Capítulo 15 | Grandes Perdedores
"Talvez seja tarde de mais para resgatar o lugar que um dia chamamos de lar."
A frase dita por papai na carta que Jake acabara de ler, ecoava em minha mente. Era impossível de mais para ser verdade.
O meu lar.
Apesar de tantos esforços, meses de guerra e milhares de soldados perdidos, tudo havia sido vão. Todo e qualquer esforço. Todos os meses que fiquei escondida como uma fora da lei, longe de todos que amo, longe da mamãe, do papai... Tudo isso para sairmos como perdedores e desonrados?
Cansada, cansada, cansada...
Eu queria não ter nascido assim. Eu queria não ter nascido. Tudo era tão complicado, tão complexo, minha cabeça estava a mil, meu corpo tremia, suava frio e eu já não conseguia respirar.
Eu conseguia escutar vozes me chamando, mas meu corpo estava cansado demais, pesado e dolorido. Foi quando eu percebi que meu corpo estava sobre o chão e Jake chorava compulsivamente sobre mim ao mesmo tempo que pressionava meu abdômen totalmente ensanguentado.
A cada segundo que se passava meu corpo se tornava mais pesado, mais do que eu podia suportar. Tudo se tornou como borrões e frases incompreensíveis.
Aos poucos fui adormecendo com aquela sensação de que tudo finalmente havia acabado.
Dor.
Era tudo que eu conseguia sentir ao acordar naquele local escuro e imundo que cheirava a mofo. Finalmente os Rebeldes teriam o que tanto sonhavam, a tão esperada vingança.
Eu estava em cima de um cobertor forrado ao chão e agulhas estavam enfiadas em meu braço, elas me ligavam à uma bolsa de soro, e uma espécie de corrente prendia meu pescoço, como uma coleira. Era terrível e agonizante.
O local era escuro, não havia nenhum resquício de luz, só uma enorme porta de ferro ao fim do quarto, que era pequeno e sujo. As paredes continham marcas de sangue e várias coleiras, como a que prendia meu pescoço, estavam pressas a parede, ao ver era totalmente macabro.
Meu corpo tremia.
O que teria acontecido com Jake, Mel, Lia e Ridd? Eles estavam em quartos assim como eu? Ou o pior havia acontecido? Balanço a cabeça, para afastar esses pensamentos e, sem que eu percebesse, dou-me a chorar, ao passo que tento me levantar. Falho miseravelmente, pois logo uma dor aguda se espalha por meu abdômen, solto um grito de dor e logo vejo minha camisa sendo encharcada pelo sangue.
Meu abdômen estava enfaixado, quem quer que tenha feito isso não queria que eu morresse, pelo menos não agora. Eu havia tomado um tiro ou algo parecido, era óbvio, mas não em um lugar extremamente fatal.
O rei dos rebeldes me quer viva.
- Vamos, você não quer apanhar de novo, não é? Se quiser posso chamar meu amigo pra te dar mais um lição - ouvi alguém, com uma voz totalmente repulsiva, dizer através da porta. Alguém ia entrar.
A porta foi aberta e alguém foi lançado de maneira tão bruta que seu corpo chegou a deslizar ao chão. O homem ao pé da porta se aproximou e distribuiu dois chutes nas costelas do homem que nem se mexia.
- Por f-favor... - falou com dificuldade, em qualquer lugar eu conheceria aquela voz.
- JAKE! PARE COM ISSO! - gritei pelos pulmões e senti mais fisgadas de dor.
O homem finalmente parou e me encarou por uns segundos, depois de assimilar algo, caminhou em minha direção. Quando se aproximou o suficiente, agachou ao meu lado. Meu estômago estava revirado.
- Uma pena não poder brincar com você, ruivinha - passou a mão suja por meu rosto. - Você não é de se jogar fora. - Um sorriso de canto pairava em sua face, fiquei enjoada de maneira instantânea e não consegui me mexer.
- Hey, Bill! Não mecha com os brinquedos do chefe, você sabe as consequências. - falou uma voz à porta.
Isso bastou para o homem cair em si, deixou um beijo molhado em minha mandíbula e saiu pela porta, ouvi mais de uma tranca sendo travadas. Era quase impossível de escapar por ali.
Eu me sentia suja, ser tocada por aquele homem me causava repulsa e ânsia de vômito, banho algum me tiraria aquela sensação.
Ouvi gemidos sofridos e lembrei de Jake, através da penumbra eu conseguia o ver caído ao chão, como um saco de batatas. Meu peito se apertava cada vez mais e a dor só aumentava, junto das fisgadas.
- Jake... - falei, era terrível vê-lo daquela maneira. - Jake Will! - o chamei alto o suficiente para minha voz ecoar pelo quarto. - Você é forte Jake, levante-se. - a essa altura eu já me tremia e temia o pior. Não havia nenhum sinal de Jake.
- Me d-desculpe... Eu f-falhei... - sussurrou de maneira quase inaudível. Sem que eu pudesse esperar, o corpo de Jake Will se chacoalhava ao chão em múltiplos soluços que eram acompanhados por um choro alto e angustiante. Ele se espremia contra si, como se quisesse desaparecer, evaporar.
Era como eu me sentia.
- Estamos nas mãos deles... - falou com angústia. - E-eu não consegui te proteger. - soluçou.
- O que fizeram com você, Jake Will? - Jake Will falava com dificuldade, as fraturas deviam ser realmente muito graves.
- Eles me t-torturaram, C-charlie - A dor era presente em sua voz. - fizeram coisas t-terríveis comigo - falou por fim e se deu a chorar.
Era como se...
Meu olhos estavam arregalados, as lágrimas escorriam sem ao menos eu permitir. Era impossível de acreditar.
Algo havia sido tirado de Jake Will, algo que nunca, talvez, fosse recuperado. Era como se uma parte de mim estivesse morta por saber disso.
Era como se eu quisesse matar todos eles, da pior forma possível, por terem encostado em Jake.
Ódio
Era o último sentimento que eu sentia naquele momento.
O pior dos ódios.
Meu corpo àquela altura já estava completamente ensanguentado, eu conseguia sentir a ferida latejar. Era uma dor fora do normal, meu estômago estava revirado.
Sem conseguir suportar a dor e o enjôo, vomitei, o que só fez a dor aumentar, junto do meu desespero quando vi o que eu havia vomitado.
Sangue.
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