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8 de Setembro de 2018
7h32

 Se havia algo que Teixeira não conseguia fazer com que seu corpo acostumasse era com os flashes. Detestava aquela parte. As luzes estalando bem em frente a seus olhos sempre lhe davam dor de cabeça.

 Já havia amanhecido, ela estava acompanhando o registro da casa da sra. Cecília. O delegado havia encerrado o expediente há cerca de uma hora, quando a equipe da capital chegou no local. O homem estava visivelmente no limite. Trocou algumas palavras com Teixeira, se despediu dos pais da vítima e foi embora.

 A família da menina Ana Clara esperava lá embaixo. O irmão estava dormindo na casa de algum vizinho. A mãe parecia prestes a sumir dentro de um cobertor, sentada no banco da viatura. Havia tido crises de choro e momentos de total apatia. Em certo momento seus gritos invadiram todo o lugar, o tipo de grito que despertou algo dentro da investigadora, um grito quase primitivo, de uma mãe entendendo que havia perdido sua filha. Teixeira quis fechar a janela naquele momento, escapar daquele som agonizante, mas não podia mexer em nada.

 Já o pai da menina parecia não ter parado de se mover nem um minuto. Andava para lá e para cá na rua, falava com a ex-esposa brevemente e seguia seu caminhar sem rumo. Fumou toda sua carteira de cigarros, saiu para comprar outra e ficou fora um tempo, reaparecendo depois. Não fumou mais.

 Teixeira esperou que a equipe terminasse o serviço, então os acompanhou pelas escadas. O sr. Bosco os encontrou na calçada.

— A casa já está liberada. A outra equipe também já acabou com a sua residência, sr. Bosco. — Teixeira informou.

— Agora que essa perda de tempo foi concluída, podemos focar em achar o assassino da minha filha? — o tom dele estava ríspido, uma veia saltada na testa.

— Sr. Bosco, estamos seguindo o protocolo, tenha certeza que tudo isso é extremamente necessário para ajudar no caso.

 O homem lançou um olhar de descaso para a investigadora.

— O que vamos fazer agora?

— Preciso pedir que a sua ex-esposa me acompanhe. Gostaria de ver exatamente o percurso feito pela sua família ontem a noite.

— Eu não vou voltar.

 Os dois se viraram para a viatura. Cecília balançava a cabeça.

— Cecília... — Ricardo começou, indo até ela.

— Eu não vou. Eu não vou.

— Meu amor, a investigadora precisa que você mostre...

— Eu não vou! — gritou, encarando os olhos do ex-marido com raiva. — Eu não vou voltar praquele lugar.

 Teixeira se aproximou do carro.

— Eu entendo que o que estou pedindo é algo doloroso, sra. Cecília, mas eu preciso remontar os passos de vocês.

— Eu já falei tudo. Já falei. O que mais você quer?

— Preciso da senhora no local.

 A mulher continuou a balançar a cabeça, afundou o rosto no cobertor e começou a chorar.

— Eu não quero voltar praquela casa, Ricardo, praquela casa não. Não . Eu não vou conseguir.

— Meu amor...

— Você sabe. Você sabe. — ela ergueu o rosto pálido, os olhos vermelhos e apertados pelo inchaço. — Você sabe que eu não consigo. Você sabe.

 Ricardo tocou a bochecha dela e olhou para a investigadora.

— Isso é realmente necessário?

— Infelizmente sim.

— Eu vou junto, Cecinha, eu vou com você. Certo? Eu vou estar lá.

— Eu... — a mulher soltou um lamento. — Eu vou até a rua. Só até a rua. Eu não vou pra casa. Pra casa não. Tá bom? — agora ela olhava para Teixeira, esperando uma confirmação.

 Ricardo agarrou seus ombros e a chacoalhou de leve, obrigando-a a olhá-lo.

— Se acalme. — sua voz era quase um comando. Depois amaciou a voz. — Eu estou com você, meu amor. Está tudo bem.

 A mulher moveu as pernas, que estavam no asfalto, para dentro do carro. Ricardo fechou a porta e se moveu para o banco de trás da viatura. Teixeira fez um sinal para Pereira e também entrou no carro.

 A viagem até a Marechal Pinheiro era bem curta. Foi quase toda em silêncio, mas enquanto a viatura esperava que um sinal abrisse, o sr. Bosco falou:

— Foi você que a encontrou?

 Teixeira o olhou pelo retrovisor.

— Sim, senhor.

— E como ela estava?

— Ricardo, por favor. — Cecília gemeu.

— Eu quero saber se a violentaram.

 A mulher virou o rosto para a janela.

— O corpo da filha de vocês está sendo analisado, logo teremos respostas.

— Oh Deus, que não tenham... Deus. — ele sussurrou.

 O sinal ficou verde e o carro avançou. Viraram na rua Marechal Pinheiro alguns minutos depois e Cecília ficou inquieta.

— Aqui. Pare aqui. — pediu, batendo nervosa na porta do carro.

 Teixeira estacionou em frente a uma casa e puxou o freio de mão.

— Eu parei o carro aqui para que a Clara e o Miguel descessem.

— Podemos sair um minuto? — Teixeira pediu.

 Cecília olhou pelo para-brisa por um segundo, depois concordou. Do lado de fora, a investigadora tentou medir a distância daquele ponto até a casa do sr. Bosco, constatando que agora, a luz do dia, era possível ver melhor a residência no final da rua.

— Estou vendo a casa. — Teixeira falou, as mãos na cintura.

 Cecília havia deixado o cobertor na viatura, então abraçava o próprio corpo. Ainda usava as mesmas roupas do dia anterior. Parecia de alguma forma menor, como se alguma força houvesse sugado parte do seu peso.  Olhou brevemente naquela direção, mas depois se virou de costas. Teixeira continuou.

— A senhora parou o carro bem aqui?

— Do outro lado da rua, eu vinha no sentido contrário.

— Sim, claro. Eu dei uma olhada nas anotações do delegado Domingos. A senhora disse que usou o WhatsApp e depois saiu do carro, porque seu filho estava demorando.

— Sim, foi isso.

— E a senhora o viu?

— Não, eu não consigo ver a casa do Ricardo daqui. Minha vista não é lá essas coisas.

— Depois a senhora voltou para o carro?

 Ela precisou pensar um pouco.

— Sim, eu tava dentro quando o Miguel chegou. Ele bateu na janela pra eu abrir a porta.

— Perguntou por quê ele demorou para voltar?

— Ele disse que andaram bem devagar, porque a Clarinha tava com sono.

 Teixeira concordou com a cabeça.

— A senhora lembrou de algo desde a última vez que nos falamos? Se viu alguém?

— Não, eu já falei tudo o que eu sei.

 A investigadora lançou mais um olhar em direção a casa, apertando os olhos para o sol. Eram não mais que oito da manhã, mas o dia já começava a mostrar sinais de calor. Seu corpo também já apontava cansaço, mas ainda havia trabalho a ser feito.

— Muito obrigado pela colaboração de vocês dois. — falou, se virando para o casal.

— Qual o próximo passo? — o sr. Bosco perguntou, observando alguns curiosos se reunindo, reparando neles.

— Vamos entrar em contato para mantê-los informados, não se preocupem.

— Como eu não vou me preocupar? Minha filha está morta. E o filho da puta que fez isso está por aí, solto. Eu quero saber de cada movimento que vocês fizerem, me ouviu?

 Teixeira ergueu a mão, pedindo calma.

— Sr. Bosco, eu posso imaginar a angústia que vocês...

— Você não pode! — o homem gritou. Ele olhou ao redor, notando a atenção em si, então baixou o tom, se aproximando um passo. — Você não sabe o que a minha mulher está sentindo. Você só está perdendo tempo.

 A investigadora desviou o olhar e balançou a cabeça.

— Recomendo irem para casa descansar um pouco, serão chamados mais tarde.

 Cecília se apoiou no peito do ex-marido, ainda segurando os próprios ombros.

— Vou levar você pra casa. — Ricardo falou, a abraçando.

— A gente precisa contar pro Miguel. — a voz de Cecília soava como vindo do fundo de um buraco.

— Eu sei.

— Vocês estão sem carro, eu posso... – Teixeira começou, mas foi cortada.

— Obrigado, mas preciso caminhar um pouco. Sinto minhas pernas dormentes. — Ricardo falou. — Você vem comigo, não é Cecília?

 A mulher apenas balançou a cabeça. O sr. Bosco trocou um olhar e um aceno com Teixeira e os dois terminaram de descer a rua, sumindo na volta da esquina.

 A investigadora se colocou em ação imediatamente. Travou a viatura e seguiu a calçada até a padaria onde havia visto a câmera de segurança. Era um espaço apertado, com o mostrador de pães e bolos dividindo o local ao meio. Estava cheio de clientes, por ser a hora do café da manhã. Teixeira fez contato visual com um dos atendentes, um rapaz que ainda deveria estar na escola, e o chamou com um gesto da mão.

— Pois não? — o rapaz falou, ao aparecer na calçada. Usava um avental branco sobre a roupa e uma touca.

— Eu sou a investigadora Teixeira e estou à frente da investigação do caso Ana Clara. — começou, mostrando o distintivo.

— Ah, a menininha dessa rua? Eu fiquei sabendo.

— Exato. Eu gostaria de falar com o dono da padaria.

— Ele tá lá dentro, é o seu Gilson. Vou chamar pra senhora.

— Seja discreto, por favor.

— Pode deixar.

 O rapaz se apressou, quase correndo para dentro da padaria. Uma mulher que estava saindo do local olhou estranho para Teixeira. Um minuto depois, um senhor de uns cinquenta anos, com a barriga lutando contra a blusa e o avental, sujo de farinha até os cotovelos apareceu.

— Bom dia, o Otavinho disse que a senhora é da polícia. — o homem falou, sem rodeios.

 Teixeira mostrou outra vez o distintivo.

— Estou trabalhando no caso da menina Ana Clara.

— Sim, todo mundo já tá sabendo. Uma barbaridade, coitada daquela menina. Às vezes ela vinha comprar pão com o pai dela.

— É realmente lamentável.

— Pode dizer. Eu posso ajudar a senhora?

 Teixeira entregou a ele a folha de papel que segurava. O sr. Gilson a pegou com a ponta dos dedos, tentando evitar sujar a folha enquanto lia.

— A sua padaria é o único estabelecimento dessa rua com câmera de vigilância. Eu pedi uma solicitação de imagens ao judicial.

 Gilson balançou a cabeça.

— Não precisava desse papel, era só ter me pedido.

— Eu notei a câmera ontem, quando ainda esperávamos encontrar a criança com vida, por isso dei entrada no pedido o mais rápido possível. Essas coisas podem levar algumas horas e eu não quis perder tempo. Além do mais muitos cidadãos não são tão... inclinados a ajudar a polícia.

— Não eu, senhora. Pode contar comigo e com a minha família no que for, só queremos que vocês peguem logo quem fez isso com a menina. Pode entrar, eu vou pedir pro Vagner, meu filho, pra fazer uma cópia dos vídeos.

 Teixeira subiu o degrau que dava para dentro da padaria, começando a seguir Gilson, mas parou quando seu celular tocou. Viu D. Domingos no visor.

— Delegado, bom dia. — falou, ao atender.

— Bom dia, Teixeira. Onde você está? Ainda no expediente?

— Sim, senhor. Estou recolhendo as imagens de algumas câmeras de vigilância.

— Teve sorte?

— Encontrei apenas duas. Uma na Marechal Pinheiro e outra na travessa, em uma agência bancária da 22 de Maio.

— Isso é ótimo, Teixeira, ótimo. Pode vir a ser muito útil pelo o que encontramos.

— Novidades?

— Eu estava vendo as fotos dos registros. Lembra da evidência encontrada na cena do crime?

— Sim, fita adesiva.

— Em uma das fotos do registro da casa do sr. Bosco aparece um rolo de fita, da mesma cor.

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