🎬 16%
Assim que Kim entrou em seu dormitório, Namjoon ao seu encalço, as paredes começaram a sofrer repetidos socos, seus punhos cerrados descontando toda a raiva e ira acumulada durante a noite, os olhos escuros rodeados por veias marcadas e bochechas vermelhas em ódio.
Já sabendo que isso, eventualmente, aconteceria, Namjoon sentou em sua cama e aguardou. Até ele queria socar algo.
Ninguém conseguia acreditar que Jungkook tinha mesmo feito aquilo.
- Não consigo acreditar que Jungkook fez mesmo aquilo. – Namjoon verbalizou o sentimento de todos enquanto via Kim aumentar a força dos socos, pó de gesso caindo no chão conforme seu punho ia e voltava contra a parede.
- E você esperava mais dele? Ele não vê—ele—ele é tão obcecado e burro e idiota e... infantil. Se ele pelo menos ouvisse alguém que não se chamasse Ryan... Urgh! – Taehyung derramava gotas de suor no chão conforme se irritava ainda mais, apenas mencionando o nome do dito cujo.
Namjoon suspirou, passando a mão no rosto.
- Jungkook precisa saber a verdade sobre esse cara.
Taehyung abruptamente parou de desferir os socos na parede, seus olhos fixando em um ponto qualquer conforme sua voz engrossava e ele queimava em ódio.
- Ele sabe.
Namjoon ergueu a sobrancelha.
- Como el—
- Eu contei pra ele, Namjoon. E ele não acreditou. – Kim rosnou enquanto desferia mais socos, voltando de sua pausa.
Namjoon demorou alguns segundos pra processar a informação e então responder, a voz baixa.
- Contou pro Jungkook e não me contou?
Ele parecia magoado.
- Eu acabei de dizer que contei pro cara que o ex talvez agora atual dele me drogou e me estuprou e me espancou e tudo que você presta atenção é no fato de eu não ter te contado?
Namjoon se levantou rapidamente, as mãos indo para os ombros do amigo e seus olhos focando nos escuros, confusos à sua frente.
- Repete.
Taehyung franziu o cenho.
- O qu—
- Repete, caralho. – Namjoon estava atônito.
Bufando, Kim repetiu.
- Eu disse que acabei de te dizer que con—
- Não, idiota. A parte em que ele te drogou e te estuprou e te espancou. – a voz de Namjoon soou falha.
Kim o encarou sério.
- Se sabe o que eu disse, por que me pediu pra repetir?
Namjoon o apertou em um abraço forte enquanto bufava e revirava os olhos para a teimosia do amigo.
- Por que não me disse, caralho? Está sofrendo sozinho todo esse tempo e—Quando aconteceu?
Kim estremeceu nos braços quentes de Namjoon, recebendo o abraço de bom grado. Ele não era muito de afeto mas naquela situação, não iria negar.
- Não queria que ninguém soubesse. – sua voz estava mais rouca que o normal e encostando o queixo no ombro do amigo, Taehyung suspirou.
Namjoon resmungou ao perceber que Kim estava evitando suas perguntas.
- Taehyung, você prometeu me contar. – chamando a atenção do amigo, Namjoon resmungou.
Kim se desvencilhou de seus braços e caminhou até sua cama, ficando de costas para o amigo enquanto dava de ombros.
- Não quero sua pena.
- Taehyung!
- Você vai ficar sentimental e preocupado e—
Namjoon o interrompeu, seus braços ao redor de sua cintura enquanto sua cabeça repousava em suas costas largas e musculosas. Permaneceram assim por algum tempo, a respiração rápida de Kim fazendo a cabeça de Namjoon dançar. Mas ele continuou no aperto.
- Foi na final do campeonato do ano passado.
A voz de Taehyung saiu falha e baixa, seu corpo inteiro estremecendo nos braços do amigo conforme ele se sentia fraco e doente. Namjoon respirou fundo em suas costas e resmungou de volta, cauteloso.
- Ele te drogou? C-como—como assim? – sem saber o que perguntar, Namjoon franziu o cenho, o próprio estômago revirado com o pensamento de seu amigo ser estuprado.
Após alguns segundos, Kim reprimiu uma bufada enquanto respondia. Ele mal reconhecia sua própria voz.
Tão frágil, tão quebrada, tão... sôfrega. Aquela não era a armadura que ele havia construído.
- Boa Noite Cinderela. – ironicamente falando, como se achasse a si próprio um estúpido por cair nessa, Taehyung suspirou.
- M-mas como—hm, com—
- Ele era o capitão do time, Namjoon, não se questiona o capitão do time. – adivinhando que Namjoon estava pensando em como ele se permitiu ser dopado por Ryan, Taehyung desdenhou de si próprio. – Ainda é.
Finalmente saindo do aperto e ficando de frente para o cacheado, Namjoon franziu o cenho.
- Ainda é? Ryan não é mais o capitão do time, Kim. – o maior o encarou com tédio e em seguida, fez uma careta de desgosto. Algo acendeu no cérebro de Namjoon, seus olhos se arregalando com o pensamento. – Ele te ameaçou?! Por isso nunca aceita ser o capitão do time e—mas ele já saiu da uni, por que não aceita de uma vez?
Kim desviou do corpo de Namjoon enquanto se jogava na cama, barriga pra baixo e rosto contra o travesseiro.
- Kim, o que mais ele falou? – a voz de Namjoon transbordava curiosidade e ameaça, forçando o amigo a contar. Taehyung nem se mexeu na cama. – Kim! Me responde, porra. O que ele falou pra você?
Taehyung parecia adormecido, nem um único músculo se mexendo na cama. Irritado, Namjoon se ajoelhou ao lado do amigo e o virou de frente, fixando o olhar em seu rosto.
- O que ele falou, caralho?
- Ele falou que iria machucar Jungkook, porra!
Taehyung tinha o rosto vermelho de raiva, seus olhos arregalados e seus lábios rígidos em uma carranca irritada. Se sentando e empurrando Namjoon pra fora da cama, ele bufou.
- Tae—
- Ele falou que iria estuprar ele e bater nele igual ele fez comigo se eu aceitasse e que iria gravar e me mostrar e me torturar e—
Namjoon observou em espanto o cacheado colocar a cabeça entre as mãos, soluços ecoando alto no quarto conforme seus ombros tremiam. Sem saber como reagir, Namjoon apenas o abraçou forte, lutando contra os espasmos para mantê-lo perto de seu peito.
Ficaram assim por alguns minutos, o ruído de choro sendo o único a quebrar o silêncio pesado. Taehyung deixou sua cabeça pender contra o ombro de Namjoon conforme suas mãos apertavam o tecido já encharcado da camisa do amigo.
- E-eu não quero q-que ningu-guém passe por a-aquilo, Nam.
E naquele momento, Namjoon não conseguiu segurar as lágrimas. Seu amigo soava tão frágil e tão machucado que ele simplesmente caiu em prantos junto com seu corpo tremendo, ambos deitando na cama e se embrulhando para, juntos, tentarem amenizar os soluços.
Em vão.
- Eu sinto muito. Eu deveria ter—ter percebido, porra, eu divido o quarto com você e nunca percebi e—me perdoa, Tae... – Namjoon despejou em um único fôlego, não permitindo que os soluços altos interrompessem sua fala.
Kim enfiou sua cara no peito forte do amigo enquanto negava freneticamente com a cabeça, seu choro saindo violentamente pelos seus olhos, seu nariz, sua boca, suas mãos, todos os poros de seu corpo exalando dor.
- N-não foi culpa sua e—e—eu não que-quero pen—
- Cale a boca. – cuspindo a frase, Namjoon afagou os longos cachos de Kim, tentando acalmá-lo conforme suas próprias lágrimas reduziam aos poucos. – Eu sou seu amigo e quero te ajudar. Você precisa contar tudo e me deixar lidar com isso junto com você.
Kim riu entre soluços molhados e dolorosos.
- Ninguém vai ent-entender o que e-eu passei. – Taehyung ofegou. – Você tem sorte.
Namjoon não respondeu de imediato, apenas se concentrou em acalmar o corpo trêmulo do amigo, acolhendo-o em seus braços de forma protetora e carinhosa. Com o tempo, os soluços de Taehyung foram diminuindo de brutalidade, restando apenas as grossas lágrimas e as mãos trêmulas.
- Me conta. Eu quero tentar entender sua dor.
Relutante, Taehyung começou a murmurar, baixo e fraco, relatos de sua dor ardente e perpétua enquanto seu amigo ouvia como um bom homem e deixava lágrimas escorrerem por suas bochechas vermelhas.
- Ele disse que queria tratar de assuntos do time e—ele começou a passar a mão em mim e eu—eu juro que pedi pra ele parar. Ele parou. E eventualmente foi embora– ele me deu a bebida dele, me disse que já tinha bebido o suficiente pela noite. Eu fui tão estúpido por ter bebido—não tinha um gosto diferente, parecia vodca de qualquer jeito e—e—
Se interrompendo, Taehyung apertou Namjoon contra si, os soluços voltando tão fortes quanto vieram em um primeiro momento. Seu coração parecia transbordar dor e sofrimento, seu choro era tão sôfrego que dava a impressão de ser causado por facas em seu peito.
Ele sentia-se despedaçando – como se estivesse intacto em algum momento. Ele não se sentia inteiro desde o dia em que Ryan abusou dele.
Desde então, ele não passava de um monte de remendos de Kim Taehyung.
Namjoon o manteve firme em seus braços até que ele continuasse a falar, a voz cada vez mais baixa e quase inaudível, a dor palpável em suas palavras. Seus olhos escuros estavam escondidos atrás das pupilas, fechados tão fortemente que as lágrimas escorriam com rapidez em sua bochecha.
- Ele voltou. Me elogiou em campo e—eu não via nada, não sentia nada, mal conseguia falar. Eu nem ao menos me lembro de como fui parar naquele lugar, só—eu só senti a dor me consumindo, me deixando mais tonto do que qualquer droga poderia algum dia me deixar. Eu só via os olhos dele, Namjoon. Só os olhos dele. – após alguns segundos de suspiros, Kim retomou. – Ele estava gostando daquilo, seus olhos eram puramente prazer e satisfação. Ele se sentia orgulhoso, realizado. Eu acho que apaguei. Ou ao menos não me lembro de sentir ele longe de mim—
- Não lembra de ter sentido a dor ir embora?
- Ela nunca foi. – sem mais lágrimas para derrubar, Kim estremeceu nos braços de Namjoon, que o encarava com uma expressão enigmática. – Jungkook é minha próxima memória. Somente quando eu o vi, quer dizer, eu supus tê-lo visto, ele estava com um suéter azul, é que me dei conta de que estava de joelhos. Não sentia nada além de tontura, minha dignidade fora embora naquele instante. Se é que ela ainda existia àquela altura.
- Jungkook viu ele te estuprando? – Namjoon assumiu uma expressão irritada, apertando Taehyung contra si de forma protetora. Assentindo, o maior tremeu a respiração. – Como ele pode transar com aquele nojento sabendo que ele te estuprou?
Taehyung engoliu em seco, controlando a respiração falha.
- Acho que ele idealizou a cena como um cara pagando um boquete pro namorado dele e—e isso ofuscou o resto. A verdade. – os ombros largos tremeram. – Jungkook sempre foi cego por ele, Namjoon, não me surpreende essa reação.
- Eu quero socar os dois até um deles desmaiar.
Taehyung estremeceu brutalmente com essa frase. Namjoon o encarou atento.
- Ryan fez isso.
- M-me desculpa, Tae—
- Jungkook terminou com ele. Xingou, gritou e chorou. Eu acho. Ryan sumiu por um tempo, eu me lembro de não sentir sua presença ao meu redor por alguns minutos, ou talvez horas, não conseguiria dizer com certeza. Acho que ele foi atrás de Jungkook, tentar resolver a merda que havia feito. Eu nem ao menos sei como Jungkook nos achou ali, era muito escondido. – Taehyung parou para pensar por alguns segundos, a bochecha contra a camisa ensopada de Namjoon. – Vai ver ele e Ryan transavam lá.
- Eu sinto tanto nojo e ódio que acho que vou vomitar.
Taehyung assentiu, os braços de Namjoon se enrolando em suas costas cada vez mais, quase o tomando o ar.
- E então ele voltou. Ele estava furioso. Eu não conseguia me mexer, me levantar, nem ao menos gritar. Eu acho que vomitei ou talvez tenha só sentido como tal. E como se a droga não fosse o bastante, comecei a sentir a tontura dos socos, chutes e baques. Eu via ele me batendo mas eu não sentia os golpes. Vai ver a dor da situação superasse todas as outras.
- Taehyung...
Namjoon tentou fazer o amigo parar de contar, a dor tão evidente em sua fala que o preocupava que em algum instante ele iria desmaiar. Mas Taehyung continuou, o rosto congelado em uma expressão de puro choque.
- Talvez eu tenha desmaiado umas duas vezes antes de realmente apagar, de vez. Eu acho que ele abusou de mim de novo, ou talvez tenha sido só—tudo é uma impressão, afinal, eu não lembro de nada com clareza, mas algo me diz que ele fez de novo. E de novo. E quando eu já não era nada além de uma pilha de inutilidade, ele foi embora.
- Taehyung, está tudo bem, pode par—
- Na verdade, eu me lembro de uma coisa com clareza. Eu me lembro de ele segurando meu rosto forte enquanto me socava, ou eram chutes, eu não conseguiria diferenciar. Ele me disse—disse que eu já havia tirado Jungkook dele, e que se eu ousasse fazer o mesmo com o título de capitão do time, ele iria me socar até a morte. – seu corpo estava tomado por calafrios, os braços de Namjoon não sendo fortes o suficiente para toda aquela dor. – Ele disse que Jungkook sentiria a mesma dor que eu, e que eu seria o responsável por isso. Eu—eu—
O mundo de Taehyung desabou.
Namjoon tentou mas em vão, o corpo forte de Taehyung sendo tomado por espasmos enquanto o choro voltava à tona, os soluços tão altos que eram ensurdecedores. Não havia nada a falar, nada a fazer e nada a choramingar.
Estava feito e a dor estava e estaria presente por um bom tempo – se não para sempre, no coração quebrado de Kim.
Talvez ainda mais forte.
Jungkook cedendo e transando com Ryan era a prova de que ele havia vencido, ele havia destruído Kim sem ao menos encostar a mão nele novamente.
Namjoon não conseguia pensar, apenas sentir. Ele segurava o corpo do amigo como se estivesse segurando sua própria vida, a impedindo de entrar em colapso – e talvez fosse verdade.
Nenhuma palavra foi professada. Eventualmente, Kim caiu no sono, a dor o consumindo até adormecer profundamente nos braços de Namjoon, que, sem conseguir dormir, apenas afagou os cachos do amigo.
Aconteceu exatamente o que Kim estava tentando evitar desde o começo.
A dor havia se espalhado.
🎬
Quinze dias haviam se passado.
Jungkook sorria conforme andava pelo corredor de seu dormitório em direção ao Balls&Blues.
Muita coisa havia acontecido desde aquela noite do início do campeonato, desde que Ryan havia voltado.
Jungkook não podia estar mais feliz. Ryan estava de volta em sua vida e isso o deixava contente – era como se o céu tivesse cor novamente, como se os pássaros tivessem um propósito em cantar e como se o sol brilhasse apenas para ele.
As coisas estavam maravilhosas – bem, nem tanto.
Yoongi não dividia mais dormitório com Jungkook.
Na verdade, até dividia, mas nunca dormia lá. Faziam dias que Jungkook não o via – não via nenhum dos meninos, pra falar a verdade. Desde que reatara o namoro com Ryan, ele está sendo ignorado por completo por seus amigos – o que só colabora para sua fixação pelo namorado.
Ele acorda pensando em Ryan, passa o dia pensando em Ryan, dorme pensando em Ryan. Sua vida é em função de Ryan, exatamente como antes – o que apenas o deixa mais satisfeito com toda a situação.
Ele sente falta dos meninos, de Yoongi, principalmente – mas se ter Ryan significava perder os amigos, então a escolha dele estava tomada.
Ele não podia arriscar perder o amor de sua vida mais uma vez. Ele faria de tudo, tudo mesmo, para continuar com Ryan.
Mas não foi imediatamente assim. Seus amigos tentaram, nos primeiros dias, fazê-lo desistir de seu amor. Yoongi sempre ficava irritado com ele quando Ryan dormia em seu dormitório e quando passava a noite, o loiro dava um show.
Eles não queriam a felicidade dele.
Mas ele não se sentia sozinho, Ryan ia vê-lo todos os dias na uni, dormia lá quase todas as noites e está sempre mandando mensagens ou ligando.
Ele se importa com Jungkook.
E Jungkook estava contente com isso.
Por este motivo, quando chegou ao Balls&Blues e sentou-se em uma mesa no canto, manteve o sorriso no rosto, esperando Ryan chegar para almoçarem.
Eles sempre faziam isso ás quintas.
Era tanto amor que, mesmo com um atraso de quarenta minutos, Jungkook ainda sorria bobo pro cardápio, eventualmente checando se havia alguma mensagem de seu namorado, avisando sobre um possível empecilho que justifique a demora.
Nada.
Uma hora depois e nenhum sinal de Ryan, o sorriso de Jungkook gradualmente caindo.
Uma hora e meia, Jungkook já não tinha mais sorriso.
Uma hora e quarenta e sete minutos, Jungkook batia o pé no chão impacientemente.
Uma hora e cinquenta e dois minutos, Jungkook se levantou preocupado e saiu a procura de Ryan pela uni.
Para um atraso deste tamanho, deveria ter acontecido algo muito grave com Ryan. Ele nunca se atrasava. Muito menos duas horas.
Não havia sinal algum dele no campus, na biblioteca, nos corredores dos dormitórios. Nada.
Com uma careta de choro no rosto, Jungkook se arrastou pelos corredores dos vestiários, em direção ao campo. Seu coração ardia em preocupação, a mente criando mil e um cenários possíveis para o paradeiro de Ryan.
Ele queria sentar e chorar até que o namorado o achasse. E não o contrário.
Foi quando chegou na entrada das arquibancadas, o corpo forte e esbelto de seu namorado à apenas alguns passos de distância.
Atracado com outro.
De novo não. De novo não. De novo não. De novo não. De novo não. De no—
Jungkook abraçou seu próprio corpo conforme lágrimas grossas caíam de seus olhos claros, os músculos tensionando em dor, o coração sendo espremido em pequenos pedacinhos conforme sua boca era cortada por soluços altos.
De novo não.
Jungkook sentia seu mundo desmoronando. Ele pensou já ter sentido essa dor antes mas estava enganado. Era ainda pior. Seu choro era tão violento que embaçavam seus olhos e ardia seus pulmões.
Caindo de joelhos, ele abaixou a cabeça e deixou as lágrimas molharem seu rosto, seu pescoço e sua camiseta, fraco demais pra reagir diferente. Ele queria morrer ali mesmo, derreter até esvair junto com a dor.
O mundo era tão injusto. Ele só queria amar e ser amado – ele só queria ser correspondido.
Ryan não o amava.
Jungkook pensou ser forte o suficiente para carregar esse relacionamento por conta própria mas ficava cada vez mais difícil com Ryan os puxando pra baixo – e ele acabara de cair.
Sem forças para levantar e ir embora, ele chorou como se as lágrimas fossem lavar a dor embora e mesmo quando elas não o faziam, ele continuava tentando em vão amenizar a agonia de perder alguém que estava em sua frente, pegando outro.
Ele ainda estava beijando o outro cara. Mas Jungkook sabia que ele não pertencia mais a ele. Vai ver nunca tenha pertencido.
Um par de olhos escuros o observava de longe, no corredor dos vestiários.
Taehyung o observava chorar e espernear e soluçar forte, tão dolorosamente que fazia seu próprio coração doer e seus olhos marejarem. Mas ele não iria intervir, ele não iria confortá-lo e não iria ajuda-lo.
Jungkook precisava sofrer a dor de cair embaixo do pedestal em que ele próprio colocara Ryan. Jungkook precisava sofrer a dor de carregar a coroa de ouro que colocara na cabeça de Ryan. Jungkook precisava sofrer a dor de perder Rayn novamente – sofrer integralmente, sofrer até cansar e desfalecer em exaustão, apenas para sofrer de novo.
Só assim ele se libertaria das correntes de um relacionamento abusivo cultivado por Ryan e si próprio.
E Taehyung estava gostando de vê-lo daquele jeito – de certa forma aliviava o seu coração em saber que Jungkook se encontrava quase na mesma situação em que ele se encontrara na noite do jogo.
A dor era necessária.
Satisfeito, Kim deu as costas para Jungkook e saiu pelo corredor a fora, de volta para seu dormitório.
Ele iria ficar bem.
Jungkook encostou a testa no chão de concreto, as lágrimas caindo como tempestades do céu dos seus olhos. Suas mãos tremiam e suas pernas reclamavam do fardo que era segurar seu pequeno corpo sentado.
Ele não aguentava a dor.
Ryan era tudo pra ele e mais uma vez ele havia escapado por seus dedos e ido embora.
Olhando para cima sem realmente enxergar nada, Jungkook percebeu que Ryan não estava mais com o outro cara e um borrão de cores se aproximava dele lentamente.
Ryan estava vindo. Ryan estava vindo em sua direção.
Com o coração tão acelerado que doía no peito, Jungkook se forçou para cima, cambaleando até a parede mais próxima, apenas para ouvir seu nome ser gritado pela voz de Ryan. Adrenalina correu por suas veias e mesmo sem ver um palmo a sua frente com clareza, pôs se a correr.
Seus pés tropeçavam e seus braços se balançavam sem controle ao lado do corpo fraco e trêmulo. Batendo contra a parede várias vezes, ele se sentiu tonto pela velocidade com que tentava fugir.
Braços tomaram sua cintura e o pressionaram contra a parede tão forte que tomou seu ar. Quando ergueu seus olhos, não viu com clareza, mas mesmo pelas nuvens causadas pelo choro contínuo, pôde perceber o rosto irritado de Ryan.
- Aonde pensa que vai, bebê?
Não era a voz carinhosa e suave que conhecia. Não era a voz de Ryan.
Jungkook engoliu em seco e apenas chorou, cada vez mais alto. Se não fosse pelas mãos firmes de Ryan, ele estaria se arrastando pelo chão agora.
- Me responde, porra.
Batendo o ombro de Jungkook dolorosamente contra a parede, Ryan gritou. O menor guinchou com sofrimento conforme fechava os olhos, se recusando a encarar o cara que fazia seu peito arder, ora de amor ora de dor.
Ele não conseguia respirar direito, quem dirá falar. Ryan se irritava a cada instante e não demorou muito para Jungkook sentir um tapa ardido e estalado em seu rosto. Bile inundou sua boca e tonto, deixou sua cabeça pender para frente.
Levou uma joelhada no nariz, sua cabeça batendo com força na parede e voltando a cair segundos depois.
- Eu falei pra me responder, desgraçado.
Jungkook não via mais nada, não sentia mais nada e não conseguia falar mais nada. A dor o inundou com tanta intensidade que mal era sentida, não passando de uma dormência atordoante em todo seu corpo, partindo de seu nariz e nuca.
Sangue escorria, ele sentia, quente e espesso.
Talvez tenham sido três ou quatro, até mesmo cinco, mas quando caiu no chão após socos fortes e certeiros, viu os pés de Ryan se afastarem, logo após cuspir em suas costas.
Ryan havia traído ele.
Ryan havia traído ele de novo.
Ryan havia espancado ele.
Ryan havia cuspido nele.
Ryan havia deixado ele.
Ryan havia deixado ele de novo.
Ryan havia quebrado o coração dele.
Ryan havia quebrado o coração dele de novo.
Jungkook não soube como conseguiu se arrastar até seu dormitório, mas quando o fez, desmoronou. Desmoronou tão feio que não se reconhecia mais.
Jeon Jungkook havia morrido ali mesmo.
Chorando, gritando e sangrando.
Cada pedaço de felicidade havia sido destruído.
Cada pedaço de integridade havia sido queimado.
Cada pedaço de dignidade havia sido descartado.
Cada pedaço de sanidade havia sido esvaído.
Cada pedaço de vida havia sido esgotado.
Jeon Jungkook não passava de um corpo sem alma, sem coração e sem forças.
Ele era apenas uma pilha de decepções, dores e falsas esperanças.
Ele não se achava digno nem mesmo da morte.
E após desmaiar repetidamente por falta de comida, água, forças, lágrimas, sangue e esperanças, ele finalmente caiu em sono profundo.
Mas quando acordou horas depois, ainda era o mesmo. O mesmo Jeon Jungkook destruído.
Ele iria continuar dormindo e acordando até que, com sorte, não acorde mais – era seu plano de vida a partir de agora.
:)
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top