Capítulo I - Gregório
13 de junho de 2025. Santa Madalena do Norte, PB.
Gregório tinha coisas melhores para fazer em uma sexta-feira 13. Como, por exemplo, apostar no bar local daquele fim de mundo, tomar uma cerveja gelada e flertar com qualquer um que achasse interessante até o dinheiro ou a bebida acabar — o que viesse primeiro. Entretanto, às onze e meia da noite ele estava sujando as botas na lama do cemitério, com uma lanterna apagada em mãos, ouvindo a risada distante de um grupo de adolescentes embriagados e revirando os olhos a cada reclamação de seu parceiro de crime.
A maldita Central sequer pagava pela hora-extra. Ou se responsabilizava pela invasão caso os dois fossem pegos — não que Gregório achasse possível, considerando que ninguém ligava muito para o antigo cemitério na beira do penhasco, ninguém sequer era mais enterrado ali.
Era só um pedaço de terra, cheio de esqueletos, poeira, ervas daninhas e mofo, com alguns sobrenomes importantes talhados em pedra e que vez por outra levantava discussão na prefeitura por ser à beira-mar.
Os olhos do mercado não deixavam nem os mortos em paz.
— Quais as chances daquele grupo lembrar da gente pela manhã?
A pergunta sussurrada de Hugo foi feita enquanto ele olhava para um bando de adolescentes rindo com uma lamparina no meio deles, várias garrafas vazias no chão de alguma bebida barata de cheiro doce e gosto enjoado.
— Com aquela porcaria que eles tão tomando? — contrapôs Gregório. — Eles não lembram nem do próprio nome.
Hugo suspirou e conferiu o pequeno mapa projetado por seu relógio. Dois toques na lateral do apetrecho e a luz azulada apagou. Gregório revirou os olhos. Amostrado, pensou enquanto colocava a mão sobre a arma em sua cintura, mas permaneceu em silêncio. O rapaz era, afinal, filho de gente importante no comando. Um Palomo. Herdeiro de uma linhagem de cretinos que chegaram no continente junto dos portugueses e decidiram que só eles sabiam caçar criaturas da noite. Gregório era só o azarado no dever de babá em uma missão ridiculamente simples. Entrar no cemitério, fazer um reconhecimento da área, ligar pra Central, deixar aquela cidade esquecida por Deus pra trás até algum outro azarado ser incumbido de resolver o problema, se é que existia um.
As galhas das árvores se mexeram com o vento e o homem mais velho olhou por cima do ombro. Simples ou não, nenhuma missão era completamente segura. Talvez, o Palomo fosse verde demais para entender que às vezes até uma luzinha fraca daquelas atraía atenção indesejada, mas Gregório tinha pesadelos de sobra para se convencer do contrário.
— Ali — indicou Hugo, apontando para uma entrada uns cinco túmulos à frente.
Os dois seguiram com passos abafados pela lama. Hugo à frente, murmurando os nomes nas lápides ou nas entradas de mausoléus construídos séculos atrás. Dobraram à direita, entrando na parte mais antiga do cemitério, onde as famílias realmente abastadas construíram monumentos para seus mortos. Gregório conferiu a lua pela terceira vez. A lua cheia havia sido dois dias atrás. Coberta pelas nuvens de chuvas que já duravam duas semanas e pelo visto duraria mais uma noite. Suspirou. Se acabassem aquele reconhecimento cedo o suficiente talvez ainda houvesse tempo para o bar e as cervejas.
Hugo acendeu a lanterna e apontou para um jazigo coberto com azulejos azuis, com uma elaborada cruz de ferro no topo. Algumas das pedras tinham se soltado anos atrás e musgo ocupava seu espaço no mosaico, os degraus, entretanto, estavam intactos, assim como a porta estreita de ferro, também repleta de filigranas e curvas que pertenciam a outra era.
— É, acho que é aqui.
— Acha? — Gregório levantou uma sobrancelha. Eles não podiam concluir o trabalho com um achismo. — Bem, não tem nome, pelo visto o único jeito de descobrir vai ser entrando.
— Arrombar uma cripta em plena sexta-feira treze, que maravilhoso — Hugo comentou, o sarcasmo em cada vogal.
— Bem, pirralho, se tiver uma ideia melhor, sou todo ouvidos — Gregório pegou um par de gazuas da bolsa e se ajoelhou em frente a fechadura. — Segure isso pra mim e me dê um pouco de luz.
Alguns minutos depois, o clique da fechadura indicou que o lugar estava aberto. Gregório empurrou a porta de ferro, guardou as gazuas de volta na bolsa e pegou a lanterna da mão de Hugo.
— Eu vou na frente — resmungou descendo as escadas. — Se quiser você pode ficar aqui.
— Ei! Caçadores são mandados em dupla por motivos de segurança.
— Foi isso que te disseram? — Gregório riu. — Essa é nova.
Por cima do ombro, o caçador mais velho viu o rapaz estreitar os olhos e massagear a têmpora. Um instante depois, Hugo olhou para trás, para os metros e metros de túmulos, acendeu sua própria lanterna e o seguiu cripta adentro.
Prosseguiram encurvados durante a primeira meia-dúzia de degraus. O teto baixo e as paredes estreitas faziam com que Gregório se sentisse um experimento outra vez, um animal enjaulado à mercê do pai adotivo. Ele inalou o ar da cripta devagar e empurrou o fantasma de Humberto Ferraz para longe. Tinha sorte do garoto ao seu lado estar tão amedrontado que não notou a pausa em seus passos.
Os dois alcançaram uma antecâmara após outra meia-dúzia de degraus. Assim que seus pés tocaram o chão, spots de luz se acenderam junto às paredes, cada um apontando para uma coluna de túmulos com placas de metal.
— Hebert Montalverne — Hugo leu uma das placas e tirou uma foto com o celular. — Droga, sem sinal. Mas pelo menos é a confirmação que a Central precisava.
— Nem tão rápido, Palomo. — Gregório o segurou pela manga da camisa quando Hugo colocou um pé na escada. — Você não tá sentindo?
— Sentindo o quê?
Gregório abriu a boca para responder, mas não sabia pôr em palavras. Era um arrepio na base da espinha, um frio ameaçando esmagar seus ossos. Gélido demais para ser natural. Ele olhou ao redor, não havia nada de estranho com o lugar afora a iluminação e a limpeza. Mas o caçador sentia como se uma força o puxasse para a segunda câmara da cripta. A sensação pulsava debaixo de sua pele. Ele tirou uma arma do coldre e arrastou os pés em direção ao pórtico no fundo da antecâmara.
— Tem algo estranho aqui.
— É um mausoléu, Greg. É óbvio que tem algo estranho.
— Um mausoléu com pelo menos dois séculos de idade, com o exterior todo fodido, mas tem iluminação de ponta dentro. O Necromante tá guardando algo aqui.
— Alguma coisa que a Central vai mandar outra pessoa recuperar — Hugo deu de ombros —, eu tô dando o fora.
— Pra um Palomo, tu é um puta dum covarde.
— Melhor um covarde vivo que um corajoso morto.
Gregório bufou e avançou pelo pórtico, ignorando os protestos do companheiro. Pelo amor de Deus, como que aquele garoto tinha convencido alguém que ele servia pra ser um caçador?
O contraste entre a primeira câmara, com chão revestido em mármore escuro e paredes imaculadas, e a estrutura calcária naquela parte da cripta era evidente. Dois anjos esculpidos nas quinas do teto os encaravam com seus olhos de pedra, em suas mãos uma faixa carregava o nome Montalverne, algumas manchas pálidas de tinta indicavam que eles eram coloridos antes. Ao fundo, uma cortina espessa de um azul quase negro bloqueava a segunda câmara. Hugo ergueu a câmera do celular e tirou outra foto. Gregório arqueou uma sobrancelha na direção do caçador mais novo.
— Já que você vai me arrastar para esse lugar de todo jeito, é melhor coletar mais informação.
— Você tá me seguindo porque quer, pirralho — Gregório grunhiu e levou o indicador aos lábios, pedindo silêncio.
Ele empurrou a cortina grossa com o cano da arma, apontando a lanterna para o breu à frente. Um aroma doce e cítrico impregnava o ar, mas não era como a bebida barata dos adolescentes no cemitério, ou algum perfume forte no armário de alguma mulher rica. Era natural, como se alguma flor tivesse ousado desabrochar dentro daquele mausoléu. Gregório tropeçou em um tapete e Hugo bateu em suas costas.
Mesmo com a pouca luz, o homem mais velho podia discernir as marcas de preocupação no rosto do outro.
— A gente não devia tá aqui.
— Fique à vontade pra ir embora.
— Você sabe que a gente provavelmente quebrou algum selo mágico na hora que entrou nesse lugar, né?
O outro homem encarou Hugo com uma sobrancelha levantada e revirou os olhos.
— Então é melhor a gente descobrir logo o que tá escondido aqui. O Necromante nunca passa muito tempo na cidade, mas ele sempre vem aqui pelo menos duas ou três vezes no ano.
— Eu voto por deixar os esqueletos da família do cara em paz, vai que ele achou um jeito de levantá-los do caixão? — Hugo estremeceu. — Sério, de quem foi essa ideia de girico de invadir um cemitério, de noite, especificamente o túmulo da família de um cara que consegue erguer gente morta?
— Do seu pai e do resto dos chefes. Qualquer reclamação, joga lá no relatório — o outro retrucou, jogando luz sobre as paredes ovais.
— A gente nunca faz um relatório, Gregório.
— Exatamente. — Ele suspirou. — Tem um interruptor ali, se você quiser enxergar.
Gregório protegeu os olhos por um instante quando o lustre pomposo e antigo no centro da cripta acendeu e guardou a lanterna no cinto. Agora, na claridade, ele podia perceber que a sala onde estavam era oval, com as paredes cobertas por cortinas grossas e escuras como a primeira pela qual tinham passado. Por um segundo, perguntou-se se o lugar não escondia outras câmaras, uma miríade de corredores subterrâneos no cemitério, talvez algum tesouro que o Necromante queria guardar. Não sabia o suficiente sobre o homem além do título pelo qual era referido nas ordens da Central, ou para criar teorias do que ele guardaria em um cemitério em uma cidade do interior.
Porém, todas as teorias que ele podia criar morreram assim que viu a criatura deitada no centro da câmara.
Vestida de noiva, a mulher segurava um buquê de flores secas em suas mãos. A renda das mangas longas tinha amarelado com o tempo e estava rasgada em alguns pontos, mas a pele continuava intacta. O cabelo castanho fora disposto cuidadosamente ao redor de sua cabeça, apoiada em uma almofada de veludo. Ele não podia ver seu rosto completamente por causa do véu que o cobria, mas antes mesmo de se aproximar, sabia que não veria um único sinal de decomposição.
— Isabel Montalverne — Hugo murmurou se aproximando. O rapaz se agachou aos pés da mesa de mármore onde estava a mulher e esfregou uma inscrição. — Não tem a data da morte, só... pera, isso não faz sentido!
— O quê?
— Ela nasceu cento e cinquenta anos atrás.
— Vampira ou algum experimento do Necromante — Gregório murmurou e, contradizendo seus instintos, se aproximou da mulher.
Hugo apareceu à sua frente um instante depois, com uma de suas adagas em punho, apontada para o coração da mulher. Gregório sequer hesitou em segurar o braço do rapaz.
— Você enlouqueceu?
— A gente devia matar essa coisa antes que ela acorde! — Os dedos de Gregório apertaram mais o braço do outro. Era por isso que ele detestava o pensamento da Central. Caçadores como aquele garoto enxergavam as coisas em preto e branco, eram ensinados que tudo o que desafiava a "ordem natural" era maligno por natureza.
Só mais alguns anos, pensou consigo. Só mais alguns anos e ele estaria livre da Central para fazer o que bem entendesse.
— Não. — Sua voz soou como um rosnado. — Não é assim que funciona.
Hugo tentou se soltar, mas Gregório manteve sua mão exatamente onde estava, com a ponta da adaga há centímetros da pele da mulher.
— Ela provavelmente é uma criação daquele cara, nada de bom pode vir disso.
— Comece a pensar pela própria cabeça, pirralho — Gregório resmungou, puxando a adaga da mão dele. Hugo resistiu por um segundo, mas soltou a arma com um suspiro resignado. — Merda!
O caçador mais velho olhou para a própria mão, onde o sangue começava a aflorar de um corte fino na palma, a adaga caiu no chão com um barulho seco que ecoou na cripta e Gregório ouviu o mover do tecido antes de erguer a cabeça. Grandes olhos castanhos o encararam através do véu e duas mãos gélidas tocaram a sua, Isabel o encarava com curiosidade. Não fosse o local onde estavam e o fino círculo vermelho ao redor de suas irises, ele poderia se convencer que ela era humana. Os dedos pálidos percorreram a pele marrom de Gregório até seu pulso. O caçador quis puxar sua mão, mas seu corpo não o obedecia, sua vontade o tinha abandonado. Estava preso sem que houvesse uma única amarra ao seu redor.
— Posso? — Isabel perguntou com uma voz baixa, tímida, traçando a lateral da ferida.
Vampira, a mente dele supriu.
— Só se você quiser morrer — Hugo falou, segurando a outra adaga que tinha no pescoço dela. Gregório admirou a voz quase serena do rapaz, apesar da lâmina tremer. A vampira, entretanto, não parecia abalada pelo metal ou pela ameaça.
— Eu não quero matar ninguém — ela falou, sem tirar os olhos dos de Gregório. — E você não vai me matar.
Houve um instante de silêncio absoluto, no qual o aroma doce do lugar pareceu ficar mais forte. Então, os braços de Hugo caíram ao lado do corpo e o caçador mais novo piscou antes de repetir roboticamente:
— Eu não vou te matar.
A sombra de um sorriso apareceu no rosto da vampira.
— Agora durma, querido, os adultos estão conversando.
Eu devia ter recusado essa bosta de trabalho, Gregório pensou. Jamais admitiria em voz alta, mas também deu certa razão ao garoto naquele momento. Talvez eles devessem só ter mandado as fotos da primeira câmara para a Central, a confirmação do nome e dado o fora dali.
— Posso? — Isabel repetiu.
— Beber meu sangue até eu cair morto?
— Não, já falei que não quero matar ninguém. Eu só ia fechar sua ferida. — Ela sorriu, tirando o véu da frente de seu rosto. — E talvez tomar um gole.
Gregório teve a certeza que estava ficando louco, ou que a hipnose que ela tinha usado no pirralho estava funcionando nele também, pois um instante depois se viu aquiescendo com um aceno de cabeça. Os lábios dela tocaram seu pulso antes de sua palma, enquanto os olhos castanhos continuavam observando seu rosto. Ela não o mordeu como ele esperava, tomou apenas o prometido e passou a língua em sua mão, fazendo com que sua pele se fechasse outra vez.
— Er... Obrigado.
— Eu que agradeço, damphyr.
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