1. Cast Away
"Quem sabe o que a maré pode trazer?"
Filme: Náufrago
Ano: 2000
Gênero: Drama/Romance
Bolo era com certeza a minha sobremesa favorita, especialmente se tivesse chocolate e coco. Minha avó fazia o melhor bolo de cobertura de chocolate e recheio de beijinho e eu sempre me fartava quando ia a casa dela.
O fato é que eu tinha acabado de ganhar um bolo e beijinho era tudo o que eu não iria ter. Daniel furou comigo. Mais um cara que desistiu de mim e não achou que eu merecesse nem mesmo alguma satisfação já que nem uma desculpa ele inventou. Não me ligou. Não me deu nenhuma satisfação.
Já fazia uma hora e meia que eu esperava por ele na praça de alimentação e até agora nada. A gente perdeu a seção que havíamos combinado de pegar e eu nem sabia dizer como estava me sentindo. Chega uma hora que você apanha tanto que não dói mais.
Essa era a quinta vez. Quinta! Foi um total de cinco encontros que falharam totalmente porque meus pretendentes simplesmente não haviam comparecido. Você é uma chacota, Louis Tomlinson, por ainda insistir em sair com essas pessoas que nem se importam com você. É desesperador quando você só tem 20 anos e uma lista de encontros maus sucedidos, ou melhor, uma lista de encontros que nem vieram a acontecer, uma vez que, todos os meus futuros pretendentes furaram.
Cada vez que algo assim acontecia, eu me sentia como um carro desgovernado que não conseguia desacelerar e que saia se chocando com tudo que estivesse pela frente e quanto mais eu tentava frear meus sentimentos de insuficiência, mais parecia que a Cinemática não funcionava para mim1.
Eu não sei bem o que leva as pessoas a quererem tanto um relacionamento ou a achar que todo mundo deve estar em um, às vezes, me parece que é isso o que todos procuramos e que é inaceitável alguém não querer um namoro, casamento, filhos e um cachorro. Não sei se é algo biológico ou social; se é porque crescemos escutando histórias de amor aprendendo a valorizá-las ou se é porque faz parte da natureza humana. Mas parece que sempre queremos viver uma história de amor, mesmo que ainda não tenhamos nem alguém para compartilhar esse sentimento conosco de uma forma romântica.
É nessas horas que eu adquiro mais certeza a respeito da pressão sobre os seres humanos e a imposição da necessidade de namorar. Eu, por exemplo, já estou beirando o ridículo insistindo em sair com pessoas pelas quais eu não sinto nada só para aventurar um relacionamento no futuro quando eu nem sei se é exatamente isso que eu quero. Por que desejar tanto um relacionamento se eu nem gosto de alguém o suficiente para querer compartilhar isso? Nós não deveríamos namorar por ter alguém que a gente goste e não porque mudar o status de relacionamento parece legal e por querer clichês que passam tão longe da realidade e que a gente finge que não sabe disso?
Sorrio com amargura ao lembrar que Calvin adoeceu, Niall precisou viajar, Stan nunca me deu satisfação e Luke estava ocupado com a namorada cuja existência ele omitiu quando combinou de ir ao circo comigo. O único que compareceu foi Liam, mas ele achou que meu melhor amigo fosse mais interessante que eu, eles passaram a noite inteira se pegando em um canto do pub enquanto eu enchia a cara e fingia que gostava daquele ambiente. Hoje, Liam e Zayn devem estar fazendo sexo em Paris.
E não, eu não fiquei com muita raiva deles porque entendo que não se escolhe por quem se apaixonar/ sentir tesão e porque Liam era muito fofo para alguém conseguir sentir raiva.
Batuco meus dedos na mesa, olhos para os lados, nem sinal de Daniel. Levanto da mesa pensando em ir para casa e brincar com as gêmeas para esquecer esses acontecimentos; elas, ao menos, sempre querem minha companhia.
Caminho em direção à saída prometendo para mim mesmo que é a minha última tentativa, não vou mais me desesperar para ficar com alguém, não vou mais deixar que encham minha cabeça cabeça e me façam achar que tem algo de errado comigo por ter 20 anos e nunca ter tido um compromisso com ninguém. Chega de forçar, chega de planejar. As coisas acontecerão quando tudo tiver que acontecer, enquanto isso eu vou aproveitar meus amigos, minha família e as bocas que eu vou beijar aleatoriamente sem esperar uma ligação no outro dia.
Antes de sair da praça de alimentação, penso que quando chegar em casa eu não vou ter absolutamente nada para fazer, adiantei todas as minhas tarefas para ficar com o sábado livre e não quero ter que ficar deitado na cama de cara para cima. Logo, decido que já que estou aqui não custa nada assistir o filme. E foi por isso que eu fui até a bilheteria, comprei um ingresso e um ticket para a pipoca e o refrigerante.
Quando cheguei próximo ao balcão, a primeira coisa que eu percebi foi o garoto de olhos verdes vestido com o uniforme com o nome do cinema e colocando pipocas em sacos imensos. Eu nunca tinha visto ele por ali e eu ia ao cinema muitas vezes.
Por não ter nada mais interessante para olhar, fixo meus olhos nos movimentos do menino e em pouco tempo já não sou capaz de desviar o olhar. Ele talvez fosse a pessoa mais bonita que eu já vi, tinha a pele branquinha, olhos muito verdes e uma boca rosada com lábios gordinhos. Ele era alto, sorria muito e se eu acreditasse em amor a primeira vista com certeza estaria apaixonado.
Decadente, Louis, decadente. Tamanho desespero deveria me envergonhar, especialmente depois das minhas reflexões de minutos atrás...
Meus pensamentos foram interrompidos pelo som estridente do meu telefone, eu precisava urgentemente mudar de toque ou continuaria a ser envergonhado por ele. Vi o nome de Charlotte no visor e atendi revirando os olhos. Por que ela não me deixa em paz?
— O que você quer, Lottie? — perguntei sem paciência enquanto me movia junto com as pessoas da fila, esta se tornava cada vez menor.
— Que mau humor, Louis, nem parece que saiu para beijar. O beijo dele era ruim? Você está frustrado? Minha nossa, não me diga que eu interrompi e deixei você puto. — Charlotte dispara falando tão alto que eu não duvido que as pessoas a minha volta pudessem ouvir, mesmo que a opção alto falante não tivesse ativada.
Eu e minha irmã temos personalidades claramente diferentes. Lottie fala pelos cotovelos e em uma velocidade e volume impressionantes. Já eu passo muito tempo calado e falo baixinho a maior parte do tempo.
— Não, Charlotte, você não interrompeu nada porque Daniel simplesmente não veio. — não consegui disfarçar a decepção em minha voz.
— Poxa, Lou. Que chato! Onde você está agora? — ela pergunta e eu noto a preocupação em sua voz o que faz com que eu me sinta pior.
—Estou na fila da pipoca, resolvi ver o filme sozinho.
— Você não quer que eu vá aí?
— Não precisa. O filme vai começar daqui a pouco, não daria tempo você chegar. — falo vendo que chegou a minha vez.
Escuto pelo telefone alguém gritar o nome da minha irmã.
— Que pena! Lou, a mamãe está me chamando, eu vou desligar. Quando você chegar nós conversamos.
Antes que eu respondesse, Lottie desligou.
Guardei o celular no bolso e levantei a cabeça dando de cara com o garoto bonito olhando para mim e sorrindo. Há quanto tempo ele estava tão perto?
— Uma pipoca grande e um refrigerante de limão. — pedi enquanto lhe entregava o papel em minhas mãos.
O menino olhou para mim e sorriu, seus dentinhos de coelho e os olhos brilhando, exalava simpatia por todos os poros.
— Que filme você vai ver? — ele perguntou cheio de carisma, enquanto pegava o que eu pedi.
— Náufrago. — respondi baixinho já sentindo minhas mãos suarem. Maldita timidez!
— Oh! É um bom filme, é um pouco triste quando ele volta à civilização e a noiva dele já tinha seguido a vida e estava casada com outro, digo por que eu adoro romance e meu coração realmente ficou partido, deve ser bem ruim esperar por alguém e essa pessoa não fazer o mesmo e... — O menino divagava segurando minhas pipocas e minha latinha de refrigerante, sua língua parecia descontrolada e seu cérebro não aparentava ter nenhum filtro. Ele falava pelos cotovelos e em um minuto de monólogo me contou o filme inteiro.
Olhei para ele e não senti aquilo que a gente sente quando vê alguém extremamente bonito, aquela vergonha por se sentir uma aberração perto da pessoa, não fiquei nervoso ou sequer gaguejei... Eu só tive uma vontade: enfiar aquele monte de pipoca na boca dele, vê aquele inconveniente ficar parecendo um esquilo com noz nas bochechas e fazê-lo parar de falar.
— Você pode fazer o favor de calar a boca? — me exasperei.
Se tinha algo que eu odiava, essa coisa era spoiler.
—Nossa, que mau humor! O que eu fiz? — perguntou com cara de indignado piscando os olhinhos para mim como se fosse a pessoa mais inocente e injustiçada do mundo.
— Você está me dando spoiler! O filme vai perder a graça e a culpa é toda sua. — falei o óbvio ficando mais irritado do que já estava.
Bati meus pés no chão para mostrar minha revolta e devo ter ficado igual a uma criança mimada, dado aos dez centímetros que tínhamos de diferença e aos bíceps grandes que pareciam se apertar na camisa polo azul que ele vestia em comparação aos meus braços magros dentro da regata. Devo parecer um Pinscher zero latindo para um Pitbull. Não ligo.
Retiro tudo o que eu pensei sobre ele ser lindo. Ele não é lindo, ele é mau.
— Oh, babe, veja pelo lado bom: você não corre o risco de se decepcionar. — ele disse e eu tenho certeza que falava do filme. Mas nada me impediu de pensar que isso poderia não só se referir ao filme que eu iria assistir dali a alguns minutos.
Peguei minha pipoca e meu refrigerante e segui para sala de cinema sem dizer mais nada, enquanto deixava o garoto de olhos verdes com um sorriso querendo escapar dos seus lábios bonitos.
1: Cinemática é o ramo da que se ocupa da descrição dos dos corpos, sem se preocupar com a análise de suas causas
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