Capítulo 82
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Por ser madrugada e ter zero de engarrafamento, Camilla pisou fundo no acelerador e quando digo pisou fundo, é literalmente. Durante o trajeto poucas vezes vi minha amiga dirigir por menos de 100km/h. Ainda bem que ela é um Ás no volante, porque do contrário corríamos o sério risco de acabar batendo o carro. E devido a sua direção veloz, chegamos ao Saint Michael's Medical Center muito mais rápido do que o trajeto levaria normalmente do Brooklyn até Nova Jersey.
Para a nossa surpresa notamos do outro lado da rua onde estacionamos, um aglomerado de repórteres parados em frente à entrada principal do hospital.
- Imprensa? - Camilla me olha desconfiada enquanto tira o cinto de segurança. - Será que é por causa da sua sogra, Ju?
Dou de ombros.
- É capaz. A mulher é dona de uma das empresas mais conhecida do planeta.
- Bem lembrado!... Aff! Teremos que passar pelo meio dos repórteres. Vamos lá?
Solto um gemido em descontentamento ao lançar outro olhar na direção dos repórteres. São muitos lá na entrada principal do hospital.
- Vamos, né?! - concordo nada contente por ter que passar pelo meio daqueles abutres.
Nós saímos do carro e logo já atravessamos a rua. Enquanto caminhamos lentamente rumo ao hospital, eu ainda tento digerir a notícia sobre o falecimento de Abadia. A ficha não quer cair. Até ontem aquela senhora estava bem na medida do possível e de sua atual condição. Aí, hoje, ela já não está mais aqui. Isso é tão louco! Na verdade, a vida é louca mesma! Ou como diz o doido do Bolton: A vida é uma puta louca, que vive para nos foder a torto e a direito quando menos esperamos!
Sem sermos paradas, passamos sem grandes problemas pelos repórteres e entramos no hospital para nos depararmos com uma recepção vazia, só há um segurança próximo. A recepcionista que deveria estar ali fazendo seu trabalho, não está naquele momento.
Inferno!
Recorro ao segurança para pedir informação de onde fica a sala que Sarah me disse que estaria. O rapaz alto, corpolento e de pele branca, quase pálida, nos aponta o corredor e diz para dobrarmos à direita, seguirmos até o final do outro corredor e assim chegaremos à dita cuja sala. Agradeço e puxando Camilla pela mão como se ela fosse minha filha e eu não quisesse perdê-la de vista, para que não aprontasse nada vergonhoso, vamos na direção apontada pelo segurança.
Hospitais sempre me dão sensações incômodas. E olha que minha mãe é médica. Mas ainda assim, eu me sinto sempre sufocada e incomodada nesses lugares. Não sei se é por seus pálidos corredores brancos, ou o cheiro que aquele lugar tem, ou o que diabos seja, mas tudo ali é desagradável para mim. Daquele 'universo' médico, eu sempre prezei pela distância. Na minha adolescência para eu ir ao médico em consultas de rotinas era uma novela e hoje em dia nada mudou, continua igual. Mas pela Sarah, eu sou capaz de estar ali e aguentar aquele completo desconforto.
Cruzamos a porta da dita sala e de primeira enxergamos alguns rostos, e mais ao fundo da sala avistamos quatro pessoas que são do nosso total conhecimento: minha prima insuportável que está junto de Matilde, ambas de pé, e ao lado das duas está Carla de cabeça baixa sentada em uma cadeira, acompanhada de seu namorado que a consola enquanto lhe afaga os cabelos.
- Não estou vendo a sua noiva, Ju. - Cami cochicha.
Talvez Sarah esteja tratando das questões burocráticas acerca do falecimento da mãe, já que Carla não demonstra ter qualquer condição para tal.
- Vem, vamos falar com à Carla.
Caminhamos até a irmã de Sarah. Nem me dou ao trabalho de olhar para Anitta quando passo perto dela. À tal Matilde apenas faço por pura educação um gesto com a cabeça em cumprimento, e a mulher somente me olha com desgosto, sem esboçar qualquer retribuição ao cumprimento que lhe dirijo. Foda-se também! Fiz minha parte de ser educada, agora, se ela é incapaz de retribuir a educação, já não é problema meu!
- Carla! - chamo com cautela me sentando na cadeira vazia que há entre ela e Matilde.
Carla levanta a cabeça e seus olhos estão avermelhados e cheios de lágrimas.
- Ah, Juliette... a minha mãe...
Lançando seus braços sobre meus ombros, Carla se agarra à mim feito uma menina assustada pedindo consolo, e não é mais capaz de completar a frase que falaria, porque começa a chorar bastante.
Me dá tanta dó dela.
- Eu sei. E sinto muito, Carla! - minhas mãos deslizam por suas costas, tentando acalmar a mulher agarrada à mim. Ela chora copiosamente. Seus soluços fazem sacolejar nossos corpos. É de cortar o coração e está fazendo meus olhos se encherem de lágrimas.
Por cima de seus ombros observo Arthur, o namorado dela, que assim como eu tem lágrimas nos olhos. O homem me olha com profunda tristeza; uma de suas mãos toca com carinho os cabelos da namorada enquanto com a outra enxuga uma lágrima que escorre por seu rosto.
- Foi tudo tão de repente. Ela passou mal horas atrás... Nos ligaram, pedindo pra vir... Parece um... pesadelo. Eu não estava preparada para dizer... adeus à ela... Mas ela já parecia pronta para partir... Ela queria isso. - Carla conta entre os soluços de seu choro.
No sábado Sarah também havia me dito em sua casa algo a respeito de sua mãe não querer mais viver desde que acordou e descobriu as sequelas que o AVC lhe deixou. E pelo visto a vontade de Abadia foi atendida pelas "forças divinas" como minha querida Li costuma dizer.
- Carla já conversei com você sobre isso. - Arthur se pronuncia com carinho e eu apenas o agradeço mentalmente por opinar, pois nessas ocasiões eu sou péssima para saber o que dizer. Quase nunca sei o que falar para consolar a outra pessoa. - Talvez tenha sido melhor para à sua mãe isso, Ca. Você sabia como ela era. Sempre tão altiva, imponente e independente. Nunca que aceitaria ser cuidada por enfermeira e deixou muito claro, que não aceitaria passar seus dias da forma limitada com a qual ela viveria daqui pra frente. - Arthur me encara como quem pede auxílio para concordar com suas palavras.
Em parte até podia concordar, já que aquela sua explicação/justificativa é boa, mas para quem perde um entende querido, geralmente, não há explicação alguma que amenize nossa dor ou nos faça aceitar a perda tão cedo de alguém tão próximo assim.
Eu que o diga!
Quando perdi o meu querido vô por parte de pai, de maneira súbita enquanto ele dormia seu sono da tarde, ouvi tanto "foi melhor esta forma de morrer, porque assim ele não sofreu", mas quem disse que eu me conformava? Nenhum pouco! Não me interessava a forma 'menos sofrida' com a qual ele morreu. Eu NÃO queria nem que ele tivesse morrido para início de conversa! A bem da verdade é que mesmo sabendo que um dia a vida acaba, a gente nunca está preparado para perder alguém!
- Minha mãe não seria cuidada por enfermeira. Eu mesma cuidaria dela e não me importaria nem um pouco em fazer isso, Arthur. - Carla rebate, desfazendo nosso abraço e enxugando as lágrimas.
Tenho certeza de que ela faria isso de coração, sem se importar mesmo já que era a mãe dela. No lugar da Carla, eu faria o mesmo pela minha mãe. Mas será que Abadia iria aceitar isso? A resposta me parece óbvia demais!
- Acredito que a sua mãe com certeza se importaria com isso, Carla. - opino, segurando na mão da irmã de Sarah. Como Arthur muito bem destacou, Abadia era independente e nunca que iria aceitar cuidados de alguém.
- Sabe, Carla... - Camilla se pronuncia pela primeira vez. Agachando na frente da irmã de Sarah, minha amiga prossegue: - Eu não conheci sua mãe de perto, mas a gente via que ela tinha toda uma pose e de fato também acho que ela não iria acertar ser cuidada quer seja por uma profissional, quer seja por uma filha dela. - concordo com minha amiga que toca carinhosamente o rosto de Carla. A irmã de Sarah se inclina para frente e abraça Camilla pelos ombros.
- Vai ver vocês todos estejam certos mesmo. - ela rebate ainda abraçada à Camilla. - Ao menos tive a oportunidade de ainda me despedir dela. - nos conta para em seguida agradecer pelo apoio e por estarmos ali.
- Não precisa agradecer, somos suas amigas, né não Juliette?
- Sim. - confirmo, piscando um olho para Carla que me olha de lado, com o rosto apoiado no ombro de Cami.
É óbvio que o fato de ser noiva da irmã dela é um indicador mais do que forte para eu estar ali, mas eu também vim pela Carla, pela gratuita amizade e carinho que criei por ela desde que a conheci em minha casa meses atrás.
Mais uma vez, Carla nos agradece por estarmos ali enquanto desfaz o abraço trocado com Camilla. Aproveito a deixa para saber da minha cunhada sobre sua irmã.
- Ela foi a funerária tratar de toda a burocracia para o velório da nossa mãe. Sarah tem mais cabeça para essas coisas que eu.
Bem que imaginei que fosse por essa razão a ausência dela por aqui.
- E como ela está lidando com a situação da morte da mãe de vocês, Carla?
Me preocupou a forma com a qual Sarah me contou ao telefone sobre o falecimento da mãe delas.
- Ela está lidando muito melhor que eu. Nem parece que foi a mãe dela também que morreu.
- Como assim?
- Sarah está agindo de maneira tão fria e indiferente, feito um robô sem coração.
- Vai ver que ela está reprimindo e guardando a dor dela para si mesma. Tipo um mecanismo de defesa. Tem gente que age assim em momentos desses, Carla. - Camilla opina.
Só que eu sei que aquilo não se aplica a minha noiva. Sarah não é de reprimir sentimentos, muito pelo contrário. Ela é intensa e não guarda para si o que sente. Sempre objetiva e sem papas na língua, ela fala e expõe seus sentimentos e opiniões sem reservas.
E é exatamente isso que Carla diz em réplica à minha amiga.
- Já, já ela aparece e vocês vão comprovar o que eu disse.
Apenas assinto, digerindo a sua última informação. Para fugir um pouco daquele assunto, Camilla comenta sobre os repórteres que vimos na entrada do hospital e Carla suspira em desagrado. Ela nos conta nada contente, que a presença dos sujeitos se dava por causa da mãe dela, e ainda afirma que Sarah ficará uma fera quando chegar e se deparar com aquele bando de repórteres. Segundo Carla, sua irmã tinha conseguido evitar que caísse na boca da mídia sobre o AVC da mãe delas, porque não queria expor mais ainda Abadia. Mas ao que parece alguém vazou a notícia de sua morte e os repórteres agora estão lá fora feito abutres, querendo alguma palavra da família da dona do império Care Inc.
- Quando cheguei há coisa de quinze minutos esses repórteres me bombardearam de perguntas, já que sabem que sou conhecido da família. - Arthur comenta conosco.
- Felizmente nós duas passamos batidas por eles.
- É que felizmente ou infelizmente, eles desconhecem o fato de você ter sido amante da Sarah, Juliette.
Engulo seco e me viro na cadeira, disposta a dar uma resposta daquelas para Anitta por seu inoportuno comentário, mas Carla se antecipa à mim chamando a atenção da minha prima.
- Anitta não vou admitir que falte com respeito à Juliette na minha frente.
Eu só não sucumbi ao riso diante dessa bronca da Carla, porque o momento não é para isso e também porque estou furiosa demais pela fala desagradável e impertinente da sonsa da minha prima. Ela não tem bom senso, não? Será que não percebe o quão importuno seu comentário soa?
- Mas eu não quis faltar com respeito, Carla, apenas disse a verdade. - com cinismo velado, ela rebate com uma falsa inocência, para logo depois ainda ter a cara de pau de completar, dizendo: - Todos aqui sabem que ela foi amante da Sarah.
Olha, se as circunstâncias fossem outras, eu juro que acertaria sem remorso algum uns belos tabefes na cara pífia da minha prima. Só que infelizmente, eu terei que segurar meus ímpetos violentos e guardar para outro momento a minha vontade de estapear Anitta, já que ali não é o melhor local para tal desforra. No entanto, eu não vou me calar para ela não. Antes que Carla responda a questão lançada por Anitta, eu me pronuncio, levantando da cadeira.
- Você disse bem eu FUI, sim, isso aí... - esse fato de eu ter sido amante da Sarah não pode ser negado, ainda que eu queira por ser bem desagradável ouvir que você foi amante de alguém. Aquele termo carrega um estigma e um peso nada agradável, além de não ser bem visto aos olhos de outras pessoas. - Mas agora entenda que... - fiz propositalmente uma longa pausa e cruzando os braços, dou um passo na direção da minha prima. Ela não recua à minha aproximação, porque sabe que ali eu não lhe farei nada de mal. E não farei mesmo!... Ao estar próxima o suficiente dela, prossigo com voz comedida e uma falsa calma para não descer ao nível baixo em que Anitta está e quer me puxar: - Sou a noiva dela. A mulher com quem Sarah irá casar em breve, e você não passa da ex cheia de recalque e dor de cotovelo, que fica me atacando sem ter o menor respeito pela dor da Carla que acabou de perder a mãe dela. Isso é uma total falta de sensibilidade e bom senso da sua parte... Priminha! - carrego bastante na ironia ao pronunciar a última palavra.
Anitta abre a boca disposta à rebater com alguma grosseria que a raiva irradia de seus olhos. Contudo sua possível réplica não vem pela simples razão que a voz elevada e furiosa de Sarah discutindo ao celular rouba as nossas atenções.
Os rostos de todos se viram na direção de Sarah e a observamos vir até nós em passadas duras, que deixam clara sua completa raiva. Luke a acompanha logo mais atrás, feito a sombra que costuma ser e traz em uma das mãos uma sacola.
- E quem mandou soltar essa nota na imprensa contando sobre o falecimento da Abadia?
A carranca de Sarah ao parar perto da gente é a pior que eu já tinha visto nela desde que nos conhecemos. A mulher parece possuída por algum espírito furioso. Quem quer que tenha revelado sobre a morte da mãe dela à imprensa estará ferrado, porque do jeito que Sarah está é capaz de matar o responsável por isso, quando encontrá-lo pessoalmente.
- Ah, quer dizer que foi você mesmo Caio?! - vejo Sarah apertar o maxilar com força e cerrar o punho esquerdo. Esses seus gestos já falam por si só. Minha noiva está MUITO furiosa. Puta! - Pois quem te deu essa maldita autorização, seu fodido?
- Sarah! - Carla se põe de pé e usa um tom de censura com a irmã, pois seu palavreado e o modo alto com o qual fala, está fazendo as demais pessoas ali na sala focarem suas atenções nela e no que diz.
Percebendo isso, Sarah diminui o tom, mas não sua ira, já que prossegue xingando e discutindo com o sujeito na linha. Eu não quero estar na pele desse tal de Caio quando estiver diante de Sarah.
Quando a ligação é finalizada depois de longos minutos de discussão, Sarah conta ainda bastante alterada que seu primo é o responsável por ter repórteres na frente do hospital.
- Ele soltou uma maldita nota de imprensa! - revela.
- Mas quem autorizou isso?
- Ninguém, Carla. Ele achou que "estava fazendo o certo". É um sem noção. Minha vontade é de matá-lo com as minhas próprias mãos por causa disso. - ela suspira, encarando o teto branco da sala de espera. Parece à beira de um ataque de fúria extrema. E eu me preocupo com isso.
Carla me olha de relance e toca o ombro da irmã.
- Você está muito nervosa, mana.
- E não é para estar, Carla?
A aspereza de sua fala e seu olhar enraivecido para à irmã me dá até calafrios e causa em Carla um arquear de sobrancelhas.
- Olha... Sua noiva já chegou... - Carla me aponta com a cabeça. Quando ela evidência a minha presença com aquele gesto e palavras, Sarah foca pela primeira vez seu olhar em mim. Até o momento ela não havia me dirigido qualquer olhar por mínimo que fosse. Falava diretamente olhando só para à irmã e Arthur. Era como se eu nem estivesse ali antes de Carla me sinalizar.
Quando os olhos coloridos de Sarah me encaram fixamente, eu vejo tristeza e dor por baixo de toda aquela raiva e revolta pelo tal Caio ter contado sobre a morte de Abadia à imprensa.
- Por que não vai com à Juliette até à lanchonete tomar alguma coisa e esfriar essa cabeça? - sugere Carla e eu acho boa a sua ideia. Sarah precisa se acalmar ou temo que tanta raiva assim não lhe faça bem.
Minha noiva não parece muito lá satisfeita com a sugestão da irmã, mas acata mesmo assim. Me estendendo a mão que trato de segurar entrelaçando nossos dedos, Sarah se dirige para Luke, pedindo que o sujeito repassasse à Carla as informações sobre a funerária. Ao consentimento de seu motorista, Sarah se dirige à mim:
- Vem, honey. Vamos, sair daqui.
Eu a sigo e não resisto em lançar um rápido olhar à Anitta para encontrá-la profundamente descontente com a cena.
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A lanchonete está quase vazia àquela hora da madrugada, há mais três clientes por ali além de Sarah e eu. Encostada ao balcão, eu aguardo a atendente preparar os dois sucos de maracujá que pedi. De onde estou meus olhos observam atentos à Sarah acomodada em uma mesa. Seu semblante absorto e pensativo me diz que ela está bem longe dali.
Durante o nosso caminho até à lanchonete, o silêncio imperou entre nós. E sinto como se houvesse aberto também um abismo enorme entre a gente que vai muito além do silêncio. Sarah estava do meu lado, segurando minha mão e andando junto de mim, mas ao mesmo tempo era como se nem estivesse ali. Ou pior, como se EU nem estivesse ao seu lado. Até quis dizer algo para quebrar o silêncio entre nós, contudo, ela estava tão séria, sisuda e ainda bastante irritada, que achei por bem nem falar nada naquele momento.
- Moça seus sucos. - o chamado com mais ênfase da atendente me tira a atenção de Sarah. Acho que aquela não é a primeira e muito menos, a segunda vez que a outra mulher me chama.
- Obrigada!
Apanhando a bandeja com os dois copos de suco e um potinho de açucareiro, eu lhe lanço um sorriso gentil antes de seguir até Sarah, equilibrando a bandeja de plástico de cor laranja berrante.
Se eu tropeçar com essa bandeja será um mico e tanto. Felizmente a plateia será pequena. Dos males o menor!
Chego em Sarah e ela por ainda estar tão absorta nem percebe minha chegada, só vai se dar conta quando toco carinhosamente seu ombro para avisá-la de que depositei o copo de suco à sua frente.
De maneira lacônica, beirando a seriedade ela me agradece e em silêncio fica encarando o copo de vidro com o líquido amarelo e algumas pedras de gelo dentro.
- Não vai beber? - indago após alguns segundos em que fico lhe observando encarar o copo sem a menor intenção de pegá-lo.
- Eu vou precisar muito mais do que somente esse copo de suco para me acalmar. - ela comenta, apoiando os braços à borda da mesa para logo em seguida esconder o rosto entre as mãos. Por um par de segundos eu assisto Sarah permanecer nessa posição até ela deslizar as mãos pelos cabelos e as descansar atrás da nuca. De olhos fechados e apertados com força, ela demonstra tanta tristeza, vulnerabilidade e fraqueza como nunca antes eu tinha presenciado. Me deu vontade de pegá-la no colo e embalá-la como minha mãe ou a Li faziam comigo quando eu ainda morava com meus pais e algo me acontecia, deixando-me exatamente assim que nem Sarah está agora.
Me sinto impotente e penalizada por ver minha noiva tão abatida daquela maneira. Se fosse possível tirar a dor que ela está sentindo e transferi-la para mim, eu pediria que fizessem isso só para livrá-la dessa situação que eu vejo estar desestabilizando Sarah.
A sua expressão de raiva de outrora dá lugar à uma de dor e profunda tristeza, os mesmos sentimentos que vi em seus olhos momentos atrás na sala de espera.
Lhe observo calada até resolver arrastar minha cadeira, tomando o devido cuidado para não fazer tanto barulho, e a posiciono bem ao lado da que Sarah está. Ela sequer abre os olhos diante do meu movimento. Ao estar bem junta dela, eu enlaço meus braços a um dos seus e beijo sua bochecha para depois encostar minha testa nela. Ouço um suspiro arrastado de Sarah e sinto uma de suas mãos repousar sobre as minhas em volta de seu braço.
- Está me cortando o coração te ver assim. - murmuro, deslizando a ponta do nariz pela extensão de seu maxilar em uma forma de carícia.
- Queria poder sumir daqui, honey. Ou melhor ainda, esquecer que essas últimas horas estão acontecendo, sabe?
Assinto em concordância. Adoraria poder lhe dizer mais coisas que possam confortá-la, mas como não sou boa nisso. Eu, simplesmente, abraço o meu amor e tento passar naquele abraço todo conforto e carinho que eu sei que ela necessita em uma hora dolorosa dessas.
Não faço ideia de quanto tempo ficamos naquele abraço, mas sei que eu perco momentaneamente a noção do mundo a nossa volta e acredito que Sarah também. Mas somos trazidas de volta à dura realidade pelo toque de seu celular. Esse aparelho sempre tocando quando estamos juntas.
Me afasto para dar à Sarah o melhor conforto para atender a chamada, que eu descubro ser da tal Kerline ao ouvir Sarah pronunciar o nome da mulher logo após ter atendido a ligação.
De canto de olho enquanto adoço meu suco antes de prová-lo e aprovar a quantia de açúcar que coloquei, eu observo Sarah trocar meia dúzia de palavras com a outra mulher na linha. Pelo que eu entendi a tal Kerline está vindo com a filha da Alemanha no jato de Sarah para estar presente no velório de Abadia.
É de se supor que sendo uma amiga tão próxima quanto Sarah já havia me dito que elas são, essa tal Kerline viria para estar ao lado da amiga em um momento de dor como esse. Amigos de verdade estão do nosso lado nas horas boas e ruins.
Após avisar a amiga que irá mandar Luke buscar à ela e sua filha no Hangar, tão logo, as duas desembarquem para levarem ambas direto para onde ocorrerá o velório, Sarah se despede da tal Kerline e finaliza a ligação. Só que nem bem minha noiva acaba de sair dessa chamada e o celular toca outra vez sinalizando uma nova ligação.
- Oi, Al! - Sarah saúda de maneira lacônica a pessoa do outro lado da linha. - Sim, é verdade... A coroa morreu! Tem pouco mais de duas horas que isso aconteceu. - conta com seriedade e frieza me lembrando o que Carla disse sobre Sarah estar agindo como se não fosse a mãe dela também que morreu.
Calada e quieta em meu canto, tomando meu suco, eu ouço Sarah explicar ao homem de maneira bem fria e sem esboçar qualquer emoção, que Abadia começou a passar mal e aí ligaram para a família pedindo que viessem ao hospital. Assim que chegaram, foram informadas pelo médico que Abadia precisaria ser operada às pressas por causa de uma embolia pulmonar grave. Só que não houve tempo dela ser operada, porque a mulher acabou falecendo na frente de Sarah após elas estarem conversando à sós à pedido insistente de Abadia, que se recusava a fazer a cirurgia sem antes falar sozinha com cada uma das filhas.
Puta merda, Abadia morreu na frente da Sarah?!
Eu não teria estrutura emocional para lidar com uma situação dessas, caso algo assim acontecesse comigo. Ver minha mãe morrer na minha frente seria aterrorizante!
Fico observando Sarah de canto de olho em sua ligação, que por sinal se estende ainda por mais uns breves minutos até a Srta. Gostosa se despedir do sujeito e dar a chamada como encerrada.
Largando de qualquer jeito o aparelho celular sobre a mesa e dando um suspiro, Sarah fica em silêncio e eu permaneço da mesma forma que ela, apenas lhe olhando disfarçadamente enquanto ainda tento digerir a informação que captei durante sua última conversa ao telefone.
Nem sou capaz de dimensionar o que deve estar se passando dentro dela. Ver alguém morrer diante de si, sendo esse alguém a própria mãe, é para abalar qualquer pessoa.
O silêncio entre nós ainda se estende só mais um pouco, quando sem conseguir mais conter minha curiosidade, eu me pronuncio, questionando:
- Sua mãe morreu na sua frente, Sarah?
- Sim! - ela confirma com certa rispidez e outra vez o silêncio se instaura na nossa conversa. Agora é um silêncio pesado e bem incômodo, que se arrasta por um par de segundos até Sarah se pronunciar outra vez: - Ela exigiu que antes de ser levada para o centro cirúrgico pudesse falar com Carla primeiro e depois comigo.
A forma como Sarah conta aquilo é como se estivesse falando sobre uma banalidade qualquer. E a ênfase na palavra Ela me soa com visível menosprezo.
Me bate uma curiosidade de saber o teor da conversa que Sarah teve com a mãe antes desta vir a óbito. Todavia, não acho conveniente questionar sobre tal tema. É desnecessário no momento!
- Vai vê que sua mãe... sei lá sentia que algo de ruim fosse acontecer com ela durante o procedimento cirúrgico e quis se despedir de vocês antes de se submeter a cirurgia. - comento depois de um breve tempo, enquanto deslizo minha mão por seu cabelo e deixo que ela descanse na base de sua nuca.
Por isso Carla havia dito que ao menos tinha tido tempo de se despedir da mãe, por causa da conversa que Abadia exigiu ter com as filhas momentos antes de morrer.
- Se despedir? - o riso irônico que essas duas palavras arrancam de Sarah ao proferi-las, me faz franzir a testa sem que a minha noiva veja, já que naquele momento ela não me olha. - Se Abadia se despediu foi só da Carla, honey, não de mim!... De mim a coroa fez foi... - Sarah pausa e inspira fundo para depois soltar o ar de maneira exasperada. Ela vira o rosto na minha direção e seu olhar busca o meu. Naquele instante o verde sempre claro de seus olhos está em uma tonalidade mais escura, meio sombria que me deixa em sinal de alerta. - Deixa pra lá! - finaliza, desconversando.
Ensaio uma cobrança a respeito da sua fala final, mas desisto.
Sem esperar ganho de Sarah um beijo na testa segundos após sua fala. Meu sinal de alerta fica mais ainda em "alerta" depois desse momento. Há alguma coisa errada ali que ela não está querendo me contar. E assim como a pouco, agora também não me parece oportuno fazer cobranças por explicações. Em outro momento, tentarei descobrir o que ela não quer me contar agora.
- Eu amo você, sabe disso, não sabe?
Franzo a testa diante daquela inesperada e repentina declaração de amor em forma de questionamento, que vem após Sarah estar me encarando silenciosamente há segundos.
- Sarah o que está havendo?
- Sabe ou não sabe? - ela insiste pela minha resposta, ignorando o meu questionamento.
- Sei, claro. E você também sabe que eu te amo, não é? - minha mão que descansava em sua nuca desliza para deu rosto até alcançar seu queixo.
- Sei, sim. - ela confirma, segurando meu rosto com uma das mãos e trazendo para perto do seu, de modo que, nossas testas se juntam e nossas bocas ficam a milímetros de distância uma da outra. - Adoraria fugir para longe daqui com você.
- Podemos fazer isso depois.
Estou disposta a negociar com minha chefe alguns dias de licença ou até mesmo, antecipar minhas férias, já que elas estão previstas para o mês que vem. Desse modo poderei ficar com minha noiva lhe fazendo companhia.
- Não, infelizmente, não vai dar, Juliette.
- Se fala isso por conta da minha chefe, eu...
Ela nem me deixa continuar a falar, porque me tasca um beijo que me pega desprevenida. Levo uns três segundos para retribuir ao seu beijo calmo e no dobro desse tempo já estou me perdendo por completo em seus lábios que saboream os meus de maneira lenta, delicada, envolvente, apaixonada e demorada. Tanto que tenho a impressão de que nosso beijo dura um tempo bem razoável. E ele é tão bom. Um dos melhores! E quando (infelizmente) acaba, eu sequer lembro mais o que estávamos falando antes do beijo, de tão fora de órbita que aquele delicioso beijo dela me deixa.
Ainda de olhos fechados e me restabelecendo do beijo, eu sou brindada com a confissão de Sarah:
- Você é a coisa mais bonita que podia ter me acontecido, honey.
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