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"Você fez flores crescerem em meus pulmões e embora elas sejam lindas, eu não consigo respirar."

"Você tem medo de contar para as pessoas o quanto machuca, então, guarda tudo para si mesmo."

"Deixe-me te contar uma coisa: se você conhece uma pessoa solitária, não importa o que eles te digam, não é porque eles gostam da solidão. É porque eles tentaram se misturar no mundo antes, mas as pessoas continuam a desapontá-los."

Várias coisas vinham à mente de Taehyung quando ele pensava em satisfação. O modo que o sol se encontra com o mar em uma hora específica entre o entardecer e o anoitecer e a forma como todo o céu reflete esse movimento e o mar, por sua vez, absorve essa essência e se junta ao plano, deixando o momento passageiro tão magnífico que seria digno de uma pintura. E a parte mais satisfatória de tudo é que o pintor, para desenvolver um quadro com extrema fidelidade à paisagem natural, tem apenas alguns minutos antes que todo o céu mude de coloração de novo e ele tenha que retornar no dia seguinte, ansiando ver a mesma paleta de cores no céu e a mesma leveza de reflexos no mar.

Mas nada se comparava a imagem de Jeon Jungkook dentro de uma floricultura em plena quinta-feira à noite, chuva caindo do lado de fora impiedosamente e as luzes que agiam como estufa para os ramos de flores criando sombras em suas feições angelicais, o modo que sua testa estava relaxada e o nariz suave complementando o contorno da boca aberta em uma respiração pesada apenas o deixava aparentemente mais novo e mais... leve. Encolhido em um suéter roxo claro (Taehyung se lembrava dele, no dia em que o encontrou prestes a partir e o acolheu em seu dormitório. Ele o vestiu logo após vomitar a pizza que Taehyung recomendou que não comesse) e a mesma jaqueta jeans de sempre, Jungkook parecia ainda menor com jeans skinny e Vans, uma meia branca de cano alto escondendo seu tornozelo e o protegendo do frio.

Taehyung queria mais que tudo tirar uma foto dele enquanto agarrava uma flor cor-de-rosa entre os dedinhos, a aproximando do nariz e fechando as pálpebras conforme inalava seu cheiro, mas antes mesmo de poder ajustar a câmera em frente aos seus olhos, Jungkook captou seu olhar, no exato momento em que ergueu as pálpebras e recolocou a flor no vaso. Por um instante, tão breve que Taehyung mal percebeu, alívio passou por suas feições, quase como se quisesse vê-lo ali, mas não demorou muito para cerrar os lábios e se encolher nas roupas, os olhos demonstrando receio e os músculos visivelmente tensos diante de sua presença, mesmo que estivesse à balcões de flores de distância.

Se aproximando a passos largos, Taehyung engoliu o caroço que se encontrava em sua garganta, sem motivo aparente para tal, e parou no exato momento em que Jungkook recuou alguns passos, constatando estar perto demais. Ele o encarou com aqueles olhos claros vazios, causando um esfriamento na boca de seu estômago, não de um jeito bom como em borboletas, mas em um jeito angustiante, desesperador. Já era tempo do claro retornar ao seu posto.

- Oi.

Jungkook desviou o olhar de Taehyung e deu passos para longe, distraindo-se com as flores ao que passava o dedo suavemente por suas pétalas macias, sentindo a textura em sua pele fria e desejando ser uma delas, bonita, suave e delicada – mal sabendo que já era uma. Taehyung o acompanhou, as mãos nos bolsos e em silêncio, passos pequenos para manter a distância, o que parecia confortar Jungkook, de certo modo.

- Eu, hm, não te vi na uni hoje. – Taehyung murmurou esperançoso e Jungkook, de fato, ergueu os ombros em resposta, sem fita-lo ou ficar de frente para o mesmo, apenas observando flor por flor com dedicação. – Está tudo bem?

Algo no tom de Taehyung denunciava que aquela pergunta se referia não apenas ao dia perdido na uni mas também na situação em geral. Era tão estranho ver Jungkook ali em sua frente, rodeado por flores, enquanto que meses atrás tudo que tinha eram ligações ignoradas, mensagens não respondidas e fotos mal apreciadas. Mas Jungkook estava ali.

- Gukkie. – Taehyung insistiu ao observar Jungkook parar de andar e agarrar uma flor com tonalidade azul arroxeada, seus braços pareciam tensos e a linha enrugada entre suas sobrancelhas indicava que ele estava incomodado. – Está tudo bem? Conversa comigo... ou não, só—só me olha e me dá algum sinal de que está tudo bem e—e eu vou embora, eu te deixo—te deixo em paz por hoje. Só por hoje e—e—

- Sabia que o aroma da Violeta traz calma? – sua voz soou baixa, hesitante e trêmula, assim como seus dedinhos ao redor do cabo da flor azul. Taehyung pôde ver em sua expressão turbulenta que estava enfrentando muitas barreiras para falar, e sentiu-se grato por vê-lo ao menos tentando. – Ela é muito usada em calmantes, pomadas pra machucados e para diminuir o cansaço.

Taehyung ficou em silêncio por algum tempo, não apenas pelo fato de estar tentando entender aonde Jungkook queria chegar ou o que queria dizer com aquelas palavras mas também porque se distraiu observando-o, o jeito como acariciava as pétalas da flor cautelosamente, evitando quebra-la, ou como cutucava a parte amarela no centro dela e brincava com a ponta do dedinho ali, a maciez suavizando sua tensão ligeiramente e como a mão que a segurava era acariciada pelos pelinhos que cobriam seu cabo.

- Ela te traz calma? – foi o que Taehyung perguntou, sua voz suave para não assustar Jungkook, o que não funcionou ao que ele se encolheu e devolveu a flor para seu lugar inicial, os dedinhos se escondendo na manga do suéter roxo claro. – Eu gosto desse suéter. Me lembra dos bons tempos. – Jungkook enrijeceu dos pés à cabeça e mesmo coberto por toda aquela roupa, Taehyung jurou ter visto seus pelos se arrepiarem ao mesmo tempo que captou seus olhos arregalarem. – Lembra de quando deitamos na cama de Yoongi e jogamos o jogo da Disney? – Jungkook abriu os lábios para inspirar profundamente, parecendo lhe faltar ar, o rosto tão pálido que o dava a impressão de morto, o que só incentivou Taehyung a continuar, quase que o forçando a ter um resquício de vida ali. – Ou em como te fiz comer aquela sopa horrível de cenoura com batata? E—e quando insistiu em comer pizza e vomitou tudo depois? Eu devia ter feito você limpar o chão com a língua mas tinha algo em seus olhos que me fez calar a boca e limpar eu mesmo. – em um fôlego desesperado, Taehyung murmurou, a voz elevando ao que a chuva caía mais forte lá fora. Jungkook soltou um engasgo amedrontado e deu alguns passos cegos para trás, escorando em uma bancada de flores como se fosse cair a qualquer instante. – Você estava querendo ir embora, desistir da uni, mas eu consegui te impedir, consegui colocar na sua cabeça que ainda havia chance—ei, Gukkie, calma, okay? Eu—eu posso faz—me deixa fazer isso de novo, eu sei que—eu posso te ajudar e eu quero te ajudar e—

Taehyung se impediu de continuar ao ver a expressão de Jungkook, ele parecia tão aterrorizado que embora tivesse os olhos vazios fixos em si, parecia perdido em divagações, tão frágil ao mesmo tempo tão inalcançável que Taehyung desejou poder derrubar aquela parede de tijolos que construiu ao redor de seu corpo para abraça-lo, e de fato avançou para fazer tal, mas quase caindo no chão, Jungkook se afastou, o lábio inferior e as mãos tremendo.

- N-não. – ele murmurou, tão baixo que a chuva lá fora abafou. Taehyung suspirou e remexendo os pés impacientemente, impotente ao ver seu garoto naquela situação e não poder alcança-lo e faze-lo melhorar, apenas passou as mãos pelos cabelos.

- Vai me mandar embora? – Taehyung soou chateado. Esperava que suas palavras fossem despertar algo em Jungkook, algo que pudesse mudar seu comportamento diante dele, mas aparentemente não deu certo, vai ver nem significava tanto assim para ele quanto significou para si.

O que ele não sabia era que Jungkook reprimiu aqueles sentimentos e lembranças e simplesmente receber tudo como uma avalanche sobre suas costas é tão doloroso quando tentar esquecê-los. Após tanto tempo as evitando, ser atingido por flashbacks pareceu perigoso demais para si. Jungkook tinha medo do passado.

Sem responder, Jungkook apenas ignorou sua presença e começou a se afastar pelas fileiras de flores, a respiração regulando e os ombros caindo, seus pés tropeçavam um nos outros e seus joelho trêmulos se chocavam. Taehyung trazia consigo uma bagagem tão pesada que o esgotava – mas ele sabia que isso acontecia porque parte daquela bagagem foi compartilhado com ele.

Taehyung demorou a segui-lo e nem sabia ao certo o porquê estava o fazendo mas simplesmente o alcançou próximo à um balcão cheio de flores brancas lindas, desabrochadas e suaves nas linhas curvas de suas pétalas. Jungkook deu mais alguns passos para longe de si quando percebeu-o perto, mas não o mandou embora, o que foi um bônus.

Ficaram em silêncio. Jungkook estava se recuperando das palavras de Taehyung, ainda ressentido e sem saber como reagir, a chuva lá fora inundando seus pensamentos e enevoando suas reações. E Taehyung só queria garantir que ele estaria bem antes de retornar ao dormitório e explicar para Namjoon que não havia encontrado a essência que ele queria (emitindo o fato de quem nem procurara por ela).

E após o que pareceram ser anos, Jungkook suspirou e pegou uma das flores brancas opacas na bancada, a girando no dedo e a analisando minuciosamente enquanto mantinha-se rígido e tenso na presença de Taehyung, como se estivesse em alerta a todo instante, pronto para gritar e fugir de medo.

Ele a estendeu para Taehyung.

Piscando várias vezes, Taehyung fitou a flor estendida e sendo segurada por dedinhos fugitivos da manga encardida do suéter roxo claro, o modo como eles seguravam-na pelo cabo e mantinham-na o mais longe possível de seu corpo. Erguendo os olhos para Jungkook, Taehyung, entretanto, não o encontrou, apenas um par de olhos sem sentido e expressões faciais amedrontadas, apenas um vestígio de coragem em seu maxilar. Olhos claros que não eram os olhos claros de seu Jungkook.

Ele agarrou a flor com cuidado e a girou nos dedos longos cobertos por anéis, tentando compreender o que aquilo significava ou o que Jungkook queria que ele fizesse com ela. Apesar de tudo, Jungkook apenas o encarou uma última vez e voltou a andar, o corpo pequeno e retraído se aproximando do caixa. Taehyung permaneceu lá, parado e estático enquanto tentava de alguma forma raciocinar.

Somente quando Jungkook deixou o caixa e passou o mais longe possível de seu corpo, a chuva o abraçando lá fora, é que se deu conta de que ganhara uma flor de presente.

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- Como vamos aguentar a noite de jogos sem narguilé, bro?

Taehyung ignorou Namjoon enquanto sentava em sua cama e retirava a flor com toda a cautela do mundo de seu bolso, protegida da chuva torrencial lá fora (Ele estava se proibindo de pensar em como Jungkook pôde ir embora naquele temporal, e só esperava que ele estivesse bem quentinho no lugar aonde está ficando), e a rodava nos dedos.

- Aonde conseguiu essa flor?

Taehyung não respondeu mais uma vez, concentrado demais no pequeno e delicado pedaço de vida em seus dedos e então, sacou o celular do outro bolso, o desbloqueando e indo diretamente para o Google. Ele nunca foi muito bom com flores. E no instante em que viu o nome e significado daquela pequena flor em sua mão, teve a certeza de que ainda havia esperança. Sem se conter, abriu as mensagens e procurou pelo contato de Jungkook.

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Jungkook estava deitado em sua cama, o corpo coberto pelas roupas molhadas da caminhada na chuva forte lá fora sendo sobreposto pelo edredom que supostamente o manteria quente quando na verdade, tudo que sentia era frio. Ele tivera um daqueles dias aonde tudo colide mais uma vez, como se ainda tivesse algo inteiro para destruir, aonde tudo que quer fazer é nada ao que sente tudo, aqueles dias aonde cada erro cometido volta à sua mente, cada arrependimento toma suas mãos e refletem em seus arranhões profundos e cada vez mais sobrepostos um no outro.

Um daqueles dias.

Ele se recusou a ir para a uni e encarar aquelas pessoas que apenas o desprezavam e provavelmente nem perceberiam sua ausência, se recusou a comer qualquer coisa pois tudo que coloca em seu corpo está fadado à destruição e envenenamento e ele não queria correr o risco, se recusou a ter contato com qualquer um que tivesse dois olhos e uma boca e se recusou à dádiva da vida.

As palavras de sua mãe ecoaram em sua mente. Amores são flores e as vezes vêm protegidos com espinhos, para que apenas os merecedores permaneçam e desfrutem de sua doçura e sutileza. Ryan inundou seus pensamentos durante o dia inteiro e sem forças para aguentar, Jungkook se ergueu da cama e seguiu passos fracos para a floricultura da rua de baixo do prédio de Stan.

E claro que Kim Taehyung passaria por lá no exato instante em que ele estava.

Talvez tenha sido o vazio dentro de seu peito ou a indecisão que pairava em sua mente, a questão é que, enquanto Taehyung estava lá, rodeado de flores e espinhos, potenciais amores prontos para merecedores, ele ainda permanecia ao lado de Jungkook, paciente e protetor, como se seus espinhos nem o fizessem cócegas.

Está tudo bem?, ele perguntou.

Jungkook não conseguiu responder, não conseguiu transformar seus sentimentos em palavras mas ali, deitado em sua cama, encharcado, tremendo quem dera ele por frio e não por medo do que estava da porta pra fora, percebeu que a resposta era bem mais complexa do que um mero sim ou não.

Autodestruição assume muitas outras formas além de uma lâmina cortando sua pele. É apenas comer doces por dias seguidos, ou não comer nada. É estar rodeado por pessoas que não apreciam quem você é, ou não estar rodeado por ninguém. É beijar pessoas que você não liga, ou não beijar ninguém. É dormir ao invés de sentir. E é não conseguir dormir quanto você sente coisas até demais. É uma caixa de entrada cheia de mensagens não lidas, ou mensagem alguma. É conversar com aqueles que apenas percebem sua aparência física, ou não percebem coisa alguma. É ter pessoas em sua vida que estão apenas ali por seus próprios interesses, ou não ter ninguém. É encarar uma tela por horas seguidas quando a realidade o chama. É ignorar aqueles que se importam com você e os afastar porque não merece a bondade deles. É preencher o tempo livre com atividades que mantem sua energia estagnada, ao invés de fazer as que ama. É conviver com velhos, ultrapassados hábitos, conviver com pessoas que apenas o conhecem dos seus piores momentos. É estar constantemente rodeado de pessoas, ou de nenhuma. É saber o seu limite e intencionalmente o ultrapassar. É permanecer quieto enquanto está sendo consumido por um sentimento. É evitando responsabilidades. É dizer sim quando quer dizer não, ou o contrário. É deixar os outros se aproveitarem de você. É deixa-los te manipular porque é apenas outra armadilha que você "acidentalmente" caiu. É muito mais do que se machucar fisicamente. Então o que está tentando dizer é que não, não está exatamente bem.

Foi quando o vibrar do celular despertou Jungkook de suas lágrimas e ele nunca pensou que poderia sentir algo dentro de um peito tão vazio, não novamente, não depois de tudo que passou, não depois de toda dor, não depois de todo sangue derramado, não depois de todos os espinhos.

Mas ali estava.

Bobão.

E um emoji de tulipa.

Gardênia - significa agradecimento.

"Elx não era frágil como uma flor, era frágil como uma bomba."

Desconhecido.

:)

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