07
- Certo, Solária. Já pode parar de se desculpar.
- Mas eu sei que você não me perdoou.
- O que eu tenho que perdoar? O fato de que a minha melhor amiga me abandonou na noite que era pra ser a nossa festa de despedida, algo que nós queriamos compartilhar em nome do tempo que passamos juntos no ensino médio? Ou será que é o fato de que foi por causa de um garoto que nunca, nunca falou com a gente durante esses três anos, mas que de repente, na última semana, cismou em ser nosso amiguinho? Não. Não vejo motivo algum pra eu não te perdoar de imediato.
Dito isto, Vini me dá as costas e segue rumo a sala de aula.
Tento falar com ele, sem sucesso, durante uma semana. Estava começando a me desesperar. E se o Vini não quisesse mais ser meu amigo? Certamente eu merecia toda a frustração e a raiva que ele despejara em mim. Me pondo em seu lugar, eu teria ficado da mesma forma. Não sei onde estava com a cabeça... Bom, pra ser honesta, eu sabia exatamente onde estava com a cabeça naquela noite. No Arthur. Fiquei tão encantada com a possibilidade de ele estar gostando de mim, que me esqueci das prioridades. O Vini era, sem dúvida, prioridade maior que o Arthur na minha vida. Ele esteve comigo em mais momentos do que eu posso contar. Foi ele que me tirou do estado de luto infindável em que eu me encontrava após a morte do Théo. Foi ele que me mostrou que pra honrar a memória do meu antigo melhor amigo, eu não precisava me isolar do mundo e me privar de construir novas amizades. Foi ele que me fez amar ainda mais a música e tudo que ela representa pra nós. Foi ele que me fez rir, e também chorar, de pura alegria, por possuir qualidades únicas e uma personalidade incomum. Era ele o meu ombro, o meu colo, e o meu abraço preferido pra encontrar conforto quando eu não conseguia enxergar alternativas, pois era só dividir os meus medos com o Vini, que tudo ficava menos complicado. Eu não conseguia me ver tendo uma vida longe dele. Depois dos meus pais, Petrus Vinícius era a pessoa que eu amava mais do que tudo neste mundo. "Então por favor, por favor, Deus! Que ele me perdoe pelas minhas mancadas." Essa foi, de longe, a nossa pior briga. E tudo que eu queria agora, era que nós nos entendessemos outra vez.
***
Enfim, o meu último dia de aula no ensino médio havia chegado. Estava na hora de me despedir da Escola de Ciências Sociais e Artes para Jovens. De dizer adeus aos meus colegas e professores, aos funcionários queridos, e a cada cantinho onde eu e o Vini tivemos momentos memoráveis. Já estou com saudades da sala de música! Mas além do clima de despedida, e da constante inquietação e desespero por causa da minha briga com o Vini, outra coisa estava me atormentando nessa última semana... O Arthur não dera sinal de vida depois da nossa noite mágica no baile de formatura. Após ter me deixado na porta de casa com um beijo incrivelmente arrebatador, ele sumiu, literalmente. Não o achava no colégio, não o achava nas redes sociais, e nenhuma das minhas mensagens foram respondidas. Não queria fazer o tipo desesperada e obsessiva, então só mandei coisas casuais, como: "Boa noite, Arthur! Como vai?" ou "Caro Jack, estava ouvindo aquela música legal que tocou no baile, e lembrei de você. Mas não te vi no colégio... Tudo bem?" Nada de respostas, como já disse. Mas decidi não me preocupar tanto com isso, por hora. Foco nas prioridades, Solária! Não estraga tudo de novo.
Assim que a aula termina, todos os alunos do terceiro ano se dirigem para o pátio. Cartazes e banner's estão espalhados por todos os lados, com mensagens e fotos das turmas. Momentos vividos ao longo desses três anos. Me emociono ao ver que a maioria dos alunos tinha muito carinho pelo meu pai. Ele é considerado um dos melhores professores, um dos mais legais e descolados. Sinto um orgulho imenso por ele. Sei o quanto se importa com seus alunos, e o quanto seu trabalho é prazeroso pra ele. Um dos alunos termina seu discurso e então convida-o para dizer algumas palavras.
- Bom, minha gente, não tenho muito a dizer. Só que eu estou profundamente feliz por terem encerrado esta etapa da vida de vocês, e que eu espero sinceramente, que não pare por aqui. Vocês tem um futuro brilhante nas mãos. Vão atrás dos seus objetivos, e não permitam que ninguém diga que não são capazes, porque vocês são. Nosso país será movido por vocês nas próximas décadas, e eu me sinto realizado por ter participado ativamente na formação do caráter crítico e cidadão de vocês. Ensinei inúmeros jovens que vão se tornar profissionais de peso, e o melhor de tudo, pessoas incríveis! Isso é mais do que um simples professor de história pode querer. E por fim, mas não menos importante, estou mais que orgulhoso da minha querida filha Solária. Você cresceu e se tornou uma garota maravilhosa, meu amor. E mesmo depois de algumas lições bem duras que a vida lhe ensinou, você permaneceu forte e focada no que realmente importava. Em se tornar o que você precisava se tornar... Uma vencedora! Eu te amo. Obrigada a todos. Vou sentir saudades.
Não consegui me segurar mais, e me desmanchei em lágrimas. Não me importava que os outros vissem, nem que fosse um grande mico chorar no pátio, diga-se de passagem, lotado da minha escola. O amor que eu sentia pelo meu pai era maior que qualquer constrangimento bobo que eu viesse passar. Ouvir aquelas coisas dele, era como ganhar uma medalha de ouro nas olimpíadas, ou receber o prêmio Nobel. Não havia reconhecimento maior.
Espero ele cumprimentar alguns alunos, e então corro para abraçá-lo. Com todo o carinho que eu posso colocar em um gesto, tento retribuir o amor que ele sente por mim. Isso é tudo que eu precisava nesses últimos dias. Sinto o peso de todos os meus medos e anseios se esvaírem e deixarem meus ombros. Dou um suspiro e respiro aliviada. Posso sentir. Eu nunca estarei sozinha, pois tenho o melhor de todos os homens ao meu lado. Meu pai.
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