|Capítulo 13|

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Joe ainda tentava entender por quais motivos Bea não queria voltar para casa. Enquanto ela tagarelava, ele dirigia.

- É sério! J, minha mãe quer ir a um coquetel. Sabe o que é um coquetel? É um saco! E eu queria que meus pais ficassem juntos um pouco.

- Por quê ?

- O casamento deles está meio...conturbado.

- O casamento dos seus pais sempre foi complicado.

Bea bufou.

- Me leve a qualquer lugar!

- E pra onde você quer ir?

- Hm...Não sei. Um shopping, talvez? -Joe não demonstrou nada diante da sugestão.- Um parque? Qualquer lugar que não seja a minha casa? -Ele não respondeu.- J?

- Tudo bem.- Joe sorriu de canto para ela, e Bea suspirou, sabendo que tinha vencido.

Porém, ela percebeu que ainda estavam a caminho de casa. A chuva começou a cair lá fora.

- O que a gente tá fazendo aqui?- Beatrice perguntou, quando estavam na frente do prédio dela.

Joe se virou totalmente para olhá-la nos olhos.

- Você está entregue.- Ele sorriu, ironicamente.

Beatrice se virou para ele também.

- Você disse "tudo bem".

- É, se não você não ia parar de falar.- explicou.

- Custava me ajudar?

Joe respirou fundo, sem tirar os olhos dela.

- Beatrice Coleman, eu trabalho pro seu pai, e não pra você. Se ele disse que te quer em casa, eu te trouxe para casa.

- Mas eu pedi...e você tinha concordado...

- Você queria fugir do seu pai de novo Bea. Parece que não aprendeu nada com o castigo.

- Mas é você.- Ela argumentou.- Meu pai deixaria. Ele confia em você.

Joe aproximou seu rosto do dela.

- E é por ele confiar em mim que eu não faria isso. Entenda, Beatrice: eu não sou um garotinho que vai viver uma aventura com você. Não sou.

Bea respirou fundo e olhou para a chuva pela janela. Joe parecia satisfeito com a decepção dela. Talvez agora estivesse livre de suas garras.

- Então eu vou ficar aqui com você até a chuva passar.- ela decidiu.

- Não, não e não. Eu tenho que ir embora. Pode descer.

- O quê? Joe, está chovendo!- ela protestou.

Joe olhou para frente.

- Justamente por isso eu parei bem na frente da portaria. São só alguns passos, você consegue, eu acredito no seu potencial.- ironizou.

- Não pode fazer isso comigo.

- Bea, você não é de açúcar.

- Quer experimentar?

ele tirou o sorriso do rosto.

- desça.- pediu mais uma vez.

Ela se virou com raiva, jogando todo o cabelo no rosto do rapaz.

Antes de abrir a porta, Beatrice olhou para ele pela última vez.

- Estava certo sobre o que disse mais cedo.- falou. Joe esperou que ela terminasse.- Eu sou uma garota muito mimada.- Ele sorriu, como se já soubesse disso há muito tempo.- Mas sabe o que garotas mimadas fazem? Elas não desistem do que querem. Até conseguirem.- Bea semicerrou os olhos e depois desfez a expressão séria.- Até mais, Joe.

E ela saiu pela chuva até a portaria. Joe esperou que ela entrasse pra poder ir embora, sem considerar suas últimas palavras.

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Uma semana se passou desde o último encontro das meninas. Bea tinha vontade de perguntar sobre o que aconteceu com Andrea e o pai do bebê, mas tinha receio de estar invadindo a privacidade dela.

Estava sozinha em casa.

Até o atual momento, o pai não a havia tirado do castigo. O que era um tédio. Em dias de sábado, todo mundo saía de casa, e ela ficava ali, sozinha. O clima da casa não estava tão bom, e às vezes Beatrice preferia que não estivesse ninguém, do que se todos estivessem brigando, como estavam fazendo ultimamente.

Bea aproveitou o dia para fazer a única coisa que podia fazer: estudar. Revisar as matérias que não tinha entendido antes do castigo. Tentar melhorar, é claro, enquanto escutava Rihanna e cantava todas as músicas do álbum "Unapologetic".

Ela percebeu que havia se distraído quando observou todos os post-its rosas rabiscados sobre a mesa. Seu celular apitou uma notificação.

"Pode falar?"

Era uma mensagem de Scarlett.

"Posso. O que foi?"

" Tenho notícias."

" É sobre a Andrea? Ela está bem?"

" Ainda não sei sobre a Andrea." Informou Scarlett. "Mas é uma notícia boa pra você."

"Pode falar." Disse Bea.

"Edgar foi preso hoje, na Pensilvânia. Pode respirar, Beatrice. Ele não é mais um problema. Você foi a primeira a receber a notícia."

Bea, aliviada, soltou um grito de liberdade e alegria pela casa, que ecoou entre as paredes. Depois, respondeu a mensagem.

"Obrigada, Scarlett. Muito obrigada."

"Eu não fiz muito."

Bea pensou um pouco. Olhou para a casa vazia.

" Você vai ficar até tarde no trabalho hoje?"

"Não, por quê?"

"Você podia vir aqui pra casa...nós podemos comemorar a prisão de Edgar, e, talvez, ligar pras meninas em busca de notícias. Quem sabe não abrimos um champagne?"

" Nossa.- emoji de risada- não sei se estou acostumada com esse tipo de comemoração ou, sei lá. Seus pais não se incomodam?"

Bea olhou para o relógio. Marcavam uma da tarde.

"Não. Venha, por favor, vai ser divertido." Insistiu, nem acreditando que implorava por uma amiga.

"Tudo bem. Me mande a localização e eu apareço por aí depois do almoço."

E assim foi feito. Beatrice não sabia quando Scarlett estaria almoçando, mas sabia que tinha todo o tempo do mundo pra esperar, afinal, não podia sair de casa.

Ela ficou feliz por Scarlett ter aceitado. Entre as outras meninas, talvez ela tenha se reconhecido mais em Scarlett, e pensava que poderia ser um dia divertido.

Bea se concentrou em terminar seus estudos nada organizados. Quando Nina se despediu, perguntando pela terceira vez se Bea queria almoçar, ela ainda estava mexendo com seus cadernos e canetas.

- Não, Nina. Pode ir tranquila. Eu não quero almoçar, como qualquer coisa. Não se preocupe comigo.- Bea se levantou para abraçá-la.- E mande um abraço pra sua filha. Até amanhã.

Nina assentiu e deixou Bea sozinha, de vez.

Depois de talvez trinta minutos, ela percebeu que sentia fome. Decidiu ver o que tinha pra comer.

• Alface, tomate, pimentão;

•Agrião, tomate seco e orégano;

•cenoura e beterraba raladas;

•Tofu;

• Pão integral;

Ela tinha os ingredientes perfeitos para um incrível sanduíche da tarde. Sua mãe ficaria orgulhosa ao vê-la preparando o próprio sanduíche com os materiais vegetarianos.

No momento em que espalhou tudo na bancada, a campainha tocou.

Bea olhou no celular.

Nenhuma mensagem de Scarlett. Nada de Peter, Arthur ou Judith avisando alguma visita ou entrega. Ela caminhou até a porta e abriu, resmungando "Pra que serve esse porteiro se ele não avisa?"

Mas logo sua cara amarrada se desfez, ao ver a alta figura de chapéu e camisa jeans, parado em sua frente.

- Joe.- Disse a garota.

- Boa tarde, Beatrice.- Ele foi indiferente, como se aquela conversa do dia da chuva não tivesse terminado daquela maneira.- Posso falar com o seu pai?

Bea se encostou na porta.

- Peter não está.- informou.

- Ah.- Joe parecia desapontado.- Tudo bem, eu volto outra hora...

- Mas eu estou.- Ela disse rapidamente.- Entra.

Joe deu um passo à frente e então parou.

- Você está sozinha?

- Sim.

Ele deu outro passo para trás.

- Eu prefiro mesmo voltar outra hora.

Bea revirou os olhos.

- Tá tudo bem, Joe. Meu pai deve estar chegando, eu não o vejo desde cedo. Você pode esperar aqui dentro.- Ela riu.- É sério que um homem como você tem medo de ficar sozinho com uma garotinha de dezesseis anos?

Joe sorriu e adentrou o apartamento, se sentindo desafiado.

- "uma garotinha de dezesseis anos." Você é engraçada, Beatrice.

Ela fechou a porta.

- Me chame de Bea, J. Já passamos por essa fase.

Joe tirou o chapéu e segurou em frente ao peito.

- Vem, me acompanha na cozinha?- Ela pediu, chamando ele com o dedo indicador.- fazendo um lanche.

Joe a acompanhou e se sentou no balcão, enquanto ela preparava seu sanduíche.

Quando percebeu os olhos de Joe nas coisas que ela colocava no sanduíche, Bea se ofereceu para fazer um para ele.

- Não, obrigado.- negou.- O que é tudo isso que você coloca no pão?- A expressão dele era engraçada. Bea citou os ingredientes.- E por que diabos você não coloca presunto, muçarela e pronto? Ou até um hambúrguer, sei lá?

Beatrice sorriu.

- Eu não como essas coisas. Minha dieta é regrada pela minha mãe, por conta das calorias e tal. Ela segue desde quando era moça. E eu sou vegetariana também.

Joe tinha uma expressão confusa.

- Comer carne é muito melhor.

- Eu não acho.

- Se lembra do gosto?- Perguntou Joe, olhando a embalagem do pão integral.- Quer dizer...você já comeu um churrasco? Não tem como não gostar!

Bea riu mais ainda.

- Vamos papear, Joe.- começou Beatrice, puxando a cadeira e o prato para perto dele.- Como você e meu pai se conheceram?

Alguns segundos se estenderam, e Joe olhou para as mãos antes de começar, mudando de humor.

- Fazem nove anos. Nossos pais foram assassinados na rua. Disseram que foi um assalto. Jordan e eu soubemos da notícia pelos vizinhos, que queriam revezar pra ficar com a gente. Mas eu e meu irmão tínhamos muito medo de sermos separados no orfanato, então a gente começou a arrumar as nossas coisas em uma mochila e as coisinhas da nossa irmãzinha em outra bolsa. Nossa irmã tinha só um aninho...- Joe mexia nos detalhes de seu chapéu, sem olhar para Beatrice. Ele parecia distante em suas lembranças.- Quando eu já estava com as bolsas lá no quintal, esperando meu irmão buscar ela pra fugirmos pelos fundos...eles já haviam chegado. Quando Jordan voltou, ele estava assustado demais e me mandou correr, dizendo que já tinham pegado a nossa irmãzinha.- Joe limpou os olhos.- Aí a gente correu, muito, sem olhar pra trás. Corremos por dias, até encontrarmos as macieiras da Pejari perto da floresta que estávamos passando. Para crianças com fome, aquelas maçãs serviram muito.- Ele sorriu.- Aí o senhor Peter nos encontrou. E deixou que ficássemos lá.

Bea não sabia o que dizer.

- E a sua irmã?

Joe olhou para ela agora.

- Peter nos ajudou a procurar. Mas nunca encontramos.- Ele sorriu, frouxo.

- Eu sinto muito.- disse Bea, com uma das mãos nos ombros dele.- Peter nunca me contou essa história.

Joe assentiu, mas não disse nada. Sabia que haviam mais coisas nessa história que somente Peter devia contar.

Beatrice olhou para seu prato vazio.

- Como você quer seu sanduíche?

- Eu não quero mesmo não, obrigado.

Ela se levantou.

- Ei, meu pai e meu irmão não seguem a dieta da minha mãe.- Abriu a geladeira, tirando presunto e queijo.- Me diga como quer que eu faço.

Joe olhou para ela.

- Você não vai desistir, não é?

- Não.

Ele se levantou.

- Então deixa que eu faço, garota vegetariana.- Os dois riram, e Joe se aproximou de Bea para pegar os ingredientes que estavam com ela. Beatrice não conseguiria sair dali agora, com ele por trás dela, sentia a respiração dele tão perto, o perfume tão perto. Joe provavelmente não percebeu a proximidade incomum, mas a atração que Bea sentia por ele falou mais alto.

- Você quer mais alguma coisa?- perguntou ela, apenas dez centímetros dele. Joe negou com a cabeça, e se virou para respondê-la. Só então ele percebeu o que estava acontecendo. Mesmo sem escolher isso, os dois ficaram se olhando, intensamente, como se precisassem descobrir o que o outro escondia por trás de um olhar. Bea olhou para a boca de Joe. Não podia mais esperar para beijá-lo. Era tudo que desejava desde o dia que o conheceu. Ela passeou com os dedos da mão direita pelo peitoral dele, mas Joe não dizia uma única palavra, nem mesmo se mexia. Ele só ficava ali, encarando os olhos dela, a respiração pesada, a mão presa ao balcão com tanta força que podia enxergar suas veias. Claramente ele estava se segurando para não fazer nada que não devesse. Bea se aproximou, lentamente, inclinando seu corpo para cima para que seus lábios finalmente se tocassem.

Mas o que tocou foi a campainha.

Joe foi o primeiro a sair do transe. Ele virou seu rosto rapidamente e se afastou para trás, dizendo o óbvio: "Tem gente na porta."

Bea grunhiu.

- É, eu vou abrir.- Afirmou, se recompondo, e antes de ir, colou um post it rosa no peito dele. Ela foi até a porta praguejando mentalmente, enquanto Joe continuava montando seu sanduíche.

- Você pediu...eu vim.- Scarlett estava ali, com um sorriso radiante. Bea se esqueceu rapidamente da raiva e abraçou a visitante.

- Que bom que está aqui. Entre.- pediu. Scarlett adentrou a casa falando com Bea sobre a dificuldade que teve para encontrar o prédio, e como era estranha a falta de atenção e desinteresse do porteiro. Ela acompanhou a garota até a cozinha, e quando viu Joe, não soube esconder a surpresa.

- Ah...- disse Scarlett, olhando para Bea com os olhos azuis arregalados.- Não me disse que ele estava aqui.

Beatrice passou por trás de Joe, fazendo um sinal para que ela não falasse mais nada sobre "ele."

- Joe está esperando meu pai.

O cowboy estendeu a mão direita para Scarlett , não conseguindo disfarçar a frustração do último momento.

- Ah...- Mas a voz de Scarlett mostrava que ela havia entendido que não chegou no momento certo. Bea ofereceu a ela um sanduíche, que negou, alegando que já havia almoçado.

Enquanto Joe comia e Beatrice limpava a mesa com os papéis, as duas conversavam.

- Nós podemos ligar para as meninas, e aí vocês todas passam a noite aqui. Ah! Podemos assistir filmes e nos arrumarmos...tipo noite do pijama!

- Noite do pijama?- Scarlett sorriu frouxo.- Era meu sonho de criança, mas nunca aconteceu. Não estamos velhas demais para isso?

- Bobagem...- retrucou Bea.- tenho certeza que elas vão aceitar.

Joe terminou e lavou seu prato, e as duas mandavam mensagens para as outras garotas. Ele não sabia bem o que fazer, então apenas se sentou de frente para elas e ficou mexendo no celular. Mesmo ambos evitando uma nova troca de olhares constrangedora, Bea e Joe percebiam quando olhavam de canto de olho. Até mesmo Scarlett tinha certeza de que algo estava acontecendo antes que tocasse a campainha. Com certeza ela perguntaria quando tivesse oportunidade.

Bea decidiu iniciar um novo assunto quando a porta da sala se abriu, e ela escutou o barulho das chaves do pai na cômoda. Se sentiu aliviada.

- Oi pai.- disse. Peter entrou na cozinha conversando com um rapaz, que Bea só reconheceu quando estava perto. Era Jordan.

Peter cumprimentou Beatrice primeiro, com um beijo na testa, e depois abraçou Joe.

- Eu ia te ligar assim que chegasse. Jordan disse que estava na cidade.- E então Peter olhou para Scarlett.- Eu conheci você no hospital, certo?- perguntou. A mulher se levantou para cumprimentá-lo.

- Sim pai, essa é a Scarlett.- explicou Bea.

- Oi, Scarlett. Jordan também a cumprimentou, e os dois sorriram.

Peter não sabia que eles se conheciam, então não disse nada.

Observou que Joe tinha um post-it rosa no peito. Quando o cowboy percebeu o olhar do patrão, ele sorriu, sem graça, e arrancou o papel do peito deixando a bolinha na mesa. Nem mesmo nesse momento ele encarou Beatrice.

- Beatrice, sabe da sua mãe?

- Ela ainda não apareceu...- declarou.

Peter coçou os cabelos loiros, em dúvida.

- Consegue falar com ela pra mim? Hoje vamos dar um jantar. E ela sempre quer escolher essa coisa de buffet e tudo mais.

Bea se levantou.

- Tudo bem...eu falo...mas vamos dar um jantar? Assim, em cima da hora?

Peter suspirou.

- É. Não tive escolha nem tempo. É um jantar de negócios, como os de sempre, você sabe.- explicou o pai.

- Eu tinha combinado com as meninas de dormirem aqui em casa.- ela cruzou os braços.

Peter olhou para Scarlett e depois sorriu.

- E qual é o problema? Elas podem dormir aqui. Estão convidadas para o jantar.- informou.

Antes que Scarlett pudesse abrir a boca e dizer: "Bea, é melhor não, que tal outro dia? Não temos nem roupa pra esse tipo de evento!"

Bea se animou.

- Numa escala de zero a dez, o quão refinado será o jantar?

Peter serviu um copo de água para Jordan antes de responder.

- Oito.- disse por fim. O olhar de Beatrice se iluminou. Scarlett começou a negar com a cabeça, mas a outra deu as costas para ela.

- Ok. Vou mandar mensagem para a mamãe sobre o buffet e a decoração agora mesmo.- Ela observou Joe.- E...mais uma pergunta...se é um jantar de negócios, Jordan e Joe terão de ficar, não é?

Peter se virou novamente para os irmãos Hammar.

- Boa pergunta, querida. Meninos, vou mesmo precisar de vocês aqui hoje. São assuntos do interesse Pejari.- disse.

Joe e Jordan trocaram olhares, mas não disseram nada.

- Não se preocupem.- Bea estampava um sorriso no rosto.- Eu e Scarlett vamos levar vocês para escolherem um smoking!


Publicado em:18/09/2017
Atualizado em: 23/01/2023

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