08
Os alunos começam a dispersar, indo para a entrada do colégio, ou para os corredores, todos se abraçando e alguns até chorando, relutantes em acreditar que iriam embora. As coisas nunca mais seriam como antes. Essa realidade à qual estávamos acostumados, só quem já experimentou, sabe exatamente como é. Todo esse encanto juvenil... Vai acabar. Agora a vida irá cobrar seu preço. A verdade dura, de que nada vem de graça, e que tudo se conquista, com esforço e trabalho. A maioria dos colegas que hoje abraçam e beijam a face, daqui a um tempo nem lembrarão da existência um do outro, por mais próximos que fossem. Cada um envolto no próprio manto de sobrevivência. Todos seguirão seus caminhos. As amizades mais fortes e verdadeiras, aquelas realmente construídas, vão continuar além dos portões. Assim como a minha com o Vini. Eu só preciso fazê-lo me perdoar primeiro. Eu preciso dele, porque ele é uma escolha certa no meu caminho, não importa qual seja o meu destino.
O vejo logo após o discurso do meu pai e de outros formandos. Ele está na entrada do colégio, conversando com dois colegas de turma. Um deles, o garoto, vai embora depois de um toque de mãos e um tapinha no ombro. Suponho que o gesto tem a intenção de não prolongar a despedida e tornar o momento estranho. Porém, tenho certeza, mesmo pelo olhar breve que trocaram, a amizade deles não é tão banal quanto a falta de afeto parece mostrar. Me sinto feliz em saber que Vini tinha feito bons amigos além de mim no colégio.
Sobra uma garota. Lembro dela. Acho que se chamava Sophia... Ela é toda sorrisos com Vini. A conversa parece bem animada, e eu só fico imaginando quanto tempo mais irá demorar até ela ir embora pra que eu possa me aproximar e conversar a sós com o MEU amigo. Depois de uns dez minutos, que me pareceram mais como uma hora, ela se inclina na direção do ouvido de Vini, e sussurra algo. Faz isso com toda a delicadeza e com tamanha desenvoltura, que eu sinto uma pontada de inveja por ela ser tão confiante e segura de sí. Se fosse eu, teria simplesmente esbarrado no coitado, ou dado um belo pisão no seu pé. Talvez até batesse com a cabeça na dele, tal desastrada eu era... O que quer que ela tenha dito, surtiu um efeito positivo. Vini sorri pra ela, o mesmo sorriso torto que eu tanto amo nele. E eu? Só fico aqui, como uma menina emburrada que presencia uma criança nova chegando em sua rua, e a vê levando seu amigo, deixando-a de lado como um brinquedo velho. Espera aí... Então foi exatamente assim que o Vini se sentiu quando eu o abandonei pra ficar com o Arthur? Só agora me dou conta do quão magoado ele está. Sei, porque é exatamente assim que estou me sentindo. Abandonada. E esse sentimento não é nada legal.
Então levanto minha cabeça novamente e não encontro mais os dois lá. Onde será que se meteram? Será que...? Não. O Vini não iria ficar com aquela garota oferecida, iria? Só de pensar que ele poderia estar com ela, agora, em qualquer lugar... Eu me sinto furiosa! Ele simplesmente NÃO
pode. "Mas porquê ele não pode, Solária?" Minha parte racional indagou. "Ora, porque ele é meu amigo, e certamente aquela garota vai fazê-lo sofrer." Minha parte emocional rebateu. "Mas ele é seu amigo, não seu namorado. Pode ficar com quem quiser. Afinal, não foi o que você fez? Ficou com o Arthur, ignorando totalmente os conselhos do Vini." Um ponto para o eu racional! "Certo, mas aquilo foi diferente..." Arrisquei essa desculpa. "Diferente só porque foi com você. Que bela egoísta você é... Agindo exatamente como prometeu que não agiria. Quer perdê-lo também? Assim como o Théo? Você prometeu, Solária! Amá-lo como amigo, sempre, sem esse seu amor egoísta e melodramático metido no meio." Dez pontos para o eu racional! Fim de jogo.
Enxugo uma lágrima antes que ela escorra e me levanto do chão, onde nem havia me dado conta de que estava sentada.
Parado à minha frente está Vini. Ele me fita por alguns instantes com uma expressão indecifrável no rosto, antes de dizer:
- Não encontrei você lá em cima, na sala de música. Suspeitei que estivesse no refeitório, mas também não a encontrei por lá. Daí vim dar uma olhada aqui fora, e te vejo aí, jogada no chão com cara de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança... O que houve? Está triste pela despedida ao colégio?
Forço um sorriso no rosto. Ele está falando comigo. Já é um começo!
- Não... Quer dizer, estou me sentido nostálgica em relação a isso. Vou sentir muita falta dos nossos dias aqui... Mas não é por esse motivo.
- E então...?
Suspiro e então despejo tudo de uma vez.
- Eu estava me perguntando como pude ser tão idiota por ter magoado você. Não existe justificativa para a maneira como te tratei. Entendo que não queira falar comigo, mas eu não posso suportar que você se afaste de mim, Vini. Poxa, você é meu melhor amigo! Não foi fácil pra mim também nesses últimos dias. Eu só queria que nós tivéssemos passado essa última semana aqui juntos. Como sempre estivemos. Mas aí eu vi você com aquela garota, a Sophia, e fiquei imaginando que talvez você não me quisesse mais por perto...
- Pirou? Você está certa em acreditar que eu estava magoado. Fiquei realmente zangado por não ter passado essas últimas semanas com você, e principalmente porque o motivo foi o Arthur, que surgiu do nada pra roubar a minha Sol de mim. Não queria ouvir suas desculpas. Mas percebi que estava exagerando, e tudo o que eu quis, foi dizer pra você que deixasse essa bobagem pra lá. Mas agora te encontro aqui, e você me diz que acreditou que uma garota que eu mal conheço poderia substituir o seu lugar? Ah, Valentine... Sua boba. Eu não trocaria você por ninguém!
Sinto todo o medo e a tristeza irem embora com aquelas palavras. Eu não poderia estar mais feliz! Meu amigo voltou para mim. Na verdade, acho que nunca foi embora.
Dou-lhe o maior dos abraços, tão apertado, que ele precisa pedir que eu afrouxe um pouco o aperto de urso.
- Venha, Sol da minha vida. Vamos pra casa.
- Mas, e a Sophia?
- O que tem ela?
- Ela não estava com você? Quer dizer, pelo que vi, ela parecia estar bem interessada, com todos aqueles sussurros ao pé do ouvido, e tal.
Capto com minha visão periférica Vini me observando com os olhos semicerrados. Mas não olho pra ele enquanto digo isso, e espero até que responda.
- Ela foi pra casa de uma amiga, ou algo parecido. Estava me convidando para ir junto. Mas eu disse que precisava fazer uma coisa importante e que ficava pra próxima. Então vim procurar por você.
- Ah.
- Você ficou espionando a gente?
- Eu? Espionando? Faça-me o favor, Vinícius. Estava esperando ela terminar de falar com você, pra que eu pudesse chamá-lo. Mas você pareceu tão despreocupado e alegrinho com ela, que pensei... Bom, você já sabe.
- Certo. Já sei. E agora você também já sabe que não tinha motivos pra pensar o que pensou. Vamos simplesmente deixar pra lá.
-Tá.
-Tá?
-Tá!
-Então tá.
Dancinha da vitória pra este momento. E aplausos no mundo inteiro, porque a melhor dupla voltou! E eu não estou falando do Batman e Robin, nem do Sherlock e Watson, nem da Lilo e Stitch, nem do... Ah, vocês entenderam!
Pessoas lindas, desculpa a demora pra postar novos cap's! Tenho andado um pouco ocupada... Mas aqui estou, e peço, que se estiverem gostando deixem uma estrelinha em cada cap, por favor! Isso me ajuda bastante na divulgacão do livro. Sintam-se à vontade para comentá-los também. Dúvidas, críticas, sugestões, ou simplesmente um incentivo, são muito bem-vindos. ❤
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