Capítulo 7
— Você o quê, Sarah?
A loira até chega a afastar o telefone da orelha um pouco, pois a pergunta feita quase que aos berro pela esposa lhe deixaria surda.
Tinha acabado de lhe contar sobre o almoço com Carla Jorge.
— Repete o que disse!
Mesmo com o telefone ainda longe da orelha, Sarah foi perfeitamente capaz de ouvir a voz alta de Juliette lhe vociferar tais palavras.
— Ju, por favor, assim você vai me deixar surda, amor. - diz em uma voz branda na tentativa de acalmar os ânimos da esposa e manter-se serena com a outra mulher.
— Pode ter certeza que surda não encabeça a minha lista de como eu quero te deixar agora, Carolline. Responde a minha pergunta.
— Amorzinho...
— Pára de me chamar de "amorzinho" quando estamos discutindo. Tu sabe que me irrita profundamente isso.
Sua esposa está uma fera e Sarah bem sabe disso.
— Ok... Carla teria que esperar quarenta minutos por uma mesa, Ju.
— Oxe! Pois que esperasse! Te garanto que ela não ia morrer de fome por isso.
A loira quase sucumbe ao riso por conta de tal comentário ácido da esposa, mas tinha certeza que se fizesse isso ia despertar ainda mais a fúria de Juliette.
— Eu não gosto dela. Tu sabe disso perfeitamente. Então não tinha nada que convidá-la pra almoçar contigo e NOSSOS filhos, passando a ideia para os outros de vocês serem uma família. Onde ELA é a sua esposa e a outra mãe do seus filhos.
— Juliette... Minha esposa é VOCÊ. A outra mãe dos meus filhos também é VOCÊ. E eu só quis ser gentil com uma conhecida.
— Pois que não fosse!
— Juliette, por Deus. - é quase que uma suplica.
— Por Deus, eu que digo, Sarah Carolline. Tu almoça com uma fulana que eu não gosto e quer que eu releve e aceite numa boa?
— Não aconteceu nada de mais, Ju. Foi só um almoço.
— E por que não atendeu minhas ligações? Por acaso não queria interromper o seu agradável almoço com sua... Conhecida querida?
— Sem ironias ou deboches, Juliette. Ou eu vou encerrar a ligação.
Se irrita Sarah. Está fazendo de tudo para não perder a calma, mas está se tornando difícil já com Juliette naquele estado.
— Ah, tu agora se acha no direito de ficar irritada, é?
Que arrependimento sem tamanho Sarah já sentia. Não achou que chegaria a tanto aquilo. Mas o que ela esperava também? É com Juliette Freire que ela é casada. Sua mulher é bastante ciumenta. Ainda mais em relação a Carla Jorge mais especificamente, devido ao passado que Sarah teve com a outra mulher.
— Olha eu não atendi porque simplesmente esqueci o celular no carro. Vi suas ligações ainda à pouco. - Mente, pois se disser a verdade só irá piorar a situação mais do que elas já está para o seu lado.
A loira escuta a esposa suspirar alto do outro lado da linha. É o primeiro indício de que a discussão para Juliette já está se encaminhando para um fim. Se é para o lado bom ou ruim, Sarah não tem ideia. Mas que é para o fim, é.
— Me desculpe, Ju, por não ter visto suas chamadas. Com certeza, eu te deixei preocupada. Não era a minha intenção. Juro! - pede com voz branda e suave para amolecer o coração da esposa.
— Deixou e muito preocupada. Eu já estava quase ligando para o Gil e dizendo que tu e os meninos tinham desaparecido.
Seus lábios se espicham em um sorriso pelo exagero dela em lugar para o amigo investigador delas. Mas depois a culpa lhe fez tirar o sorriso dos lábios. O desespero de Juliette era única e exclusivamente culpa sua.
— Eu sinto muito. Isso não vai tornar a acontecer. Prometo.
— Eu espero que não mesmo, Sarah.
— E me desculpa também pelo almoço com Carla. Eu repito que só queria ser gentil com ela.
— Isso aí, eu não vou desculpar agora.
— Ju...
— Nem perca tempo insistindo. Como diria Gil: eu ainda tô indignada contigo, visse?!
Sarah fica calada e resolve seguir o "conselho" da amada e não insistir naquilo por hora.
— E os meninos?
— Dormindo!
— E eles com a tal de Carla, como foi?
— Noan não se incomodou com a presença dela, mas também não caiu de amores.
— Era só o que me faltava o meu filho caindo de amores por aquelazinha.
— Foi só um modo de falar, Ju.
— Eu sei bem, OK?... E Liah?
Os lábios de Sarah se esticam em um sorriso ao recordar do ciúme da filha na presença de Carla.
— Ela agiu feito você agiria... Cheia de ciúmes de mim!
— Agiu é?
Sarah pode sentir no tom de voz da esposa a satisfação por saber disso.
— Sim!
A loira revela à esposa tudo o que aconteceu durante o almoço, pois não quer correr o risco de omitir algo e depois Liah lhe derrubar contando.
— Quer dizer, que ela não deixou a Carla se despedir de você?
— Não!
— Muito bem. Vou mandar a Liah agora ficar colada em tu, professora Andrade. Se tu ousar aprontar, ela me conta.
— Não tenha a menor dúvida de que ela fará isso mesmo!
Elas sorriem.
*****
— Mamãe, a Liah sumiu!
A mulher se vira no mesmo instante em que aquelas palavras de Noan entram em seus ouvidos.
— Como assim sua irmã sumiu Noan?
— A gente tava brincando de esconde-esconde e ela foi se esconder, mas eu não encontro a Liah mais. Ela sumiu.
O desespero já bate na loira.
— Calma! Ela não pode ter desaparecido de dentro de casa, filho. Vamos procurar sua irmã.
Cinco minutos e a calma que Sarah havia pedido ao filho, já é inexistente na loira.
— Liah onde você tá filha? - indaga à procura da menina.
Seu coração já está batendo tão rápido que Sarah já consegue ouvir as batidas fortes.
— Por que ela não aparece, mamãe?
— Ela deve está em um esconderijo secreto. - conta em uma falsa calma.
De repente os latidos de Cuscuz misturados aos de Paçoca chamam a atenção de Sarah. A mulher e Noan vão ver qual é o problema com os cães.
Ao chegarem lá vêem ambos os cachorros arranhando a porta de um velho armário de madeira que fica ao lado da máquina de lavar e escutam o choro de Liah vindo do móvel.
Imediatamente Sarah vai na direção do móvel velho para tirar a filha de lá. Em segundos, ela já está com sua pequena nos braços. Liah chora bastante assustada. Havia ficado trancada ali, pois o móvel velho ao ter sua porta batida trava e só abre pelo lado de fora. E a garotinha não sabia disso.
— Filha, graça a Deus!... Não devia ter se metido aí dentro, Liah. Esse armário é velho.
— Eu queria... Me esconder... Mas a porta... Não...
Ela não consegue prosseguir em sua fala por conta do choro.
— Tudo bem. Passou, amor. Passou. - embala sua menininha assustada.
Graças a Paçoca e Cuscuz, conseguiu descobrir o esconderijo da filha. Não queria nem imaginar o que aconteceria com Liah se os dois cães não avisassem que ela estava ali.
— Vamos pra sala, Noan. Vem! - segura na mão do filho e segue com Liah em seu colo, agarrada ao seu pescoço e ainda chorando.
Acomodando-se no sofá, ela tenta acalmar a filha. Vê Noan também tentar fazer o mesmo ao segurar na mão da irmã enquanto diz: "Já passou, Liah."
— Como você passou pra lavanderia sem a mamãe ver, filha?
A menina conta que Sarah não estava na cozinha quando ela foi se esconder no armário da lavanderia.
O único momento em que Sarah não estava na cozinha foi na hora que foi atender a ligação de Thaís. Certamente, foi nessa hora que Liah passou.
— Não se esconda mais lá. Os dois não é pra nenhum se esconder mais naquele armário velho. Me entenderam?
Os dois assentem.
Amanhã mesmo se encarregará de tirar aquilo da lavanderia e colocar escondido em um canto qualquer no quintal, para evitar mais novos sustos.
— Fiquem aqui na sala vendo TV, que a mamãe vai só terminar de preparar o lanche de vocês. Tá bom? Não saíam daqui.
Mais uma vez eles assentem. Sarah liga a TV em um canal onde passa desenho animado e vai para à cozinha.
Alguns poucos minutos e já retorna à sala segurando uma bandeja com dois copos de suco e dois pães para os filhos.
Eles comem tudo direitinho como não deixa de ser.
Depois do pequeno susto, a loira nota que Liah não quis mais se desgrudar dela. A menina havia ficado assustada mesmo. E Sarah nem se fale!
Aqueles dois são teste para cardíaco!
Cada susto que eles a fazem passar, que se tivesse problema de coração já estaria morta há tempos!
*****
Sarah observa Noan ficar de repente todo esfuziante e saltitante no sofá enquanto fala com Juliette. No instante seguinte, descobre a razão daquilo. A outra mãe havia comprado a capa que ele tinha lhe pedido para trazer.
— Agora eu vou voar que nem o Superman.
A loira arregala os olhos. Tem que tirar isso da cabeça dele e lhe explicar aquilo, ou do contrário, seu pequeno vai colocar aquela capa e querer se jogar de cima de algum móvel da casa achando que conseguirá voar e evitar sua queda no chão.
— Não é bem assim filho. - diz à Noan quando o menino não mais fala com Juliette e sim, Liah, que por sinal fica tão feliz quanto seu irmão, ao saber que seu pedido de uma boneca também havia sido atendido pela mãe. A garotinha até se esquece momentaneamente do seu medo por conta do susto de mais cedo.
— Eu não vou poder voar, mamãe Sar?
— Não, filho. Só quem voa são os pássaros.
— Então eu quero ser um pássaro. Como eu faço, mamãe Sar?
Ela ri da inocência de seu menino.
— Não têm como filho. E se tivesse... Você como um pássaro ia ter que viver na natureza e não mais comigo, a mamãe Ju e a Liah. Você ia querer viver longe da gente?
— Ah, não, mamãe. Isso não!
— Mamãe Sar, a mamãe Ju. - Liah lhe estende o telefone.
— Oi, amorzinho!
— Contei pra eles que consegui comprar o que me pediram. Eles ficaram felizes.
— Não faz ideia do quão sorridente eles estão aqui.
— Acho que posso imaginar. E sabe o que mais? Comprei um presente até pra tu, mesmo não merecendo nada por ter almoçado com aquela mulher que eu não gosto.
— Ainda não me desculpou por isso?
— Devagar estou desculpando, pois até presente já comprei.
Sarah sorri pela lembrança de Juliette em lhe comprar também um presente apesar de ainda estar aborrecida com ela.
— Comprou é?
— Comprei. Na verdade, o presente é pra tu, mas quem usa sou eu.
A loira nem precisa de qualquer outra "pista" para saber do que possivelmente se trata o presente. Com certeza, deve ser uma lingerie. Sua esposa sabe bem que ela é fascinada por vê-la só nesse tipo de trajes.
— Que interessante! Já posso até imaginar o que seja então.
Do outro lado da linha Juliette sorri e Sarah gosta de ouvir o som de sua risada.
— Só pra tu saber, a cor da que eu comprei é vermelha. Pra substituir a única que eu tinha dessa cor e tu fez o favor de rasgar a calcinha ao tirar do meu corpo, quando fizemos amor em comemoração ao nosso aniversário de casamento, mês passado.
A loira sorri marotamente. Tinha sido uma noite memorável. Elas fizeram amor loucamente em um quarto de um renomado hotel, o qual Sarah havia feito reservas só para a comemoração dessa data especial.
Sarah olha para os filhos sentados ali ao seu lado. É uma pena ter aqueles dois pares de olhos castanhos em cima de si, pois do contrário, ela responderia aquela provocação da esposa em lhe lembrar daquela noite espetacularmente incrível. Noite esta em que perdeu o juízo e elas fizeram amor de maneira quente e selvagem. Para depois fazerem com toda calma do mundo.
— Mal posso esperar pra ver esse presente. - se limita a apenas dizer.
— Eu também mal posso esperar pra que veja! Tu vai gostar.
— Não duvido disso.
— Já tô com tanta saudade! - Juliette murmura após ficarem um breve instante em silêncio. A advogada já não está mais suportando ficar longe de sua família. Quatro dias e ela tem a impressão de que na verdade, já haviam se passado quatro meses. A saudade é grande demais. - Não vejo a hora de volta pra junto de vocês, Sar.
— Eu também tô com saudades, muita na verdade. E também não vejo a hora de você estar aqui com a gente de novo.
*****
É madrugada quando Sarah acorda sobressaltada por conta de um grito vindo do quarto dos filhos. Trôpega, ela corre para o cômodo situado ao lado do seu e ao entrar no quarto encontra Liah sentada na cama e chorando.
— Ei, o que foi, minha pitica?
Se senta na cama da menina e Liah então se joga em seus braços, agarra seu pescoço e chora mais ainda com o rostinho escondido na curvatura do pescoço da mãe.
Sarah observa Noan já acordado e sentado na cama. O garotinho tinha despertado assustado com o grito da irmã.
— Por que ela tá chorando?
— Não sei, filho. Acho que foi um pesadelo. Foi isso, filha?
A garotinha assente, contando entre soluços que sonhou que tinha ficado presa no armário de novo, só que dessa vez ninguém a encontrava.
— Isso não vai acontecer. Foi só um sonho ruim, meu amor. - beija a cabeça dela e tenta tranquilizar a menina. - Quer vir dormir com a mamãe?
— Quero! - a garotinha responde ainda chorosa.
— Você também quer vir dormir com a mamãe, Noan? - O garotinho assente na mesma hora. - Então vamos lá!
De volta ao seu quarto, Sarah ajeita os filhos de modo que a mulher fica no meio e cada uma das crianças ficam deitadas em cada braço dela, e agarradas a mãe.
— Só falta a mamãe Ju aqui.
Falta mesmo. Aquela casa não é a mesma sem sua esposa. Seus filhos não são os mesmo sem Juliette. E Sarah também não é a mesma sem a esposa. A advogada é o coração daquela casa.
— Ela já volta depois de amanhã, filho. - beija os cabelos finos de seu menino.
Domingo sua esposa já estará ali. E Sarah só torce para que esses poucos dias voem.
— Tô com saudade da mamãe Ju.
Escuta Liah dizer baixo e logo em seguida, Noan concorda com a irmã.
— A gente só vai precisar esperar uns dias pra ver a mamãe Ju, tá bom?
Eles concordam com a mãe.
— Boa noite, meus amores. - beija a cabeça de cada um dos filhos. E em questão de poucos minutos, o trio já dorme serenamente.
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