dois pequenos riram e os cachorros latiram.

E pelos muitos minutos que se seguiram, Grissom permaneceu ali no banheiro. Ele primeiro deu banho nos cães e contou com a ajuda dos filhos pra realização de tal tarefa.

O banho de Hank fora relativamente rápido e tranquilo, pois o cão era acostumado à banho. Já com Flik, as coisas foram mais agitadas. O cãozinho deu certo trabalho no banho, pois a todo instante tentava fugir da água e isso causava riso nos filhos de Grissom, que se divertia por ver os gêmeos caindo na risada do cãozinho fujão. Após o banho nos cães, Grissom levou os dois para a área de serviço onde eles ficavam presos. Depois disso, o ex-supervisor retornou ao banheiro para dar banho nos filhos.

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