Capítulo 2 - Isabel

Em seus sonhos, Isabel corria completamente livre.

O vento batia em seu rosto e o tecido solto da saia flutuava no ar. Ela era uma bailarina em campos dourados, uma ninfa de risada solta e pouca modéstia. O cabelo, que no sol adquiria um subtom avermelhado, se enchia de folhas de formatos variados e, às vezes, ela escalava as árvores de uma fazenda estranhamente familiar e sentava em seus galhos, sentindo o sol do fim da tarde aquecer sua pele, enquanto os gritos distantes de uma mulher a acompanhava. Gritos maternos, apreensivos. Pensava que a voz poderia pertencer à sua própria mãe, mas toda vez que tentava prender a memória, ela escapava por entre seus dedos. O timbre mudava, virava outra voz, mas a preocupação presente nos gritos era sempre a mesma.

Era estranho saber que ela tivera uma vida antes, nenhuma memória permanecia em sua pós-vida. A única coisa deixada em sua lembrança era um nome, o seu nome, talhado na pedra de sua câmara. Isabel Montalverne. Uma combinação de letras sem significado.

Quando a luz foi acesa, ela lutou contra o despertar. Damiano não podia estar de volta tão cedo, ele normalmente demorava meses entre uma visita e outra. Será que ela havia perdido a noção do tempo em seu sonho?

Então as vozes a alcançaram, vozes graves, uma mais rouca que a outra, mais cansada. Invasores? A última vez que alguém da cidade tinha invadido seu local de repouso fora uns cinquenta, ou mais, anos atrás — ela ainda carregava alguma culpa por ter lidado com o homem da forma que havia feito, mas a sede a estava queimando por dentro e os feitiços de Damiano não a deixavam sair para caçar naquela época. Uma garota precisava se alimentar e a refeição tinha simplesmente caído em seu colo. Seria um pecado recusar.

Você podia não ter drenado o pobre coitado, sua consciência sussurrou. Ela quis sacudir a cabeça, mas permaneceu imóvel. Aquilo fora muito tempo atrás de qualquer forma. Agora, precisava pensar nos seus novos visitantes. Se ficasse parada o suficiente, os dois iriam embora? Ela não queria ter de limpar o sangue do chão e se livrar de corpos naquela noite.

—...matar essa coisa antes que ela acorde!

Isabel abriu os olhos. A lâmina de uma adaga estava parada a centímetros de seu peito, um punhal elaborado, com inscrições entalhadas no metal e uma pedra vermelha incrustada no centro. Caçadores. Claro que tinham de ser caçadores. Ela nunca teria a sorte de outro saqueador de túmulos desavisado aparecer novamente, os moradores locais eram mais espertos que isso. Era sempre gente de fora que causava confusão.

A vampira quase se ergueu e atacou o homem mais novo, mas o outro o segurou antes que ela se movimentasse. Havia algo de diferente nele, um aroma que ela não podia descrever, uma memória perdida que ameaçava romper a superfície. Não teve tempo para ponderar. O cheiro do sangue a atingiu como o canto da sereia, fazendo seus caninos doerem, sua boca salivar, ela se sentou, não perderia tempo fingindo ser um cadáver quando os dois homens já sabiam o que ela era.

Tinha sede.

Mas ainda não desejava rasgar o pescoço de alguém, se livrar de corpos ou atrair a atenção de outros caçadores. Por Deus, como explicaria a Damiano que aqueles dois homens tinham entrado em seu túmulo? Tinha sido tão cuidadosa em suas últimas caçadas.

Depois que o caçador humano fechou os olhos, escorado na mesa onde ela se deitava, a vampira se levantou e caminhou em direção ao damphyr. Após beber de seu sangue e escutar seu agradecimento, a palavra tinha escorrido pela sua boca com facilidade, mesmo que jamais tivesse encontrado alguém que fosse meio-humano, meio-vampiro antes. Ele deu dois passos para trás, o dedo no gatilho da arma, os ombros tensos.

O damphyr era mais jovem do que soava. Aparentava ser um rapaz de vinte e tantos anos, mas Isabel duvidava que aquela fosse sua idade verdadeira. Seus olhos carregavam fantasmas mais antigos.

— Não é preciso ser violento. Eu sou uma mulher de palavra.

— Não é nada pessoal, doçura — ele resmungou. — Mas se eu acreditasse em tudo que sai de uma boca bonita eu tava morto.

Isabel riu baixo. Era refrescante ter alguém consigo naquele lugar, mesmo que fosse um homem capaz de matá-la, ou talvez especialmente por ser um homem capaz de matá-la.

— Negócios então. O que uma criatura como você faz ao lado de um garoto desses?

— O que uma criatura como você faz em uma cidade como essas? — ele devolveu com a sobrancelha erguida.

A mulher caminhou pela câmara e passou a mão aberta por uma das cortinas.

— Você leu a lápide, crie sua teoria.

— Eu não tenho tempo pra joguinhos.

— Uma pena, realmente — Isabel suspirou e o homem fez menção de se aproximar do rapaz adormecido. — Está bem, está bem, eu vou morder a isca. — Então ela puxou o tecido, mostrando as várias pinturas e fotografias dos lugares onde jamais tinha ido depois de seu despertar. Florestas, museus, cidades de concreto e vidro, uma coleção de imagens que servia apenas para atiçar sua curiosidade. O caçador se aproximou. — De certa forma, eu estou presa aqui. Você?

— O garoto precisava de uma babá e os chefes não gostam de mim. — Ele deu de ombros. — Nem eu, deles, para ser honesto.

— Hum... então por que você continua trabalhando para eles?

— Grana? Não sei a quanto tempo você está aqui embaixo, moça, mas ninguém trabalha só por que quer.

— Então se alguém te oferecesse um pagamento melhor, você os deixaria?

O homem estreitou os olhos, suspirou e coçou o queixo antes de responder.

— É complicado.

Ela deu um pequeno sorriso satisfeito.

— Claro que é.

— Sabe... o garoto provavelmente vai lembrar de você e vai ser um inferno pra explicar isso.

— Está tentando me convencer a matá-lo?

— Pelo amor de Deus, não! A Central ia estender meu tempo de serviço em mais outra década ou talvez eles decidissem logo por um século e eu realmente não odeio a minha vida a esse ponto.

A vampira mordeu o lábio inferior para conter o riso. Era isso que perdia estando presa ali embaixo? Cruzou os braços atrás do corpo e sem olhar para o outro caçador disse:

— Eu já pretendia bagunçar a mente dele de qualquer maneira. Mas talvez você possa me dar algo em troca por livrá-lo de uma década de servitude?

— Se você me pagar a janta...

— Eu não estou interessada em ir para a cama com você, damphyr — Isabel resmungou, o rosto se contorcendo diante da insinuação. — Quero que me ajude a sair daqui.

— Gregório — corrigiu-a em um rosnado. — E por que acha que eu ajudaria?

— Tolice, tédio ou insanidade temporária. Só me parece lógico que um caçador meio-vampiro não olhe para todas as criaturas da noite como aberrações que merecem o extermínio. — O damphyr continuou em silêncio e ela suspirou. Sem esperar pela resposta do homem mais velho, ela caminhou até onde o outro caçador estava deitado e se abaixou na frente do rapaz. Sua mão tocou o rosto pálido dele e o garoto grunhiu. — Mas se isso não for incentivo o suficiente, podemos voltar para o ponto onde infelizmente eu precisarei matar vocês dois e me desfazer dos corpos. Nada pessoal, querido.

Isabel podia sentir o gosto da vitória, doce como o sangue, em sua boca. Gregório permanecia em silêncio, mas ela sabia que o suspiro que havia escapado por sua boca era resignação. Ele seria um tolo se optasse pelo outro caminho e, pela forma como os dois homens tinham avançado pela cripta, eles já haviam sido tolos o suficiente por uma noite.

— Tá. Eu ajudo.

Ela quase saltitou em alegria, há quantos anos não desejava uma forma de sair? Quantos de seus sonhos não eram sobre o mundo fora daquele cemitério, longe daquela cidade? Damiano conseguia saciar apenas uma parte de sua curiosidade, os livros e fotos que ele trazia eram meras gotas para ela, que passara séculos no deserto. Ele dizia que quando recuperasse a memória, os dois viajariam pelo mundo juntos. Começariam pelas florestas — cada vez mais escassas — e as praias mais remotas, então iriam para as cidades maiores, completamente diferentes de Santa Madalena do Norte, onde tudo era motivo para história.

Com os olhos fechados, ela às vezes alimentava essas ilusões. Imaginava a si mesma, com alguma das roupas modernas, um lenço no pescoço e um chapéu cobrindo seu cabelo, como as modelos de alguns vídeos que Damiano lhe mostrava. Também usaria calças e botas e uma camisa folgada cujo tecido não faria sua pele coçar como a renda daquele vestido e, apesar de saber que viajariam apenas durante à noite, em sua imaginação o sol estava sempre presente, mas não machucava a sua pele. Entretanto, à medida que os anos se tornaram décadas, e depois século, e sua memória continuava um cofre cuja senha tinha se perdido, Isabel começara a pensar que talvez a chave para lembrar estivesse no mundo e não o contrário. Era uma pena que Damiano discordasse. Nesses momentos, ele lhe contava sobre os caçadores e seus preconceitos, sobre como o mundo a via. Um monstro.

Ali, sob o cemitério de Santa Madalena do Norte, ela estava segura.

Segura e terrivelmente entediada. Definhando apesar de sua imortalidade. Ela saía apenas para se alimentar e era o único momento em que se divertia, apesar de sempre ser cautelosa.

Os moradores do lugarejo murmuravam histórias sobre ela e cada versão que chegava aos seus ouvidos lhe preenchia com certo deleite inexplicável. Em algumas dessas histórias, a "Noiva da Noite" punia maridos infiéis, vingando-se eternamente do noivo que a havia deixado no altar. Em outras, ela vagueava pelas ruas antigas da cidade, buscando pelo verdadeiro amor, diziam essas versões que ela tinha tentado escapar de seu casamento e fora morta na fuga. Isabel não sabia a verdade, quando acordou em seu vestido de noiva, as memórias a tinham abandonado e ela estava presa ao túmulo do que acreditava ser a sua família.

— Se quer que isso funcione melhor, precisa me dizer o que vocês dois estavam fazendo aqui — ela murmurou, segurando as pálpebras do rapaz inconsciente, os olhos verdes a encarando sem vida.

— A Central iria querer a minha cabeça se eu desse essa informação.

Céus, caçadores eram sempre tão frustrantes?

— Ah, pelo amor de Nossa Senhora, me dê ao menos algo com que eu possa trabalhar!

Gregório bufou.

— A gente tava só fazendo um reconhecimento do lugar, o pivete nem queria entrar nessa sala, se você conseguir fazer com que ele acredite que ficamos só na primeira câmara, ótimo.

— Isso vai depender mais do quão bom mentiroso você é — ela sussurrou, pensativa, sentindo seu próprio sangue pulsar nas palmas das mãos tocando o rosto do outro. Uma resposta ao pulso humano, uma cópia daquilo que não tinha. A pupila do rapaz se dilatou e Isabel narrou em seu ouvido a história de como os dois tinham voltado após encontrar apenas poeira na segunda sala do mausoléu. Satisfeita, ela passou a mão pelo cabelo do caçador mais novo e o comandou para que dormisse novamente. — Se quando acordar ele começar a falar de mim, você vai ter que dizer que é coisa da imaginação dele.

— E eu vou ter que arrastá-lo pra fora? Ele não pode ir andando? — Gregório reclamou. — Ótimo!

O sarcasmo e a irritação na voz do caçador a fez sorrir e sacudir a cabeça.

— Eu costumava ter uma muda de roupas por aqui que era menos... — ela apontou para o próprio vestido ao se levantar. — Menos.

— Se você pode sair daqui, por que precisa de ajuda?

— Eu posso ir até a cidade, se é isso que está perguntando, mas não muito além disso.

— Então por que cargas d'água você continua em um cemitério?

Ela ponderou as palavras enquanto alcançava um anexo de sua cripta escondido atrás de outra cortina grossa. Um cubículo com uma cadeira, uma mesinha com uma luz, vários livros empilhados embaixo dos dois móveis e um baú pequeno.

— Eu tentei viver na cidade uma vez. Consegui uns dez anos até ficar óbvio que eu não envelhecia. Pensei em fingir a minha morte e voltar depois de um tempo, mas aqui todo mundo se conhece. — E Damiano não tinha gostado de sua pequena escapada. Acrescentou mentalmente, lembrando-se da ira do homem que sempre a visitava, contudo, o caçador não precisava saber disso agora. — Isso foi uns trinta anos atrás. Eu acho. É difícil ter uma noção do tempo por aqui. — Ela ergueu a cabeça, encarando-o quando o ouviu se aproximar. — Você quer minha ajuda para carregar o seu amigo ou não?

Gregório não respondeu em um primeiro instante, apenas a observou. Ele parecia uma ave de rapina, com seus olhos afiados e rosto anguloso, analisando outro predador e ponderando quais suas chances. Ela o encarou de volta, franzindo o cenho, esperando. O caçador virou o rosto para o lado, seu cabelo trançado na altura do queixo escondendo parcialmente sua expressão.

O homem cruzou os braços e quando voltou a olhá-la resmungou:

— Droga, tá bem.

Isabel dirigiu-lhe um sorriso torto e puxou um vestido do fundo do baú. Tinha um corte simples, tão diferente do que ela gostaria de vestir, parecia uma camisola de algodão tingido de azul escuro, com algumas manchas que um dia foram brancas, mas era tudo o que restara da sua última aventura. Um tesouro escondido, cheirando a mofo.

— Por favor — pediu virando-se de costas para o homem e batendo no botão do vestido em sua nuca com o indicador.

— Não sei o que me impressiona mais, seu ânimo ou pedir para um desconhecido ajudá-la a se trocar.

— Vestidos de noiva não foram feitos para serem desabotoados por quem os usa. — Ela suspirou. — Mas se você me tocar, eu arranco seus dedos.

— Por Deus, mulher. Não precisa me ameaçar a cada dois minutos.

— Não foi uma ameaça, foi um aviso.

Gregório desabotoou a parte superior do vestido com cuidado e se virou de costas. Ela dobrou o vestido de noiva delicadamente após se trocar e o guardou no baú. Levou uma mão ao peito, sentia seu coração-fantasma bater diante da antecipação de ver o mundo outra vez e o pensamento não fazia o menor sentido. Estava morta, ao menos em qualquer sentido médico, sabia disso. Não tinha pulso, não corava, um corte superficial sequer fazia seu sangue aflorar, como podia então seu coração bater?

Pressionou o peito com força. Nada. Seu coração permanecia um músculo inútil.

Era melhor assim, pensou consigo. Se não sentisse, podia ignorar a solidão de seu lugar de repouso. Podia fingir que não se importava com a lembrança de Damiano, furioso e magoado depois de salvá-la de um caçador independente em sua última escapada.

Você me prometeu, Isa, a voz de Damiano sussurrou em sua cabeça. Tinha, de fato, prometido e orgulhava-se em ser uma mulher de palavra. Mas fazia tanto tempo... algumas noites não iriam matá-la.

— Você tá parecendo minha avó — a voz de Gregório a tirou de seus pensamentos.

Algumas noites e um guarda-roupa novo, ela decidiu.

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