[🏀 + 03] - Lugar errado, horário errado


Quando Jungwon deixou seu dormitório se aproximava das seis da tarde e por isso ele precisava se apressar para conseguir chegar a tempo ao refeitório antes que o jantar parasse de ser servido. Estava tão apressado que ao menos se deu conta de que um moreno tatuado e com cara de poucos amigos, estava parado em frente a porta do próprio dormitório.

— Aonde pensa que vai?

Estancando no lugar e ainda confuso, o ruivo virou-se para trás encontrando Jay o encarando com uma expressão não muito agradável.

— Estou indo jantar, idiota. Estou com fome.
Park desencostou da porta e sorriu.

— E ia sem mim?

Jungwon ergueu uma sobrancelha em afronta.

— Não nasci colado em ti, Park. Nem quero andar com você para cima e para baixo. Fofocas rolam soltas.

Jay sorriu ainda mais e como quem não quer nada, andou até o ruivo parando somente quando estavam lado a lado. Ele ergueu o braço e rodeou o pescoço branquinho.

— Sai daqui, delinquente!

Jungwon afastou-se, o que só acabou arrancando outra risada do tatuado. Antes que o moreno falasse algo, ele passou a andar rápido, deixando-o para trás.

— Me espera, gatinho, eu vou comer com você.

— Não vai!

Jay ignorou seus protestos e o seguiu.

O caminho inteiro até o refeitório foi em um completo silêncio e em nenhum momento eles ousaram quebrá-lo. Jungwon  já não se importava mais se estaria sendo seguido por um Coelho tatuado e rebelde, ele só iria ignorá-lo como sempre fazia.

Jay era um ser insuportável e isso era explícito para todos. Ele tinha um dilema que era, quando não estava pegando alguém pelos cantos da escola, estava importunando os alunos do primeiro ano ou o seu preferido: Jungwon.

O ruivo era a cobaia de sempre. Park não o deixava em paz um só minuto e ele agradecia quando as aulas acabavam e ele podia descansar em seu dormitório, ou até mesmo quando o moreno tinha treino de basquete. Só assim ele tinha seu tão sonhado livramento.

E uma pura hipocrisia que até chegava a ser bastante engraçada, era que Jay falava para todos que odiava Jungwon . Ele nutria um ódio pelo ruivo sem motivo algum e quando questionado sobre, ele simplesmente falava que não gostava dele pelo simples fato de ser inteligente e simpático com todos. Algo sem cabimento algum.

Yang  já chegou até mesmo a comentar com seus amigos que nunca odiou ou desejou algo de ruim para Jay, só queria manter distância. E foi assim pelos longos três anos de ensino médio. Quando Jungwon  ingressou no primeiro ano, Park estava no terceiro. Bastou os olhos do moreno baterem pela primeira vez no mais novo para toda implicância surgir. E quando o ano estava prestes a acabar, Jungwon  deu graças a Deus por se ver livre. Mas como muitos dizem: ele não tinha um pingo de sorte.

E não tinha mesmo porque no ano seguinte, quando ingressou no segundo ano, Jay continuava no terceiro. E todo o pesadelo se repetiu por mais um ano letivo. E quando Jungwon  achou que não podia piorar, piorou. Ao voltar às aulas ele descobriu que o moreno novamente havia reprovado e pior ainda, esse ano estudariam juntos. Park Jay havia reprovado por dois anos consecutivos e Jungwon  até mesmo desconfiava que ele havia feito de propósito para irritá-lo ainda mais e ter o gostinho da vitória com sua cara de desgosto.

Mas com os anos, o ruivo aprendeu a ignorá-lo e ele até que não estava tão chato. Porém, nesse ano, algo havia mudado. Park o perturbava sim, mas estava diferente o que era um tanto quanto suspeito. Mas ele não deu tanta importância.

Caminhando ao lado do moreno ainda em silêncio, ele não sabia porque, mais em sua mente veio uma memória recente de quando estava conversando com os melhores amigos e eles simplesmente falaram uma coisa absurda.

“— Eu não entendo o que ele quer de mim. — falou Jungwon , indignado, sentado em sua cama e mexendo no celular. — Ele passou dois anos inteiros me infernizando e agora vem com essas cantadas baratas?

— Talvez ele tenha se arrependido de te tratar mal. — sugeriu Sunoo, deitado na cama ao lado. — Ou talvez ele esteja realmente a fim de você.

— Ah, Sunoo, faça-me o favor. — resmungou Heeseung, sentado na escrivaninha e estudando. — Ele só está brincando com os seus sentimentos, Won. O Jay é um canalha que não sabe o que quer.

Jungwon  assentiu e largou o celular ao seu lado. Passou as mãos pequenas pelos cabelos ruivos, frustrado. Jay estava o deixando louco.

Não sabia o que aquele Coelho descarado queria ao agir de tal maneira, mas não queria acreditar no que o loiro dissera. Em hipótese alguma, Jay poderia estar afim dele. Não mesmo. Ele era um babaca assim como Heeseung havia dito.

Ele não se importava com nada e pegava quem aparecesse em sua frente, então não tinha como ele estar gostando de alguém, ainda mais quando esse alguém era ele, Yang  Jungwon , o garoto que Park odiava só por ser um prodígio. Aquilo era humanamente impossível.

— Qual é, Wonie, vai ver que ele mudou e realmente tá afim do Yang? Tipo, não só afim, como gostando dele? Algo mais namoro? — Sunoo insistia — E talvez até o Jungwon também goste dele.

O ruivo arregalou os olhos.

— E quem disse que eu tenho sentimentos por ele? — retrucou. — Eu não gosto dele. Ele é arrogante, prepotente e sem noção.

— Então por que você fica tão nervoso quando ele te elogia? — perguntou o amigo deitado, com um sorriso malicioso.

— Kim Sunoo, você é meu amigo ou meu inimigo? Eu já falei que não gosto nem quero nada com o Park. Porque é tão difícil entender?

O loiro não respondeu, apenas soltou uma alta e longa gargalhada.

— Por que você não o ignora ou o rejeita? — questionou Heeseung — Se você não der atenção ele não vai falar sozinho.

— Porque... porque... — gaguejou sem saber o que dizer. — Porque eu não quero ser rude com ele. E mesmo que eu o ignore, ele é tão idiota que não vai parar. E seu rejeitá-lo é capaz dele rir da minha cara e dizer que estou inventando coisas porque ele não tá nem aí pra mim.

— Isso é desculpa esfarrapada. — respondeu sem tirar os olhos do livro.

Sunoo concordou com Lee.

— Você está com medo de admitir que gosta dele.

— Eu não gosto dele! — Jungwon protestou, jogando um travesseiro no amigo. — Eu odeio ele!

O ruivo rugiu irritado. Seu rosto estava completamente vermelho. Mais de vergonha do que de raiva.

— Então por que você não para de falar dele? — provocou o Kim, devolvendo o travesseiro. — Por que você não tira os olhos dele na sala de aula? E ele também não para de te encarar.

— Eu não faço isso! E ele só me olha para me irritar porque sabe que eu me desconcentro muito fácil. Vocês estão inventando coisas!

— Não estamos não, Jungwonie. — afirmou Heeseung, fechando o livro. — Nós somos seus amigos e queremos o seu bem. E o seu bem é aceitar que você gosta do capitão do time de basquete e dar uma chance para ele.

— Pois é. — continuou o Kim — E está claro que ele só te irrita pra disfarçar que gosta de você. Ele até te chama de Cenourinha.

— Pra mim esse apelido tem duplo sentido. — falou o Kim mais velho — O Jake falou que talvez ele chame o Jungwon assim, porque muitas pessoas já falaram que ele parece um Coelho por conta do formato dos dentes. Vai que ele quer comer o Jungwon porque a cenoura é o alimento preferido dos coelhos. Eu não confio nele.

Nesse momento, Jungwon só faltava explodir de tanta vergonha.

Ele nunca deu tanta importância para o apelido meio insignificante que o moreno o chamava, mas agora sempre que fosse chamado assim lembraria do que o amigo disse. Ainda mais porque ele também já havia percebido que Jay lembrava sim um Coelhinho e até mesmo já o chamou de tal forma quando estava sozinho.

Escondendo o rosto corado com o travesseiro ele soltou um gritinho angustiado.

— Vocês estão loucos. — disse, logo se levantando e indo em direção à porta do banheiro. Não queria mais falar disso. — Eu vou tomar um banho e esfriar a cabeça. E parem de falar desse assunto, por favor.

— Tudo bem, tudo bem. — falou Sunoo, se levantando também. — Mas pense no que nós dissemos, tá? Quem sabe ele não é o amor da sua vida?

O loiro falou a última parte se segurando para não rir da expressão do amigo, mas no fundo, falava a verdade.

— Amor da minha vida? — repetiu, incrédulo. — Você está delirando, Sun. Vocês estão delirando. — apontou para ambos os garotos — Ele é o pesadelo da minha vida. E eu vou acordar desse sonho que mais parece um filme de terror logo, logo. Vocês vão ver.

— Tá bom, tá bom. — disse Heeseung também se levantando para ir para seu próprio dormitório. — Mas não se surpreenda se ele aparecer no seu sonho hoje à noite, hein?

— Isso nunca vai acontecer. — falou alto entrando de vez no banheiro e batendo a porta com força. — Nunca!

Será que o que os meninos disseram era mesmo verdade? Não fazia sentido Jay ter mudado seu jeito de agir consigo porque se apaixonou por ele do dia para noite, era?

Ainda conturbado pelos pensamentos, Jungwon só despertou do pequeno transe quando sentiu um movimento em seus ombros. Ao perceber o que era, apenas encarou o moreno, morto de vergonha.

— Ei? O que foi? Você parou aí do nada e ficou com cara de assustado. Fiquei até com medo.

Falou Jay retirando suas mãos dos ombros do ruivo.

— O-o quê?

— A gente já chegou no refeitório a quase dez minutos e você ficou aí parado igual uma múmia sem se mexer.

Aturdido, Jungwon olhou para todos os lados constatando que eles já estavam de fato no refeitório. E praticamente todas as pessoas que estavam ali, olhavam curiosas para os dois.

— Por que tá todo mundo olhando?

— O quê que tu acha, ruivo? Nós chegamos juntos e você ficou paralizado por dez minutos enquanto eu tentava te “acordar”. É claro que vai tá todo mundo olhando. — falou o óbvio — Até porque, não é todo dia que nós dois estamos de bem.

Jungwon revirou os olhos.

— Cala a boca. — falou rápido e começou a caminhar em direção a fila que já estava diminuindo.

— Qual foi, ruivinho? Vai dizer que não tá um climinha legal entre a gente? Sem brigas, só paz e amor...

O ruivo lembrou outra vez do que os amigos lhe disseram há algumas noites atrás e foi impossível não corar ainda mais.

Os dois viviam brigando, mas era porque Jay provocava e Jungwon retrucava. Agora com o moreno mais “quieto”, não tinha porque ficar se bicando sempre que se encontravam. Mas essa aproximação tão repentina, com certeza daria o que falar.

Vendo que o ruivo sequer deu importância para o que disse, Jay apressou os passos e o seguiu até a fila, ficando atrás dele.

Quando a vez de ambos chegarem, eles passaram a se servir com o que gostam e em nenhum momento, Jungwon falou com o moreno.

— Está chateado, Cenourinha? Mas eu nem te irritei hoje... — provocou.

Jungwon quase teve um infarto ao ser chamado daquela forma. Lembrou do que Heeseung disse sobre o apelido ter duplo sentido o que foi impossível não fazer uma caretinha. Imaginar os dois juntos fazendo coisas safadas, era no mínimo, nojento.

— Você já está começando a me irritar, Park.

Revirou os olhos, pegando o cartão para pagar a comida.

— Você que se irrita muito fácil. — tomou o cartão das mãos pequenas.

— Ei! Eu preciso pagar minha comida, me devolve.

— Não, deixa que eu pago.

Jay colocou a bandeja em cima da bancada com cuidado e pegou seu próprio cartão. Passou as duas refeições e quando ouviu um barulho anunciando que o pagamento fora aprovado, ele guardou o seu cartão e devolveu o do ruivo. Pegou a bandeja e saiu caminhando naturalmente. E Jungwon  ficou para trás com sua bandeja em mãos, sem entender nada.

Para não ficar com cara de tacho e parado igual um idiota outra vez, ele também se apressou em ir atrás do mais velho que já está sentado em sua mesa costumeira.

— Por que fez aquilo?

— Aquilo o que? — fingiu desentendimento, bebericando do suco de maracujá.

— Por que pagou meu jantar? Eu posso muito bem pagar pela minha própria comida, sabia?

— Sim. Mas eu quis ser cavalheiro.

O ruivo revirou os olhos e também sentou-se.

— Ser cavalheiro? Conta outra Jay, você é um completo babaca. E além do mais, eu não sou uma dama, tá legal?

— Mais parece.

Ignorando o moreno, Jungwon passou a comer, ignorando também os olhares de todos aqueles desocupados. Era incrível como aquelas pessoas poderiam ser tão fofoqueiras.

— E aí, cara.

Jungwon  ergueu a cabeça quando ouviu alguém cumprimentar Jay. Era Kyungsoo, um dos caras do time.

— Fala, mano.

O Do sentou-se em um lugar vago na mesa e começou a comer.

— Tudo bem, Jungwon? — cumprimentou o ruivo.

— Uhum.

— Um garoto de pouca conversa. — debochou — O que faz aqui?

Jungwon revirou os olhos pouco se importando. No time de basquete tinha gente que conseguia ser ainda pior que o próprio capitão. O ruivo não se impressionou ao ser questionado o que estava fazendo ali. Afinal, era a mesa do time.

— Eu chamei ele, cara. Dá um tempo. — o moreno falou.

Kyungsoo gargalhou.

— Tá pegando o Jungwon, Park?

Antes que um dos dois mencionados pudesse comentar algo, mais três jogadores chegaram e tomaram seus lugares. Logo, todos passaram a comer em silêncio.

Ao longo em que comiam, mais alguém do time chegava e se sentava, ignorando a presença do ruivo. Uns até conversavam com ele, mas nada de mais. Até que um deles resolveu puxar assunto.

— Eu realmente estou surpreso de te ver aqui, ruivinho.

Assim que Doyoon falou, Jay ergueu a cabeça com uma rapidez assustadora. Por que ele chamou Jungwon de “ruivinho”? Até onde sabia, apenas ele chamava o mais novo assim.

— Por que tanta surpresa? Vai me expulsar porque não faço parte do time?

— Não, amor, esse negócio de ser mesa do time não existe. — sorriu de canto — Mais e aí, o que achou da noite passada?

Jungwon revirou os olhos.

— É sério que você quer falar de sexo enquanto todos comem, Doyoon? — Jay perguntou, empurrando a carninha da bochecha com a língua.

— Ué, mas você também fala.

Park engoliu o orgulho.

— É diferente.

— É diferente por quê? É a mesma coisa, cara.

Park jogou os hashis com força na bandeja e encarou o co-capitão com raiva transbordando de seus olhos.

— Parem de infantilidade os dois. — protestou Niki.

O moreno voltou a comer em silêncio e Doyoon sorriu maldoso. Voltou sua atenção ao ruivo.

— Você ainda não me respondeu, Jungwon.

O ruivo o olhou com indiferença.

— Achei normal, Doyoon. — respondeu seco.

Os caras do time quase engasgaram ao prender a risada assim que viram a cara que o co-capitão fez.

— Como assim normal?

— Normal, Doyoon. — deu de ombros — Você fode como qualquer outro. Não é diferente.

Dessa vez, ninguém conseguiu segurar a risada. Todos explodiram em galhofas altas.

— Eu fodo como todo mundo? Que merda é essa? Você nunca vai transar com um cara melhor que eu.

Jungwon sorriu.

— Se você se garante tanto assim, por que não fez melhor? — rebateu, certeiro. — Confesso que fiquei até com tédio.

— Ora, seu...

— Você é bonito, Doyoon. Muito bonito. Mas fode mal.

Jay, que até então sorria baixinho, gargalhou alto, levando as mãos até a barriga para conter a dor. Lágrimas rolavam de seus olhos.

Os outros não estavam tão diferentes, sorriam igual um monte de hienas ou como se estivessem vendo palhaços.

— Foi mal, cara, mas com uma dessas eu nunca mais pegava ninguém. — proferiu Minseok, rindo alto.

— Eu também não. — concordou Niki — E olha que eu mal pego alguém.

Jungwon  ldeu de ombros para tudo aquilo.

— Também não era pra tanto, não é, Yang ? — falou vermelho por puro ódio e constrangimento.

— Mas eu só falei a verdade. Se bobear, até o Hansol é melhor que você.

Aquilo fora o cúmulo para o co-capitão se calar.

— Valeu, gracinha, se quiser repetir me procura — Kang sorriu galanteador.

Jungwon  devolveu o sorriso.

Jay revirou os olhos.

Depois disso, voltaram a comer calmos. Mas Do não deixou o assunto morrer ao ver a feição para baixo do amigo.

— Tenho medo de algum dia transar com o Jungwon  e ele me dá um fora desses. — balbuciou — Não fica assim não, Doyoon, você é ótimo. — fez um joinha para ele.

— E você já deu pra ele? Como sabe que ele é bom? — Niki perguntou, despertando a curiosidade de todos.

— Fica na tua, Riki.

— Então você deu, né?

Todos voltaram a rir e Kyungsoo também ficou de cara amarrada.

Jay ainda estava calado.

— Ei, Park. — chamou Minseok — O gato comeu sua língua?

Park deu de ombros.

— Não. Ele te comeu. — rebateu, arrogante.

— Poxa, mano, o que eu te fiz?

— Me deixa, Lee.

Minseok ergueu as mãos em redenção.

O jantar seguiu assim, com poucas conversas e sempre alguma provocação.

Jungwon percebeu que Jay estava muito quieto e não falava quase nada, apenas respondia alguma provocação dos jogadores. Ele parecia estar inquieto com alguma coisa mas não deu tanta importância.

— As votações para sua reeleição foram adiadas, não foi, Jungwon? — Hansol quebrou o silêncio.

— Sim. Ficaram para amanhã.

— Por quê?

— Não sei, não me disseram muita coisa.

Kang assentiu.

— Vou votar em você.

— Eu também. — confirmou Niki. — O Sunghoon falou que ia votar em você também.

— Acho que também vou. — falou Kyungsoo. — E por falar em Sunghoon, cadê ele mesmo?

— Na mesa ao lado, com o namoradinho.

Ele olhou na direção indicada e Jungwon fez o mesmo.

O jogador comia tranquilamente na mesa ao lado junto de Sunoo, Heeseung e Jake, o namorado do penúltimo citado. Mas de vez em quando, olhavam para a mesa em que estavam e o ruivo sabia o motivo. Desviou o olhar.

— Acho que todos do time vão votar em você, Jungwon. — Minseok ditou.

— Eu não vou. — Doyoon rebateu — Vou votar nulo.

— Também, depois de uma lapada daquelas que você levou.

— Cala a boca, Niki. Você só fala merda.

Niki riu fraquinho e mostrou o dedo do meio para ele que revirou os olhos.

Quando estava prestes a terminar sua refeição, o ruivo novamente encarou o tatuado. Ele estava muito, muito calado, e sua expressão não era a das melhores. Jungwon não se importava, afinal, até que estava confortável ali, mas esse momento passou assim que ouviu uma voz fina o chamar.

— Yang Jungwon!

Todos da mesa encararam a dona da voz que vinha tão furiosa quanto um lobo marcando território.

O ruivo revirou os olhos já presumindo toda merda que aquilo iria dar.

— O que pensa que está fazendo aí? — gritou em plenos pulmões, atraindo ainda mais olhares — Seu intruso!

Ela se aproximou com pressa e parou bem ao lado do garoto.

— O que você quer, Soha?

— Que você saia daí!

Todos os jogadores e até mesmo Jay, ficaram sem entender o motivo daquela gritaria toda e o porquê da garota querer que Jungwon  saísse da mesa.

— E por que eu iria sair?

— Porque se você não percebeu, queridinho, essa mesa é apenas para o time de basquete, então não tem porque você está aí.

— Eu não te devo satisfações, Soha.

Assim que a Im ia rebater, alguém foi mais rápido.

— Pois é, ele não te deve nada, sai daí.

— Tá querendo comer ele também, Niki? — falou com raiva.

— E se eu tiver? Está irritadinha porque ele é mais gostoso do que você? Não é à toa que até o Jay já tá caindo de quatro pelo Jungwon.

Assim que Niki deixou aquilo explícito, Soha explodiu. E surtou ainda mais quando Jay sequer se manifestou.

— Você vai deixar ele falar assim comigo, Jun?

— Se vira, Soha, você já tem idade suficiente.

— Eu só tenho 16 anos, Jay!

— E eu 19.

A menina bufou irritada.

— Então se ele pode sentar aqui, eu também posso.

— Não pode não. — rebateu Hansol.

— E por que não?

— Porque tu é chata pra cacete, garota. Nem sei como o Park te aguenta.

— Você que é chato!

— Soha, já deu. Sai daqui. — Jay interferiu.

A morena ficou ainda mais irritada.

— Então você prefere ele do que eu?

— Sinceramente? Nesse momento prefiro. — respondeu — Eu não tenho nada com o Jungwon, tá legal? A gente só é amigo.

Soha gargalhou alto.

Até mesmo Jungwon teve vontade de rir. Amigos?

— Amigos? Vocês vivem brigando! E ele sempre está te provocando para conseguir alguma coisa com você.

— Eu não te devo nada, Soha.

— Deve sim! Eu sou sua namorada, Jay!

Todos arregalaram os olhos, igualmente surpresos.

— Namorada? — Jungwon  falou num tom brincalhão. — Como você é iludida, Soha! É capaz do Jay só ficar com você porque não têm opção.

— Mentiroso! Só está dizendo isso porque quer me afastar do Jongseong!

— Se prefere pensar assim. — deu de ombros. — Bom, eu já acabei de comer então vou indo. Obrigado pela companhia, gente. — agradeceu aos jogadores que sorriram — E não fica mal pelo o que eu disse, Doyoon. Talvez no futuro você melhore e quem sabe eu te dê uma segunda chance?

Falou sorridente e o co-capitão o encarou com expectativas. Antes de sair, sentiu alguém segurar seu braço.

— Não vai me agradecer também?

— Pelo o que exatamente? — ergueu uma sobrancelha.

Jay o encarou esperançoso e o ruivinho sorriu ardiloso. Ele não iria perder a oportunidade de fazer a garota ficar ainda mais irritada.

— Ah, sim, Jay, lembrei. Obrigado por pagar meu jantar. Fico te devendo. — olhou para a morena que estava boquiaberta e deixou um beijo na bochecha do capitão antes de ir embora.

— Caralho. — Hansol proferiu, surpreso.

— Eu não acredito nisso, Park Jay! Você pagou comida pra ele?

Park revirou os olhos e não respondeu.

— Se ele pagou eu não sei, mas os dois estavam sentados aqui sozinhos antes da gente chegar — comentou Niki, sorrindo sapeca.

— Eu não acredito em você, cabeça de pasta de dente.

— Então pergunte aos caras.

Ela nem precisou perguntar porque todos assentiram rapidamente.

— E se ainda duvida, pergunte a quem quiser. Todos que estavam aqui viram.

Soha bufou indignada e saiu batendo seus pés.

Os jogadores riram alto.

— Park, você está conquistando todos os corações. Nunca pensei que ia ver alguém disputar você, ainda mais o Jungwon . — Hansol provocou.

— Ele não estava me disputando, idiota. Só tava retrucando as provocações da Soha.

— Sei.

Jay revirou os olhos outra vez e também saiu, deixando o time que ainda ria para trás.

• 🥕 •

Já era o dia seguinte, e as aulas só aconteceriam no turno da manhã, já que a tarde seria reservada apenas para as votações.

Jungwon entrou na sala de aula com uma expressão cansada. Ele não tinha dormido bem depois do jantar com o time de basquete na noite anterior. Ele ainda se lembrava do jeito que Jay o olhava por cima da mesa quando pensava que ele não notaria.

E para piorar, Soha ainda encheu sua cabeça e ele teve uma insônia insuportável.

— Bom dia, Jungwonie.

— Bom dia, Sunoo.

O ruivo sentou-se em sua cadeira de sempre. Começou a tirar todas as suas coisas para o início da aula, mas sua atenção foi tomada pelos dois amigos que o encaravam com sorrisos maliciosos.

— O que foi, hein?

— Como foi o encontro com o Park?

— Não foi um encontro, Heeseung. O Jay só ficou enchendo minha paciência para jantar comigo e eu aceitei.

— Ah, claro. Acreditamos muito em você. — Sunoo se juntou à provocação. — Você deixou a gente para ir jantar com ele.

— Vocês dois são uns babacas. — Jungwon disse, jogando sua mochila na cadeira ao pegar tudo o que precisava. — E eu de qualquer forma, ficaria de vela se tivesse ido jantar com vocês.

— Para com essas desculpas esfarrapadas, Jungwon. Nós já sabemos que você gosta dele. Até discutiu com a Soha por ele.

— Aquele rebelde tatuado é um imbecil, arrogante que só sabe me irritar. Eu não suporto ele. E eu não discutir com a Soha por causa dele.

— Então por que você discutiu com a magricela? — Tae perguntou, arqueando uma sobrancelha.

— Porque ela é uma chata, iludida. Ela não se contenta que o Jay só quer ela como sobra.

— Até porque você que é o prato principal.

Sunoo falou fazendo o ruivo corar e Heeseung se entalar do tanto que riu.

— Estou começando a achar que vocês realmente são meus inimigos.

— Não fica chateado. O Jay até te elogia quando te chama de gatinho.

— Ele não me elogia, Sunoo. Isso é só um apelido besta. — o ruivo explicou, corando bem mais.

— Isso é um elogio, vindo dele. — Heeseung disse, rindo. — Ele nunca fala bem de ninguém. Ele deve estar caidinho por você.

— Ele não está caidinho por mim. Ele me odeia. E eu odeio ele. — afirmou, cruzando os braços.

— Sei... — Sunoo e Heeseung disseram em uníssono, trocando um olhar cúmplice.

Jungwon suspirou e olhou para o relógio. Ele esperava que a aula começasse logo, para acabar com aquela tortura. E sim, já havia percebido a forma em que o moreno passou a tratá-lo. E não queria admitir, nem para si mesmo, que talvez houvesse uma faísca entre ele e o capitão. Era loucura. Ele não queria se envolver com alguém que o irritava tanto.

A porta da sala foi aberta e o ruivo acompanhou o movimento com esperanças, mas era apenas o professor. Ele suspirou frustrado por não ser quem ele esperava. Mas quem estava esperando, afinal?

Os dois Kim notaram a frustração do amigo, mas preferiram não comentar para não deixá-lo ainda mais irritado.

Assim que o professor iria começar a aula notou que havia esquecido seu notebook.

— Nossa, eu ando tão ocupado ultimamente que até perco meus pertences. — choramingou. — Jungwon, querido, poderia ir pegar meu notebook na sala dos professores?

— Claro!

O ruivo sorriu e levantou-se de sua carteira.

Já fora da sala, seguiu andando normalmente até dobrar no primeiro corredor.

Passando pela sala de música, algo chamou-lhe a atenção. Sendo mais claro, um barulho. Um barulho muito suspeito. Curioso como era, foi se aproximando e sabia que provavelmente encontraria alguém transando ali, mas não deu importância. Com cuidado, abriu um pouco a porta e pela fresta, viu o que preferia não ter visto.

Um garoto estava de pé, enquanto outro, um pouco menor, estava entre suas pernas. O menino menor engolia com gana e maestria o pênis do outro sem ligar para onde estava. Tampando a boca para não fazer barulho, Jungwon ficou ainda mais perplexo ao notar que o garoto que estava recebendo um belo de um boquete na sala de música, era Jay. E ele parecia gostar.

Arrependido pelo o que viu, Jungwon fechou os olhos com força. A frase “Lugar errado, horário errado” nunca fez tanto sentido. Engolindo em seco, o ruivo saiu de fininho deixando a porta ainda aberta e correu rápido até a sala dos professores pegando o notebook e voltando ainda mais rápido.

Quando retornou a sala de aula, estava mais vermelho que um pimentão. Ao ser questionado pelo professor o motivo de seu rosto estar tão corado, falou que foi porque correu. O professor pareceu acreditar, mas os seus melhores amigos não.

Jungwon ignorou as perguntas dos amigos até o fim da manhã e agora já estava na hora das votações terem início. O ruivo se encontrava em cima do palco, atrás do palanque, pronto para falar sobre suas propostas, mas estava desconcertado. E tudo ficou ainda mais sufocante quando seus olhos bateram no capitão do time que sorria sarcástico. Até parecia saber de algo.

Balançando a cabeça para espantar os pensamentos intrusos, se preparou para falar. Sorriu olhando para todos reunidos.

— Boa tarde, colegas estudantes, professores, diretores e convidados. Eu sou Yang Jungwon, o atual presidente do conselho estudantil e estou aqui para pedir o seu voto para a reeleição. Eu agradeço a todos por me darem a oportunidade de representar os interesses e as necessidades dos alunos da nossa escola. — foi interrompido por uma chuva de palmas — No ano anterior, o conselho realizou várias ações para melhorar a qualidade da educação, do lazer e da participação dos estudantes. Nós organizamos campeonatos esportivos, festas temáticas, debates sobre temas relevantes, campanhas solidárias e muito mais. Também levamos as nossas reivindicações à direção, como a melhoria da infraestrutura, a ampliação do acervo da biblioteca, a revisão do calendário de provas e a contratação de mais professores. — falou orgulhoso de todo seu empenho — Algumas dessas demandas já foram atendidas, outras ainda estão em negociação. Mas nós não vamos desistir de lutar por uma escola melhor para todos. Por isso, eu peço o seu apoio para continuar esse trabalho neste novo ano.

Falou o que era preciso e calou-se, dando espaço para dúvidas.

— E sobre as propostas para esse ano? — uma garota baixinha do segundo ano o questionou.

— Eu tenho novas propostas, como criar um jornal estudantil, promover oficinas culturais, incentivar a pesquisa científica, fortalecer o movimento estudantil e defender os direitos dos jovens. Eu acredito que, juntos, nós podemos fazer a diferença na nossa escola e na nossa sociedade. Também pretendo criar campanhas de proteção e acolhimento para pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ para que elas se sintam seguras no nosso colégio. Por isso, eu conto com o seu voto. Obrigado.

Finalizou tudo o que precisava falar e foi aclamado por mais palmas.

Logo, todos os alunos, professores e funcionários foram se espalhando para colocarem seus votos nas urnas. Não demorou para que todos votassem.

Jungwon estava nervoso enquanto esperava o resultado da eleição para o presidente estudantil. E até mais do que deveria, já que nunca ficou tão mal esperando um resultado.

Ele era o único candidato, mas isso não significava que tinha o apoio de todos. Sabia que muitos alunos o viam como um nerd metido, que só queria mandar na escola ou o odiavam pelo simples fato dele ser um ótimo aluno, o que acontecia por parte da maioria. Mas na verdade, ele só queria fazer a diferença, só que ninguém parecia entender isso.

Enquanto esperava ansiosamente pelo resultado, atrás do palanque, olhou para o lado e viu o time de basquete da escola, o encarando. Jungwon não conhecia todos eles, apenas Hansol, Kyungsoo, Doyoon, Sunghoon, Niki, Minseok, e claro, Jay.

Os jogadores estavam torcendo por ele e seus amigos também. Sunoo estava abraçado com Sunghoon e um pouco mais afastado, Heeseung tinha a cintura envolvida pelo braço do namorado, mas mesmo assim ainda mostravam seu apoio a ele.

A atenção do ruivo foi tomada quando a diretora Somin subiu ao palco e anunciou que a apuração dos votos havia terminado. Ela pediu silêncio e abriu o envelope, fazendo suspense.

— Como todos nós já sabíamos, nosso querido Jungwon continua em seu posto de presidente do conselho estudantil! — ela disse, com um sorriso admirado. — Uma salva de palmas!

A escola explodiu em aplausos e vaias. Muitos alunos desejaram felicitações por sua conquista e outros proferiram ofensas. A diretora ainda tentou advertir, mas eram muitas vozes contra a sua única.

Jungwon não se importou com as palavras maldosas e sentiu um misto de alívio e tensão. Agora era sua vez de falar. Segurando as extremidades do palanque com força, ele suspirou, e começou a agradecer.

— Eu estou muito feliz e honrado por ter sido reeleito como presidente do conselho estudantil. — sorriu — Eu quero agradecer a todos que confiaram em mim e no meu trabalho. Vocês são a razão da minha motivação e do meu compromisso. — fez uma pausa para receber os aplausos — Eu espero que possamos trabalhar juntos pelo bem comum. Sei que o desafio é grande, mas não vou decepcionar vocês. — novamente fez uma pausa, dessa vez para recuperar o fôlego — Eu, Yang Jungwon, vou fazer o meu melhor para representar os interesses dos alunos e melhorar a nossa escola. Mas para que isso seja possível, eu preciso da colaboração de todos. Dos estudantes, dos professores, dos diretores, dos funcionários e dos familiares. Quero ouvir as suas opiniões, as suas sugestões, as suas críticas. Eu quero construir um conselho democrático, participativo e transparente. Eu quero que vocês se sintam parte deste projeto. Porque essa causa não é só minha, é de todos nós. Muito obrigado.

Assim que terminou o seu discurso, desceu do palco, sendo cumprimentado por alguns alunos afobados, professores, e seus aplausos eufóricos. Também recebeu alguns olhares de desprezo e de inveja.

Ignorando os olhares julgadores, o ruivo se dirigiu à urna, onde estavam os votos. Queria ver quantos votos nulos e brancos havia. Também tinham alguns papéis com mensagens. Pegou um e leu.

— “Yang Jungwon é um babaca.”

A mensagem estava escrita com letras garrafais. Ele suspirou e pegou outro papel, lendo apenas para si.

— “Jungwon é um viadinho de merda, não merece estar onde chegou.”

Uma mensagem homofóbica. Lógico que teria uma daquelas, mas ele não se ofendeu. Rasgou o papel em pedacinhos e pegou outro.

— “Jungwon não me representa.”

Esse estava escrito com uma letra delicada. Ele reconheceu a letra. Era de Soha. Revirou os olhos.

Prestes a descartar aquele papel como os outros dois e pegar mais um, foi interrompido por um risinho cínico. Ele olhou para aquela direção e viu que Soha o encarava com um sorriso irônico.

Ela se aproximou dele, falando com ironia.

— Parabéns, Jungwon. Você conseguiu o que queria. — esbarrou no ombro do ruivo intencionalmente — Agora você continua sendo o dono da escola. Mas não pense que eu vou te obedecer. Eu não reconheço a sua autoridade.

Sem paciência para mais uma discussão com a garota, Jungwon decidiu ser franco.

— Eu não me importo com o que acha ou não, Soha. Eu não sou e nunca fui o dono da escola, até porque não sou o único estudante daqui. — suspirou — Se hoje sou presidente estudantil é porque eu me esforcei para estar aqui. Foi mérito meu.

— Ah, agora vai me dizer que meritocracia existe?

— Não foi o que quis dizer, você me entendeu errado.

Soha esbarrou em seu ombro outra vez, causando uma dor latente ao que os ossos se chocaram. Jungwon respirou fundo.

— Você é um tirano que quer impor as suas ideias aos outros. É um mentiroso que só se importa consigo mesmo. Você é um...

Soha continuaria com suas chacotas, mas não terminou a frase, pois foi interrompida por uma voz grave e firme.

— Chega, Soha. Você já falou demais.

Jungwon olhou para o outro lado e viu que a pessoa que o defendeu, era Jay.

Ele estava com uma expressão séria e intimidadora. Encarava a líder de torcida com desdém e pouco se importava com o que ela iria achar.

— Você vai mesmo defender ele? Porra, Jay!

Park revirou os olhos e olhou para a garota com desaprovação.

— Você pode não gostar dele, Soha, mas ele é o melhor que temos. — profetizou — O que seria da Kookmin High com um presidente como eu? Como você? — esperou que ela respondesse mas ela se manteve calada. — Nada, Soha. Não seria nada. E sabe por quê? Porque nós não nos importamos com ninguém além de nós mesmos. Ao contrário do Jungwon que sempre pensa no outro antes de pensar em si próprio.

A morena começou a ficar vermelha de raiva enquanto Jungwon olhava para o tatuado completamente surpreso.

— O Jungwon é inteligente, honesto e sincero. Ele tem boas ideias que podem elevar a fama da escola. Ele quer o bem de todos e por isso é um líder de verdade. Nos dois deveríamos aprender com ele.

Soha ficou sem palavras. Não esperava aquela reação de Jay. Ela pensou que ele ficaria do seu lado por os dois terem um relacionamento, e também achou que o moreno odiasse o ruivo. Mais de uns tempos pra cá, ele havia mudado.

A garota não entendeu porque o garoto que seria seu namorado em breve, estava defendendo alguém como Jungwon. Ela sentiu uma pontada de ciúme e de raiva. Na verdade, sentiu muito ciúmes. Irritada, bateu o pé no chão e deu as costas.

Jungwon ficou sem reação, sem saber o que dizer ou como agir, e ficou ainda mais confuso quando Jay sorriu pequeno e também saiu, o deixando sozinho.

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