Capítulo 84

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Sobre o túmulo se encontram depositados vários arranjos de flores e coroas de diversos tipos, e ainda tem mais outros que os funcionários do cemitério terminam de ajeitar no local. Quando eles enfim acabam o serviço, partem dali deixando apenas: Sarah, eu, Carla, Arthur, Matilde, Anitta, Luke, Kerline e sua filha. O restante das outras pessoas que vieram ao sepultamento de Abadia tinham se dispersado dali e muito provavelmente, se encontravam na entrada do cemitério ou ido embora mesmo.

- Curioso como são as coisas... - a fala da amiga de Sarah rompe o silêncio que já vem durando desde o momento que os funcionários se foram, algo ocorrido há alguns minutos. Todos (exceto Sarah) olhamos para Kerline que mantém seus olhos encarando a lápide do túmulo a nossa frente. - Podemos ter o dinheiro que for, sermos famoso ou não, rico ou pobre, preto ou branco, mas no fim... - ela faz uma longa pausa e olha para nós: - Todos ao morrer acabamos tendo o mesmo destino: ir parar debaixo da terra.

Está aí uma grande verdade. Não importa mesmo quem você seja, se tem um patrimônio enorme e inestimável como o de Abadia ou se não tem nada além de um teto sobre sua cabeça e uns trocados na carteira, todos no final vamos parar debaixo da terra como bem disse Kerline. E, mais, sequer levamos as coisas materiais que adquirimos ao longo da vida.

- "Do pó viemos ao pó voltaremos". - Matilde cita aquela passagem da Bíblia que a Li uma vez me disse quando eu era pequena e que tornei a ouvir do reverendo que fez um sermão no velório do meu avô.

- Pois quando eu morrer quero ser cremada e assim virar pó mais rápido do que levar anos embaixo da terra para isso acontecer.

- Mãe não começa com os seus comentários loucos! - a filha de Kerline lhe dá um cutucão com o ombro.

- Ei, não me repreende na frente dos outros, garota. A mãe aqui sou eu, não você.

- Às vezes parece bem o contrário.

Eu tenho que apertar os lábios para não rir delas. As duas mais parecem duas irmãs discutindo, do que propriamente mãe e filha.

- Acho melhor irmos, não é? - Arthur propõe.

Eu e a maioria concordamos já Sarah pede para irmos na frente, pois ela precisa de uns minutos sozinha ali.

Sigo com os demais deixando Sarah sozinha com a sepultura da mãe dela e do pai que fica bem ao lado da que Abadia tinha sido enterrada. Caminhamos até pararmos há uma distância bem razoável de Sarah. Enquanto os demais trocam conversas e falam entre si, eu estou calada somente prestando atenção em Sarah. Como ela está de costas, eu não tenho qualquer noção de sua fisionomia naquele momento.

Será que ela está chorando?

Até aquele momento eu não tinha lhe visto derramar uma lágrima que seja, algo no mínimo curioso. Daria tudo para poder saber o que se passa dentro dela naquele momento em que está lá, sozinha diante do túmulo de seus pais. O que ela estará pensando? Será que está dizendo algo ao...

- Juliette!

Me viro para o chamado baixo da amiga de Sarah.

- Sim!

Sem dizer nada, ela segura no meu cotovelo direito e me puxa com delicadeza para um canto mais afastado dos ouvidos do grupo que está conosco. Noto Anitta nos espreitar com o olhar.

- Posso te confessar uma coisa?

Acho inusitado o pedido. A gente nem é próximas, acabamos de nos conhecer para ela já ir me lançando confissões como se fôssemos velhas amigas. Mas mesmo assim assinto em concordância ao questionamento feito.

- Eu estava bem curiosa para te conhecer, sabe? - franzo a testa.

Por que essa curiosidade dela?

E parecendo ter lido minha mente, a outra mulher explica em um tom baixo:

- Não é toda vez que se conhece uma mulher que foi capaz de abandonar Sarah Andrade duas vezes sozinha em uma cama. - ao final de sua fala há um sorriso de puro divertimento brincando em seus lábios vermelhos feito uma maçã suculenta.

Levando em conta o local e o momento, eu chego a achar bem inoportuno aquele seu comentário. Onde já de viu falar aquilo ali?

O pensamento de que Sarah e ela são BEM amigas mesmo toma conta da minha mente, porque só sendo muita amiga de uma pessoa para compartilhar com ela algo tão íntimo como aquilo.

- Pra tudo têm uma primeira vez na vida, no caso da Sarah foram duas vezes. - resmungo sem saber ao certo o que dizer a não ser aquilo.

- Exatamente! No caso dela deveria ser mais de uma vez mesmo. Sarah sempre fez isso com as mulheres e me dava uma raiva tremenda que você nem sabe. - ela demonstra indignação ao falar. - Um dia eu disse pra ela que chegaria a vez em que uma mulher faria com que ela sentisse na pele o que já fez com tantas outras ao abandoná-las sozinhas na cama. E aí, surge você tempos depois para cumprir minhas previsões. Parabéns pelo feito!

Ela dá uns tampinhas de leve em meu ombro. Eu não sei se ela está falando sério ou apenas zombando de mim. Prefiro acreditar que esteja sendo séria e sincera apesar do sorriso zombeteiro que vejo nela.

- Obrigada... Eu acho. - agradeço em dúvida.

A filha de Kerline chega neste mesmo momento em nós reclamando que já quer ir, porque cemitérios lhe dão calafrios. Internamente concordo com a garota.

- Temos que esperar a sua madrinha. Vamos pegar corona com ela, garota.

- Ai, Ker podemos pegar um táxi. Você tem dinheiro. Deixa de ser mão de vaca.

- Olha, garota. Primeiro: se me chamar de Ker de novo, eu vou enfiar a mão em você. Sou sua mãe e não uma de suas colegas de classe a quem chama pelo apelido. - a adolescente esboça um sorriso e olha para mim fazendo pouco caso da ameaça lhe dirigida pela mãe. - E segundo: enfio outra mão se tornar a me qualificar como mão de vaca.

A filha de Ketline apenas pisca um olho para mim, balança a cabeça em divertimento e se afasta da gente rindo. Quase me rendo ao riso junto com a garota, mas me contenho.

Repito que ela e a mãe mais parecem duas irmãs.

- Filhos! São adoráveis quando bebês. Aí, crescem viram essas coisas terríveis, que adoram implicar com nós, pais.

- Qual a idade dela? - me interesso em saber.

- 14. Mas adoraria que ela tivesse parado de crescer nos três anos de idade, quando ainda era apenas uma menina fofa e inocente. Mas fazer o quê se filhos crescem, não é?

- É a lei da vida!

- Pois é!

- Vocês nem parecem ser mãe e filha. Parece duas irmãs.

- Todo mundo diz. É que eu fiquei grávida da Heidi quando tinha dezoito anos. Conheci um cara no primeiro ano da faculdade e ela... - Kerline aponta com o queixo na direção da filha que está de papo com Luke. - Foi o resultado da minha irresponsabilidade em transarmos bêbados e não usar camisinha.

- Nossa!

- Nossa mesmo. Meu pais quase tiveram um enfarto e o babaca do pai dela me largou assim que soube da gravidez.

- Que idiota.

- Nem fale. Mas tive o apoio dos meus pais depois que passou a ira deles e depois da Sarah quando a conheci. Estava de seis meses quando nos conhecemos e desde então somos amigas. E falando na rainha da Alemanha... lá vem ela!

Me viro quando Kerline comenta isso e vejo Sarah vindo em passadas firmes em direção ao grupo, sem aparentar ter chorado.

Kerline e eu voltamos para perto do pessoal. E quando Sarah chega todos nós seguimos rumo ao portão de saída do cemitério particular, que fica no final do longo caminho de pedras.

- Você vai para a sua casa ou para a casa que era da sua mãe? - cochicho enquanto caminhamos atrás do grupo e tendo Luke nos acompanhando logo atrás como se fosse um segurança fazendo nossa escolta.

- Vou pra minha outra casa em Nova York. - séria e seca é como Sarah me responde.

Receio em lhe lançar a próxima pergunta devido a esse modo dela em me responder. Todavia arrisco mesmo assim:

- Quer que... Eu te faça companhia lá pra não ficar sozinha? - enlaço seu braço direito com os meus. Seu pescoço vira para mim e pelas lentes escuras do óculos, Sarah me encara.

- Obrigada, mas eu quero ficar sozinha mesmo, honey.

Minha intenção de passar o dia com ela, lhe fazendo companhia em um momento desses vai por água abaixo com essa sua negativa. Paciência, Juliette! Se Sarah quer ficar sozinha, eu tenho que respeitar isso.

- Tudo bem!

- Luke vai te levar. - a mandona que habita nela decreta sem me consultar ou dar opção de contestar. Olhando para trás, ela repassa a ordem ao seu motorista de me levar para casa. O homem apenas assente em concordância.

- Sua amiga Kerline espera que dê carona à ela. - comento, lembrando do que ela havia me dito minutos atrás. - Como vai fazer isso se acabou de mandar Luke me levar?

- Eu arranjo uma carona para ela, não se preocupe.

De repente nos chocamos às costas de Carla e Arthur que param de caminhar subitamente.

Já íamos reclamar quando ouvimos uma voz conhecida perguntar por Sarah mais a frente do grupo. As pessoas diante de nós abrem espaço e minha noiva e eu avistamos Rodolffo.

- O que faz aqui? - questiona Sarah dando alguns passos a frente e se aproximando do sujeito. Eu a acompanho mesmo sem que ela peça ou queira. Não vou deixá-la tão perto daquele intragável sozinha, porque o risco disto dar em merda é quase certo.

- Vim dar condolências a você, minha amiga pela perda. - Rodolffo estende a mão na direção de Sarah.

É o cúmulo daquele sujeito aparecer ali. Pela cara debochada dele suas intenções de prestar condolências não são sinceras. Decerto, ele veio apenas provocar Sarah. E o momento escolhido não podia ter sido o pior.

- Não sou mais sua amiga e dispenso suas condolências. Agora some da minha frente!

Minhas mãos que seguram o braço de Sarah para impedir que ela avance naquele crápula e faça besteira, escorrem até seu punho fechado.

- Quanta falta de sensibilidade, amiga.

- Se me chamar de amiga de novo parto sua cara.

Aquilo ali está fadado a não prestar!

- Ele quer te provocar, Sarah Não cai na dele. - falo baixo somente para que ela ouça. A intenção de Rodolffo está mais do que clara para mim: provocar!

- A morte da sua mãe foi só o primeiro castigo por você está querendo me arrancar o escritório e ter feito Dominique me abandonar.

- Se manda daqui, Rodolffo! Não vou mandar três vezes.

- Escuta bem o que vou te dizer... - Rodolffo faz menção de se aproximar bem de Sarah. Na mesma hora puxo minha noiva para trás e Luke entra na frente barrando a aproximação de Rodolffo. - Quer sair da minha frente "cão de guarda"? - o sujeito reclama com o motorista.

- A patroa mandou o senhor se retirar. Então...

- Sua patroa não manda em mim... E quanto a você... - Rodolffo aponta para Sarah por cima dos ombros de Luke. - Se me tomar o escritório, eu vou te tomar algo importante... Aliás, muito importante para você também.

Rodolffo ameaça e seu olhar se desvia de Sarah para mim fazendo eu sentir um calafrio e engolir em seco. É à mim que ele se refere?!

Ao meu lado sinto Sarah ficar tensa diante da ameaça. Seus punhos cerrados se apertam mais ainda diante da ameaça.

Os demais que ali estão com a gente não abrem a boca para dizer um "Ai" sequer.

- Se não quer perder seu escritório... - Sarah se pronuncia, retirando o óculos escuro. - Então pague o que me deve de uma vez e no prazo estipulado. E não me faça ameaças, seu bosta. - dito isso Sarah manda Luke tirar Rodolffo de sua frente.

O motorista acata na mesma hora o que lhe foi mandado. Com o caminho limpo Sarah segue me levando consigo. Ainda ouvimos os berros de protestos e lamúrias de Rodolffo.

Confesso que fiquei com medo e apreensiva com a ameaça que ele fez antes de me olhar como se fosse um predador pronto para dar o bote na presa. Aquele seu olhar foi medonho.

- Eu acho que esse maluco se referiu à Juliette quando te ameaçou, mana. - sem esconder a preocupação Carla comenta ao nosso lado.

Parece que não fui a única a sacar que o alvo da ameaça tinha sido eu.

- Rodolffo não terá qualquer chance de fazer algo à Juliette. E caso ouse fazer, pagará de volta e bem caro. - Sarah retruca seca e firme.

Momentos depois com todos já em frente a entrada do cemitério, eu me despeço de Sarah notando sobre nós os olhares dos demais, principalmente os de Anitta. Ela não é nada discreta. Olha na cara dura! E, ainda por cima, de cara feia. Dane-se! Cara feia para mim é fome.

- Qualquer coisa me liga. Pode ser a hora que for, tá bom? - peço enquanto acaricio seu rosto com a mão direita.

Mantendo sempre o semblante sério e um olhar fixo em mim, Sarah apenas assente.

- Quando for à noite eu ligo para o seu celular para saber como está.

Ela mais uma vez apenas responde com um positivo balançar de cabeça.

Maldito Rodolffo que só apareceu para deixar meu amor pior do que ela já estava!

Eu me inclino para lhe dar um beijo na boca de despedida, só que Sarah é mais rápida em me beijar na testa. Sua atitude me deixa desconcertada e mais ainda o que vem depois.

- A gente se fala, Juliette!

Seca e fria como uma pedra de gelo. Parece mais que ela está se despedindo de uma velha conhecida e não da noiva.

Vou colocar tal comportamento na conta de Rodolffo e sua indesejada aparição de momentos atrás.

Luke surge ao nosso lado pronto para me levar em casa. Sarah o questiona sobre onde tinha largado Rodolffo e seu motorista lhe informa que o sujeito já tinha ido embora, e que ele mesmo tinha o conduzido até seu próprio carro e ficou vendo Rodolffo partir dali no veículo importado.

- Podemos ir quando quiser, senhorita Freire.

- Se cuida. - murmuro para Sarah e lhe dou um abraço, que ela retribui.

Me despeço dos demais trocando abraços com cada um, exceto Anitta e Matilde. Essas duas não faço questão alguma de abraçar e muito menos dirigir a palavra. Elas não gostam de mim para quê perder meu tempo com elas.

Despedidas feitas sigo com Luke até o carro. Antes de entrar no veículo aceno para Sarah que devolve o gesto. Já dentro do automóvel vejo com desagrado Anitta se aproximar de Sarah e lhe dizer algo que não sou capaz de entender por leitura labial. O que quer que aquela insuportável disse a resposta de Sarah vem em um aceno positivo de cabeça. Pelo retrovisor eu ainda vejo quando as duas de braços dados, ou melhor, Anitta atracada ao braço de Sarah, seguem juntamente com os demais em direção à dois veículos.

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