Capítulo 5 - Isabel

14 de junho de 2025. Santa Madalena do Norte, PB.

Isabel limpou o canto da boca manchada de sangue e mordeu o próprio lábio. Se desse outro gole, seria tão errado assim? Ela não tinha gostado daquele homem desde o momento que ele sorriu em sua direção no bar. Manuel era casado, percebeu no instante em que ele escondeu a mão no bolso para tirar a aliança, e o dono do maior supermercado de Santa Madalena do Norte.

Uma sardinha que se achava um grande tubarão. O tipo de gente que lhe dava urticária.

A esposa dele estava visitando a família no sertão e seus filhos não moravam mais com o casal. Ele estava só pelo fim de semana, aproveitando a liberdade, palavras dele. Isabel se esforçou para manter o sorriso dócil no rosto ao ouvi-lo.

Ela encantou o homem para fazê-lo acreditar que tinha conquistado a doce Helena, uma moça que estava apenas de passagem pela cidade, parando por um dia antes de seguir viagem para a capital. Helena teria ficado ao seu lado até amanhecer, mas seria só um rosto que ele esqueceria em algumas horas e jamais buscaria outra vez.

Sair para caçar daquela forma fora refrescante. Durante os últimos trinta anos ela se aproveitou da lenda local. Sempre que saía de seu túmulo, andava pelas ruas mais antigas da cidade durante a madrugada, armava a teia para suas presas, mantendo-se sempre nas sombras, não sendo mais que uma história em um velho vestido de noiva. Isabel tinha esquecido como era ser outra pessoa por uma noite.

Talvez sua sede também fosse por emoção.

Deixou a casa do homem com o dinheiro que ele carregava na carteira em mãos e nenhum remorso.

Era quase manhã quando voltou à pousada, Isabel podia sentir o sol ameaçando aparecer no horizonte e a sua natureza pedindo para que se recolhesse, para que se refugiasse. Damiano tinha lhe explicado que vampiros costumavam se desintegrar nos raios solares, mas ela era diferente, ela não tinha sido transformada por outro vampiro. Sua pós-vida era um presente dado por um ato de desespero. Este era o único pedaço de informação que tinha da transição de sua vida anterior para aquela. Sua natureza a fazia única. Infelizmente, isso não significava que estar no sol era confortável. Ela podia não se desintegrar, porém o desconforto em sua pele a fazia pensar que estava tomando banho em um vulcão.

Sacudiu um sino pequeno que ficava em cima do balcão e uma senhora de cabelos brancos veio atendê-la. Seu rosto era familiar, mas a vampira era incapaz de relacionar um nome àquela face tão estranha e conhecida ao mesmo tempo.

Afastou a própria confusão ao pedir por um quarto tão educadamente quanto podia. A mulher mais velha reclamou do sistema novo instalado na pousada todo o tempo que passou para reservar um aposento, mas pediu perdão com um sorriso resplandescente ao entregar a chave magnética a Isabel. A vampira sorriu de volta e se perguntou se era assim que os outros se sentiam quando ela usava sua persuasão, dispersou o pensamento. A calmaria em seu âmago era apenas a animação de finalmente poder dormir em uma cama e de poder ficar longe do sol prestes a nascer. Nada além disso.

Pagou metade do valor da estadia com o dinheiro roubado. A dona da pousada se apresentou como Joana, pegando uma bengala ao lado da porta por detrás do balcão, e indicou o caminho, desculpando-se por não poder levá-la até a cabana por causa do café-da-manhã que seria servido em breve.

Na segurança do quarto escuro, com todas as cortinas fechadas, Isabel se afundou nos travesseiros. Estranhamente, dormiu um sono sem sonhos.

Acordou ao cair da noite com batidas suaves na porta.

— Desculpe o incômodo. Mainha esqueceu de passar seus dados para o sistema — uma mulher de cabelos volumosos e escuros disse assim que a vampira abriu a porta do quarto e entregou um cartão a ela. — É só preencher e deixar na recepção.

Isabel olhou para a ficha de check-in e acenou com a cabeça em afirmativa. Em suas mãos o cartão pedia data de nascimento, identidade, CPF, e-mail, telefone e quanto mais ela olhava para ele mais tinha vontade de rir de si mesma. Viver fora de seu túmulo era bem mais fácil em sua imaginação, onde as perguntas complexas não eram feitas e ela não precisava de todo tipo de documento para comprovar sua existência.

Esperou até a mulher sair do seu campo de visão para respirar fundo e colocar o papel sobre a mesa. Talvez pudesse encantar a mulher para acreditar que tudo estava preenchido, ou talvez Gregório pudesse ajudá-la com isto também.

— Então 'cê tá dizendo pra gente ignorar tudo o que aconteceu no último século e focar só nas menções mais antigas? — ouviu Gregório perguntar e bufar em seguida. — Papelada não é comigo, garoto.

O caçador mais novo riu baixo.

— Todo mundo sabe disso, Greg, mas a conexão entre o mausoléu e o necromante tá aqui, eu sei! — Isabel o ouviu tamborilar os dedos na tela do celular. — Talvez se a gente descobrir eu possa convencer meu pai a te dar um aumento.

Gregório gargalhou.

— É mais fácil o inferno congelar — o damphyr disse. Pelo volume das vozes, Isabel supôs que estavam no quarto de Hugo.

— E a foto que Valentina mandou?

— É de um jornal, parece. Algo sobre uma doação da família Montalverne para a igreja de Santa Madalena.

— Eu acho que pela data da foto e das certidões esses devem ser Benedito e Francisca Montalverne e o filho deles é o Herbert.

Os nomes não significavam nada para ela. Eram inscrições nas pedras do mausoléu, que ela já tinha lido uma centena de vezes esperando que eles despertassem algo em sua memória dormente, qualquer coisa.

— Não tem registro de mais ninguém?

Isabel sabia, mesmo sem ver o rosto dele, que Gregório queria perguntar se não havia registro dela. Sua existência mortal não podia estar tão longe daquela geração da família Montalverne.

— Não — Hugo respondeu e a vampira suspirou pesarosamente. Será que ela existia em algum lugar fora da cripta? — O estranho é que a família desapareceu do olho público depois disso e aí tem as certidões de óbito.

— O que tem nelas?

— Aparentemente nada, Benedito e Francisca morreram com uma semana de diferença um do outro em 1899. Mas o que me intriga é a do filho. — Hugo deslizou o celular sobre a mesa. — A data da morte tá diferente do que tá no mausoléu.

— 1910 e 1901, alguém pode ter se confundido na hora de gravar e invertido os números.

— É. Pode ser. — Hugo não soava convencido. — Ah, eu vou dar uma lida no que Valentina mandou, talvez amanhã tenha mais informações sobre isso. Alguma notícia de Alberto?

— Como se alguém fosse me dizer... — Gregório murmurou. — Se acostume, pirralho, alguém sumir não é tão incomum assim.

— Tomara que ele esteja bem.

— Tomara que ele esteja morto e não retornado.

— Você precisa ser menos pessimista.

— O que eu preciso é de silêncio e dinheiro na conta, garoto.

Ao som do arrastar de uma cadeira, Isabel saiu da pequena varanda à frente do seu quarto e esperou até ter certeza de que os passos pertenciam a Gregório para voltar. Seu quarto ficava em frente ao do caçador, em uma parte ligeiramente mais elevada do terreno. De onde estava, a vampira podia ver a luz acesa do quarto de Hugo passando pelas cortinas. Supôs que o garoto estivesse ocupado desvendando os arquivos enviados pela tal Central e não sabia o que pensar sobre o fato dele poder encontrar alguma pista sobre o seu passado. Longe dela, ele parecia só mais um rapaz tentando provar para a própria família do que era capaz, Isabel até podia simpatizar com a situação. O problema é que a família dele caçava criaturas como ela.

Gregório passou a chave na fechadura do quarto e deixou a porta entreaberta. Um convite ou desleixo? Decidiu-se pelo primeiro, precisava falar com ele de qualquer forma.

Atravessou a distância em um piscar de olhos. O caçador estava de costas para ela, mas ela viu seus ombros se tensionando por um segundo antes de relaxar e ele dar um suspiro resignado.

— Quem foi a vítima? Manuel?

— Ah, sim. E ele está vivo como eu prometi. — Ela cruzou os braços e revirou os olhos. — Mas eu não gostei dele.

— O sangue era amargo demais? — ele zombou.

— Não por isso. — Isabel sacudiu a cabeça. Nem sequer pensava sobre o gosto do que bebia, tinha pouco espaço para ter preferência quando suas caçadas eram tão poucas. — Ele é um paspalho.

Gregório riu.

— Você decididamente precisa aprender a xingar alguém.

Isabel revirou os olhos e estendeu a mão aberta para ele.

— Eu quero ver a foto.

— Que foto? — O caçador franziu o cenho.

— Da minha família. — O rosto da vampira se contorceu por um segundo. — Supostamente.

— Você estava escutando a conversa?

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Como se você não fizesse a mesma coisa...

— Eu tento não fazer.

— Por favor, Gregório, a foto.

Sua voz era mansa e exigente. Isabel poderia induzi-lo a entregar o celular, porém supunha que ele não faria questão e Gregório não era uma marionete para ter seus fios puxados. Ao menos, ela queria pensar assim. Havia algo nele que a intrigava. Talvez fosse o fato dele ser um damphyr, um híbrido que mal colocava as presas de fora. Ou a forma como ele carregava a si mesmo, o cansaço sempre presente de alguém que já tinha visto muito — e muito pouco.

Ele exalou, puxou o celular do bolso e depois de alguns toques colocou o aparelho em sua mão. Isabel encarou a foto em preto e branco, com manchas na borda e um rasgo perto do garoto em frente aos pais. Sua mão tocou o rosto do menino pela tela.

— Eu posso dar zoom, digo, aumentar se quiser ver melhor.

Os olhos castanhos encararam o homem à sua frente, tentando decifrar a emoção no rosto dele. Gregório pigarreou e se aproximou devagar, como se pedisse permissão para chegar tão perto. Ela não notou os próprios dedos tremendo até ele pegar o celular para dar zoom na imagem. Isabel engoliu em seco quando o aparelho voltou para suas mãos. Seus olhos ardiam e o rosto do garoto, mais nítido ainda que em escala de cinza, fez sua garganta se fechar. Mesmo que a foto não tivesse cor, ela sabia que as írises dele eram castanhas como as suas. Também sabia que ele carregava o nome Herbert em homenagem ao caçador responsável por salvar a vida de sua mãe e que ele vivia tossindo, uma saúde frágil desde o berço.

Tentou lembrar mais. Como era sua voz? Como tinha sido durante a adolescência? Ele estava vivo quando ela morreu? Tinha tantas perguntas. Mas sua mente era um labirinto repleto de névoa, ela não podia avançar sem enxergar o caminho a seguir.

Um líquido quente escorreu pelo seu rosto.

Estava chorando?

Ela tocou a bochecha e olhou para a ponta dos dedos manchada de vermelho. Chorava sangue. Poucas lágrimas, mas Deus do céu, ela nem sabia que era capaz de chorar. Gregório pegou o celular de volta, entrou no banheiro e voltou com o rolo de papel higiênico, oferecendo com um sorriso desajeitado.

— Não ando com lenços nos bolsos.

— Tudo bem — ela murmurou enxugando o rosto.

— Lembrou de algo?

Isabel apreciava o que ele estava fazendo. Dando a ela uma chance de não dizer nada, de negar o óbvio. Inspirou devagar.

— Eu acho. Herbert era meu irmão...

— O túmulo era da sua família então — ele falou e soou como uma pergunta. A vampira piscou algumas vezes, franzindo o cenho. O que ele queria dizer com aquilo?

— Sim...

Gregório sentou na cama e cruzou os braços, sua expressão se tornou solene, a mandíbula tensa, os olhos procurando algum ponto para focar que não fosse o rosto de Isabel. Ele tinha olheiras profundas, ela percebeu, e também parecia doente, abatido, como alguém que luta contra si mesmo por tempo demais.

Ainda assim, seu corpo tinha a postura de um guerreiro. Alguém que analisava as possibilidades de fuga e de luta.

— Você falou que estava presa à cidade. Por acaso alguém a visitava?

Isabel paralisou. Ela sabia que a pergunta era questão de tempo e ainda assim não tinha resposta ao ouvi-la. Damiano nunca tinha lhe dado instruções exatas sobre o que dizer sobre as visitas feitas, porém não era como se ela tivesse com quem falar em primeiro lugar. Foram quase cem anos de reclusão, tendo naquele homem, tão gentil e devoto, seu único consolo. Gregório era chuva depois dos anos de seca, mas Damiano havia sido abrigo no meio da tempestade.

— Quem era, Isabel? — o caçador perguntou novamente, se levantando da cama e colocando as mãos em seus ombros.

A vampira sentiu os caninos se alongarem dentro da boca e as unhas de sua mão crescerem. Ele não é uma ameaça. É só uma pergunta. Repetiu na sua cabeça de novo e de novo e de novo até sentir as unhas se retraírem e seu corpo se acalmar. Porém sentia seu peito apertar. Os olhos verdes de Gregório continuavam analisando-a como um falcão, esperando uma resposta que ela não queria dar. Isabel ponderou as possibilidades. Seria mais fácil convencê-lo de que sua reação era uma falha. Era uma alteração pequena, apenas alguns minutos antes do agora, nada comparado a apagar a lembrança que Hugo tinha dela. Contudo, quando tentou tocar a mente dele foi repelida com uma força descomunal.

Tropeçou ao se afastar. Apoiando-se desajeitadamente na parede.

— O que foi isso? — o caçador rosnou, suas presas aparecendo. Ela repetia a mesma pergunta dentro de si.

Pela primeira vez em um século, Isabel se sentiu pequena e frágil. Uma presa, ao invés de predadora. Não fazia o menor sentido. À sua frente ela via um vampiro completo, com uma aura quase ancestral, sedento.

O que fora aquilo? Um erro. Um erro que podia destruí-la.

— Eu... — não entendo. Eu não sei, quis dizer, mas a voz arranhou sua garganta, incapaz de sair.

O que ela tinha feito?

Só queria evitar a pergunta, ganhar tempo para respondê-la, ou fazer com que o caçador esquecesse o assunto por alguns dias. Assistiu, petrificada, ele recobrar o controle de si, mas antes que o damphyr falasse qualquer outra coisa, ela correu.

A voz de Gregório a lhe chamar se tornou um eco, um fantasma que se misturava com outros fantasmas. Timbres indistintos. Ruídos de um rádio fora de sintonia. Ela correu e correu, se misturando aos vultos da noite, sentindo a terra e as pedras em seus pés, um incômodo que não a feria. Correu não por medo dele, parte de si ainda estava incerta se o que vira não havia sido apenas sua imaginação pregando peças, algum flash do passado que se misturava ao presente. Ele era um híbrido, era impossível que tivesse tanta força assim. Isabel se sentia mortificada. Deus, por que ela tinha tentado encantá-lo?

E mais importante: por que não tinha funcionado?

Parou em frente ao antigo cemitério. Sempre terminava encarando os muros baixos e o letreiro em arco com "Cemitério do Bom Descanso — 1767" quando tentava fugir. Ela gravitava ao redor do lugar, puxada por correntes invisíveis. Às vezes, sentia-se mais fantasma que vampira, vagando pela cidade e incapaz de deixá-la, assombrando as ruas de Santa Madalena do Norte sem saber exatamente o motivo de estar ali.

— Eu sabia que iria encontrá-la aqui — uma voz disse ao seu lado.

Isabel se virou sobressaltada para ver Joana e sua bengala caminhando em sua direção. A dona da pousada tinha um sorriso tranquilo no rosto e carregava uma saco de papel em suas mãos.

— Você não mudou nada, Isa — ela murmurou, oferecendo a sacola. A vampira aceitou com o cenho franzido e viu que se tratava de roupas. — Minha filha tinha algumas sobrando para doação, achei que poderia caber em você.

— Obrigada.

— Não precisa agradecer.

Joana colocou a mão no ombro dela e Isabel sentiu uma onda de alívio passar por seu corpo. Lembrava dela agora, reconhecia marcas de um rosto trinta anos mais velho, mas os olhos sempre gentis continuavam ali. Não eram muito próximas, a vampira não havia sido próxima de ninguém na cidade, mas o suficiente para se esbarrar nos bares locais vez por outra.

Uma gota de água tocou seu rosto e Joana suspirou.

— Vamos voltar para pousada, vai cair um toró por aqui.

Isabel a seguiu sem falar nada, encantada pelo cheiro da chuva e a brisa distante do oceano. Joana entrelaçou o braço no seu, como se fossem apenas grandes amigas se reencontrando depois de uma longa viagem.

— Aceita um cházinho? Temos muito a conversar.

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