Dois
Adentrei em minha casa, não de uma forma sobrenatural tipo atravessando paredes, eu simplesmente abri a porta e entrei. Senti como se não entrasse naquela cozinha há séculos e talvez fosse verdade. Não tinha ninguém lá, eram 05:00 da manhã então todos estavam dormindo. Senti saudade da minha rotina e resolvi relembrar cada momento.
Eu preparei meu café da manhã, espremi algumas laranjas, pus manteiga no pão e fiz torradas. Depois, limpei a sujeira que fiz, lavei a louça e estendi os panos de prato.
Eu voltei para fora da casa e fui até o quintal dos meus vizinhos, os Robson, onde eu deixei a marca dos meus pés no concreto quando tinha dois anos durante uma das várias travessuras que ali fiz, e vi que ela estava desaparecendo. Observei as margaridas ali ao lado, arranquei algumas ervas daninha e vi a senhora Robson através da janela dela enquanto lia um jornal, eu vi o marido dela jogar algo na pia e levar a ela sua medicação diária. Eu vi o nascer do sol através das montanhas, pude observar por alguns instantes o tom alaranjado incrível que se formava no céu antes do sol aparecer completamente e anunciar um dia calmo, daqueles perfeitos para ler um bom livro e tomar chá com bolachas, claro. Eu vi uma garotinha na rua de baixo apontando uma única nuvem no céu para mãe dela.
Voltei para casa assim que percebi que a meus pais tinham acordado. Naquele dia estranho eu me apaixonei novamente, não pelo David ou pelo meu professor de química, eu me apaixonei pela minha mãe e pela forma como ela foi até o meu quarto, que estava exatamente da forma como eu tinha deixado, abrir a janela para que o ar pudesse adentrar, e como ela delicadamente tocou cada objeto que tinha ali naquele ambiente tão familiar.
- Mãe... Você esta tão triste. Cortou seus cabelos, apesar de gostar deles longos, mas não importa você esta linda assim.
Eu a abracei, mas ela não me sentia meu toque, não me ouvia e com toda certeza não conseguia me ver.
Eu me apaixonei pelo meu pai em seu escritório quando ele pegou o porta retrato com minha foto e observou por um longo tempo enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas.
- Pai... Você parece tão cansado, aquele lindo sorriso que ficava estampado em seu rosto, onde esta? - Ele também não me ouvia.
Voltei para meu quarto e fiquei lá olhando fixamente a parede, fitando os quadros pendurados por finos fios de náilon. Comecei a pensar em como seria se eu ainda estivesse viva, todos os planos feitos nos dias anteriores. Eu nem cheguei a escolher o vestido ou o sapato muitos menos o cabelo ou a maquiagem, não cheguei a me formar e o David... Nunca irei saber se ele realmente gostava de mim e eu nunca poderei dizer ao mesmo o quanto gostava dele. O fio que segura nossas vidas é tão fino quanto estes que seguram os quadros na parede.
- Por que estou aqui se ninguém pode me ver ou me ouvir? Eu realmente preferiria não ter presenciado toda tristeza dos meus pais. - Assim que vejo uma foto minha de Sierra e Melissa as lembranças daquela infeliz noite retornam em minha mente é como se eu tivesse voltado no tempo, posso ver a expressão de terror das meninas posso até sentir a faca perfurando minha pele. Eu fui arrancada de minha vida ainda tendo tanto pra viver, não merecia isso e eu quero encontrar a pessoa que me tirou a vida - As meninas! Tenho que acha-las, provavelmente não irão me ver também, mas eu sinto que tenho que vê-las.
Sai de casa andando em direção à casa de Sierra que ficava mais próxima da minha. Ao chegar fico observando a varanda, varias lembranças inundam minha cabeça, sou acordada de meus devaneios ao ouvir o som da porta se fechando, rapidamente olho em direção a mesma, mas não era ela e sim sua mãe, Tia Lisa, agora com cabelos brancos lhe dando um aspecto mais velho. Notei que não eram só as pessoas que tinham mudado a aparência, mas também as ruas, as lojas, as casas então a partir disso pude concluir que já um bom tempo já tinha se passado depois de minha morte, então Sierra e Melissa também estão diferentes, como vou acha-las sem ao menos saber como estão, sem saber se ainda moram nas mesmas casas ou até mesmo se ainda moram no mesmo país?
Fiquei na porta daquela casa pensando no que fazer, até que tive a ideia de vasculha-la à procura de alguma coisa que me informe sobre Sierra. Por sorte a janela da sala estava aberta então não tive dificuldade para entrar, corro em direção ao quarto da mesma e adentro lá agora só se encontravam caixas empoeiradas. Mais uma vez ouço o som da porta se fechando, volto para a sala onde a Tia Lisa, falava ao telefone, a segui até a cozinha onde ela colocava as compras em cima da mesa.
- Já comprei tudo que iremos precisar para fazer aquele delicioso bolo. - Diz animada. - Você vem esse fim de semana mesmo não é? Da última vez você me deixou esperando e nem deu satisfação.
Fim de semana? Eu fiquei tão atordoada com tudo que estava acontecendo que nem se quer procurei saber o dia ou ano em que estava, olhei para o calendário em cima do balcão da cozinha.
- Dez de julho de dois mil e dezessete... - Digo lentamente tentando assimilar tudo.
Minha morte ocorreu no dia oito de julho de dois mil e nove, me lembro bem da data porque naquele dia foi anunciada a turnê da minha banda preferida, hoje completa oito anos da minha morte.
- Tudo bem filha não se preocupe, estou ansiosa para te ver no fim de semana, até depois de amanhã então. Beijos - Dizia a mulher com um grande sorriso no rosto.
Ela só poderia estar falando com Sierra pois não tinha outra filha. A mãe e o pai da mesma se divorciaram quando ela tinha cinco anos de idade, pelo que eu sei sobre a Tia Lisa ela não iria se relacionar com nenhum outro homem, era o que ela dizia. Então Sierra virá a esta casa depois de amanhã, isto é ótimo pois poderei vê-la, voltarei daqui a dois dias.
Voltei para minha casa e fiquei lá durante os dois dias sempre observava meus pais, eu era realmente um fantasma que não podia ser visto porém conseguia manusear qualquer objeto. Finalmente sábado, eu estava ansiosa para ver Sierra, saber sobre ela, como estava. Assim que amanheceu eu simplesmente corri em direção à casa da tia Lisa, mas Sierra ainda não estava lá, provavelmente estava muito cedo ainda, o dia mal tinha começado e eu já estava ali na varanda da casa esperando ansiosamente, esta sensação que sinto agora, me transporta até o passado, logo é como se eu nos visse brincando ali naquela varanda, todos os bons momentos vem na mente. Um som de uma porta de carro fechando me traz bruscamente de volta a realidade, o táxi vai embora deixando a mulher de cabelos castanho escuro e compridos do outro lado da rua, ela é bem bonita apesar de ter uma aparência cansada, a mesma atravessa a rua e para em frente a casa, pega seu celular, disca alguns números e logo o coloca perto de sua orelha.
- Mamãe, Você ainda estava dormido? Tudo bem. Só abra a porta, por favor, esta frio aqui fora, ah já esta aberta? Ok.
Aquela voz! Esta mulher é a Sierra, como ela está diferente.
Levanto do banco que ficava em cantinho da varanda gritando na esperança de ser vista.
- Sierra!
Ela para de girar a maçaneta da porta, como se algo tivesse chamado a atenção sua atenção, a mesma vira o rosto em minha direção.
- Eu não acredito! V-Você pode ver? - Digo completamente surpresa.
- Ah! olá senhor Petric, estou bem e você como esta? - Ela acena com a mão
- Senhor Petric? - Olho para trás e vejo o senhor da casa ao lado sentado em uma cadeira de balanço.
Então ela não pode ver, o desanimo invade meus pensamentos. Adentro na casa e sigo Sierra até a cozinha.
- Bom dia filha! - Tia Liza dizia animada
- Bom dia mamãe. - Sierra dizia ao abraça-la.
- Meu deus, como você parece cansada! Esta dormindo bem?
- Sim, é só que ontem um de meus pacientes passou mal e eu tive que passar a noite no hospital até ele estabilizar.
Paciente? Hospital? Então ela conseguiu realizar o sonho de ser médica? Eu estava tão feliz por isso. Eu apenas observava as duas conversarem, também tinha esperança de obter informações sobre Melissa, mas até agora ninguém se quer citou o nome dela.
- Sabe filha... Eu estava limpando o porão e achei uma caixa com algumas coisas suas, achei melhor guardar e te entregar.
- Onde esta a caixa?
- No seu quarto.
Sierra se levantou e subiu até o quarto, eu a segui e quando adentrei no cômodo vi todos os brinquedo com que brincávamos naquela varanda. Ela tirava um por um de dentro da caixa olhava por bastante tempo até passar para o próximo, até que ela retirou um colar em forma de coração. Seus olhos se encheram de lágrimas que logo escorriam pelo seu rosto, rapidamente ela levou a mão até a boca provavelmente para abafar algum som. Vê-la daquela forma me destruiu, me aproximei dela sem poder enxugar suas lágrimas eu a abracei.
- Sierra, eu estou aqui. Ainda que você não possa me ver e nem me ouvir, eu estou aqui.
Ao me separar do abraço percebo que sua expressão mudou, agora ela olhava em minha direção, nos meus olhos. Ela estava pálida, seu rosto desenhava uma expressão tão assustada que parecia que ela tinha visto um fantasma. Será que...
- Você esta me vendo, Sierra?
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