Carne Para Mim
Três homens abriram espaço entre o pequeno grupo de pessoas e se puseram a frente do veículo. Um deles tentou abrir uma das portas amassadas mas não obteve sucesso.
— Vamos — Disse Ester dando as costas para a cena. Ela sabia que se houvesse alguém dentro do veículo certamente estaria muito ferido e não queria que seu filho visse aquilo.
— Mamãe, por que o carro bateu no outro?
— Não se preocupe com isso. O que acha de me ajudar a fazer alguns ovos mexidos ?
— Eu gosto de ovos mexidos.
— Eu sei que gosta.
Ester ouviu um grito vindo de onde ela estava. Ela se virou e viu que as pessoas estavam agitadas, algumas se afastaram, abrindo visão para que ela visse o que estava acontecendo. A porta do veículo agora estava aberta e o homem que gritou estava bem a frente dela. Tentando se soltar de algo.
— Me ajudem caralho, eles estão me segurando, essas pessoas estão loucas — disse ele em voz alta. Os demais foram ajudar o homem e Ester voltou a andar, mas dessa vez com mais pressa.
— Mamãe, espera — Jonathan soltou sua mão e voltou até o chinelo que havia saido de seu pé.
Tempo suficiente para Ester voltar sua visão para o grupo de pessoas, elas puxavam alguém de dentro do veiculo, uma senhora talvez, ou uma mulher jovem, não dava para distinguir daquela distância.
Ela e o filho voltaram a caminhar, apressados. Ester estava fugindo de algo que nem mesmo ela sabia explicar. Sabia que alguma coisa ruim estava acontecendo, só não sabia o que.
Quando chegou em casa a primeira coisa que fez foi trancar a porta.
— O que houve? — perguntou Rodolfo indo ao seu encontro.
— Eu não sei, mas tem alguma coisa muito ruim acontecendo lá fora.
— Algo ruim? Como assim?
— Já disse que não sei. Eu estava na padaria e um mendigo apareceu dizendo que haviam pessoas loucas se matando. Então eu vim embora o mais rápido possível.
— Acreditou em um mendigo?
— Não é só isso — ela andou até o sofá e se sentou.
— O que mais então?
— A Adriana me disse que ouviu boatos de que as pessoas estavam ficando loucas. E também teve um acidente muito estranho perto da padaria.
— Mereço. Então não trouxe nada?
— Não. Achei melhor vir embora o mais rápido possível.
— Eu vou lá. Me de o dinheiro.
— Não. Você não vai.
— Vamos ficar com fome só por que você fantasiou uma paranóia estranha baseada em boatos e mendigos?
— Você não entende. São coincidências demais Rodolfo. Não vou permitir que saía daqui. Podemos preparar alguma outra coisa para comer e mais tarde quando tudo for resolvido eu volto até a padaria e trago algo.
— Não tem nada para ser resolvido Ester, preste atenção nas coisas que você esta falando. O que acha que esta acontecendo? Acha mesmo que as pessoas estão se matando só por que o mendigo falou?
— Não sei e não vou pagar para ver.
— Mereço.
O bebê começou a chorar.
— Acordou. Vou ir pegar ele e você nem pense em sair por essa porta.
— Pode deixar mãe, eu não vou — Respondeu Rodolfo enquanto sua esposa ia em direção ao corredor.
Jonathan andava pelo cômodo onde sua mãe costumava lavar as roupas. Por ali haviam alguns sextos vazios. Um varal e duas maquinas de lavar. O menino perseguia seu gato.
— Toby, Vem cá. Não fuja de mim.
Ele encurralou o felino no canto da parede e estendeu as mãos para pega-lo. Em resposta o animal arranhou uma das mãos de Jonathan e logo após isso saiu correndo por mais uma vez.
— Gato idiota — Jonathan ficou olhando o arranhão. Não era a primeira vez que o gato o arranhava — Mae! O Toby me arranhou de novo.
Ele saiu do local e começou a andar pela casa a procura da mãe. A encontrou em seu quarto segurando seu irmão.
— O que disse?
— O Toby — ele estendeu a mão — ele me arranhou outra vez.
— E o que você aprontou dessa vez?
— Nada, eu só estava tentando pegar ele.
— Aham sei. Da ultima vez que isso aconteceu você estava tentando amarrar o rabo do coitado na perna da cadeira.
— Como eu poderia saber que ele não gostava?
— Bom, agora você sabe — ela riu.
— Não ria.
Ester em resposta mostrou a lingua. Irritando seu filho que saiu do quarto com apenas um pensamento em mente: vingança.
Jonathan foi até a cozinha e pegou um rolo de madeira dentro de uma das gavetas. Em seguida saiu do local a procura de seu alvo.
— Toby, você quer leite? — perguntou, olhando para todos os cantos possíveis. Quando passou pela sala chamou a atenção de seu pai.
— O que esta fazendo com esse rolo?
— Vou dar uma lição no Toby papai. Ele me arranhou de novo.
— Não vai não — Rodolfo foi até o filho, rindo. Aquela situação era engraçada — você não pode bater no seu gato com isso. Ele vai morrer.
— Não vai não.
— Claro que vai filho. Os nossos gatos não são como os dos desenhos animados. Eles não possuem sete vidas e se você bater nele com isso não vai ter mais gato para brincar.
Jonathan abaixou a cabeça, parecendo estar triste e em seguida a ergueu novamente.
— Bom, posso superar a perda — disse, dando as costas para o pai — Toby, Toby.
— Nada disso seu pirralho espertinho — Rodolfo puxou o filho pela blusa.
— Vai ser só uma paulada papai. Nem vai doer.
— Isso por que não é em você. Oras, perdoe o bichano.
— Ele me arranhou sem nenhum motivo — após falar isso Jonathan ficou em silencio, de costas para o pai, ele largou o rolo de madeira e em seguida caiu desmaiado no chão.
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