Carne Para Mim


Ester

Ester perambulava por uma rua deserta, sem rumo e sem nenhuma esperança aparente. Seus olhos estavam inchados de tanto chorar pelas perdas recentes. Os últimos instantes de sua vida haviam sido os piores possíveis, recordava-se da sensação de segurar seu filho antes daquelas coisas o tomarem a força de seus braços.

Um dia após a tragédia de Englewood


Rodolfo estava sentado no sofá, apertando todos os botões do controle da TV a procura de algum canal que não estivesse fora do ar.
- Conseguiu? - perguntou Ester chegando no local.
- Não
- Depois volta ao normal. Deve ter sido algum problema com a rede.
- A gente paga caro por esses canais, não vou admitir que esse povo me forneça um serviço tão porco.
- Não seja dramático. Essa é a primeira vez que isso acontece.
- A internet também não esta funcionando.
- Será que é só aqui? Ou também aconteceu pela vizinhança?
- Ainda não sei, estou aqui desde que acordei, tentando fazer essa merda funcionar.

- Vou ir até a padaria comprar algo para tomar café. As crianças ainda estão dormindo mas peço que fique de olho nelas.

- Mamãe - Jonathan, o filho mais velho do casal surgiu vindo do corredor onde ficavam os quartos. A criança bocejava e esfregava os olhos.
- Bom, pelo menos uma das crianças está dormindo - ela sorriu indo em direção ao filho - Oi meu amor - ela se abaixou e beijou a bochecha do menino.
- Você vai sair?
- Vou na padaria comprar algo para que possamos comer. O que você quer?
- Quero ir com você.
- Eu acho uma boa ideia - disse Rodolfo - ele vai saber escolher melhor que você. Da última vez você trouxe um bolo muito ruim.
- Verdade - confirmou Jonathan.
- Então é isso? Os dois se uniram para falar mal de mim?
- De você não, daquele bolo.
- Eu cresci comendo daquele bolo, como poderia saber que vocês não iriam gostar.
- Cresceu comendo aquilo? Imagino como deve ter sido uma infância difícil - Rodolfo riu.
- Ter um marido comediante é tão bom.
- Eu imagino.

Ester arrumou o cabelo e saiu para fora de casa, segurando a mão de Jonathan. O dia ainda estava no inicio e quase não havia movimentação na rua.

- Tem certeza que quer ir? Ainda dá tempo de você voltar para dentro.
- Quero ir.
- Então vamos.
- Ester! - uma voz familiar chamou seu nome. Era Adriana, sua vizinha.

Ester se virou e cumprimentou a mulher.

- Bom dia Adriana.
- Será que vai ser bom?
- Por que diz isso?
- Ficou sabendo do que aconteceu na cidade vizinha?
- Não. O que?
- Meu Deus. Você não assiste jornal não é?
- Já faz algum tempo que não vejo. E você sabe, Rodolfo é viciado em series e filmes.
- Um avião colidiu contra um prédio.
- Nossa.
- E essa nem é a pior parte.
- E qual é?
- Há boatos de que após isso as pessoas da cidade começaram a ficar loucas e deformadas. Atacando umas as outras.
- E de onde vieram esses boatos.
- Vi na internet ontem a noite, antes dela cair.
- Então também está sem internet. Estranho. Mas não saia acreditando em tudo que vê. Essa gente invente muita coisa para chamar a atenção.
- Mamãe, vamos logo.

- Oi pra você também Jonathan - Disso Adriana, fazendo careta para o menino, em seguida ela voltou o olhar para Ester - como esta o bebê?
- Esta bem, dormindo como sempre. Nessa idade é só o que fazem.
- Sinto falta da época em que os meus eram pequenos. Agora foram um para cada lado e mal os vejo.

Ester se despediu da amiga e seguiu seu trajeto até a padaria ao lado do filho. Pelo caminho viram algumas pessoas indo e vindo pela calçada. Umas andando normal e outras bem apressadas. O que era normal para um dia de semana.
Chegaram até a padaria e no local haviam algumas pessoas perambulando de um lado para o outro, enchendo sextos de pães, fazendo pagamentos na recepção e até mesmo conversando coisas aleatórias.

- Bom, o que acha que devemos levar? - perguntou Ester adentrando no estabelecimento.
- Torta.
- Torta é sobremesa e não refeição da manhã.
- Podemos comer depois do almoço.
- Vou pensar no seu caso.
- Sei que vai comprar.
- Ah é? E como sabe?
- Sempre compra o que eu peço.
- Isso porque te amo. Mas não pense que vou sempre te dar tudo.
- Vai sim. Eu sei.

Um mendigo apareceu desesperado na frente do estabelecimento, chamando a atenção de todos.

- Fujam para suas casas, as pessoas estão ficando loucas! Estão se matando! - foi apenas o que disse antes de sair correndo para longe da padaria.
- Bem loucas pelo visto - disse o homem mais próximo da saída, em um tom de ironia e os demais riram da situação.

Ester ficou olhando para a rua, lembrando-se do que Adriana havia dito e começou a juntar os fatos. Primeiro a TV havia saído do ar, em seguida a internet e agora o mendigo dizendo aquelas coisas que batiam com o que ela havia escutado de sua vizinha. Eram coincidências demais para serem ignoradas.

- Vamos Jonathan - ela começou a andar até a saída.
- Mas e a torta?
- Voltamos aqui depois. Mais tarde quem sabe.

Ela saiu para a calçada e nesse momento ouve um grande acidente da rua. Um carro vermelho havia batido de frente com uma caminhonete que estava parada.

- Mamãe - gritou Jonathan, agarrando as pernas de Ester que virou o rosto da criança para que ela não presenciasse mais nada. Não demorou muito para que as pessoas se reunissem em volta do acidente, como urubus sobre um animal morto. Varias delas tentaram pedir ajuda por telefone mas as redes estavam mudas.
- Tem alguém vivo lá dentro - Disse uma mulher notando movimentação dentro de um dos carros capotados.

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