||Capítulo 5||


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Beatrice se sentou em um dos bancos de madeira em frente ao hospital. Sentia, depois de algumas horas, o efeito da bebida em seu corpo. Se se movesse com muita rapidez, as coisas começavam a girar em sua cabeça. Sabia que sua situação com Peter não estava boa, então preferiu ficar calada.

Peter começou a mexer no celular de forma que não mostrava qualquer atenção a Beatrice. Ele provavelmente resolvia situações que deveriam estar sendo concluídas há essa hora. Bea se sentiu culpada por estar sempre atrasando a vida de seu pai, mas não deu muita moral para esse pensamento. Ela não pediu pra nascer, e também não gostava de levar a vida de maneira tão séria como seu pai.

Uma GMC Canyon preta estacionou na frente dos dois, desprendendo a atenção de Peter. Bea revirou os olhos. Não gostava daqueles tipos de carros grandes. Preferia, é claro, chegar na escola com o Bugatti sofisticado de seu pai, como de costume.

Antes que Beatrice tivesse que se levantar e mostrar um pouco de educação, cumprimentando o motorista, Peter se adiantou e abriu a porta do passageiro.

- Seu uniforme está aqui dentro.- ele entregou a mochila da garota.- Vá, vá se trocar.

Bea baixou o olhar e seguiu para dentro do hospital.

No banheiro, ela tentou um banho improvisado. O perfume que usara na noite passada ainda estava no corpo. Ela lavou o rosto e tirou a maquiagem. Passou os dedos molhados pelos fios embaraçados que, por sorte, se alinharam.

O uniforme da camisa branca e a saia azul nunca a fazia bem. Ela não gostava. Talvez fosse porque o menor tamanho ainda era grande para ela. Ou talvez fosse só mais um motivo para ódio gratuito que ela tinha da escola.

Bea caminhou, sem pressa, até onde estava seu pai.

O homem que conversava com Peter estava de costas. Ele era alto, mas não maior que o outro. Sua camisa de flanela era tipicamente vermelha e branca. Usava calça jeans clara, e sua botina tinha um tom amadeirado um pouco mais escuro. Ele tinha um físico admirável e claramente perceptível aos olhos de qualquer mulher. Seus músculos bem definidos realçaram em seu traje, mesmo que talvez não fosse a intenção.

Bea sentiu que precisava soltar seu ar quando se aproximou. Não que ela se importasse com o sujeito, mas ele não era uma figura que se via com frequência.

- E mais uma vez, Joe, obrigado por fazer isso. Sei que não faz parte do seu trabalho.- Peter o abraçou, e Bea esperou atrás deles, certa de que não interromperia se não fosse convidada. Talvez tivesse entendido que não era uma simples relação de patrão e empregado, porque sabia que seu pai não era de distribuir abraços.

- Conte sempre comigo, Peter.- Sua voz surgiu, fazendo Beatrice  sentir um leve arrepio na espinha e um formigar nos dedos.

Peter percebeu a presença da filha e tentou abrir um sorriso, mas Bea reparou que ele ergueu uma sobrancelha para o indivíduo.

O rapaz se virou, e Bea ergueu os olhos, se deparando com órbitas incrivelmente verdes.

Ele conseguiu transmitir tranquilidade quando ofereceu um leve sorriso, que ela não deixou de retribuir.

Bea se dirigiu até eles.

- Beatrice Coleman. Eu escuto muito seu nome. Tudo bem?- ele ofereceu a mão para que ela apertasse. Seu aperto era forte, mas não a machucou.

- Ah, vocês não se conheciam pessoalmente?- Peter quase não acreditou.- Às vezes me esqueço que minha própria filha nunca foi em uma das nossas fazendas. Joe, essa é minha filha Beatrice. Bea, esse é Joe, meu amigo de confiança.- ele os apresentou.

- Joe...- ela repetiu, como se saboreasse o nome em sua boca, e decidiu que gostou do som.- Já ouvi seu nome algumas vezes.

- Não que ela guarde coisas que não são interessantes pra ela na cabeça.- Peter brincou.- Bem, eu já estou indo. Se comporte, senhorita.- ele depositou um beijo na bochecha da filha.- Joe, mais uma vez obrigado pelo favor. E, Bea, nós nos encontramos mais tarde para termos aquela conversinha...

Joe abriu a porta do automóvel para que Bea entrasse, enquanto Peter em poucos segundos já não estava mais ali.

Ele realmente estava atrasado.

Beatrice tentou parecer independente ao subir na caminhonete alta, mas não teve tanto sucesso quanto esperava. Joe precisou ajudá-la no final da subida.

Ele contornou e entrou pela porta do motorista, colocando o cinto de segurança com rapidez e ligando o motor do grande carro.

Agora, com as janelas fechadas, Beatrice conseguiu absorver o cheiro do perfume dele. E constatou que era muito mais do que esperava para um cowboy.

- É melhor botar o cinto.- falou Joe, sem olhar para a acompanhante.- Acho que vamos correr para chegar na sua escola.- explicou.

Beatrice analisava os cabelos lisos e castanhos dele. Procurou com os olhos, imediatamente, um acessório que um homem como ele não poderia não ter. E encontrou o chapéu de cowboy entre o volante e o para-brisa.

- Eu imagino que você deve pensar mal de mim.- disse ela, iniciando a conversa.

- Não, não decidi ainda.- confessou o homem.

- Fala sério! A forma como meu pai te olhou quando me viu, denunciou vocês. Na fazenda devem me conhecer como o fardo de Peter Coleman, a garotinha de porcelana!- ela revirou os olhos, como se já aceitasse todos esses apelidos.

- Fardo, não. De porcelana...talvez. Peter só tem coisas boas para falar sobre você e seu irmão.- Joe olhou brevemente para ela.- Mas sei também que você dá trabalho.

Beatrice sorriu, convencida de sua má fama. Precisou de alguns segundos para avaliar a beleza de Joe, mais uma vez, antes de voltar a falar.

- Nada fácil de lidar...é.- ela encarou a rua.- Peter disse que você era um amigo.- refletiu.- mas ele não me disse o que é que você faz, exatamente.

Joe sorriu enquanto virava a rua.

- Eu trabalho com seu pai há alguns anos. Agora eu cuido dos animais, mas sempre fazendo de tudo lá.

- E você gosta disso?

- Eu amo. A Pejari é tudo pra mim. Gosto mesmo.

Bea assentiu, como se não soubesse que algo como a Pejari, que era tão irrelevante para ela, fosse tão importante para alguém.

- E quantos anos você tem?- Beatrice perguntou.

Joe a avaliou por poucos segundos, como se tentasse entender o sentido daquela pergunta por trás dos olhos dela.

Bea não se importava de esperar a resposta, desde que ainda sentisse o perfume dele. Era realmente bom.

- Vinte e três.- respondeu, e ela não conseguiu acreditar. O encarou, por tempo suficiente, para precisar ter certeza.

- Vinte e três? É brincadeira? Já te contaram que você parece mais velho?

Joe sorriu.

- Já.- e, mais uma vez, ele permitiu que o assunto morresse.

Inconformada e enjoada da música, Bea se permitiu trocar a rádio que passava. Joe não moveu um músculo para impedi-la. Ela encontrou Calvin Harris, como se não houvesse problema em escutar eletrônica às sete da manhã. Realmente não tinha.

- Gosta?- questionou, antes de deixar passar. Joe assentiu, indiferente, e Bea bufou.- Meu pai parece gostar de você. Vocês se conhecem há muito tempo? Parece jovem pra isso.

- Sim. Seu pai deu casa pra mim e pro meu irmão quando ainda éramos moleque.- Por ser um termo que ela não costumava escutar, Bea sorriu, e previu que escutaria termos e conjugações assim mais vezes.- desde aquela época a gente gosta da casa dele, da terra dele.

- Casa dele?- ela desdenhou. - Não, não. Peter não considera o trabalho dele como casa.

Joe esperou que o sinal abrisse para responder.

- Talvez você não tenha escutado ele dizer isso, com o mesmo brilho nos olhos que eu.- E Bea se calou, convencida e um pouco ressentida pela situação.

É claro que, se ela desejasse, poderia compartilhar desses momentos com o pai, mas nada que envolvesse a fazenda e as produções a atraía. Antes.

- E como é a fazenda?- perguntou, parecendo ter de fato interesse.

- Eu até hoje não conheci todas as fazendas, na verdade. As de Ohio sim. Mas, falando da Sede, que é onde eu moro...bem...- Joe pensou um pouco.- Lá é lindo. E tudo acontece como mágica, as coisas  dão certo, funcionam, as pessoas que trabalham são boas, nós nos damos bem... Tudo se torna...bom, simples e alegre...eu acho.

Ela sorriu enquanto o observava falar sobre o lugar.

- Se  for tão linda quanto o que vem de lá...- Ela soltou, sem se arrepender ou ter medo.

Joe não era idiota, e mesmo encarando Beatrice nos olhos e tendo entendido o flerte que lhe foi jogado, ele simplesmente virou o rosto, parecendo cortar o clima que se estendia ali com uma tesoura.

Beatrice encostou a cabeça e olhou para o vidro. Não era justo que ele não a respondesse. Isso nunca aconteceu antes. Ela nunca falhou em nenhum de seus flertes, que raramente aconteciam, porque os homens sempre começavam antes dela.

- Se eu for à fazenda, você pode me apresentar as coisas?

Joe hesitou.

- Não sei se te aguentaria.- mesmo sabendo que aquela resposta poderia ser uma reclamação, Bea deu de ombros.

- Tenho certeza que você aguenta.- ela sorriu de canto, ainda diante da indiferença de Joe que a deixava impaciente.

O cowboy estacionou e, mais rápido do que ela conseguiu acompanhar, ele abriu a porta.

Dessa vez, Bea aceitou a ajuda para descer.

- Acho que eu não entro mais.- ela encarou os portões fechados.- mas nós podemos...sair, comer um lanche, o que acha? morrendo de fome.

Joe riu ao ver o porteiro se aproximando, tirando o molho de chaves do bolso e abrindo os portões da escola.

Bea se sentiu derrotada.

- Eu dispenso.- disse ele, fechando a porta do carro.- Mas tenha uma boa aula, Coleman.

E saiu, não permitindo nem mesmo uma despedida mais próxima dos dois.

Bea passou pelo porteiro, sem responder o "bom dia", intrigada demais com a capacidade de um homem bonito poder ter estragado seu dia.

Publicado em:12/09/2017
Atualizado em: 23/01/2023

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